sexta-feira, dezembro 23, 2011

Menção a uma interrogação oceânica.

Talvez as coisas partidas
Possam refletir a ausência de nexo
Que persiste na essência do mundo.
Talvez seja esse o segredo:
ela traz no
Sorriso um pedaço de luz,
Um valentia que me assombra
Uma beleza que desafia
O infinito.
Exata, perene e confusa
Ela fere em seus gestos de
Fome,
Torrente de anseios projetados
No céu,
Plêiade onírica de afetos suaves
Que me recebem, me curam,
me afirmam.
Espírito dos oceanos intensos,
Guardas um segredo fascinante
Para minha alma de barqueiro ansioso.
Talvez eu naufrague nas ondas,
Pobre trama de recuo hesitante
Jogado de encontro ao feminino
Mistério.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Sonata noturna durante o assassinato de um cão.

A raiz da maldade não está nas ruas,
Não está na arma do criminoso
Não está na bomba do suicida
Não está nas manchetes do telejornais
Não está nos presídios.
A raiz da maldade não pode ser vista
Repousa silenciosa sob a superfície
E algumas vezes seus ramos
São lançados na luz de um dia
qualquer.
Nas famílias, nas casas, nos casamentos,
No amor, nas tristezas que cultivamos dia a pós dia
Pois nosso sofrimento possui um sabor
Tão sutil.
A escuridão prevalece em silêncio,
Camuflada por razões que nós temos
e sua natureza definitiva
É maldade.
Uma dona de casa, um pai, um amigo,
Uma paixão, uma ânsia, um incômodo,
Um propósito
Maldade
Maldade
Maldade
Está aqui
Está aí
e precisamos conviver desse jeito.
Talvez ela nem mesmo exista
De tão perene e espantosa
Tão sólida, densa e exata
que explode para dentro de si
e desaparece quando tento
tocá-la.
Perfil de lutos e estragos
Corda em que equilibro
Meu ser.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Na montanha.

Vou subir a montanha novamente
com as cinzas.
Lá encontro sempre um Deus sem lei
uma chama que incinera,
e uma dor brutal.
Nas montanhas lavo-me com fel,
recupero minhas armas
e retomo o trilho daqueles de alma
amarga.
Nas montanhas habitam meus troféus,
minhas medalhas conquistadas
em outras lutas contra o amor...
Nas montanhas deixo tumbas prontas,
cal, enxofre e navalhas.
Nas montanhas me refaço e me relembro
monto barricadas e sigo em frente.

‎1º valsa para um decapitado.



Um painel precisa ser pintado
De vermelho
Para que as suas flores possam
Repousar
Não é minha querida?

Por tudo isso sou culpado,
Por tudo aquilo que não sei,
Por tudo aquilo que não fiz
Por toda coisa estranha, por todo arranjo torto
Contraído,
por toda inadequação ao sonho
pela minha insistência em querer que tudo
seja leve.

Agora vais amar, reflorescer, vivificar...
Meu amor dilacerado irá se abrigar
Nas catacumbas e meu carinho órfão
Se embebedará de fel
Como uma mariposa que se incinera
Em luto
Como um decapitado que ainda canta
Sua canção.

Sobre vontades e precipícios.

Silêncio no oco do peito:
a vida não é exata.
As palavras não são doces,
os desejos não são sábios
as coisas são complexas
mas também podem ser
desculpas.
Quem sou eu para refutar os riscos,
para ocultar ardis, para travestir-me
em santo, para aquietar os mares,
para preencher uma vida e empurrar outras
razões do precipício?
A felicidade está ali: sem rodeios.
Forte como uma alvorada, linda como uma primavera intensa
como uma colina nua, como um beijo apaixonado
como uma despedida...
Como quero o que admiro, o que preciso
o que me atormenta,
mas torto e inexato não me cabe
intercessões
sentado eu leio os tratados
do acaso.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Presságio.

A música fúnebre
repercute em meus ouvidos...
O som do vento?
Há quem diga que a vida
não é senão uma grande
despedida.
Mas o que fazer se eu lancei
os meus navios no infinito
apesar dos muitos gritos
que eu trancava no porão?
Então o meu demônio estava certo,
estavam certos os veteranos
os marcados,
esses seres exilados
que recusam-se a amar.
Para aves canoras e libertas
o espaço do céu, a amplidão
para cínicos combatentes, o deserto
e o deserto meu amor...
ele sempre tem razão.

domingo, dezembro 11, 2011

Paixão existencial

Como definir meu Eu

Em sua estrutura não contextual

Em seu onírico desdobrar-se em fatos

Nos pensamentos que se sucedem

Sem ter fim.

Nas escolhas que se impuseram

Mas que fiz

Abertura imponderável para uma passagem

Cega

Cegueira opaca onde cintilam esferas

Escolhas cegas que me trouxeram

Até aqui.

Como definir meu EU

Essa trama de acasos submetidos aos consensos

Essas intuições silenciosas que apreendes por palavras

Essa paixão insana que me divide entre duas

Exigências

Essa pergunta louca que se responde a si mesma...

Como poderá essa escassez abrigar-te no amplexo?

Pois não admito um EU reduzido às circunstâncias

Exilado do sentido que espalhas com seus gestos

Perdido do amor que encontro nos seus lábios.

domingo, dezembro 04, 2011

Polegadas.

Aqui e atento
perdendo o tempo que é
pouco
por incapacidade de administrar
o bom senso.
Aqui e agora,
mais velho, mais tolo
mais cansado
alguma sobrevida encontrada
algumas alegrias fabricadas
nenhum brilho mágico
exceto o do jardim.
38, e tanta luta, tanta fome
jogado de um lado ao outro
sem muita alternativa
exceto essa chama louca
que insiste em ficar viva.
Muitos livros para ler, pensamentos
a considerar,
e amores a perder
(No amor nunca vi ninguém
ganhar.)
Aqui, ainda na trincheira,
mensurando dimensões em polegadas
esperando pela condenação do julgamento
ou pela assimilação do nada.

domingo, novembro 27, 2011

(...)

