segunda-feira, outubro 31, 2016

Na Terapia.

Agora os piores dias já passaram, não há porque falar de tudo aquilo novamente. Não seria honesto da sua parte. Seus problemas agora se parecem cada vez mais com os problemas de todas as pessoas. Você ouviu a voz do bom senso, tentou ser justo para com suas próprias necessidades e com as necessidades alheias. Evitou os caminhos tortuosos, manteve sua palavra, deu escolha às pessoas e foi prático. Sim. Você fez tudo desse modo não fez? Foi a um psiquiatra, fez Yoga, terapia e quando o peso foi muito grande você não se embebedou como fazem essas pessoas de pouca visão; você tomou os comprimidos receitados para a ansiedade, para a culpa, para a dificuldade de dormir. Você tentou ajudar quando pôde, se esforçou para fazer um bom trabalho. Agora quase tudo parece certo em sua vida. Você está melhor a cada dia. Vive em uma casa ampla e iluminada e não em um subsolo escuro; repleto de livros e poeira. É verdade que há muito tempo você não escreve nada autêntico com mais de dez linhas. É verdade que você hoje teve uma noite péssima porque sua médica começou a diminuir a dosagem de seus comprimidos. ´Também precisamos encarar o fato de que você parece quase incapaz de sentir tesão por qualquer pessoa, atividade ou pensamento. Mas esses são estágios intermediários em seu processo. Afinal, você não está completamente anestesiado não é? Você desfruta, eventualmente, de alguns momentos de carinho e ternura na companhia de sua namorada, correto? Você também fica feliz com a alegria de suas filhas e sofre quando sabe que elas estão sofrendo. Você também não é completamente indiferente às lutas de seus irmãos. É tudo uma questão de tempo e as coisas irão gradativamente se acomodar em um padrão mais equilibrado, sem tanta intensidade, sem tanta frieza.
Sei, você acha que não vai acontecer desse modo. Acredita que algo aí por dentro ficou terrivelmente comprometido por suas escolhas ou por seu destino. É natural pensar assim, já que você não se acha merecedor de nada de bom. Sabe, as vezes nós nos defendemos da alegria. Como assim? Bem, é relativamente simples. Para acreditar que merecemos coisas boas nós precisamos acreditar, em primeiro lugar, que essas coisas boas existem ao nosso redor e que elas também estão disponíveis para outras pessoas. Se a criança, visando defender-se das frustrações, desvalorizar  os bens do mundo que a cercam ela também irá desvalorizar a si mesma;  o sentimento que a criança tem de si mesma depende em grande medida das experiências produzidas por sua relação com o mundo que a cerca.  Quando desertificamos nosso mundo lhe tiramos o poder que ele tem de nos decepcionar, mas também lhe tiramos a capacidade de nos alimentar. Muito poético? Apenas mais uma explicação? O que você acha que pode conseguir além de explicações? Há, você gostaria que eu conseguisse compreender, descrever, exatamente como você se sente. Você acha que assim se sentiria menos só, menos perdido? Sei. Todos pensamos isso. Mas, se minha explicação anterior estiver correta, há um obstáculo que inviabiliza a realização desse seu desejo. Se de fato você desvaloriza tudo que lhe cerca, como eu disse antes, você também irá desvalorizar todas as minhas tentativas de descrever sua experiência pessoal. Por sentir-se permanentemente ameaçado você sistematicamente evita e rejeita todos os movimentos do mundo em sua direção. Como um rei que sofre da ilusão de governar apenas uma população de miseráveis esqueletos você é ao mesmo tempo o homem mais poderoso e o mais miserável do reino. Não há cura, pois pouco ou muito todos sofremos de algum tipo de delírio. Contudo, existem possibilidades de alívio se quisermos abrir mão de nossa posição segura em nosso trono e ir aos poucos travando contato com as coisas reais, que não são nem esqueléticas nem divinas. O mundo real da ambígua condição humana.

