segunda-feira, dezembro 28, 2009

Tom e Jerry e o sentido da vida.

O patrão nos exige uma produção, pontualidade e comprometimento. A esposa nos exige fidelidade absoluta, atenção, carinho, a sociedade nos exige...Puta que pariu. Melhor nem entrar nesse merito. É verdade que algumas destas exigências podem não representar problema para aqueles que consideram que ela correspondem ao que se exige de qualquer sujeito que pretenda denominar-se humano. Nesse caso, é bom possível que diante de uma compulsão para a infidelidade um sujeito destes acabe decepando o próprio penis como fez o colombiano da noticia abaixo. Todavia, quem quer que se confesse menos fanático por princípios morais que esse infeliz colega da colombia acabará por aceitar, como eu, o desenho de Tom e Jerry como a mais sincera expressão da existência. O gato e o rato. A regra, a lei, a convenção e as pulsões arbitrárias que se reecusam a ceder diante de exigências externas. As manhas do rato e a tolice do gato que crente de sua superioridade (nesse caso moral) não se pergunta se realmente vale a pena perseguir tal prenda. É bem verdade que essa missiva serve muito mais como motivador dos ratos que como sugestão de cautela aos eventuais gatos, estes, tão cegos por suas convicções não chegarão sequer a entender a sutileza da metáfora. Tom e Jerry como concepção da existência

10/12/2009 - 18h09

Colombiano se castra com lâmina de barbear para não trair a mulher

Do UOL Tabloide
Em São Paulo

Um agricultor colombiano de 40 anos se castrou com uma lâmina de barbear e revelou que tomou a decisão "para não ser infiel" à sua mulher e não ir contra sua religião, segundo a imprensa local.

Luis Alfonso Sánchez, um camponês que mora no departamento de Bolívar, no norte de Colômbia, revelou a jornalistas que cortou seus testículos porque tinha problemas sexuais com sua mulher, mas que não queria ser infiel a ela.

Sánchez afirma ter encontrado na Bíblia, no capítulo 18 do evangelho de São Mateus, que "se tua mão ou teu pé te fazem pecar, corte-os, porque mais vale entrar na vida manco que ser jogado no fogo eterno com suas duas mãos e seus dois pés".

O colombiano disse: "peguei uma lâmina de barbear com a qual me cortei e tirei os testículos e me costurei com as agulhas e fio que uso com as vacas e os porcos, para não ser infiel a minha mulher".

No entanto, a "operação" resultou em uma grave infecção e, por isso, o camponês está sendo atendido por urologistas e cirurgiões no Hospital Universitário de Santander, na cidade de Bucaramanga, no nordeste do país.





The boxer - Simon and Garfunkel


Eu sou apenas um menino pobre
Embora minha história é raramente contada
Eu despedacei minha resistência
Em troca de um bolso cheio de resmungos
Feito promessas
Tudo mentiras e chacota
Ainda assim, um homem ouve o que quer ouvir
E descarta o resto

Quando eu deixei meu lar
E minha família
Eu não era mais do que um menino
Na companhia de estranhos
Na quietude de uma estação de trem
Fugindo amedrontado
Mantendo-se escondido
Buscando os quartos mais baratos
Onde o povo esfarrapado vai
Procurando os lugares
Que apenas eles iriam

Lie-la-lie.....

Solicitando apenas salário de trabalhador
Eu vim procurando por um emprego
Mas não recebo ofertas
Apenas um vem cá das putas
Da Sétima Avenida
Eu declaro
Houve momentos em que estava tão solitário
Que tomei algum conforto lá

Lie-la-lie.....

Então estou estendendo minha roupa de inverno
E desejando que estivesse partido
Indo para casa
Onde o inverno da cidade de Nova York
Não estivesse me sangrando
Me levando
Indo para casa

Na clareira em pé está o boxeador
Um lutador por ofício
E ele carrega uma lembrança
De cada luva que lhe abateu
Ou lhe cortou até gritar
Em sua raiva e sua vergonha
“Estou indo embora, estou indo embora”
Mas o lutador ainda permanece

Despedida (o confronto)

Eu a beijei e peguei a pistola na gaveta acima do armário. A pequena dormia abraçada a sua boneca e Janie estava em lágrimas como sempre ficava todas as vezes que eu saia em missão, e essa era das mais difíceis. As mesmas recomendações de cuidado, as mesmas preocupações com minha fidelidade longe do lar, os mesmos votos de proteção divina e tudo mais. Se ela sequer imaginasse o que era estar do outro lado do front suas recomendações pareceriam patéticas a quem as ouvisse. Mas ela não podia imaginar, ela representava uma outra face da vida. Alimentada pelo leite do comodismo, das certezas, da moral vigente e da proteção que pessoas como eu proporcionam ela não podia imaginar qual a natureza exata da minha existência. O padre podia lhe oferecer interessantes argumentos para me condenar, os psicanalistas poderiam lhe falar sobre a minha insensibilidade e machismo, as feministas poderiam confirmar as suspeitas dela sobre o carácter arbitrário da minha promiscuidade mas todos eles enlouqueceriam se tivessem que olhar para a vida do meu ponto de vista. A guerra me esperava. Dias e mais dias me banhando em sangue humano, conhecendo um lado das coisas que não nos ensinam nas escolas e desenvolvendo apetites e necessidades que só tem quem precisa lidar com isso. É claro que ela não ia entender, mas não me importo com isso. Existe um trabalho a ser feito e essa foi a forma de trabalhar que escolhi.
Temos a luta cotidiana e a reivindicação alheia. Temos sede, fome, medo e um pouco de curiosidade. Saltando de um galho ao outro procuramos ferramentas para erguer os nossos tribunais onde poderemos sentenciar aqueles que vivem de forma diferente. Queremos punir e encaminhar. Desejamos dobrar a vontade alheia com reivindicações. Pobres soldados sozinhos! Pobres árvores devastadas erguendo galhos inúteis para estrangular outros ramos! De tantos cancros, visíveis e invisíveis, somos tecidos e ainda assim tentamos extrair um SIM e um NÃO. Um razoável e um absurdo para coroar nossa própria patologia inevitável. O amor é um signo para algo que não nos cabe. Uma ponte de lugar algum para o vazio. Tudo que nos sobra é combate...e algumas tréguas intervaladas para repartir o pão, o corpo, canções ocasionais e o silêncio companheiro que aceita.

domingo, dezembro 27, 2009

Temo as satisfação das massas

Temo a satisfação das massas

E temo a alegria daquela ou daquele

Que tem em mim uma pilula para sua aflição.

Vejo a direção e a contradição e vejo

Semáforos no nada controlando direção alguma.

Temo as horas de felicidade em barulhenta comunhão...

Cerveja ou prece.

Temo mais que a minha morte o meu engano, a palavra que me escapa

O entendimento que não tenho, a conta que não poderei pagar, o lugar onde não estarei,

A voz emudecida e o gesto automático sentenciado por um tribunal de mães.

Temo as convenções cristalizadas,

temo o olho cego do esquartejado e a mão certeira do faminto

temo o contato e a ausência do contato, temo a minha definição, o fim do espaço

arbitrário onde me tenho inventado em 36 anos de caminhada no deserto

e até agora consegui me esquivar.

Até agora persisti faminto

Até agora nada de parada e regojizo

Até agora o combate camarada e poucas palavras com poucas pessoas de verdade.

Mas o cerco se fecha e nós sabemos que ninguém escapa

Por isso tudo eu temo o dar as mãos

Pois de tudo em tudo persito apenas do imcompleto

Como cinza, como sonho, como ponteiros apressados, filho deserdado e como anjo duvidoso que não se pode possuir.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Um fragmento de instante.