Aquele silêncio velho inveterado
será seu legado
aquela canção suave e emudecida
será sua vida.
serão os dias e noites de seu campo
de trigo.
será a mulher dos seus sonhos e o
abraço do amigo.

será a dor de existir e a felicidade
encantada
será o pé e o rumo que te leva na
estrada.


Aquela chama de dor que te queima
no peito
será o luar na tua noite e o sol do seu
rumo,
o desespero em seus gestos serão as suas
asas.
para voares invisível muito acima das
casas.
Sem escolha ou livre teus passos serão
uma luta inútil contra a solidão.

domingo, outubro 30, 2011

Perfeição

Algumas palavras, alguns versos tortos.
A tarde se arrasta sob o asfalto e os sons
das famílias batem nas suas janelas
como aves estraçalhadas pela luz dessas coisas
que não podes dar jeito.
O amor não é um convite
a paz não é uma opção
enquanto acumulam-se as garrafas vazias
os livros por ler,
as objeções ao destino
e os beijos não dados
os versos se reproduzem infestando
as páginas em branco
até então tão perfeitas

quarta-feira, outubro 26, 2011

Sem controle.

Não temos controle. A vida segue um fluxo cuja causalidade complexa nos escapa e nossos planos são apenas desculpas honrosas que servem apenas para salvaguardar nosso auto-respeito. Claro, algumas coisas pequenas podem ser controladas. Pode-se evitar, como razoável segurança, certos males como a gripe, a caspa e doenças venéreas. Contudo nas questões essenciais, nas questões que envolvem a certeza acerca do resultado de muitos de nossos mais nobres esforços estamos todos na sombra, tateando e repetindo para nós mesmos que temos certezas. Podemos admitir tudo isso sem muita dor quando o que está em questão são coisas ínfimas e secundárias, mas quando o destino nos obriga a reconhecer que aqueles motivos que constituem o cerne de nossos propósitos, a razão causal de nossos sacrifícios, o mundo se desagrega em um caos. É assim que me encontro agora, mais uma vez ameaçado da privação da pouca sublimidade que preservei ao cinismo. A pior das suspeitas é a de que o deserto não acaba onde nossa vista alcança.

terça-feira, outubro 18, 2011

Eu & você

Se seu coração fosse uma sede de vida
meu coração seria uma pedra de sal,
um buraco negro que mastiga a si mesmo
enquanto devora toda a luz sideral.

Se seu sonho fosse uma lei coerente
meu amor seria uma perversão terminal
uma violência de noite de núpcias
que se alimenta da perversão conjugal.

Se você fosse, do outro lado do medo,
uma certeza, uma palavra, um tratado,
eu seria a mudez sem segredo
de um violento animal descarnado

sábado, outubro 01, 2011

Falta de imaginação.

As coisas em geral deixaram tão pouco em mim para ser amado que me surpreendem os esforços de outras pessoas para esperar algo mais que cansaço destes meus dias no mundo. Todos eles vão achar que é exagero, mas as provas estão espalhadas por toda parte. É verdade também que tenho as costas bem revestidas e uma resistência quase espartana ao flagelo, isso me trouxe até onde estou; mas não serviu para reflorestar o deserto. Em geral não tenho muita imaginação, nem fantasias, sonhos ou utopias, assim como um velho beduíno atravessando um jardim de cactos e escorpiões meus pensamentos desconfiam uns dos outros e de modo nenhum conseguem cooperar para produzir, mundos, pessoas, aventuras e ilusão. A desconfiança, a dúvida, a perene e judia sensação de que um Golon mesquinho me espera por detrás dos arbustos me veda o acesso à inspiração, ao bom humor...ao agrado das multidões. Mas ainda assim algumas almas esperam algo de mim, e eu não consigo entender esse gesto, sem o qual no entanto não sobreviveria; e no entanto não posso corresponder a esse movimento por total cansaço e falta de imaginação. Um sobrevivente de si mesmo tem dificuldade em viver com aqueles que nunca morreram para suas próprias almas. As vezes me perguntam sobre o suicídio. Respondo que acho uma idéia imbecil: o mundo não é assim tão interessante a ponto de me levar ao suicídio como medida de retaliação. Se as pessoas se matam, eu penso, é porque esperam que suas mortes provoquem alguma comoção nos que ficam. Não tenho imaginação o bastante para imaginar que minha morte possa alterar algo na ordem das coisas. Seria como a queda de um copo, o cancelamento de um vôo, um verão sem sol; depois de passadas as poucas e obrigatórias manifestações de luto tudo seguiria normal e cegamente como sempre foi. Meu ego é apenas o ponto de tensão para o qual convergem meus conflitos e isso não diz respeito a nada nem a ninguém: é apenas uma fatalidade.

No entanto não invejo as pessoas presas e arrastadas nas teias da busca de relevo, admiração e aplauso. Me parece uma vida tormentosa. As famílias são armadilhas terríveis das quais dificilmente escapamos ilesos. A falta de alguma coisa desse tipo não deixa de ter o seu mérito, ou não; mas prefiro ficar a distância, isolado, sustentando apenas a relações inevitáveis que o acaso me legou por capricho. Algumas são brilhantes e infinitas que me acalentam em meio a bruma e a cinza, algumas são oscilações confusas que ora me fazem acreditar que se pode viver como eu vivo e ora exigem de mim uma mutação impossível; outras são apenas caos, confusão e loucura. Uma Geena de faces horrendas com palavras desconexas, espasmos críticos e violência involuntária. Mas eu já sobrevivi a estes e muitos outros horrores, eu ainda tenho algumas cartas na manga, e talvez ainda consiga reverter o ritmo que as coisas tomaram antes que todos desistam disso que o mundo deixou do que eu era.

sábado, setembro 10, 2011

Preço.