Bem, acho que nosso tempo acabou. 

domingo, abril 20, 2014

Aos pedaços



Então você vai dormir, exausto e desgastado, e acredita que terá um noite de sono profundo; no entanto sonha. Você está sendo fatiado, eviscerado, mas não sente dor. Seus pedaços deslizam por uma esteira onde milhares de outros pedaços também estão deslizando. Seu braço agora está na altura de sua cabeça, do lado direito, e do lado esquerdo sua coxa mutilada também desliza e você pensa "eu até que tinha pernas bonitas." 
Então alguém pega sua coxa direita - só agora você percebe como seus pedaços são pequenos - e a coloca em uma lata de sardinhas ao lado do seu braço esquerdo. Você vê o cuidado da pessoa que faz isso e fica agradecido pensando " como seria ruim se ela deixasse um dos meus dedos de fora da lata." 

Você vê um óleo sendo derramado sobre seus fragmentos, em seguida a lata é fechada. Chega a hora de sua cabeça. Os dedos imensos te pegam e colocam na lata. Você até que sente um alívio. "pior era ficar sendo arrastado e mutilado na esteira." Depois vem o óleo e a escuridão. 

Você acorda. Tenta se levantar: não consegue. Seu pescoço doí quando você tenta virar. Está ali, de barriga para cima como uma tartaruga estúpida que foi vítima da brincadeira de um garoto mais estúpido ainda. Você gostaria de se lamentar, de pedir ajuda, mas se limita a suspirar e sorrir com sarcasmo dizendo para si mesmo:



- Está ficando cada dia mais engraçado

segunda-feira, janeiro 20, 2014

Como vencer Sendo um Perdedor.

Nunca me senti muito a vontade entre outras pessoas.  O pouco de  sociabilidade que tenho hoje foi resultado de um longo e penoso esforço para direcionar minha misantropia incontornável.  As salas de aula foram meu primeiro contato com o inferno.  Simplesmente detestava a escola. Não gostava, principalmente,  do permanente clima de competição entre as pessoas; aquilo me cansava,  me moia por dentro, e me fazia detestar ainda mais os espaços públicos.  Mas era inevitável que eu acabasse participando de algum modo daqueles jogos, era isso ou o ostracismo, o subsolo do inferno. Não preciso dizer que sempre me dei mal nessa tentativa,  e não era o único. Havia um outro garoto,  acho que o nome dele era Gilmar. Era um garoto magrela, de grandes orelhas, e um nariz que sempre era alvo das maiores gozações. No futebol sempre levava rasteiras, ou pior,  ninguém o escolhia e ele ficava no canto comigo em silêncio.  Não havia dúvida,  Gilmar era,  assim como eu, um grande perdedor. Mas havia  uma diferença importante entre nós dois. Enquanto eu me lamentava ou  escrevia poesias Gilmar nunca dava a impressão de que estava na lona. Se alguém fazia uma piada sobre  seu imenso nariz ele fazia outra ainda maior sobre o mesmo assunto.  Se alguém falasse de sua magreza ele, com toda certeza,  tinha algo bem escroto para falar sobre isso. Gilmar não perdia tempo se lamentando ou tentando impressionar.  A atitude dele  deixava todo mundo atônito.  Não disputava as garotas mais bonitas,  ia sempre certeiro naquela que ninguém queria chamar para dançar e a tratava como uma princesa, de modo que as bonitas acabavam ficando com inveja.  Gilmar tinha estilo.  Sempre estava no chão,  mas aprendeu a fazer dali um lugar  bonito, digno, honrado. Com aquele garoto eu aprendi uma das grandes lições de minha vida. Nunca o vi falando mal dos garotos que se davam bem, nem das garotas lindas que não lhe davam condição. Seguia em frente, se virava como o que aparecia, e se em algum momento ele chorou ou ficou desesperado, nem eu nem ninguém jamais soube nada sobre isso. Aprendi a respeitar aquele sujeito. Ele de fato sabia como ser um perdedor com a maior elegância. Com ele aprendi a fazer dos meus fracassos excelentes exercícios para o meu estilo.Nesse exato instante em que lembro das lições de Gilmar eu estou entornando a minha terceira garrafa de vinho, sozinho e  destruído. Há algumas horas atrás, quando uma garota  me disse que não queria mais me encontrar, eu não lancei nada de triste ou dramático sobre ela;  apenas falei coisas leves sobre a necessidade de viver  novas experiências e sobre o quanto queria que ela ficasse bem.  Acho que até comentei algo sobre um livro fantástico que ela deveria ler e também sobre a minha necessidade de fazer uma longa viagem - que não iria acontecer, claro -   em breve, de modo que a separação iria ocorrer de um jeito ou de outro.  Ela desligou o telefone sentindo-se uma boa pessoa, com certeza, mas eu fiz isso sentindo-me um velho fracasso, mas é claro que ela não soube nem vai saber nada disso. Meu antigo amigo sentiria orgulho de mim se pudesse me ver agora. Quase consigo ouvir ele me dizendo: 

"Nada de dramas irmão, esses filhos da puta não merecem  o banquete de ver os deuses rastejando."