Era uma dia muito quente, como são a maioria dos dias por aqui, e depois de uma semana de batente eu não esperava nada além de um pouco de ócio e saudável preguiça.
Acordei tarde, como sempre fiz aos finais de semana e fiquei até o inicio da tarde bebericando e um fumando um ou outro cigarro. A rua agora estava insana, eu sabia. Os bares e as igrejas lotados. O tempo fustigava as pessoas as obrigando a livrar-se dele de alguma maneira. Eu nunca tive problemas com o tédio. Escrevi meus melhores poemas e contos nos largos períodos de desemprego e ócio. Se tive algum problema com solidão nesse tempo todo, como toda certeza, foi apenas por falta de mulher. Saciado de comida e de sexo, pode apostar, não me inquieto com muita coisa. Todavia, os bens primários nunca são definitivos. As mulheres trabalham para tornar a coisa toda complicada e os patrões começam pedindo sua mão de obra e terminam exigindo sua alma devotada para o sucesso de suas aflições. Dizem que é um signo de nossa condição o fato de não reconhecermos essa mesma condição. Sempre se quer mais do que se pode alcançar.
Bom, fiquei naquele ócio soberano até o cair da tarde quando fui à esquina comprar umas cervejas e algum alimento. A patroa tinha ido encontrar-se com algumas amigas de trabalho e falar mal de mim e de seus respectivos esposos. Agitavam-se todos nas ruas da favela. A musica ressentida ecoava violenta nos auto-falantes. Um quarto de machismo pobre, um de exclusão econômica, um quarto de impotência prática traduzido em potência verbal e para coroar uma última fração de cristianismo mal introjetado. Tudo isso servido á temperatura ambiente de 38 graus regado a cerveja, sexualidade precoce e evasão escolar. Voilá ! Eis a musica baiana.
Eles vão estar no seu caminho. Elas sempre vão dificultar as coisas. As pressões virão de todos os lados e você vai esquecer o motivo de correr na corda bamba muito antes de ser atirado lá de cima. Talvez você nem chegue a perceber como as raízes estão na superfície e não há mistério algum. Só a fome, a sede, o medo, a insegurança e o desejo faminto de redimir-se e segurar as rédeas.
Dei-me conta repentinamente de que era o natal e isso não me dizia coisa alguma, como também tenho certeza, dizia muito pouco há quase todo mundo. A sociedade cada vez mais parece-se com aquilo que ela sempre foi: um imenso torno de metal em volta de nosso pescoço. E o pior é que a grande maioria das pessoas se identificam com esse torno e carregam as palavras que lhe servem de instrumento como se fossem suas bandeiras. Morrem por essas bandeiras, matam por elas e seguem cegamente uma cenoura na ponta de uma vara enquanto movem para a frente o que dizem desprezar (se é que dizem isso).
Com meu alimento retornei correndo para casa e continuei bebericando enquanto cozinhava meu repasto. O Guerra ligou.

- E aí Man, que tal uma cerva mais tarde?
-Uma boa, onde mesmo?
-No mesmo lugar de sempre.
-OK, a gente se vê.

O lugar de sempre era um bar deserto onde não havia indícios dessa péssima musicalidade de nossa terra, nem as costumeiras manifestações da intelectualidade baiana. Apenas mais uns tragos e a conversa repetida sobre Buk, heroísmo e finitude.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Um tributo aos aliados de trincheira



"He Ain't Heavy, He's My Brother(tradução)"


A estrada é comprida
Com muitas curvas dificeis
Que nos leva a
Quem sabe onde, quem sabe onde
Mas eu sou forte


Forte o bastante para carregá-lo
Ele não é um peso para mim, ele é meu irmão
E assim continuamos
O bem-estar dele é problema meu
Ele não é nenhuma carga para mim


Nós chegaremos lá
Pois eu sei
Ele não seria um estorvo para mim, oh não


Ele não é um peso para mim, ele é meu irmão
Agora, se estou realmente sobre carregado
Então estou sobrecarregado de tristeza
(De saber) que o coração de todo mundo
Não está cheio de gratidão


Ou de amor, um pelo outro
É uma estrada muito comprida
Da qual não há retorno
E enquanto estamos indo para lá
Por que não partilhar?
E a carga (dele)

Oh, Sister - Bob Dylan




Oh, Sister
Oh, Irmã

By Bob Dylan and Jacques

Oh, irmã quando eu vier caber em seus braços
Você não deve me tratar como um estranho
Pai nosso, não gosta de como você age
E você tem que perceber o perigo

Oh, irmã, eu não sou um irmão pra você
E um merecedor de afeto?
E nossa finalidade não é o mesmo nesta terra
Nem para amar e seguir o caminho

Nós crescemos juntos
Desde o nascimento até a morte
Nós morremos e renascemos
E, em seguida, misteriosamente nos salvamos.

Oh, irmã, quando eu venho bater em sua porta
Não me mande embora, você criará tristeza
O tempo é um oceano, mas ele termina
Você pode não me ver amanhã
Sentado em uma poltrona de zinco,
erguendo um copo e um cigarro em direção
ao luar,
sentido a garra do seu silêncio e o arape farpado
de algo que já teve seu tempo,
eu me preparo para uma nova visita a mim mesmo.
Assim eu me coloco e espreito
Assim compreendo o sentido das ruas
Assim o beijo e a luta terminam na mesma
vala de loucura e de morte.
Muitos anos desde o primeiro desdém
muitos espinhos, chagas, pesos, auroras, orgasmos, esquecimentos
grandeza, finitude e ternura...
Mas a vergonha é um imenso charco de lodo
e nós oscilamos confusos entre instâncias da dor.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Fútil

UMa chama fútil e uma boca rubra
para alimentar um verso e para
destruir um homem.
Com cordas para resgatar do abismo
e uma forca para a execução
aberta.
Todos assistindo
Todos sussurrando
com as cadernetas e os estandartes
vociferando aos quatros ventos
sua função.
E será tão patético
Tão estúpidos papeis rasbicados e incongruentes
digitais e insuficientes
Navegando em uma fria mão de vento
e lançando um tapa na face
do escravo
e puxando a trança
de uma assombrada louca .



domingo, dezembro 20, 2009

Warm

Quando eu me elevar por sobre
os ruídos tensos da cidade
milhares de frases bem compostas
irão de desfazer em lagrimas.
As arvores até então imoveis irão oferecer seus
galhos, para indicar os rumos
de uma multidão faminta.
Nós não temos lar.
Nos dissolvemos sorridentes
em uma maré de pó.
Estou tentando apenas suportar os dias
pagar as contas e ser um pai
de vez quando
"um coração de pedra
lançada no oceano"
eu estou aqui, parado nessa esquina
perdendo a chance e
chegando no instante exato.

sábado, dezembro 12, 2009

Fronteira

Atirado do esquecimento ao caos
eu caí naquele jogo.
Esmagado entre os ruídos e a retenção
das fezes,
entre as reivindicações do corpo
e a expectativa do amanhã
para celebrar o que não sabia.
As soluções do esquecimento
e a pobreza galopante que cortava
os componentes do deleite gustativo
e reduzia o meu café, o café de meus irmãos, o café de minha mãe
a um pobre repasto de pão e sombra.
Eu falo de coisas falsas, eu estou narrando absurdos
eu estou me vangloriando do fracasso, expondo chagas velhas para
incomodar seu sono?
AH! Mas que me importa incomodar, se podes não me ouvir?
Se tens o desfile matutino do sincretismo, politicismo, teísmo, ateísmo, marxismo, alémnismo, xamanismo, consciência e biscoitos pão e mel nos intervalos do delirio.
Estou preso no limbo dos preenchimentos pessoais
sou uma composição de mil vitrais falando sobre Dom Quixote e tantos outros personagens
de nosso Carnaval.
E o grito de poeira daquelas ruas de onde vim?
E a iniciação masculina, o mêdo das garotas?
A proibição, a mutilação do que é espontâneo em nome de um hábito e uma certidão?
AH! Mas eu tinha a LAdy Jane...
O rosto dela flutuando entres as brumas de minha imaginação entorpecida!
A eletricidade contida em pensamentos sem imagem e culpa sem ação.
E o escorrer de volta para o mundo sem espaço ode eu era apenas um estorvo.
A marca gelada que retemos permanece e condena
as noites intermináveis fitando a escuridão nos diz muito sobre a luz
mas eu não trago nada que possa te dizer
Eu não sou nem mesmo parecido com você.

sábado, dezembro 05, 2009

Avançar.