Era uma baita mulher! Maravilhosa em quase todos os sentidos. Curvas incríveis, olhos que faiscavam vida, curiosidade e senso de humor e seios...que seios! Invejei o sujeito. Sim, coisa vil, cobicei a mulher do próximo enquanto o próximo ainda estava próximo. Mas isso não durou. Nos sentamos na mesa e ela reclamou da lentidão dele, da distração dele e de muitas outras coisas que me pareciam perfeitamente naturais em um macho sadio. A inveja transformou-se em compaixão. De fato ela era algo raro e lindo, mas o preço a ser pago era muito alto para quem ama mais a própria pele.
Isso. O amor não é importante, mais importante é se conservar inteiro. O amor foi algo que a sociedade inventou para fazer com que as pessoas ficassem atadas umas as outras como xipófagas canibais. No início ainda tentamos racionalizá-lo, libertá-lo dos tiques e posses que o tornam tão louco; mas é impossível. As pessoas são criadas em meio a miséria de famílias que não sabem nada de ensinar a fé em si mesmo e responsáveis por tantas outras mutilações noticiadas pelos jornais a cada momento. Além disso é preciso pagar nossas contas, lidar com a possibilidade da morte e revolver dilemas dos quais as palavras não podem dar a mais breve noção. O amor, se vier, deve não interferir em nada disso. Mas muita gente não sabe. A única felicidade que eles experimentaram na vida foi derivada da participação homogênea em alguma família maluca. Eles querem ter novamente aquela sensação de diluição do si mesmo no outro e por isso perdem todas perspectiva e senso de auto-preservação. A solidão não é o inferno. A masturbação sábado a noite não é o inferno. O inferno é a guerra diária, a castração solidária que implica a cobrança recíproca e o ciúme coletor de impostos a serviço da alma honesta. O inferno é a velhice cercada das lembranças de ingratidão centenária, o inferno é uma luta da qual ninguém tem coragem de sair fora por medo da vida que nunca soube ver frente a frente. E a vida é isso: Salvar a própria pele. O inferno é aquilo: cultivar o tirano com beijos.

terça-feira, agosto 16, 2011

Perdas e danos.

Minha vida é uma coisa que não tem nada de muito especial. Nem eu, por conseguinte. Apenas alguns padrões estranhos, algumas carências surdas, algumas solidões inusitadas e muito cansaço. Esse cansaço de muitos combates por causas abandonadas, esse combate que deixou tantos mortos e histórias sangrentas no subsolo do meu edifício. Vi alguns personagens estranhos em minha vida. Algumas pessoas meio tortas, meio toscas, fantasmas encarnados que se quebraram nas onda
O Neideval foi um deles. Um menino que vi crescer, uns sete anos mais jovem e que por entre as contradições da família se tornou surfista. A mãe e os irmãos cristãos, o pai um semi-tirano disfarçado que sempre me recebia com um sorriso falso, odioso e mal. Morando na favela, sem os recursos materiais necessários para a auto afirmação mas achando-se muito esperto Neideval viu no surf um outro eu. Eu para ele era o tosco, divagador, o comedor de livros que não comia ninguém. Com o Surf vieram as drogas, a loucura, o Rock. Não gostava de muita reflexão. Era avesso as nossas divagações platônicas. Ele achava que isso não era divertido. Neideval um dia enlouqueçeu, começou falando com sombras e terminou com o olho partido. Converteu-se à igreja evangélica como a mãe e os irmãos. Agora tomava remédio controlado. Não sei se o problema era biológico ou existencial, aos meus olhos ele nunca teve nada parecido com bom senso. Não tive mais notícia dele, mas sei que já não surfa.
Teve também o Ednaldo, um sujeito que gostava de ficar bêbado para externalizar seu sentimento de fracasso ao som do heavy metal. Andava junto com as pessoas que andava comigo e por isso faz parte dessa história. Uma coisa curiosa, assim como Neideval ele também não falava do próprio fracasso. Todos eles queriam parecer o que não eram, e a contradição era visível a olhos nus. Meninos fracos e sozinhos espremidos pela loucura familiar ou pelo abandono da família. Ednaldo também tornou-se crente numa certa altura da vida. Substituiu uma embriaguez por outra e continuou sustentando a mesma mentira a seu respeito. Um dia foi hospitalizado. Comeu alguma coisa infectada e um verme alojou-se no seu cérebro. Morreu pouco depois.
O Paulo foi um caso a parte. Muito protegido pela mãe, que por sinal me detestava por me considerar um vagabundo sem família (o que em certa medida era verdade) Paulo não namorava e a sua juventude resumia-se a estudar, jogar voley uma vez ou outra e colecionar revistas em quadrinhos. Um dia ele deixou de frequentar as quadras dos jogos de voley e enclausurou-se em casa e nos estudos. Pouco depois passou nos exames dos fuzileiros navais e desapareceu definitivamente. Noivou com uma garota, sem que ninguém soubesse de qualquer experiência afetiva anterior, noivado que durou alguns anos e terminou sem muitos motivos. Um dia soubemos que ele se tinha enamorado de um outro amigo nosso de velha data, o Rafael, e por esse amor inusitado deixou de falar a mãe dominadora e com os amigos de quem sempre escondeu as preferências.
Houveram outras vidas assim em minha vida. Dezenas delas. A Jucimeire, estrangulada pelo ex-namorado traficante que não aceitava separar-se de uma das poucas garotas brancas do bairro. O próprio Rafael, menino triste e inquieto que já fora meu aluno de arte marcial, que encantou-se com o romantismo marginal das drogas e que, ao que parece, encontrou no amor do Paulo uma forma de sustentar o vício. O Jorge, louco que contornava o meu quarteirão centenas de vezes no mesmo dia e que, segundo diziam, havia enlouquecido depois de atropelar uma família quando era motorista da coca-cola. Um dia acharam o corpo dele preso a uma hélice de navio na maré. Aparentemente os remanescentes da família assassinada o haviam amarrado a uma pedra e lançado ele na água.
Os assassinados pela polícia, as espancadas pelos caras bacanas, os homossexuais religiosos, os de boa família que se tornaram policiais psicóticos, as esposas loucas e assassinas...agora você entende porque não tenho motivos para me orgulhar do meu passado.

sexta-feira, julho 29, 2011

Seminário.