Ele sabia que as pessoas não tinham nada a ver com esses cancros. Sabia manter as coisas leves e deixar que seguissem como  pudessem ser. Com toda  certeza ele sabia que  mundo era inocente  e que, se não podemos evitar a dor, pelo menos podemos ter o pudor de mastigá-la e digeri-la sozinhos, ou apenas com algumas garrafas de vinho. E isso não me parece pouca coisa, pelo contrário, me parece que é a única coisa coisa digna a ser feita, a ação decisiva. 

E lá vou eu para a próxima garrafa. 

sábado, dezembro 28, 2013

EU OBSERVO



Há noites que eu não posso dormir
 de remorso por tudo o que eu deixei de cometer.

As piores noites são aquelas em que só se ouve o miado dos gatos no telhado. Talvez essas noites sejam tão ruins  porque o barulho que vem do desespero dos vizinhos pelo menos serve para   me preencher com uma imensa sensação de que ainda sou humano; quando me faltam esse ruídos sinto-me meio oco. Eu sei que dizer isso assim pode parecer um pouco cruel. De fato, é cruel sim, mas fazer o que? Dizem que o nosso prazer sempre depende do desespero de outra pessoa. Contudo,  eu não posso ser responsabilizado pelo desespero deles. Sim, disso eu não tenho nenhuma dúvida. Eu apenas moro no mesmo prédio que eles. A culpa das suas aflições devia ser creditada a inúmeras e complexas outras causas entrelaçadas,  vícios e fraquezas, vaidades e ilusões...enfim à várias formas de pequenas limitações que eram potencializadas pelo acaso e pelo azar. Eu apenas sentia prazer em perceber-me em cada uma dessas aflições. 
Por exemplo, no apartamento do meu lado esquerdo mora um casal. Ele trabalha em uma oficina mecânica, ela queria ser dançarina quando era mais jovem. Ambos se conheceram em função do circulo que frequentavam no ensino médio. Eles não escolheram se encontrar, o encontro aconteceu por acaso. Da mesma maneira foi por acaso – por pequenos acidentes e variações afetivas -  que os dois se mantiveram juntos por quase 10 anos (sei disso por causa das discussões, porque só moro nesse prédio a 10 meses). Ela vive triste, com a sensação de que sua vida se esvai e se esgota sem nunca culminar na realização de seus sonhos. Ele bebe muito com os amigos do trabalho. Acho que também não gosta da vida que leva. Ambos tem medo da vida lá fora, de não encontrar outra pessoa, de não conseguir seguir em frente. Eles tem 03 filhos. O salário dele é muito baixo, e eu ouço quase toda noite os dois se golpearem com palavras, como coelhos dentro de uma armadilha, se machucando contra  uma situação da qual não existe saída.
No apartamento da minha esquerda mora um aposentado, um homem relativamente velho, embora ainda em forma. Recluso e pouco sociável, ouvi dizer que era um professor aposentado e escritor. Nunca nos falamos.   Às vezes eu podia ouvir o barulho de sua máquina de escrever. Às vezes o barulho de uma garrafa sendo jogada na parede ou da música “A Cavalgada das Valquírias” podia ser ouvido no começo da madrugada, mas essa não era a melhor diversão. Minha parte preferida do show começava quando ele ligava para uma de suas namoradas. Geralmente ele namorava garotas bem mais jovens, e, como seria de se esperar, muitas delas simplesmente não o levavam a sério. Aquelas que eram bacanas com ele acabavam sendo punidas pelo comportamento de suas antecessoras cruéis. Quando ele ligava para uma dessas namoradas sempre era possível ouvir os seus gritos na noite:
-Porque não atendeu o telefone? Onde passou a tarde toda?
As vezes as brigas eram em seu apartamento mesmo. Podíamos ouvir seus xingamentos através da madrugada
-Maldita puta! Está me dando corno não é? Eu sei que está! Quem é aquele maldito bombado com o qual vi você ontem? Seu primo? Acha que sou idiota?
Essas discussões alimentavam a imaginação dos outros moradores do prédio. Eles especulavam os motivos das brigas e a maioria concordava que as meninas só procuravam o velho por causa de seu dinheiro. Eu nunca aceitei essa tese. Para mim o velho tinha uma certa magia, um ar de mistério e força que atraia as garotas como a luz atrai as mariposas. O problema é que o efeito da atração não era grande o bastante para sobrepujar o efeito de outras forças muito mais fascinantes, como a juventude, as festas e a beleza: elementos que faltavam na vida do velho. Enfim, penso que algumas delas gostavam mesmo dele, mas só por alguns breves momentos, logo elas percebiam que a vida tem atrativos maiores que o misterioso fascínio daquelas paredes cobertas de livros e de antigas batalhas.