Dos nossos dias de filhos feridos
com mães destroçadas e ruas cruéis
retemos espinhos e cicatrizes de
chumbo
para ornamentar nossa bebedeira
confusa.
As lições da rua que não se pode esquecer
Nossa forma de amar reservada e cruel
a sombra da besta espreitando o quarto
esperando por um intervalo para fazer seu trabalho.
Olhar para a frente e avançar
com quimeras e e versos
nas pétalas do olhar.

terça-feira, dezembro 01, 2009

Um breve cumprimento

Com um suave cumprimento
eu me despeço do dia.
Me despeço das rosas
e dos punhais escondidos.
Eu espero uma manhã de horror
em que acordarei sem pescoço,
com asas de inseto,
um uniforme escuro e um lugar
entre os mortos.
Todas as noites eu me nutro de lama
engordo com um repasto de sombras
enquanto defendo o que me resta
do inferno, o que me falta do mêdo,
o que sobra em mim de poesia...
Da poesia que aprendi pelas ruas,
dos salmos que decorei trabalhando,
dessa coisa forte e selvagem
que não vai entregar os pontos
tão fácil.

quinta-feira, novembro 26, 2009

Para completar tudo aquilo
ele estava de pé.
Com um senso de honra e um brio
diante do que ocorria.
Diante do dia-a-dia,
dos casos em que falta a grana,
em que é preciso rastejar por comida
como eles faziam
com um imenso sorriso nos dentes.
Seria mais simples absolutamente
rendido
sem oferecer resistência,
cair aos pés da demência
trepar com a covardia.

quinta-feira, novembro 19, 2009

O pensamento é uma atividade muito tola. A autoridade é apenas um derivado dessa tolice. um subproduto que cultivamos cuidadosamente e que termina por nos esmagar dentro de um universo de tolice, loucura e rídiculo. Abrimos as comportas do poder. Inventamos a internet, a democracia, a bomba atômica e o triptanol 25. O mundo parece mais seguro e talvez seja mesmo. Longe de mim critica-lo. Todos temos agora nossa cota de poder. Um blog para cada feudo, uma musica para cada maldito mal-amado perseguido pela imagem de um pai ou uma mãe a quem precisa exigir amor, mesmo que essa carência esteja nas sombras. Ninguém pode fracassar, pois as raízes da vida encontram-se enterradas no lodo de um passado onde só existe fúria e pressão. A autoridade é a porta de saída que todos estão procurando. O poder é um dos nomes dessa autoridade. Não podemos nos dar ao luxo de baixar as armas, de olhar atônitos para o breve intervalo indizível que chamamos de momento.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Sobre o poeta

"A voz do poeta necessita ser não meramente o registro e testemunho do homem, ela pode ser uma das escoras, o pilar para ajudá-lo a subsistir e prevalecer.”

William Faulkner

Sob uma colina olhando a cidade

Do interior de nossos dias no tempo
não sairemos inteiros.
Tocados pela garra do evento
não sairemos inteiros.
Amarrotados pela pressão externa do encontro
não sairemos inteiros.
Ninguém haverá de escapar
ninguém poderá exclamar
não existirão escolhidos
nada escapará ao ocaso
e a penumbra nos envolverá as pupilas
como um sopro de escuridão e tristeza.
O orvalho pendente nos ramos,
o brando descanso das pedras
e a terra finalmente deserta
coberta por um silêncio que lembrará um sorriso.

segunda-feira, novembro 09, 2009

Olhar

Talvez seja vão
como vãs são todas as coisas
para apreciar o seu corpo
para me saciar do seu olhar
nas indas e vindas incertas de um pulso
que lhe envolve a cintura para sussurar
eu te amo.
Para me afligir na distância
e iluminar-me na santa loucura
de encontros e despedidas
no espaço breve de nossas vidas.
que na verdade se chocam
famintas do que temos a dar
um ao outro em siêncio
no breve espaço de amar.

domingo, novembro 08, 2009

Crepúsculo afetivo.

Quando ela escorre para outros abraços
é quando desesperado
me deparo comigo.
Me deparo com as coisas desarrumadas
com maus presságios e sombras nas mãos.
Entrar novamente nos cobertores sem ela
abandonar-me aos impulsos destrutivos
da poesia arrogante
que não cessa de me charfudar no remorso.
Quando a luz do olhar que ela me dá se esvai
e entra na noite
eu me esgueiro para o leito herdado
onde cultivo cuidadoso o meu fim.

terça-feira, novembro 03, 2009

Wu

O beijo da vida virá a mim
na forma imponderável de uma manhã
lilaz.
Eu me levantarei sobre os calcanhares para ver
os estádios esvaziados e a multidão silenciosa
a força do infinito e o punho do momento
a gritaria do pensar no salão do pensamento.

Enquanto estupefata você estará admirando
o sorriso inútil de um malmequer
cansado.

quando eu não mais temer a morte.
quando eu já não ambicionar a vida
quando o amor brotar do cume dos meus olhos
como uma super nova sem destruição
eu irei tomar a sua mão
e finalmente estar contigo inteiro.

domingo, novembro 01, 2009

Calendário

Para passar nossos dias aqui estamos,
Espalhando palavras que não se juntam em frases;
falamos,
Erguendo super-mercados, ostentando igrejas, lavando carros
e nos unindo em cópulas cegas
para ensurdecer o vazio.
Para darmos origem ao tempo
Para que funcione um mecanismo de força
E uma lógica de intenções.
Faces enrijecidas e precoces vidas breves
Condenadas pelo ataque geral das coisas.
Na argila maleável que preenche os intervalos,
no limbo da vontade da qual emerge nossa dor,
no tateio resoluto através do qual me oponho;
Com uma proposição sentida no peito devastado
E com o pássaro que agoniza e se transmuda em
Gente
Eu firmo meu estado em meio a multidão.

quarta-feira, outubro 21, 2009

Seda

Eu conheço uma garota da seda
com asas de bruma arrastada nos ventos
um fardo de dor e uma canção
composta em noites de lamento e cansaço.
Ela possui um olhar orvalhado
uma chaga divina e um passado confuso
de fendas a farpas fincadas na fé.
Ela se levanta e apanha uma flor
seu dedo envolve o caule do espinho
deixando a magia tombar na poeira
de um drama sem centro onde a plateia evadiu.

domingo, outubro 11, 2009

Tragicomédia em dois atos.