Faz muito tempo que usamos a palavra pequenina,

e eternidades que nós não sabemos

onde e quando torná-la um fato ou nossa sina

e entre a selva dos alheios nos perdemos


Entre a necessidade de seguir aquela rota

que orientou os bisavós, em seu receio

e o levantar de uma canção com nova nota

para repetir a confissão de um velho anseio.



Esse anseio pobre, feio, e ordinário

de possuir uma pessoa como se ostenta

um candelabro de bronze em um seminário


De padres que não acreditam e não tem fé

e esgotam as energias na contenda

contra a mesma coisa coisa que todo mundo quer.

No baile dos eunucos.

Um mundo de destroços espaçados,

é o que vejo sob o verniz dos risos

um jogo de lances encenados.

bisturis para cortes imprecisos.


Sob a vontade de certeza que está no rosto

nas marcas que o tempo firma na expressão

continentes perdidos em oceanos de desgosto

amanhã que nunca chega, triste valsa sem canção.


Repetida, imitada, exigente e amassada

entre as pressões dos pais e a luta armada

coisa estranha que nunca vai surpreender


Onírica aflição de um eunuco arrastado

os prazeres mutilados para permanecer atado

a vida que consiste em se deixar morrer.

quarta-feira, julho 27, 2011

Cinismos.

Se minha vida errada não se encaixa em sua sua canção
por ser tão afinada, cheia de planos, farta de amor
dá os teus ouvidos para meus versos, louca paixão
deixa por um segundo o seu castelo, vem ver a dor.


Essa dor amargurada, que cultivo dia a pós dia
intérprete da noite, alma antiga e meio cansada
como um naúfrago da estrada, que se afogou na calmaria
eu espero pelo açoite, que me reserva a alvorada


Essa alvorada em que irei compreender
A contradição que sempre abriguei no peito
Luta ilusória de quem não sabe perceber


Essa novidade, apocalipse de abismos
na compreensão finita que muita coisa não tem jeito
tornará amantes nossos dois cinismos.

sábado, julho 23, 2011

Alea Jacta Est.

O que ainda não foi dito sobre

A tristeza?

Que ela tem a face de anjo?

Que bebe da seiva do que poderia ser

Uma chance?

Esparramada pelas paredes se estende como

Um manto verde de limo

Onde leio a palavra:

Acabou.

Meus dedos cansados não correm

Velozes a traçar sobre o papel

Minha vida

Minha mente aturdida não acompanha

O raciocínio do sábio,

Meu coração orgulhoso não se acovarda

Diante do precipício.

O vinho me recebe, última dádiva

Para um condenado,

Última cartada para quem já nasceu

Sem futuro.

O que ainda não foi dito sobre a dor?

Que ela é uma foice sem brilho?

Que podemos abraçá-la e morrer?

Escoando pelos cantos de mim

A seiva do amor me abandona

Minha crença no mundo apodrece

Sinto vergonha de dar esmolas

E não espero mais nada de meus irmãos.

Um cachorro sem uma das patas é a lição

Que eu quero.

Um bebezinho mutilado é a resposta precisa

Para que possamos despir-nos da esperança,

Da meta e do propósito,

E simplesmete beber nosso vinho em silêncio

Enquanto tudo permanece cruel

E sem som

Assim seja.

sexta-feira, julho 22, 2011

Pintura.

Não corro atrás do amor,
mas deixo a porta aberta
pinto poesia e flor
sobre a tela da rua deserta.

Cadeira

Estou sentado numa sala cinza,
pressionado pela aflição
a vida passa do outro lado,
uma linda beleza triste
carregando Neruda à mão.

Sem amor, meta ou futuro,
estar no agora é sentar nessa cadeira
olhando a vida passar lá fora,
(com suas agonias e gozos)
tenho feito isso minha vida inteira.



segunda-feira, julho 18, 2011

Maturidade

Conhecer as delícias da paixão, escrever sobre elas. Sangrar pelo silêncio da pessoa que se deseja, ouvir músicas desesperadas e chorar. Beber amargurado pela ausência da luz que lhe é negada pela pessoa que se quer. Viver tudo isso de modo hipotético, e no final das contas, não estar apaixonado e esquecer de todas essas coisas. Eis o segredo que a maturidade nos ensina.

Uma resposta para a pergunta, "porque não gosto de futebol"

Não passo procuração de minha alegria. Que seja pouca, mas que seja baseada nos meus atos e não em vitórias de indivíduos que desconheço, cobertos por cores que não dizem nada e representando um símbolo por um salário bem maior que o meu.

minha versão sobre o amor

Ah.... as mulheres.

a doçura de suas mágoas,

a força temerosa de seu silêncio,

o medo terrível que eu sinto

perto de todas elas...

O brilho nos olhos quando amam,

o gesto de desprezo

quando não querem.

chuva fina sobre o oceano sozinho...

E ainda mais, sobretudo,

as mãos e os gestos.

A soberania de seus desejos

sobre minhas opniões.

Depois das batalhas,

a suavidade e a força

que se oculta para favorecer

a minha vaidade

infantil.

Sempre serei um menino por elas,

encenando

indiferênça e poder

aos seus olhos.

Lindas, todas são lindas

quando choram, aconselham

e esperam,

quando gozam, quando amam, quando são crueis.

Durante tanto tempo não as

compreendi,

durante tanto tempo não as

encontrei,

e hoje ainda me escapam.

Minha compreensão sobre elas

é trêmula e medrosa

como as mãos de um garotinho

que pela primeira vez deu um beijo.

domingo, julho 10, 2011

Mais uma de amor.

Um dia eu amei perdidamente,

Foi lindo, foi profundo

foi pior que a morte.

Tão breve e estúpido

Que ninguém se lembra

Vergonhoso e absurdo

como apanhar na escola.

Um dia eu amei profundamente,

Não me lembro quando,

Mas aconteceu.