Em noites como essa de hoje eu às vezes posso ver o velho na varanda fumando um cigarro e olhando para o vazio. Sua solidão dentro da noite se parece muito com a própria noite, os poucos sons de gatos que preenchem o silêncio só ampliam de um modo absurdo o imenso vazio do espaço. Hoje ele não está lá. Talvez esteja dormindo com uma nova namorada e, momentaneamente, esquecido desse silêncio horrendo que cerca sua pequena ilha de luz. Ambos sabemos que trata-se apenas de um intervalo, de uma breve trégua, e que o caos logo irá brotar novamente em seu coração fazendo romper-se as antigas cicatrizes. Mas por ora, pelo menos, tudo está bem para ele, mas não para mim. De fora das suas amarguras, das amarguras de todos, eu sou aquele que observa essa e muitas outras formas de oscilação lenta e constante. Variações previsíveis, ciclos intermináveis de luta e paz, que eu observo de fora e por isso mesmo não me surpreendo com nada. Nenhuma dor me surpreende, nenhuma decepção me atormenta, pois eu já as vivi na vida daqueles que observo vivendo ao meu redor. Por isso é que a dor deles me dá uma sensação de humanidade e na ausência de um novo drama só me resta meu próprio drama incompreensível para preencher a noite. 

domingo, dezembro 22, 2013

Para falar de Laura.

