segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Aurora estraçalhada

Pensei em escrever um poema,
sobre a minha infância.
Sobre a alegria luminosa daqueles dias insuspeitos,
de cores pulsantes,
sensações profundas,
e arames farpados com o ferugem da maldade
circundando meu afeto,
Sobre os jogos e as tramas de insetos travestidos.
Mas eu não sou mais uma criança...
Agora estou no front comum ao qual chamamos
"realidade",
com o fuzil da esperança espremido entre os dedos.
Não posso errar meu alvo
nem remendar os pedaços da aurora estraçalhada.

domingo, fevereiro 10, 2008

Prendendo o folego.

Um homem desconfia que está perdido
quando não treme com olhar da garota
de seios fartos e pele macia,
quando não sorri e suspira com o olhar
manso e intenso da infância,
e quando liga a Tv assim que acorda.
No fundo todos querem acreditar que estão ainda de pé;
agitando seus corpos,
gritando na madrugada,
lutando contra fantasmas,
ou sugando a saliva viscosa das sensações que morreram.
Veja só: eu estou mensurando as dimensões da batalha,
tentando conciliar flores e cancros
e correndo para o por do sol
onde iremos dar as mãos e sorrir.

sábado, fevereiro 02, 2008

sobre os dias.

Os dias têm sido quentes e abafados, e como não existem coisas importantes acontecendo, só resta ir vivendo um dia de cada vez, com certa apreensão em relação ao futuro, como não pode deixar de ser. Posso dizer que em geral tudo ultimamente tem tido gosto de sola de sapato. A magia e o encanto já aconteceram, mas são cada vez mais raros. Talvez isso não seja um fato em si, algo intrínseco a realidade, mas apenas uma esquisitice minha. Não há como ter certeza. A televisão é uma coisa absurda, estúpida mesmo. As poucas coisas relevantes que se vê nela são feitas lá fora. O realismo politicamente correto da mentalidade brasileira ainda persegue os fantasmas de suas contradições insuperáveis. As coisas cafonas cheias de chavões que é possível ver na televisão brasileira são somente reflexos das conversas que sou obrigado a escutar toda vez que estou no coletivo ou em um barzinho tentando tomar meu porre sossegado. Uma preocupação estúpida com a vida alheia, uma moralidade medieval com todas as taras e aberrações que o moralismo provoca. Outro dia no ônibus a caminho do trabalho, inadvertidamente ouvi uma garota contando para amiga que ela tinha tatuado o nome do namorado na xoxota, enquanto a colega do lado se queixava do homem dela que já não fodê-la todo dia, como fazia antes. É verdade que essas coisas acontecem lá fora, então que se dane no final das contas cada u vive sua vida. Eu também sigo vivendo a minha, com toda falta de brilho que ela tem, mas tentando manter o estilo, e meus preconceitos também.
No trabalho a coisa não tem sido fácil. Para sobreviver eu tive que aprender a fazer dolorosas concessões, enfrentando um lado da vida que para mim é o mais seco e absurdo. Trabalhar em um call center, por exemplo, expondo-se a todas as tendências patológicas das pessoas. Toda loucura, solidão, abandono, carência e tirania jorrando através de um fone de ouvido. O prurido, irritação e vaidade deles infiltrando-se insidiosamente em seu ouvido e enterrando-se no cérebro como um arame farpado enferrujado. “Podia ser pior”, você pode estar pensando. Eu poderia estar carregando fardos fedorentos de farelo, coberto de sangue de boi em um açougue ou limpando latrinas transbordantes de merda. Já fiz isso tudo, e posso dizer que nesses trabalhos eu tinha pelo menos o último recurso da dignidade de um homem: ficar calado. Os outros rapazes e garotas também não gostam do que fazem. É difícil imaginar que alguém possa gostar disso. Mas eles têm pelo menos o atenuante de apreciar a auto-exposição afinal é o que faz o tempo todo. Expõem-se com suas opiniões apressadas, sobretudo, com sua exigência de atenção constante. A completa incapacidade de ficar calado. Mas no final não muda muita coisa, é sempre a mesma fome e carência de auto-respeito. Por outro lado também conheci algumas pessoas que não se misturavam com esse caldo e que nem por isso tinham mais brio. Era só um tipo de gente mesquinha que se levava muito a sério, que não tinha senso de humor. Tudo que diziam e faziam tinha que ser congruente com seus valores. Se estiverem em um papo descontraído e rolasse um baseado, diziam horrorizados: “não, eu não fumo”. E não era como se simplesmente não tivessem vontade de fumar aquele baseado, eles não “fumavam baseado”, era sua essência, sua lei. Isso os distinguia dos outros decaídos fumadores de maconha. Ainda que se dissessem liberais, pobres irmãos. Existem todos os tipos de devotos erguendo deuses de barro para do alto de suas cabeças sentirem-se superiores, estáveis e seguindo um caminho seguro. “Sinto muito” me disse uma senhora outro dia “mas só transo por amor”. “E se provarem que o amor não existe, que esse papo de amor é só propaganda de novela, você para de trepar?” Eu lhe perguntei. Não consegui a trepada é verdade, e ainda ganhei uma inimiga. Faz parte do jogo. Como já me acostumei com a maior parte das conseqüências do meu caminho torto, também já não me frustro muito com isso tudo. Gosto da minha vida e do que me tornei, e isso embora não pareça não está em contradição com tudo que disse. É que simplesmente não gosto de me gabar das minhas riquezas. Afinal é mais fácil ser compreendido a partir das desgraças. O que eu gosto e valorizo na minha vida eu guardo para mim. Tudo faz parte de um grande jogo e cada um está somente do lado de si mesmo. Algumas pessoas demoram a se tocar com relação a isso e acabam pisoteadas pelo movimento alheio ou sufocadas pela própria incapacidade de se movimentar sozinhas, encontro exemplos disso todos os dias. Gente que fala sozinha, que só anda em grupo, que são vazias como um copos virados. Brrr.... Sinto calafrio só de pensar. Mas são essas pessoas que compõem e média psicológica da humanidade, e é melhor saber conviver com isso, ou a vida pode se tornar bem amarga, e isso é uma coisa que ninguém com saúde quer, não é?