As vezes reviro essa lembrança breve

Como quem olha uma lápide

Para se assegurar

De que o trabalho foi bem feito.

culpa

Viver uma vida sem deixar mágoas,
talvez não seja possível
nem semear girassóis sem rasgar a pele do chão.
É claro que deixaremos rancores,
é óbvio que serei odiado,
e amado em proporções bem medidas.
A perfeição não combina com a vida.
Nem a culpa com o meu coração.

quarta-feira, julho 06, 2011

Manhã



Mais uma manhã de café, telejornal e chuveiro
com a repetida impressão de ser breve,
o intervalo complexo entre os vãos.
Ainda assim eu não lavo minhas mãos
não fecho nenhum caminho para mim
concilio o saber do meu fim
com a sabedoria de fundar um estar leve.

sábado, julho 02, 2011

Ondas

O talento em viver não produz gestos
grandes,
pequena agitação entre as ondas
como a simular um presságio.
Meu vizinho idoso lendo o jornal,
a animação dos pedreiros na obra,
o jovem encantado com as mãos da namorada
entre as suas.
O talento em viver está, eu pressinto,talvez nessas coisas,
se sabemos deixá-las passar
ondas lindas, porém sem propósito,
arabescos humanos na superfície do mar.

sábado, junho 11, 2011

Vai ser assim.

Então vai ser assim. Sem dinheiro, mais isso já não é nenhuma novidade. Os deuses não colocam escudos sobre costas eretas e o que eles chamam de amor é algo que nunca irá florescer por detrás das muralhas que levantaste contra ataques. As coisas não irão mudar. Essa é uma constatação que se faz quando se chega a casa dos 30 e os 40 estão cada dia mais perto. Você já considerou as hipóteses, perdeu alguns anos submetendo-as a empiria e ao jogo especular da razão. Um sujeitinho quebrado. Os amigos trepavam contentes nos muros de outrora enquanto você lia o Gita. E agora eles vêm para querer me falar de alma, Deus e outras panacéias que sequer beberam direito. Com 25 anos você ainda não conhecia o deleite inefável escondido no derrretimento de uma xota. Conhecia as paixões, já havia trepado em vagões suburbanos de trem e pulado a janela da vizinha para passar a manhã inteira fodendo. Mas não sabia como fazê-las gozar. Não conhecia a crueldade indispensável do coito e por isso a sua ternura era patética e vã. Agora tens quase 40. Teu peito confuso tem quinquilharias inúteis e seu pensamento é uma caldeira a serviço do nada. Mas mesmo assim, às vezes, você, ouve canções emanando das coisas e se deleita em uma cega confiança na vida. Mas já não se espanta há algum tempo, nem se apaixona, treme ou suspira senão de pavor diante do abismo onde ficaste um bom tempo. Com a mesma obstinação de uma erva daninha você resistiu até agora contrariando as expectativas.

Hoje você passou com sua filha em frente a uma loja onde viveu a sua primeira experiência profissional. Um dos seus ex-colegas de trabalho estava na entrada do prédio. Você Pensou em cumprimentá-lo, mostrar a ele que sobreviveu, que estava muito mais inteiro do que na época em que ele e os outros tentavam te esmagar com piadas sobre sua magreza, com galhofas pelas roupas amassadas, com maldades e fofocas pelo seu despreparo. Não o fez, entretanto. Preferiu evitar a mímica social que fingiria saudade, bons tempos e boa sorte à frente. É assim. Você prefere poupar a energia que poderia ser gasta com os esforços por redenção, ou vingança. Você quer se afastar do passado, não é? Você quer ser outra pessoa, recriar-se das cinzas do que ficou para trás e por isso me acompanha nessas lembranças. Mas é tão difícil encontrar um padrão que dê conta das mutações que sofreste. Não encontras palavras que sirvam para te enunciar para os outros. Colocam camisas em teus ombros, mas elas não servem. Querem te encaixar em modelos feitos para casos comuns, querem agarrar-te mas estás besuntado de questões e vagueza. A teia ordinária que ordena as vidas não sustentou tua queda. Como podes ter um sentido para palavras tecidas com a seiva das famílias, dos cuidados e repressões que não ocorreram em ti? E no entanto sabes amar, não é? De um modo confuso a palavra ainda faz sentido pra ti. Mas quando você a dilui no caldo fervilhante do caos, quando não te agarras a sede da posse, quando queres o sopro inefável da vida dançando entrelaçada com a morte...as pessoas dizem que não sabes amar. E segues assim aturdido. Cuidadoso com os negócios e desorganizado com o resto. Acalentando sonhos adolescentes no peito, com sabedorias remotas no lixo, filho dileto do acaso.

sexta-feira, maio 20, 2011

Meu poema

Meu poema representa quase um atavismo

uma dificuldade inata no ato de crescer

uma patologia incurável no meu psiquismo

meu poema se parece com um alegre perecer.

Um alegre instante breve, que se sabe limitado

canhestro e tosco, se exibindo ao poente

respirando no papel, pela palavra consumado

Sendo o que pode ser, se apagando sorridente.

Meu poema é a flor, na beira da estrada

que sorri enquanto queima, sem ser percebida

veio ao mundo para gozar sua temporada

E se acaso o colheres para enfeitar o seu amor

Isso nada aumentaria no valor de sua vida

Ele incendiaria satisfeito, como inútil flor

sábado, abril 23, 2011

Nuvem.

Vazio eu caminhei sobre destroços,
pela mão do acaso me salvei de insanos males,
sem os cuidados da palavra que depois me disseram
que era linda,
sem os laços infinitos que me disseram que se chamava
mãe.
Vazio, corrompido, inefável e celeste
com um travo de amargura e um peito estremeçendo em gritos
esperando por alguma coisa pela qual nunca gritei.
Buscava o que não conhecia, tinha fome sem lembranças
e habitava a ilha do desdém
onde cultivava a melodia cantada pra ninguém.
Ela não seguiu o curso esperado, eu me desviei da rota,
me parti, me recobrei, me reconheci sem sustos
e ela ficou lá...
parada gritando pelo que não protegeu
pobre nuvem tola que nunca choveu.

terça-feira, março 15, 2011

Olhar partido.

Sou um desses garotos de olhar partido

Sentados, famintos, com o pensamento alado

Com as mãos tranqüilas sobre a noite quente

Esperando ali, quase eternamente.