porque será que não fiquei surpreso quando ela me contou que teria que partir? Foi numa noite de segunda feira quando eu tinha acabado de chegar do trabalho, moído e cansado como sempre.
A fumaça do cigarro voava pelo ar e a musica do Hank Wiliams procurava me lembrar sobre o funcionamento das coisas. As vezes ela aparecia do nada, entrava pela porta da minha vida, ficava uns dois dias e sumia novamente, um estrondo de mulher. Linda como a aurora, doce, inteligente e (coisa rara) com senso de humor. Era casada. Seu marido era um intelectual menor, escritor de contos enfadonhos, filho de papai, liberal e pouco atencioso. Ela dizia que tinha sede de descobertas. Queria se permitir alguma coisa intensa como o que eu a fazia viver. Sabe, talvez você não entenda, mas sou um garoto da favela e quem vem de lá, se não morre cedo, aprende que nada de bom dura muito ou é dado de graça. Por isso quando me era dado o milagre de estar ao seu lado eu procurava dar-lhe o melhor de mim. É claro que uma hora a coisa ia desfazer-se como uma gota de orvalho exposta ao sol. A família, não sei exatamente como, a pressionava de muitas formas e talvez os sentimentos dela em relação ao casamento não fossem muito claros; uma mulher sem contradições não é uma mulher. As coisas vem e vão e depois de um bom número de perdas o sujeito já não tem energia para gritar contra o universo. quem perdeu pouco durante a vida ainda se queixa por muito tempo de um fracasso novo. Ela desapareceu na curva do horizonte deixando em seu lugar uma tristeza seca e sem recursos. Uma velha garrafa de vinho barato, há muito tempo na estante me olhou e eu retribuí aquele olhar. Retirei a tampa, dei uma golada direto no gargalo e a embriaguês foi se aproximando esguia e sedutora. aos poucos fui me convencendo que tinha sido apenas um delirio e comecei a rir compulsivamente. Realmente era bem patético um decadente como eu achar que aquela mulher poderia instalar-se entre minhas traças, meus delírios e demônios. Eu ri e gargalhei enquanto o vinho ia se esvaziando, mas não foi com o riso que meus lábios bebâdos adormeceram.

quarta-feira, outubro 07, 2009

A suspeita Parte I

Luciana debatia-se com a tarefas do seu lar. Tinha acordado cedo, levado os flhos para a escola, a preparado o almoço. Todavia, todo seu esforço para manter a casa em ordem até a chegada do seu marido tinha sido em vão; mais uma vez ele iria almoçar na rua. Seu coração premeditava alguma traição do Arnaldo, embora durante todos os anos de convivência ele sempre tenha se mostrado atencioso, afável e companheiro. "Afavel até demais". Ela pensou. Não seria isso também um sinal de traição? Essa dúvida lhe corroia as entranhas há meses. Como saber? Já revirara seus bolsos, carteira e até havia conseguido a senha do email de Arnaldo, mas nada de conclusivo. Apenas combustível para novas suspeitas. Perdia-se assim nessa diagações quando alguém lhe bateu a porta. Lavava os produtos do almoço e imaginou tratar-se de mais um vendedor que vinha lhe oferecer algum produto inutil para os seus propósitos. Qual foi sua supresa ao deparar-se com um sujeito muito elegante, vestido em um terno preto, de óculos escuros e com o cabelo penteado para trás.

-Boa tarde- Ele disse.
-Boa tarde- Ela respondeu desconfiada.
-Sou um prepresentante, e vim fazer-lhe uma irrecúsável proposta.
-Olha moço não estou interessada em comprar nada.
-Nem eu em vender senhora. Trata-se de algo muito mais sério e interessante- Falou isso como um tom jocoso, com um sorriso dissimulado que deixou a dona de casa apreensiva.
- Se o senhor é da policia....
-Nada disso - O homem de terno a imterrompeu continuou- Venho lhe fazer uma proposta. Trago comigo dois envelopes. Em um deles a senhora terá a resposta para todas as perguntas que for capaz de formular antes de abri-lo. No outro a senhora irá descobrir como ser feliz e ter uma vida tranquila. Todavia, devo lhe lembrar: ao abrir o envelope das respostas e outro automaticamente terá seu conteúdo convertido em uma página em branco.
-Olha se isso é algum tipo de brincadeira....
-Não é brincadeira alguma, nem lhe custará nada. Aqui estão os envelopes.

Estendeu os dois envelopes pardos na direção de Luciana que ainda atônita os segurou com incerteza. Em seguida o homem deu-lhe as costas e saiu. Luciana continuou parada olhando-o sumir-se na esquina. Ao se recobrar do susto o sistema corretivo de seu entendimento rapidamente a convenceu de que se tratava de uma brincadeira. Certamente uma piada de algum amigo ou parente. Isso não evitou que ela sentisse uma súbita compulsão para abrir os envelopes. Mas...E se ele estivesse falando a verdade? Seria Terrivel se ela perdesse a maior chance de sua vida. Mas, qual seria essa chance? Saber a verdade ou ser feliz?

A onda

No transportar-me de mim para o outro,
muito me perco a custo tão alto.
Perco a memória dos dias sem pão,
as noites imensas em que sustentei o combate
o silencioso valor da solidão cultivada.
As ruas ensinam lições
que as familias não podem ensinar.
As ruas ensinam que existem perigos
as ruas ensinam que existem sentenças
para cada aceno de afeto e auxilio
para cada deleite e encontro entre os corpos.
Uma vida de fardos, as cores da noite
e os vários amigos que foram esmagados
pela loucura.
Como dizer isso a elas?
como sintetizar na palavra a mudez
egoista de quem se vê diante de uma onda gigante
que descerá o seu punho sobre nossas cabeças.
Não haverão avisos...
Não existirão presságios...
E quem presenciou o processo não pode fazer conçessões.

sábado, outubro 03, 2009

Diagnóstico.

Noites e noites para beber
E pouco tempo para aprender a jogar
Para saber que um homem precisa
Poupar os punhos, esquivar.

Noites e noites para beber
E pouco tempo para aprender a amar
Para devorar o desespero e a angustia
E conservar o brilho no olhar.

Noites e noites para beber
nenhuma placa para indicar
O caminho para os defuntos da praça
O ópio para os viciados do altar.

Noites e noites para beber
E quase nada para cobrir o luar
Para anestesiar a mordida dos fracos
O ressentimento dos que não sabem lutar.

Noites e noites para beber,
E apenas uma chama a queimar
A vontade faminta de vida
O desejo insano de estar.

quarta-feira, setembro 23, 2009


Poema - Charles Bukowiski

Uma breve reflexão sobre a democratização da arte.
é muito fácil parecer moderno
enquanto se é o maior idiota jamais nascido;
eu sei; eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas;
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou-
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim-
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando a saída- portanto saia logo
e desista das
poucas preciosas
páginas.

terça-feira, setembro 22, 2009

O relacionamento de Krishnamurti II

O banal é nossa vida. O prosaico é onde residimos. As sensações são a substância de nosso entendimento. Ansiar por algo mais do que isso talvez seja algo bem próximo de uma violência contra si-mesmo, mas é claro que eu posso estar enganado. Meus dias finitos, meus temores noturnos, a memória das dores, a voracidade das paixões, os acasos dos encontros: este são os campos onde colho a mim mesmo. Talvez eu ainda me imponha padrões e apenas por isso o arrependimento me encontre nas esquinas do depois. Mas isso não quer dizer nada. Uma falsa cobrança não sanciona uma punição ao presumido devedor. No entanto isso não implica que não seja possível a dor pela ilusão da regra engendrada por nossa insegurança. Estar vivo, como um indivíduo de carne e ossso, movido pelas mesmas forças que movem os outros corpos...Ninguém escapa a isso e Krishnamurti não foi uma excessão.
Agora mesmo bilhões de seres humanos erguem outras tantas instâncias onde esperam evadir-se da incerteza que caracteriza o percurso. A carreira, a igreja, o casamento, a inteligência: fortalezas levantadas contra a condição de estar e todos nós apenas estamos, não existe o SER.
Por tudo isso permaneço contingente. Por tudo isso transito ignorado. Krishnamurti me deu uma ultima lição: Aprendi que sou e posso ser apenas um homem, e que nada do homem me é estranho.