Porque estou sentado em frente a esse computador frio escrevendo sobre Laura? Talvez porque minha vida atualmente esteja tão sem graça como quando a conheci. Eu me lembro daquela garota como quem se lembra da primeira visão do oceano depois de cumprir anos de prisão. Lembro-me de cada pedaço de seu olhar infinito, de cada misterioso balançar de cabelo; garota cheia de vida que queria descobrir um pouco mais de cada coisa.  Quando a conheci eu era um sujeito de 40 anos, dando cursos de filosofia para jovens estudantes de direito, envolvido em um casamento que mais parecia uma insípida e complicada armadilha. Eu já havia entregado as pontas, desistido de sonhar  os poucos sonhos que haviam sobrevivido aos dias de penúria e ressurreição. A turma da qual Laura fazia parte não era das melhores, nem ela era uma aluna particularmente exemplar. Na verdade, eu tinha essa impressão, ela detestava filosofia e eu adorava saber disso. Pensar que aquela linda garota, enigmática e doce estava se aproximando de um quarentão decadente sem se impressionar com os milhares de livros que ele havia lido me deixava fascinado. Laura e eu conversávamos horas e horas sobre coisas absolutamente leves e sem profundidade. Tinha menos da metade de minha idade e era linda... Sim, mais bonita que qualquer outra garota com a qual eu poderia ter estado, mesmo em meus sonhos.  Não nos prometíamos nada,  não falávamos de amor,  de paixão ou de futuro. Também não nos perguntávamos um ao outro sobre os detalhes de nossas vidas.  Eu me sentia leve e mais vivo falando sobre coisas engraçadas ao invés de dissertar longa e cansativamente sobre o significado de tudo, como costumava fazer com as outras pessoas.
-Eu preciso de um dicionário para falar com você. – Uma vez ela me disse.
-E eu de um escudo.
-Porque um escudo? – ela perguntou fazendo uma linda cara espantada.
-Porque esses olhos podem de abater como uma metralhadora antiaérea.
Ela ria de minhas piadas de homem velho. Dávamos longos passeios pela praia e uma vez, apenas uma vez, passamos uma quente tarde chuvosa  juntos.  Aquela tarde foi um milagre. Em algum lugar do universo, eu imagino, um velho e furioso engenheiro estava revendo seus projetos e gritando para os seus subordinados:
-O que deu errado nessa maldita engrenagem? Como é que vocês deixaram um velho patético e derrotado conquistar o lindo e virtuoso coração de uma garota como essa? Vamos, vamos consertar isso, senão todo mundo perde o  emprego!
Mas apesar de todas as leis da física afirmarem a impossibilidade de um encontro entre nós dois, foi naquela  tarde de trabalho e de chuva que, inesperadamente, ela deslizou para mim. Silenciosa e com um milhão de astros a pulsar por detrás do olhar ela me presentou com um raríssimo vislumbre do que deve ser a felicidade; misteriosa, esquiva e imensamente corajosa nos gestos...o relato que agora lhes vou contar é o testemunho de uma aurora no céu de um homem feliz só por poder recordar.
Nossas agendas estavam apertadas e aquela era a única oportunidade que iria surgir para nos encontrarmos em condições apropriadas. Marcamos na esquina de uma rua onde morava um amigo que me havia cedido o apartamento para nosso encontro. Não sei por que um motel não me parecia adequado para aquela ocasião.  Achei que ela estaria nervosa ou envergonhada, mas não estava. Se alguma ansiedade inquietava seu peito ela conseguia disfarçar muito bem. Subimos para o apartamento, mostrei-lhe a casa e o quarto. Sentamo-nos na cama e nos beijamos de um modo suave.  Já experimentei diversas variedades de mulheres e com essas mulheres um infinita diversidade de formas de entrega; modos relutantes de chegar ao coito,  jeitos violentos de pedir pela posse, rituais complexos para chegar ao sexo.   Contudo,  nada do que vivi se assemelhou ao modo como ela se deu pra mim.  Foi incrível  a ternura com a qual lhe abri botão por botão a leve blusa que lhe cobria os lindos seios enquanto sorrindo ela me observava, como se cada gesto fosse decisivo. Depois de abrir  a sua blusa eu a olhei nos  seus olhos e vi que  reluziam, mas ela estava  insondavelmente tranquila.  Não sentia medo do macho supostamente voraz, não estava insegura diante do homem com o dobro de sua idade do qual sabia tão pouco.  A sua beleza frágil  criava um desnorteante contraste com aquele rosto tranquilo de quem estava no controle de tudo.  Eu estava fascinado! O restante de sua roupa e da minha desprendeu-se de nossos corpos como as folhas no outono caem das árvores.  Complemente nus fomos ao encontro um do outro mesclando em cada gesto fome e ternura,  cuidado e violência; ela sabia me sugar como ninguém antes já o tinha feito.  Eu lhe retribui o carinho beijando cada centímetro de seu corpo moreno, de seus seios bem modelados, passando minha língua em torno do bico e em seguida abrindo minha boca molhada sobre eles Vi que ela gostava daquilo. Os sinais de sua excitação estavam em seus suspiros, em seus olhos levemente abertos e na ponta dos meus dedos que começaram a passear levemente por suas coxas até atingir o meio de suas pernas. Alisei-a enquanto sugava os seus seios deixando-a se contorcer um pouco mais com tudo aquilo. Não havia como ficar mais excitado, algo em mim queria invadir aquele corpo esguio e suave como um bárbaro invade um templo; por outro lado um apetite de beleza me dizia para prolongar tudo aquilo. Milagres não costumam se repetir e era preciso marcar com o fogo da beleza todas as imagens daquela inusitada aurora, por isso prologuei um pouco mais a exploração de seu corpo levando a minha boca do caminho de sua coxas até o centro quente e molhado do seu prazer. Suguei Laura durante bastante tempo. Deixei que ela se contorcesse alisando os seios enquanto apertava sua bunda e afundava meu rosto mais e mais entre as suas pernas. Deixei que ela se contorcesse mais um pouco e então subi docemente, beijando-a, e coloquei a ponta do meu pênis bem de mansinho na entrada de sua vagina. Senti que ela tremeu e suspirou. Fui penetrando-a aos poucos, aumentando o ritmo com o tempo, enquanto coladas nossas bocas se confundiam em um interminável beijo quente. Perdi a noção do tempo em que durou essa maravilha, bem como das formas diferentes que usamos para conectar nossos corpos. Foi doce, foi terno, foi violento e safado como devem ser as coisas honestas entre um homem e uma mulher sadios. Seu corpo se contorceu, enroscando-se no meu e eu finalmente, com um espantoso urro primitivo gozei entre as suas pernas como se tudo em mim estivesse se desfazendo no vácuo.
Cai de lado exausto, pleno, satisfeito. Jovialmente Laura se virou para mim, sorriu, e me disse: “tenho que ir”. Mais uma vez ela  me surpreendia. Que garota era aquela, livre e segura que fazia amor e ia embora como se cada coisa tivesse seu tempo e sua hora para começar e para terminar?  Nunca soube responder essa pergunta. Ela se levantou, foi ao banheiro, tomou banho e vestiu-se. Levei-a até a porta e me ofereci para lhe pagar um táxi.
- Não. Não quero que você pague nada para mim. – Foi sua resposta.