Você está vestida como uma pantera louca

Seu corpo tem fúria, tem fogo a boca

Eu fico sentado, com um riso fino,

Você nem sequer suspeita, sou o seu destino.

Sou desses sujeitos, de um olhar cinzento

De histórias duras, de amor violento

Que Você não deixaria em sã consciência

Entrar no teu corpo, lhe trazer demência.

Mas você moveu-se, como puro acaso,

Um oceano em chamas, algo inusitado

Essa noite então, vai haver luar,

Tenho céu e inferno para lhe mostrar.

segunda-feira, março 14, 2011

Meu blues (my Funny valentine)

Sentado em memórias, me apoiando em riscos,
eu bebo você suavemente em vinho
sintetizando sonhos, domesticando os gritos,
na multidão perdido e ainda assim sozinho

Aretha confortando, Holiday ferindo
um amor de transgressões, a contradição de amar
Um oceano fugitivo na escuridão fugindo
Um contato doce amargurando o estar.

Mas derrepente assim, muda para mim o bar
A porta se abre, ela flutua infinita e linda
ondas de poesia e Funny Valentine no ar

Para meus braços desliza meu sentido de alegria
mesmo depois de me ferir tão mortalmente ainda
ela é a minha garota, meu blues e minha poesia

sábado, março 12, 2011

Minha cartada.

Nada mais do que um quarto e papéis

Nada mais que minha solidão companheira.

Entre quatro paredes sustentando a trincheira

Com os quadros da mente pintando painéis


Preservando energias do drama de estar junto

Desacreditado de tudo, com a chama a queimar

Execrado em silêncio, um suave amor defunto

Cercado de fantasmas que desaprenderam a cantar


Com poucas cartas, atenção, e paciência

Do outro lado da mesa: a morte e o nada.

Nada mais que um plano, uma só cartada.


Recorrendo ao blefe, a malicia, e minha persistência

Seguem rodadas, adversários com cartas incríveis

Eu Fazendo com ouros e valetes coisas impossíveis.

sexta-feira, março 11, 2011

Uma lição óbvia

Ele já havia passado por aquele mesmo caminho dezenas de vezes, sem se dar conta da existência do bar. Era um sujeito de hábitos regulares, de rotinas, e sempre tomava o mesmo trajeto para ir e vir do trabalho. Contudo, aquele era um dia diferente. Um caso antigo, uma mulher casada com quem já se envolvia há algum tempo lhe tinha dado carta de despejo dos seus lençóis. Tinha sido um lance bem tórrido, e ele, rapaz sem muito traquejo com as mulheres, tinha ficado apaixonado pela figura. Assim, de espinhela caída e coração desfeito em juras esquecidas de amor ele notou o barzinho no canto da rua e resolveu entrar. O cubículo era bastante quente e escuro. Em um balcão de madeira gasta e suja escoravam-se silenciosos alguns homens com seus copos. Ele entrou, escorou-se também no balcão e pediu:

-Uma cerveja por favor.

O homem do outro lado do balcão, um ancião calvo e de dentes amarelados olhou para ele e respondeu.

- Pela tua cara vais precisas de algo mais forte.

O rapaz ficou um pouco sem jeito. Então estava assim tão óbvio?

-É, acho que você tem razão. Me vê uma cachaça.

O rapaz recolheu-se novamente nos seus pensamentos, na sua dor. Um outro bebum do seu lado tocou-lhe no ombro e comentou.

-Esquenta não meu fio. É assim que as coisas são.

Ele assustou. Estaria aquele velho lendo os seus pensamentos? O que havia de errado com aquela gente, gostavam de bancar os advinhos? Resolveu ficar calado, para ver até onde ia essa encenação de bebuns.

- É assim mermo – Continuou um velho – logo se vê que vosmicê num tem as manha com as muié, por isso essa cara amargurada.

O rapaz não se conteve e resolveu dar corda à conversa.

- É. Parece que está estampado em minha cara mesmo. Levei o fora. Mas o problema não é o fora em si. É tudo que ela me dizia. Que morreria se eu a deixasse. E depois terminou comigo de uma hora para outra.

O velho balançava a cabeça condescende enquanto o rapaz contava a sua história. Os detalhes da relação eram acompanhados de goles regulares da cachaça que algum tempo já tinha chegado em suas mãos. Quando já havia listado todos os motivos para sua convicção acerca do amor da garota, quando o álcool em seu sangue o despiu dos pudores e da auto-estima que obriga os homens a calar suas mágoas, o rapazote prorrompeu em prantos.

-Aroldo, traz outra cachaça pro menino! Com os diabos, a gente tem que ficar pedindo! Gritou o velho. Aroldo sorriu, balançou a cabeça (sabia que isso fazia parte do Mise en cene do velho) e encheu novamente o copo dos dois.

-Vou te contar uma história meu fio. Quando terminar vosmicê vai entender que muié é coisa pra gente trazer no forcado, que nem aqueles laço de pega cobra que nós faz passando a corda pro dentro do bambu. Num deixa a bixa chegá perto, mas tenta segurar com força. É que nem macaco gordo, num larga um galho mermo ruim, a menos que veja outro para segurar. Quando eu tinha menos que sua idade me enrabixei com uma dona muito da boa. Era mulher dessas de parar o trânsito. Devia de saber que era problema. Me apaixonei pela dona de um jeito que ficava doente só de pensar em largar. Mas começaram a falar dela pra mim. Diziam que se deitava com todos os moleques da vizinhança e eu fiquei muito brabo, e mermo sofrendo resorvi teminá. Num é que a mulhé chorou que não queria terminar, que ia se matar se eu deixasse ela e todas essas coisa? Pois bem, acabei desisitindo e fiquei de paz com a danada. Uma semana depois eu peguei ela pendurada nos beiço de um dos meu maio camarada. Sabe o que ela disse?