"Eu sou o Incriado de Deus, o que não teve a sua alma e semelhança
Eu sou o que surgiu da terra e a quem não coube outra dor senão a terra
Eu sou a carne louca que freme ante a adolescência impúbere e explode sobre a imagem criada
Eu sou o demônio do bem e o destinado do mal mas eu nada sou."

Vinicius de Morais

segunda-feira, setembro 21, 2009

Judeu errante - Vinicius de Moraes



Como se sabe o Judeu errante é um mito Israelita sobre um homem que foi condenado a vagar sem morrer até o dia do Juizo final. Tornado símbolo do romantismo essa figura chamada AHASVERUS está presente em poemas de Castro Alves, Augusto dos Anjos, Álvares de Azevedo e na prosa de Machado de Assis. O judeu errante é o cético inadaptado, eleito para uma vida longa e sábia, mas condenado a incompreensão e isolamento.

Hei de seguir eternamente a estrada
Que há tanto tempo venho já seguindo
Sem me importar com a noite que vem vindo
Como uma pavorosa alma penada.

Sem fé na redenção, sem crença em nada
Fugitivo que a dor vem perseguindo
Busco eu também a paz onde, sorrindo
Será também minha alma uma alvorada.

Onde é ela? Talvez nem mesmo exista...
Ninguém sabe onde fica... Certo, dista
Muitas e muitas léguas de caminho…

Não importa. O que importa é ir em fora
Pela ilusão de procurar a aurora
Sofrendo a dor de caminhar sozinho.

O relacionamento de Krishnamurti

Não sei porque escrevo tópicos tão longos se sei que ninguém lê textos em blogs com mais de quatro linhas. Talvez seja uma forma de conversar comigo mesmo. Um narcisismo insuperável como alguém observou.Todavia, devemos insistir em nossas idiossincrásias ou não poderemos justifica-las mais adiante. Gastei alguns bons anos de minha vida estudando assuntos religiosos. De Tomás de Aquino ao Budismo eu transitei entre muitas das diversas opções de religiosidade disponíveis em nosso mercado global. Tinha acesso a esses livros através de bibliotecas publicas e centros espiritas. Não dispunha de dinheiro, roupas ou meios de transporte para viver as experiências sugeridas por essas religiões para além do que elas podiam oferecer em forma de textos, mas mesmo assim fui bem longe. Espiritismo, Teosofia, ocultismo e alguns autores como Huberto Rohden que tentam fazer uma miscelânea de filosofia oriental e teologia ocidental, Magia, Ufologia e muitas outras propostas de sucesso existencial de baixo custo.Durante essa época minha vida pessoal era bastante turbulenta, não vou falar disso aqui, meus contos dão uma breve noção do que estou dizendo. Fato é que as contradições filosóficas e práticas em relação ao pressuposto básico que norteava essas aventuras intelectuais foram se acumulando de tal maneira que numa certa altura elas se tornaram, em bloco, absurdas para mim. É de Nietzsche a afirmação de que Deus é uma hipótese que ninguém pode beber sem se afogar. Acho que estive bem perto do afogamento, e após conseguir arribar a uma praia procurei conservar uma atitude de indiferênça em relação a quaisquer credos religiosos. Em outro momento explicarei isso melhor (se tiver paciência).
Todavia, nessas andanças conheci um sujeito chamado Krishnamurti. Dentre os sábios cheios de resposta a maioria das perguntas Krishnamurti destacava-se por apenas perguntar, e deixar que cada um encontrasse a sua resposta. É claro que ele partia de alguns pressupostos que filosófos treinados jamais admitiriam, mais isso não importava. Sua liberdade, originalidade e autenticidade superavam qualquer limitação argumentativa que pudesse ser apontada pelos devotos do conceito e da razão ocidental. Krishnamurti foi a preciosa peróla que eu trouxe de meu quase afogamento experimental. Essa peróla me ajudou e eu a interpretava como um convite a crença em mim, na minha solidão e sinceridade silenciosa. Mas um dia eu descobri que Krishnamurti tivera um relacionamento sexual com uma mulher que era esposa de um amigo.
No primeiro momento isso me chocou. A ultima expectativa de auto-realização supra-sensivel de desfazia, ou pelo menos, era colocada sob uma atroz suspeita.
Mas eu reponderei. Talvez a humanidade de Krishnamurti, seu amor por uma mulher de carne e osso, e ainda mais, um amor que contrariava os vínculos arbitrários criados pelos homens nada mais fosse que a sinalização do que entendi de suas palestras: não existem faróis para nos guiar, nem normas que não sejam aquelas que encontramos sozinhos. Falando filosoficamente talvez a descoberta sobre o caso de Krishnamurti tenha, ao invés de apagar a esperança de atingir o transcendente, me dado a dimensão exata do valor e inocência do natural, sensível e prosaico.

domingo, setembro 20, 2009

Consideração sobre a tempestade.

Quando considero a casa onde nasci
E os abraços onde me guardei brevemente
Recobro um sentido perdido
E uma asa de instante sem tempo.
Eu espero e escrevo
Como esperei e escrevi tantas vezes
E meu percurso é mais um exemplo da chama
Que consome e alimenta a história.
Nos buscamos e nos evitamos
Oscilamos sedentos com foices para aniquilar o
Espectro
Atingindo a face de outros
Dizimando milhares auroras
Esmagando sob os pés horizontes.
E pasmo eu também dou meus golpes
E sedento eu sorvo essa lama
Para acalentar a rota perdida
E naufragar no deserto da vida.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Para refletir sobre força e fraqueza

Há quem diga que a pobreza produz virtude. Há quem diga que o sofrimento torna as pessoas melhores. Eu discordo. A dor não gera nada senão mais dor, e a pobreza por si só não diz nada, depende de quem passa por ela. É verdade que quem leva a vida com muitas facilidades geralmente acaba tornando-se relaxado. Nisso as pessoas não são diferentes dos animais. A facilidade de sobreviver atrofia as faculdades combativas mas as difuldades excessivas torna-nos neuróticos, auto-complacentes e descuidados. Força ponderada é o 1º requisito da capacidade da confiabilidade.Os menores animais são os mais perigosos. Os ricos geralmente não tem nada senão o dinheiro mas os miseráveis possuem mil e uma estratégias para conseguir aquilo que a sorte, ou a tolicie lhes negou. As vezes estas estratégias nem são conscientes. O sistema auto-regulador do prazer destas pessoas aciona comportamentos cegos dos quais eles(ou elas) nem se dão conta. Conheço um sujeito muito dependente da mulher que toda semana afirmava que iria se separar,e nessa semana ficava doente.