Laura partiu. Eu ainda fiquei naquela sala por vários minutos, sentindo sua presença, fantasiando que algo de sua essência permanecia pairando sobre aquele lugar. Depois fui embora, retornei para minha vida previsível de professor e nunca mais um milagre daquele se repetiu. Não nos vimos mais, exceto nos corredores da faculdade e nunca mais ela tocou no assunto. Também não fiz isso. Não queria estragar momentos tão mágicos ao forçar a barra para tentar repeti-los. Laura seguiu seu caminho. Não sei se os outros homens que ela teve sentiram-se tão maravilhados quanto eu me senti. Não sei se eles se consideraram felizardos, como eu me considerei. Acredito que não, mas posso estar enganado. Hoje me contento em lembrar daquilo tudo como um tipo experiência que nos faz seguir em frente, que serve como uma espécie de “sim” gritado pela boca da vida. Onde quer que Laura esteja, espero que ela tenha a mesma alegria com a qual me presenteou.  

domingo, dezembro 01, 2013

Tenha o medo.

- O pior que pode acontecer a um homem é parar de ter medo, ou não ser corajoso o bastante.  - ele  começou a falar enquanto dividíamos um cigarro em um banco de praça. - Mas coragem é de nascimento, o medo não. Por isso é que digo que o pior que pode te acontecer, irmão, é você parar de ter medo. Veja o meu caso, fui casado 8 vezes. Em toda ocasião, quando terminava um relacionamento, corria para os braços de outra mulher. Quando a merda toda explodia novamente eu pensava "não quero mais saber disso tudo, foda-se! De agora em diante vou ficar somente com as putas!" Mas logo em seguida vinha o medo, vinham os domingos de cachaça e depressão. Eu me via envelhecendo sozinho, sem uma mulher para aparar os cabelos do meu ouvido, para me avisar sobre o cheiro de urina na roupa. E o que eu fazia então? Corria para um desses bares descolados, desses bailes imbecis e arranjava outra mulher. Poucos meses depois todo o ciclo se repetia, vinham as brigas por eu não me dobrar à certas convenções, vinha o tesão esporádico por alguma dona que me cruzava o caminho, enfim, toda essa coisa natural que a humanidade inventou que era pecado. O resultado? Eu estava na rua de novo. Eu não tinha medo o bastante para me dobrar a ponto de caber na cela e não era corajoso o bastante para ficar fora dela, mas essa coragem não se aconselha. Ou você tem ou você não tem. Por isso eu prefiro sugerir o medo. Aprender a ter medo é mais fácil.  

O cigarro acabou, nos despedimos e eu fui embora. Ele continuou lá sentado. Quando passei pela praça de novo, horas depois, ele ainda estava sentado lá. Não esperava ninguém. Não contava com nada. Não morava na rua. Apenas estava sentado lá. Tudo o mais ao redor dele também estava apenas lá. Não se importava mais. O mundo, aparentemente, tinha caído sobre ele como uma tempestade de cachorros mortos e ele decidiu parar de lutar. Vasculhei os bolsos e contei os trocados. Eu tinha dinheiro suficiente para uma puta. 

segunda-feira, novembro 25, 2013

serenata da insônia.