Nessa altura o velho parou, deu uma risada entremeada com uma tosse seca, bebeu mais um gole de cachaça e olhou bem no fundo dos ollhos do rapaz que a essa altura até parecia sóbrio de tão atento que estava. Imitando voz feminina e desmunhecando o velho completou:

- “Eu bem que já ia terminar com você hoje Gilmar”

Uma gargalhada ecoou pelo bar. Todos riam freneticamente. Gimar cospia cachaça a quilômetros. Aroldo havia parado de lavar os pratos e se escorava na velha geladeira para não cair. Apenas o rapaz não ria. Ainda não tinha captado o sentido da coisa toda. Continuou ali bebendo e conversando, a noite caiu, ele resolveu que iria para casa. Naquele dia ele aprendeu uma coisa que tinha a impressão que todo mundo sabia, menos ele.

quinta-feira, março 10, 2011

Vivere masturbart est.

De repente você olha para os lados e se dá conta de que o jogo está todo armado e você não pode fazer muita coisa senão tentar se esquivar do que for possível. As leis, os gostos, os padrões, a expectativas das pessoas: tudo armado. Nas televisões eles tentam lhe dizer quais são seus heróis, como você deve viver. Na verdade eles falam em nome do que acham que é o que a maioria quer dizer, e se essa maioria não existia antes ela passa a existir quando eles terminam de falar. As televisões masturbam o ego das pessoas, e não há nada de que gostemos mais do que sermos masturbados. Desde pequenos, em nossos berços, nossos pais nos masturbam com seus olhares encantados, extasiados de “como é lindo meu bebê” (eles próprios masturbados pelos outros pais que já tiveram ou vão ter um bebê) e esse bebê cresce, monta uma empresa e arranca o couro de seus funcionários para obter o mesmo sumo de adocicada aprovação que recebeu de seus pais. Ou então esse bebê tão festejado, percebe subitamente que seu fornecimento de masturbação foi cortado. Ah, Man ele realmente não gosta disso. Aí fica amargo, o mundo lhe parece uma coisa muito, muito feia, e ele converte-se em um verdadeiro estorvo na vida dos outros bebês que não tiveram problemas com seu suprimento de masturbação.
E nisso resumem-se as coisas: Masturbar para ser masturbado. Mas se você precisa comer, ou se alguma outra função de sua vida reclama sua energia e não lhe sobra atenção suficiente para masturbar outra pessoa, além de si mesmo, então você vai ter problemas. Fomos inoculados desde a mais tenra infância com o hábito da masturbação recíproca e se você distrair-se dessas obrigações com certeza alguma coisa vai lhe faltar logo, logo. Nisso se especializaram os programas de televisão. Cantores, músicas e novelas são inventadas todos os dias para satisfazer essa necessidade. As redes de televisão masturbam os artistas, que masturbam os políticos, que masturbam o povo (enquanto lhe esvazia a carteira) que soberano trabalha de sol a sol para pagar a conta de todas essas masturbações. Você acha que alguém escreve, como eu, em blogs, para ouvir coisas do tipo “isso que você faz é uma merda”? Claro que não! Quem fizer isso certamente ficará impopular e isso é um crime de lesa majestade! Quem é que fica horas e horas relendo o que escreveu antes de publicar para ter a mínima certeza de que não fez merda? Que nada! Basta visitar alguns blogs de outras pessoas e elogiar bastante para receber apreciações positivas. O segredo é saber com os outros estão vivendo suas vidas, o que eles ouvem (as pessoas dirão eeeuuu não faço isso, gosto da Ivete por causa do t-a-l-e-n-to, e quem sou eu para provar o contrário) como amam, se vestem e etc. Assim as chances de receber sua dose de masturbação aumenta bastante. É um esquema banal, idota mesmo, e qualquer um pode fazer-se valer dentro dele. Mas não sei por que diabos está me parecendo tão estúpido agora, assim mesmo estou entrando na fila para tentar receber a minha dose.

sexta-feira, março 04, 2011

Apenas uma noite ruim.

Acordo no meio da noite com um grito de socorro entalado na garganta. Com o que eu estava sonhando realmente não lembro. O coração ainda bate acelerado e eu fico ali deitado olhando para o vazio esperando aquilo tudo passar para eu poder voltar a dormir. Do meu lado minha mulher dorme acolhida pelo repouso dos justos. A cidade está em silêncio exceto pelo ladrar de um ou outro cachorro nos confins do universo. Tudo parado. Sem contas a pagar. Um emprego garantido pelo menos até o final do ano. Minha filha está indo bem na escola e parece muito mais saudável do que eu quando tinha a sua idade. Uma mulher, um emprego, um projeto. Parece tudo perfeito, então por que essa coisa ainda se arrasta pelos corredores escuros de minha mente? O que ela quer de mim? O que é isso tudo?

Fecho os olhos para tentar retomar o fio do repouso perdido, debalde. A mente se movimenta entre varias imagens como um disco arranhado que passa de uma faixa para outra sem chegar a terminar música nenhuma. Mas não só isso. Algumas palavras ecoam dentro da caixa da minha cabeça como vozes que se elevam amplificadas por um milhão de alto falantes. O que elas dizem? Não sei, não compreendo. Não é que seja uma língua desconhecida ou coisa do gênero, eu apenas não entendo. Acho que não dizem coisa alguma. São simplesmente sons sem sentido gritados dentro do meu cérebro. Começo a entrar em pânico. Temo pela minha razão. Quando era adolescente tive experiências parecidas. As vozes ficavam ali ecoando sem dizer coisa alguma. Será que a doença de minha mãe me alcançou finalmente? Mas minha mãe tem apenas problemas de nervos, algo que nunca entendi muito bem, e isso não tem nada a ver como nervosismo. Tento me impor, respirar fundo, apelar para lucidez mas não consigo. Levanto da cama. Vou ao banheiro, sento no vaso e folheio um gibi para me distrair; a sensação de que estou pirando permanece comigo. Tomo um banho frio, vou à cozinha e bebo um copo quente de leite; sei que tudo vai se repetir quando eu me deitar. Contudo, como sou e sempre serei um durão, resolvo me deitar mesmo assim.