domingo, setembro 13, 2009

No fio da navalha

Terminei aquele dia analisando um conto de terror que não colocaria medo nem em uma criança. Saí da redação esgotado, desejando ardentemente chegar em casa, tirar os sapatos e beber uma geladissima cerveja. Sim ,pois apesar dos males conhecidos do álcool existem males ignorados que solicitam o seu recurso gelado e cego recurso . Os males antigos e sem nome e os males recentes e com nome, olhos lindos e um corpo de estalar o espírito. Estes últimos me afligem muito mais. Aflige-me a perspectiva da dor. Aflige-me a infidelidade possível de quem sei atrair outros homens. Sobretudo, no entanto, afligi-me a expectativa do encontro. Dei a volta no prédio e peguei o carro. NA rua todos tentavam ser bem sucedidos e ninguém admitia ser ultrapassado. A linha do oceano acompanhava o vidro lateral do meu carro. Ao chegar e minha caótica casa eu sabia que iria novamente afundar lentamente na desconfiança, na embriagues e no auto-erotismo com o qual satisfazia o meu corpo da ausência do dela. E ela? Onde estaria agora? Provavelmente em casa, vivendo sua vida oficial enquanto eu, o seu amor ilícito apodrecia em minha fome esperando que ela me viesse alimentar. Eu também sou como aqueles fracassados que sonhavam em ser escritores. Eu apenas tentava amar, apenas tentava, sabendo que não conseguiria.
Cheguei em minha casa. Abri a porta e o cheiro de comida estragada me recebeu. Algumas contas sob a assoalho. Tudo muito feio e normal .Fiquei de cuecas, e sentado no sofá, liguei para o celular dela. Caixa postal. O pensamento viajou e eu me senti mal duplamente. Mal pela dor moral da perspectiva do engano e mal por saber que nada me dava o direito de recriminar o gozo alheio. Remoi o meu rancor e abri uma cerveja. Também acendi um cigarro. Sentei no sofá e cochilei algum tempo. Ao acordar a primeira coisa que fiz foi olhar o relógio. Duas horas depois do horário marcado ela ainda não tinha chegado. O pensamento mais uma vez saiu do controle. Ia ligar novamente quando a campanhia tocou. AO abrir a porta com a mão ainda meio estremecida seu perfume me invadiu as narinas. A arrebatei entre meus braços enquanto sugava sua boca, tomava um dos seios em minha mão e com o pé esquedo fechava a porta. Fechava a porta atrás de toda agonia vivída, fechava a porta a qualquer tipo de bom senso.

sexta-feira, setembro 11, 2009

Viabilidade (Trecho I)

A montanha de textos ergue-se sob a minha mesa. O trabalho parece infindo. Afastei-me por dois dias alegando dores abdominais e agora preciso encarar todo serviço acumulado. Uma babel de pseudo-literaturas, poesia barata, artigos tolos e todo o tipo de porcaria. Todos querendo ser publicados. Todos querendo ser vistos. E Cabia a mim dizer não ou sim a cada uma destas pretensões, não por reconhecer que têm talento, mas apenas por considerar que se poderia vendê-las ou não.
-Bom dia seu Oliveira! Melhorou do fígado?
O ofice-boy passa por mim e pergunta com desdém, eles sabem que meu fígado não é o problema, o meu problema real é a bebida e fazem piadas sobre isso nos intervalos. Todavia, eles mal sabem o quanto estão enganados. A bebida é tão somente um sintoma, meu único problema verdadeiro é o medo. Aliás não só o meu, mas o de todos nós eu acho. O medo leva as pessoas a casarem, terem filhos, adorar a Deus, revoltarem-se ou no auge de todo temor se tornarem escritoras. Sim, o medo. Ficaria uma tese ontológica formidável: "O medo como substrato e thelos da consciência de si". Mais seria só mais uma forma de tentar escapar ao medo.
Bom, não adianta ficar divagando. O trabalho exige urgência. Só preguiçosos e ricos podem dar-se ao luxo da divagação. Coloquei a mão na massa. O primeiro material da pilha era um resumo sobre um romance. falava sobre um relacionamento amoroso interrompido por uma morte trágica. O namorado tinha morrido em um acidente de carro e a garota se isolava em uma ilha deserta onde vivia estranhas experiências extra sensoriais. Me pareceu uma porcaria. A forma de usar a linguagem era óbvia, o tema era apenas um apelo espiritualista superficial conjugado com uma concepção muito tradicional de afeto. todavia, era exatamente isso que as senhoras estavam comprando atualmente. Coloquei o selo de OK em cima do texto e o empilhei na bandeja: Para entrevista.
O próximo texto era sobre um jovem muito tímido e anti social que refugiara-se no mundo dos livros e que cultivava um certo desdém em relação as pessoas. Não havia um único dialogo na trama. O jovem se apaixonava, mas não dizia isso para a garota. Ele pensava nela "abstractamente". O jovem se achava um fracassado, mas com certeza achava as outras pessoas bem mais fracassadas que ele. O jovem não dizia mas achava que era um gênio. O jovem também associava o sexo a pulsões animais e vergonhosas. Devido a isso ele também não conseguia amar as mulheres que a ele se ofereciam carnalmente. Para ele estas eram apenas maquinas de sexo. Coisas para serem usadas. Sujeito doente, eu pensei. Me veio a cabeça alguns conhecidos que pensavam exatamente daquela maneira. Isso, eu creio, talvez até venda. Tem muito mais gente doente como esse sujeito. Por outro lado, eu pensei, quem pensa dessa maneira já tem Baudelaire, Albino Forjaz e Schopenhauer para os divertir. Não, é inviavel comercialmente, concluí. E ademais, também não gosto desse pessoal pretencioso que acha que pode lançar na lama tudo que as outras pessoas aspiram e amam, só porque eles leram um ou dois livros. Coloquei o selo vermelho escrito NÃO sobre o texto e o enviei para a bandeja: Inviável.

quinta-feira, setembro 10, 2009

A suspeita Parte I

Luciana debatia-se com a tarefas do seu lar. Tinha acordado cedo, levado os flhos para a escola, a preparado o almoço. Todavia, todo seu esforço para manter a casa em ordem até a chegada do seu marido tinha sido em vão; mais uma vez ele iria almoçar na rua. Seu coração premeditava alguma traição do Arnaldo, embora durante todos os anos de convivência ele sempre tenha se mostrado atencioso, afável e companheiro. "Afavel até demais". Ela pensou. Não seria isso também um sinal de traição? Essa dúvida lhe corroia as entranhas há meses. Como saber? Já revirara seus bolsos, carteira e até havia conseguido a senha do email de Arnaldo, mas nada de conclusivo. Apenas combustível para novas suspeitas. Perdia-se assim nessa diagações quando alguém lhe bateu a porta. Lavava os produtos do almoço e imaginou tratar-se de mais um vendedor que vinha lhe oferecer algum produto inutil para os seus propósitos. Qual foi sua supresa ao deparar-se com um sujeito muito elegante, vestido em um terno preto, de óculos escuros e com o cabelo penteado para trás.

-Boa tarde- Ele disse.
-Boa tarde- Ela respondeu desconfiada.
-Sou um prepresentante, e vim fazer-lhe uma irrecúsável proposta.
-Olha moço não estou interessada em comprar nada.
-Nem eu em vender senhora. Trata-se de algo muito mais sério e interessante- Falou isso como um tom jocoso, com um sorriso dissimulado que deixou a dona de casa apreensiva.
- Se o senhor é da policia....
-Nada disso - O homem de terno a imterrompeu continuou- Venho lhe fazer uma proposta. Trago comigo dois envelopes. Em um deles a senhora terá a resposta para todas as perguntas que for capaz de formular antes de abri-lo. No outro a senhora irá descobrir como ser feliz e ter uma vida tranquila. Todavia, devo lhe lembrar: ao abrir o envelope das respostas e outro automaticamente terá seu conteúdo convertido em uma página em branco.
-Olha se isso é algum tipo de brincadeira....
-Não é brincadeira alguma, nem lhe custará nada. Aqui estão os envelopes.

Estendeu os dois envelopes pardos na direção de Luciana que ainda atônita os segurou com incerteza. Em seguida o homem deu-lhe as costas e saiu. Luciana continuou parada olhando-o sumir-se na esquina. Ao se recobrar do susto o sistema corretivo de seu entendimento rapidamente a convenceu de que se tratava de uma brincadeira. Certamente uma piada de algum amigo ou parente. Isso não evitou que ela sentisse uma súbita compulsão para abrir os envelopes. Mas...E se ele estivesse falando a verdade? Seria Terrivel se ela perdesse a maior chance de sua vida. Mas, qual seria essa chance? Saber a verdade ou ser feliz?