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

O sangue a as madrugadas.

Eu era um sujeito magro, com profundas olheiras lavando o piso brilhante de um imenso mercado. Aquele foi o único trabalho que eu consegui depois de dois anos de desemprego e junto comigo outros tantos fracassados formavam um imenso batalhão de fantasmas, munidos de rodos, vassouras e uniformes que se espalhavam pelos salões iluminados da loja de departamentos depois de seu fechamento. Assim que as portas desciam e o último abençoado cliente saía nós começávamos a molhar, esfregar, encerar e polir enquanto o resto da humanidade desse lado do hemisfério gozava do merecido repouso. O capataz (pobre atavismo) olhava atento cada movimento dos rapazes gritando de quando em quando como um treinador de futebol ensandecido.
Sempre levava comigo o Tão-Te-King na algibeira para ler e me conformar entre as refeições. Como ainda não tinha desenvolvido meu especial talento com a bebida eu anestesiava a consciência de uma maneira menos sincera e mais barata. Saboreava meu repasto afastado do barulho imenso de meus colegas de fracasso e me deitava entre os trajes elegantes da seção de moda feminina. Estirado sobre o chão frio que eu mesmo tinha lavado e polido eu abastecia o pensamento de vazio em loucos exercícios Zens budistas e Koans absurdos que me aliviavam da dor de existir sendo eu. Depois da meditação começava o segundo round e os banheiros femininos eram todos meus. Uma arena que fedia a merda e mijo onde eu lutava com imensos tapetes de borracha azul onde a lama se misturava a tufos de cabelo, esmalte e palitos de dente. Uma vez encontrei um feto ao desentupir uma privada que explodia em merda. Aquele pedaço de carne podre tinha saído de uma linda e cobiçada buceta, na época achei aquilo muito simbólico. Muitos livros poderiam ser escritos sobre o que se pode ler nas portas de banheiro feminino. A palavra puta era campeã de citações acompanhada de perto pela palavra piranha.
Terminava com os banheiros por volta das quatro da manhã e passava para a limpeza dos estacionamentos. Os imensos espaços escuros do concreto vazio eram bafejados por um vento frio que tinha um gosto de treva, não sei bem o que é um gosto de treva, mas o vento dos estacionamentos na madrugada estranha daquele mercado tinha esse gosto e enquanto eu varria os barulhos da noite que terminava dançavam com os ruídos do dia começando. O céu tingido do dourado das alvoradas, o pai de família respeitável recebendo o beijo apaixonado da esposa no portão e eu cheio de êxtases em meu peito metafísico recolhendo as vassouras, os sacos de lixo e o cansaço para o café barulhento no refeitório insano. As bocas se movendo em um ritmo contínuo, sempre falando do mesmo, uma república de zumbis. Depois eu tomava o banho e ia para casa. O que nesse caso não significava repouso. As tardes quentes da favela barulhenta e minha ex-mulher louca e sua pequenez de espírito. Na verdade hoje não guardo ressentimentos a seu respeito, mas me lembro que nessa época ela foi primorosamente cruel. Eu chegava em casa às sete horas da manhã e às dez horas era acordado pelo som da televisão e dos noticiários e das suas músicas horríveis. Aquela atmosfera abafada de queixa e lamúria. Aquele romantismo estúpido e pouco honesto. Acordava com a cabeça pesada e o corpo arrebentado e era obrigado a me levantar, lavar o rosto, comer qualquer coisa (quando tinha apetite) tomar um banho me vestir e ir pra rua. Ficar em casa significava briga na certa. Horas e horas cansativas de acusação e ciúme, afundar debatendo-se na lama de alguns anos de mentiras, rancores e lembranças de outras brigas. Apenas o laço da indigência de dinheiro e afeto apertando nós dois, e cada um tentando aliviar o aperto como podia. Após sair de casa eu ia para a estação de trem. Levava alguns livros, uma caneta e uma pequena agenda onde rabiscava alguns delírios. Viajava sempre de trem. Era rápido e barato, perigoso também. Locomovia-me de um extremo ao outro do subúrbio. Pensando nisso hoje eu acredito que fui um beat a minha maneira. Com os horizontes e o talento mais estreitos que os de Kerouaz, mas com os mesmos sentimentos acerca da maior parte das coisas. Às vezes ia bater com os ossos no sítio de um aposentado espírita que eu adorava atormentar e às vezes terminava a tarde fumando um baseado no estúdio de tatuagem de um cartunista de Paripe. Às vezes eu ia mais longe, e encontrava o "wild child" Mariano, várias cervejas e o retorno para mais uma noite de trabalho.