Fico ali, olhando para o teto e pensando, conjecturando, tentando explicar. Quando eu era um rapazote triste e sem mulher eu achava que tinha nascido para realizar algo grande. Algo que não poderia ser feito sem sacrifício e heroísmo. Acreditei nisso por muito tempo, até perceber que me manter respirando já era heróico o bastante, haja vista as condições em que nasci. Hoje meu heroísmo consiste apenas em levantar todo dia e sorrir para as pessoas. Talvez eu tenha ido muito longe nesse meu entricheiramento psicológico e alguma coisa esteja pedindo socorro dentro de mim. É possível, sim, quase tudo é. Mas e daí? Que conclusões extrair desse fato, se for realmente um fato? Também não sei responder. Penso nos meus heróis; Krishnamurti e seu vazio incompreensível e nobre, Huxley e suas aventuras místicas, Chico Xavier, um grande sujeito que nunca consegui compreender, Stirner um personagem autêntico e solitariamente forte como Bukowiski e sua adolescência e rebeldia. Penso também em muitos outros, mas nenhum me serve mais de modelo. As coisas ficaram muitíssimo mais complicadas. O sono aproxima-se, a cabeça aquieta-se, desapareço na escuridão finalmente.

domingo, fevereiro 20, 2011

Matemática

Então não havia muita coisa a ser feita. Eu tinha mesmo que me juntar a aquele grupo de sujeitos toscos vestir a mesma farda, cuja cor azul se perdia sob as manchas de graxa, e encarar o batente. O pai de uma namorada havia conseguido o serviço pra mim, depois de eu ser demitido do trabalho com ofice boy na loja de fardamento onde fui torturado psicologicamente de incontáveis maneiras. Não era muito asseado. Não escovava os dentes também. Minha educação familiar consistiu de um conjunto fragmentado de máximas morais, baixa auto-estima e solidão. O encontro com a violência característica do mercado de trabalho foi uma coisa realmente desagradável. Todo mundo sabia de coisas óbvias que no horizonte da minha consciência sonhadora e entorpecida sequer tinham relevância. O resultado era previsível. Trabalhei dois anos de oficie Boy e fui demitido sob circunstâncias surreais que irei contar um outro dia. Mas aquele trabalho que eu ia começar era diferente. Nada de escritório, ar condicionado e as pessoas comentando o meu cheiro. Nada das fofocas e intrigas estúpidas dos funcionários a cata de alguma promoção. Nada de documentos que eu cansava de perder e me desesperar em noites de insônia. Não, ali a selva apresentava uma outra face. Eu estava sendo contratado por uma empresa terceirizada para desempenhar a importantíssima função de auxiliar de operações. Na prática o serviço consistia em limpar os filtros de óleo de mamona, retângulos sustentados sob quatro pernas, como mesas sem tampo, no meio dos quais dependuravam-se placas também de aço de 50 a 60 kg cada uma. As placas eram perfuradas no alto e cobertas de uma lona, sob a perfuração o oléo quente de mamona jorrava misturado ao pó de carvão e ao agente filtrante. Elas precisavam estar bem ajustadas umas as outras, ou o óleo quente jorraria sobre nós. Para isso havia uma manivela no final de cada retângulo que apenas três ajudantes juntos conseguiam fazer girar. Após apertadas as placas o óleo jorrava e quando terminava nós as afrouxávamos e nos colocávamos a raspar das placas quentes a borra de carvão e agente filtrante que o óleo havia deixado. A borra caia em um tacho situado abaixo do retângulo, que depois esvaziávamos com um carro de mão. O processo era repetido todo dia em turnos de 12 horas.
O repouso de uma hora não era suficiente para dormir, e as vezes nós conseguíamos arquitetar estratégias para burlar a vigilância canina do encarregado, um sujeito com o curioso nome de Prospício. Vi muitos sujeitos pedirem demissão após o 1 dia de trabalho. Caras durões, mas que tinham pelo menos uma mãe ou um pai para garantir um prato de comida. Eu fiquei um ano inteiro. O óleo era utilizado, entre outra coisas, para produzir detergentes. Então havia muita soda caustica esparramada por todo local. Usávamos essa coisa para lavar os banheiros da fabrica. Algo tão imundo que gelava a espinha só de olhar. As feridas advindas do uso da substância eram comuns. Uma vez fiquei o mês inteiro sem poder calçar sapatos.
O dinheiro que eu recebia era pouco, mais com as horas extras somadas dava uma grana maior que qualquer outro serviço que tivesse feito. Mas os pais de minha namorada achavam que tinha que contribuir com alguma grana para despesa dela, uma vez que estávamos transando e ela lavava minhas roupas. Um rapaz normal teria uma mãe para fazer isso, como não era o caso, não sobrava muita coisa. Um dia, ao sair da casa dessa garota, eu fui abordado por um assaltante. Eu estava naquele momento com os poucos trocados que sobravam após pagar a divididas e dar a despesa na casa dela. Ainda faltava pagar o aluguel do quarto e sala em que eu dormia e comprar alguns quilos de arroz e frango para comer o restante do mês.  O sujeito foi violento na abordagem, mas não mostrou a arma. Exibia apenas um volume pontiagudo sob a camisa que parecia o cano de um revolver.
-Me passa a carteira seu filho da puta, ou lhe estouro os miolos.
Já ia tirando a carteira para entregar, mas exitei. Afinal, o que haveria a perder? Tudo se passou diante de meus olhos em um flash e a decisão me pareceu óbvia, comecei a correr. Por sorte ele não estava armado pois não ouvi os estampidos dos disparos. Até hoje, quando lembro, não acho que foi uma loucura. Uma matemática simples e uma das coisas mais racionais que já fiz. Ainda hoje, dada as circunstâncias, me parece que eu agi com bom senso. Na época suicídio não passava pela minha cabeça, minha educação religiosa  havia selado essa rota de fuga, mas isso não quer dizer que eu achasse que a vida era um bem supremo. Simplesmente me pareceu que qualquer coisa seria melhor do trabalhar naquele inferno, sem qualquer perspectiva de futuro,  e ainda não poder pagar minha própria refeição. Foi um cálculo perfeito. Duvido que qualquer pessoa com bom senso pense o contrário.