(continua)

terça-feira, setembro 08, 2009

Fantasias

Nunca mais ouvi falar a respeito dela. Acho que cansou-se das minhas inconstâncias, ausências e queixas ou quem sabe era o meu desempenho físico que já não a satisfazia. Mas não cabe culpar, só posso acha-la muito razoável, não importa o motivo. Existem tantas carências a determinar nossas escolhas que não posso recriminar nenhum dos possíveis motivos femininos. Tampouco posso dizer que é como se nada tivesse acontecido. Coloco-me diante das coisas com a sensação da destruição iminente. Tudo para mim é urgente e intenso. Não sei lidar com leveza e despreocupação. Em cada jogada aposto todas as fichas e isso me atrapalha, tanto por me deixar sem cachê para outras apostas importantes quanto porque isso me deixa realmente esgotado. Saí de casa a noite para espairecer as ideias. O senhorio deu o ultimato de desocupação do imóvel. Meu ultimo salário desemprego acabaria dentro de uns dois ou três dias. A chance de eu conseguir ganhar alguns trocados com o que escrevia era também muito remota. Ao contrário do que Genet, Bukowiski ou Artaud diziam não existe nenhum charme em ser um vagabundo incompetente para o sucesso social. Se tal sucesso dependesse de algum tipo de doença eu a contrairia com a máximo prazer.
Vi uma placa flutuando na escuridão anunciando algum tipo de emprego. Me aproximei e vi que se tratava de um pequeno pub, destes que a rapaziada descolada usa para divertir-se em grupo. Com as roupas desgastadas que eu estava usando certamente seria enxotado a pontapés caso resolvesse frequentar um lugar assim. Tudo era pintado de preto. A decoração era em estilo gótico, ou coisa parecida, o pessoal lá dentro cultuava a morte. Quando eu era muito mais jovem eu tinha a impressão de que viveria bem pouco. A morte para mim sempre esteve por perto. Não que eu fosse portador de alguma patologia terminal, mas eu tinha aquela inclinação bem romântica de que uma vida longa não fazia muito sentido. É claro que isso foi superado, até certo ponto pelo menos. Entre as indas e vindas de meus interesses essas inclinações também foram dividindo lugar com outras formas de lidar comigo mesmo. Uma certa forma de insegurança me levava a não querer estabelecer raízes definitivas em nada. Eu poderia dizer que minha vida e infância levou-me a isso como já fiz em outros textos. Não quero fazer isso agora. Lido melhor com a morte e com a vida hoje. Logo, esses guris trepando com tudo e com todos e cultuando a morte me pareciam algo bastante cômico, mas eu precisava de trabalho.
Me aproximei da recepção onde um segurança imenso recepcionava os convidados. Antes que eu pudesse abrir a boca ele me lançou um destrutivo olhar de desprezo.
-EU gostaria de me candidatar a vaga.-Eu disse.
Sem se dar ao trabalho de me dirigir uma palavra ele acenou desdenhosamente em minha direção pedindo que eu aguardasse. Fiquei ao lado da entrada fumando um cigarro e vendo aquela meninada criada a leite-com-pêra transitar de um lado para o outro fantasiada de roupas pretas, adereços prateados e maquiagem escura ao redor dos olhos. Não sabiam o que lhes faltava , não queriam saber o que lhes faltava , não queriam ter o que lhes faltava simplesmente porque precisavam acreditar que absolutamente tudo lhes faltava.
-Preencha essa ficha. - Disse o brutamontes ao (após meia hora) estender o pedaço de papel em minha direção. A ficha de candidatura a vaga solicitava dados como nome, endereço, idade etc. Um dos campos também perguntava: "aceita trabalhar fantasiado". Marquei o sim. Afinal de contas que diferença fazia? Não é isso que fazemos em qualquer trabalho?
Comecei a trabalhar na segunda. Eu era garçom e servia os drinks para a rapaziada gótica. As bebidas tinham nomes esquisitos tipo, Maria sangrenta, cabeça arrancada e coisas assim. A musica era horrivel. Faltava coragem, brio ou um desespero honesto. A pior parte era minha roupa. Eu trabalhava vestido com uma capa preta, uma gravata vermelha e uma peruca espetada. Me sentia ridículo como quando era obrigado a frequentar as igrejas protestantes do subúrbio para conseguir um beijo das garotinhas religiosas. Ao sair do trabalho estava moído física e psicologicamente, vocês não podem imaginar como aquela garotada bebia. Para chegar no ponto de ônibus eu tinha que passar por outros barzinhos onde um pessoal mais adulto procurava diversão. Numa destas passagens eu a vi novamente. Ela estava lá, sentada com um sujeito que, com certeza, não tinha que se vestir de palhaço para ganhar a vida. Muito sorridente e tranquilo, com aquele tipo de masculinidade óbvia no rosto que não deixa ninguém duvidar de que existe um caminho pronto para ele. Ela fingiu não me ver, menina esperta. Eu não consegui repreender um sorriso. De fato, apenas eu é que precisava vestir a fantasia para sobreviver, eles não precisavam, traziam uma de berço.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Efeito Suspensivo.

A cabeça anda partida. Sem muito ânimo para escrever, espero estar melhor amanhã. A palavra "problema" é muito vaga, nem sempre se basta. Todo mundo tem alguma teoria para se explicar, para trazer a luz o próprio sentido. Estou sem nenhuma agora. Até aceitaria se pudesses me emprestar alguma das suas. Prometo que devolvo amanhã.

domingo, setembro 06, 2009

No verão de 82

No verão de 82 meu avô não se sentiu muito bem,
e minha mãe dormia com comprimidos.
EU não fui a escola no verão de 82
pois faltavam livros e planos para nortear
meu conflito.
Eram fartas as lições de moral
e escassos os cuidados humanos
e eu crescia na umidade escura dos dias
como um feijão que brota da queda.
No verão de 82 eu não tinha amigos.
no verão de 82 eu escrevia poemas,
no verão de 82 os dedos me apontavam
e eu era a piada mais divertida da rua.
As passagens da noite eram muito frias
e eu tecia paraísos e fantasias
onde exercitava impotência.
No verão de 82 ninguém se importava
tudo estava mergulhado no caos de acidentes
sem fotografias para registrar a inércia.
No verão de 82 estão as longas raízes
estão as premissas de mim,
as razões de meus tolos amores
e dessa agonia sem fim.

sábado, setembro 05, 2009

Hipótese de mim

Soltaram-se de mim as plenas palavras
de mim se soltaram as luzes
claras,
restando somente poucas flores esparsas
apenas ervas danihas e farpas.


Precisarias de uma alma mais terna
para aproximar-se da colheita de mim.