As pessoas me encontram
forças do acaso e tratados
e me solicitam uma senha
que não posso escrever sobre a pele.
Ando muitas vezes quilômetros
Procurando por água potável,
abrigo para nossos fantasmas,
Arrancando questões como quem tem um filho.
Como posso conciliar minha sede
Com o desejo de um bosque de cedros?
E, no entanto, sou pútrido
Por ainda voar?
Nascido da morte, que esperam de mim esses nomes?
Alguém está de pé entre os vãos?
Ela fica me olhando com seus olhos perdidos
Suplicando por uma vértebra, um meio,
Mergulhada em  assombro e agonia.
Ao redor da noite correm
Silêncios
Temporais golpeiam as portas da frente
E tudo que eu tenho é a estrada:
A poeira e os sussurros do tempo
As coisas que aprendo da morte.

domingo, novembro 03, 2013

Instantes

Como amantes hesitantes, no começo
como cruéis inimigos, no durante
a vida como a guerra tem seu preço
na morte inevitável dos instantes.

sexta-feira, outubro 25, 2013

Chuva.

Lá fora chove
isso me traz poesia
mas o verso fica preso
num desabamento
junto com 07 famílias
que agora não tem
moradia.

Indra

-Essa é sua filha?
-Não. É a essência do meu coração que se emancipou.
 

Sexo Oral

Uma mulher estava há anos em estado vegetativo e demonstrou atividade cerebral incomum quando uma enfermeira lhe dava banho e, sem querer, tocou nas suas partes íntimas. Percebendo isso o médico chamou o marido da paciente e lhe relatou o fato, sugerindo em seguida que este, através de sexo oral, tentasse reanimá-la. O marido aceitou e foi deixado à sós com a paciente. Vários minutos se passaram e então o marido saiu do quarto todo suado e com a fisionomia visivelmente transtornada. O médico então perguntou:

- O que aconteceu? 

Gaguejando o marido respondeu:

-Fiz o que o senhor mandou, sexo oral nela, mas ela morreu.

-Morreu? Mas como?

-Engasgada.

Inveja

A inveja ainda é, mesmo nesses dias de relatividade moral, o mais tenaz adversário do auto respeito. O invejoso é atormentado pela sombra de quem ele detesta e admira simultaneamente e pelas mesmas razões. Quão grande deve ser o sofrimento desse indivíduo que carrega em sua pessoa um desejo inatingível de ser o outro, de destruí-lo, de lhe ser indiferente e de ser por ele reconhecido. O invejoso é a contradição em carne viva!

Argumentos e comichões.

-Você não vai convencê-los, não importa o quanto tente.
-Nem quero, trata-se apenas de perturbá-los. A calma complacente dos que tem certezas me incomoda, estou apenas retribuindo o favor. Sou um sujeito dado a reciprocidades.

Projeções e quedas

O nosso futuro é como um elástico invisível que a imaginação pinta e que o tempo dilata até o ponto em que se rompe, deixando tantas cores flutuando no vazio

Sobre revoltosos.

Uma vida em relativa segurança e com alimentação farta facilitam - mas não garantem - o germinar de pensamentos elevados, criando inclusive as condições para o heroísmo abnegado e a renúncia eloquente.