Um dia acordei mais quebrado que de costume, meus joelhos doíam tanto que eu não conseguia ficar em pé. Por isso naquele dia não saí de casa. Minha ex-mulher ligou o som como de costume e eu fiquei na sala tentando ler. É quase vergonhoso para um homem dizer isso, mas ela tinha um amante, e isso nem era o pior. Na verdade foi um lento processo de putrefação que ocorreu em minha vida, enquanto eu me perdia em delírios metafísicos, e perdia as noites lavando latrinas. Minha ex-mulher reunia-se nos barracos da vizinhança para fumar um baseado, tomar umas doses e certamente trepar. Nessa tarde enquanto eu tentava ler ela vomitava insultos e insinuações sobre a vida que eu levava. A mesquinhez de quem não era capaz de assumir os riscos e as culpas e ir em frente. É verdade que durante boa parte do tempo eu fui um caçador de borboletas mimetizado pelo "belo e o sublime". Querendo tocar as fibras do nirvana enquanto definhava e enlouquecia, mas isso era o meu lance, a minha aposta. Um lance tão alto que a maioria consideraria loucura simplesmente cogitar. E o choque foi inevitável. Nessa tarde, eu esmagado e triturado pelas traições de minha ex-esposa e ainda desnorteado pelo rompimento com as certezas religiosas que até então me tinham impulsionado, eu me envolvi diretamente na briga. Já não tinha as desculpas da fé, nem o muro da crença para me esconder e soltei o verbo. A discussão cresceu, aumentou como geralmente acontece entre duas pessoas feridas. Ela me ofendeu como sempre fazia e dessa vez eu reagi devolvendo o insulto. Saímos no tapa. Ela voou em meu pescoço e eu a empurrei. – Filho da puta, maldito filho da puta – Ela gritava, eu me esquivava de suas tapas e a empurrava quando ela chegava perto. Seria fácil colocá-la a nocaute. Muito fácil. Mas apesar da indignação não achava certo bater em uma mulher. Ela desistiu das tapas e recorreu a uma faca de cozinha. Eu me afastei enquanto ela avançava. A essa altura a vizinhança inteira já estava na porta de minha casa apreciando o espetáculo. Abri a porta da casa e sai para evitar uma tragédia. Ela veio atrás. Pensei em dar o fora, a deixar esfriar a cabeça e depois procurar meu rumo. Por outro lado aquilo não estava certo. Eu tinha que ter um pouco de dignidade. Ela veio para cima e eu esperei. Como o último homem diante da onda que varreria a terra eu esperei pelo golpe. Ela levantou a faca e eu me preparei para me defender. Foi quando surgindo do nada minha mãe, que morava perto, me segurou um dos braços me impedindo a defesa. Ergui o único braço livre e a faca atravessou o músculo do antebraço, evitando o golpe que era destinado ao meu pescoço. Ao ver meu sangue escorrendo enlouqueci e fui para cima. Os vizinhos me seguraram. Dei um safanão em um senhor de idade que segurava meu braço e empurrei minha mãe que tentava me segurar pela camisa. Minha mulher correu para dentro de casa e trancou a porta. Eu dava pontapés que faziam as paredes tremer e meu sangue tingiu de vermelho a rua esburacada. Fui perdendo as forças e meu irmão que acabara de chegar conseguiu me dominar. acho que foi bom não tê-la pêgo, se o tivesse feito estaria preso agora, e ela provavelmente morta.
Me levaram ao hospital. Foi dificil conseguir carona, todos achavam que eu tinha sido baleado pela policia. Meu irmão me aconselhou a registrar a queixa, mas eu não quis. Não valia a pena. Ainda trabalhei lavando o chão do mercado por bastante tempo, até ser promovido ao setor de açougue a essa altura eu já entendia bastante de facas e de sangue.