Sobre a privação

Não seriam nuvens nem ruas,
sem a confirmação dos olhares,
sem o reconhecimento impresso
na retina de nossa emoção.
Sem essa sensação de derrota
não seria a despedida
a divisão entre dois momentos
que aniquilou minha fé.
Pelo teu olho de oceano
eu sustentaria o combate,
pela inquietação do teu ser
eu reverteria a dor
reverteria o instante afoito
condensaria nossa utopia
num gesto,
sem aquela tarde de adeus
eu seria um pouco mais EU.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Os diários existenciais (fragmento)

Deixei meus dedos correrem sem direção pelo corpo dela quente até que nua entorpecida se entregasse. Sorvi sua essência quente. Provei do seu gosto salgado. Esperei que estivesse estremecendo em convulsões alucinadas, para saber como um homem de verdade faz, acostumada que estava aos imberbes rapazotes da graduação. Contorceu-se enquanto caiam por terra todos os pudores e somente então a invadi com um gesto forte e firme. Até o fundo.
Ela gozou por todo corpo apresentando com uma evidência irrefutável da minha confirmação.
Eu quis levar adiante, apesar de não oferecer muitas opções de viabilidade social. Desempregado, com filhos e completamente envolvido em uma regularidade afetiva com outra pessoa que não pretendia abandonar. Mas saquei que algo tinha mudado quando o telefone dela ficou ocupado o dia inteiro e o meu não tocou de forma alguma. Mandei vários e-mail’s desesperados e rancorosos. Esgotei minha amargura com uma interlocutora que não respondia. Talvez eu tenha exagerado. Já fiz isso muitas outras vezes e por muito menos também. Eu tinha uma mulher, uma filha, a necessidade material para me preocupar, não deveria gastar tanta energia com o sexo aleatório. Mas gastava e para mim não era só isso. Nunca é. Tinha sido um lance incrível, com nossos corpos sedentos chegando lá, Baudelaire no pé do ouvido, Beatles, blues e Pink floyd com um vermelho por do sol... Mas ela tinha razão,e eu sabia. O tempo todo elas sempre tem razão...Só o derrotado romantiza a derrota lhe emprestando ares de grandeza. Mas quem faz isso sabe que engana a si mesmo...eu sabia. Ela tinha caído fora...e as pontas de cigarro espalhadas pelo quarto,as garrafas de vinho, baíra e conhaque dançavam uma valsa insana ao redor de minha cabeça...Velho fudido. Maquiavél de subúrbio, Sartre de favela, ultima palavra na boca moribunda do futuro, e no fundo, mas no fundo, bem no fundo eu permanecia o brilho cristalino de uma inocência singular.

domingo, agosto 30, 2009

Sobre a falta que faz.

Conflito contraditório no ser
de amar, de não poder
apertar o ser amado entre os braços.
A ansia de se dar é vencida
pelos fluxos antigos da vida
pelos muros que separam os espaços.

E o lábio, a pele a o peito
inquietos se agitam sozinhos
buscando o suave carinho
de quem conduz o desejo.

O desejo de se dar, é etermo
ultrpassa a finitude do tempo
nas asas da sua imagem, menina
é que voa o meu pensamento

quinta-feira, agosto 27, 2009

Bolero da suspeita.

Ontem eu dancei com uma linda aurora,
hoje eu me debruço sobre uma tormenta
escura
e por isso os céus se fecham como um punho ensandecido,
por isso as folhas se despedem com os lábios ressecados.
Ontem eu ouvi uma canção, hoje minhas camisas estão
amarrotadas
estão enlameadas por boatos, por resinas, por propósitos
suspeitos
e eu ainda não consegui me redimir perante o olho da plateia.
Pela estrada arrastei outros comigo,
foi uma tentativa vã e eu aboli as cercas
que separavam os girassois das contradições
insuperaveis.
Uma moeda para a caixa, um silêncio para o breve sucumbir
sem saudações para contornar rancores,
sem palavras para confirmar presságios.

quinta-feira, agosto 20, 2009

As possibilidades de Soraia.

Soraia refletia sozinha enquanto saia do trabalho cansada em direção a sua casa. O celular tocava insistente em sua bolsa e ela ignorava o som irritante porque mais irritante ainda seria atendê-lo. Ela sabia, que do outro lado da linha lhe aguardava a voz outrora tão agradável de Rafael, voz essa que agora lhe lembrava o sabor caracteristico de um purgante. Porque os homens eram tão previsíveis era algo que ela não conseguia entender. Primeiro apresentá-la aos amigos, depois pedi-la em casamento e finalmente planejar as crianças. Isso quando não tentavam através de algum estúpido artificio engravidá-la pedindo para não usar camisinha. A rua não estava muito movimentada e o trânsito relativamente tranquilo lhe permitia refletir enquanto dirigia, fumava um cigarro e ouvia Marvin Gave. Pior que essa sede de família do Rafael era a fissura dele e de todos os outros homens pela fidelidade. Talvez saudades do colo materno, ou sentimento de culpa por não terem sido cristãos como seus pais e avós, ela não sabia. Achava muito estúpida a exigência da exclusividade corporéa como condição sine qua non da virtude feminina. Soraia, todavia, não se importava muito com isso. Se eles a obrigavam a mentir exigindo-lhe uma renuncia que ela julgava particularmente estúpida, tudo bem. Havia um preço a pagar, ela sabia disso, via em suas amigas padronizadas e homogêneamente fieis um tipo de estabilidade que ela não tinha, e as vez invejava. Mas sua sua vida era breve, sua juventude também. Logo tornaria-se uma anciã a realizar-se com bazares beneficentes, causas sociais e roupas de tricor para os netos, se os tivesse, claro. Não, ela não iria desperdiçar os seus anos depositando-os aos pés de um homem erigido em divindade. Queria fruir os momentos , sorver a polpa das horas, talvez até por um tempo relativamente longo com um único homem, mas não gostaria de fechar-se para outras oportunidades. Ela parou no sinal. A rua ladeava a praia e o final da tarde parecia-lhe muito bonito. Resolveu estacionar e toamar uma cerveja. No bar voltado para o poente um rapaz muito bonito parecia muito concentrado lendo um livro. Ela sentou-se na mesa em sua frente. A tarde oferecia interessantes possibilidades.

quarta-feira, agosto 19, 2009

êxtases

A labareda das horas consumia os granitos. Eu tive o corpo dela se contorcendo em meus braços e hoje é até dificil de acreditar. O momento é fugaz, o prazer nos escapa, mas subimos as escadas do hotel em uma tarde linda de transgressão e poesia onde tudo seguia com naturalidade. Existem pessoas que não acreditam, existem aquelas que só apostam em seus temores retraindo-se ao quarto cinzento para desfrutar da calmaria opaca, recoberta pela poeira dourada de uma velha virtude. Nós não éramos assim.
Dois animais de fogo voando no céu perigoso da entrega sem certezas. Almoçamos com naturalidade. Ela me falou um pouco da marca cega do passado que lançava uma sombra cinza em seu olho de oceano. Eu lhe retribui falando também um pouco do meu trajeto escuro pela sombra e pela luz. Rimos de outras coisas menos sérias. Nossas mãos deslizaram magnétizadas até convergir. A onda louca começou a erguer-se do meu peito como um grito ancestral que bramia na furia de um milhão de ondas. Eu a despi com gestos e lhe beijei os lábios com minha boca sedenta. A luminosidade das nossas sensações irrompeu através da fibra de nossos corpos que vibravam de eletricidade em uma violenta dança na busca da redenção. Tomei os seus seios nos lábios, suas coxas me envolveram os quadris, suas mãos apertaram as minhas e eu vi sua pupila em faiscas enquanto invadíamos as fronteiras da eternidade.
Ela tinha o corpo quente e um jeito sutil de entrega. Ela arfava tão frágil sob minhas penetrações invasoras e no entanto sua força enchia o quarto do extâse das tempestades. Meu suor ao dela se misturou, minha mente rememorava outros mundos onde juntos atravessamos desertos imensos, onde a asa da dor nos atingiu abraçados, onde partilhamos estradas que as palavras não ousam submeter. A musica dos movimentos cresceu elevando-se do fundo silencioso de nosso espírito até a corrente de luz romper-se em gozo...O gozo implosivo das constelações em um eterno momento onde tudo era paz.
Tomamos banho felizes e a tarde findou com o ruido do vento nas folhas das amendoeiras e o burburinho da tarde em direção ao crepúsculo. A distância esgueirou-se por entre as dobras do tempo carregando nos ombros a fuligem das convenções que terminaram por sepultar aquela nossa magia. O granito indiferente digeriu nossa chama e o óbvio consumou-se novamente.
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