domingo, outubro 20, 2013

Pelo Canto dos olhos



Sair de casa, a partir de uma certa época, tornou-se um grande desconforto para mim. Não gostava de ver o rosto das pessoas na rua; pior ainda, detestava ter que, incidentalmente, falar com elas. Não sei explicar muito bem o motivo dessa minha aversão. Sempre fui muito falador, relativamente sociável, e até certo ponto muito bem humorado. Mas de uns tempos pra cá, não sei precisar quando, eu passei a evitar sistematicamente as pessoas e ficava furioso toda vez que um compromisso familiar, os cuidados com a saúde ou o qualquer outra ocupação me obrigava a deixa minha caverna. Eu, e mesmo assim a contragosto, achava que só deveria sair de casa para ir trabalhar. 
Na época em que vivi a estranha experiência que vou agora relatar eu morava em um velho edifício inacabado e com escadas assustadoras próximo ao centro de Salvador. O senhorio do prédio era um ex-policial civil que tinha uma irmã louca que vivia gritando pelos corredores. Gritava a plenos pulmões coisas desconexas sobre Deus  ter fodido com a vida dela, sobre Jesus ser uma cara legal, sobre os choques que levou na cabeça e muitas outras coisas bem menos razoáveis que essas das quais me lembro.  Me lembro também que naquele dia ela foi a primeira pessoa que tratei de evitar ao descer as escadas. Eu tinha que ir ao proctologista para que ele me examinasse as malditas hemorroidas. É, essas coisas me impediam de ficar sentado muito tempo e atrapalhavam o meu trabalho criativo. Eram como serras sendo enfiadas em meu traseiro nos dias difíceis. A saída seria a cirurgia, mas eu estava relutante em ser cortado nas partes baixas como se fosse um boneco de pano cujo enchimento tinha que ser trocado. O médico era um sujeito bacana, gostava de contar piadas machistas enquanto enfiava o dedo lá no fundo com uma mão e escrevia o diagnóstico com a outra. O escritório dele ficava na periferia e, como não tenho carro, peguei o ônibus no terminal central e me sentei em um dos bancos mais ao fundo como meus fones de ouvido para evitar que o “lixo local”, como dizia Nabokov, me invadisse os ouvidos.
Há dias que são estranhos e há esses outros em que enlouquecemos. Não lembro onde foi que ouvi essa frase, mas ela se ajustava perfeitamente ao que estava prestes a acontecer. Assim que sentei no banco percebi, pelo canto do olho, que o sujeito do meu lado me olhava com um sorriso um tanto estúpido na cara. Fingi não ter percebido e foquei meu olhar no vazio através da janela. Senti uma mão em meu ombro e pensei comigo “fodeu”.
- Juan Leon! Há quanto tempo!
Olhei o sujeito bem nos olhos, ainda assustado, estampei uma expressão plástica de riso amigável, como sempre faço nas situações sociais constrangedoras. O sujeito que sabia meu nome era moreno, baixinho, cabelos encaracolados  e uma barba mal-feita e pretenciosa, dessas que os estudantes de ciências-sociais costumam usar.
-Não se lembra de mim? Sou o Hernano. Trabalhamos juntos na W &A Uniformes.
Repentinamente uma torrente de lembranças reprimidas começou a jorrar do passado para minha cabeça. Lembrei do meu tempo de Continuo, das humilhações por causa das minhas roupas geralmente sujas e amassadas, da maldade fria e gratuita de D. Norma, D. Carmen e os outros chefes, todos muitos cristãos e benevolentes para quem não os conhecia, mas verdadeiros monstros de crueldades para os rapazes pobres que vinham vender sua mão obra a preço de banana. O Hernano havia trabalhado comigo, claro, lembro dele. Era um sujeito bonito, meio estúpido, mas as garotas não pareciam se importar com isso.
-E então Juan? O que tem feito da vida?
- Um pouco de casa coisa. Vendi armas no Zimbabwe, Trafiquei cocaína na Colômbia. Tentei entrar com revistas pornô no Irã, fui chicoteado, mas me liberaram depois que eu jurei que era fã do Bin Laden. E você?
-Irônico como sempre, hein sujeito – detestava quando ele me chamava de “sujeito” – Eu continuo na W & A. Casei com a Norma.
Por aquela eu não esperava. Ele havia se casado com a sua carrasca? Um caso de “síndrome de Estocolmo”?
-Casou? Que bacana! Olha, vou descer no próximo ponto. Foi bom te ver, um abraço.
-Vai descer no próximo, ah ótimo! Eu também!
Ferrou! Agora vou ter que conversar com esses fantasmas todos novamente, pensei. Descemos no ponto seguinte e fomos conversando sobre o passado. A perspectiva dele sobre tudo aquilo que nos tinha acontecido na W&A havia se modificado bastante. Seu ponto de vista de marido da ex-patroa não possuía os mesmos matizes horrendos que eu projetava sobre aqueles dias, portanto eu me calei e deixei que ele se gabasse das conquistas. Disse que o havia encontrado no ônibus por sorte – para mim parecia azar – pois seu Honda Civic (sim, ele disse o modelo do carro caro dele) tinha ficado no mecânico. Descemos a rua em direção ao consultório do proctologista que, por azar (para mim) era também o caminho para a casa dele. A casa dele era uma imensa e branca contrução na esquina de um bairro de classe média-alta. Ele me convidou para entrar e eu recusei. Aleguei que estava atrasado para a consulta, ele reiterou o convite. No meio dessa luta a esposa dele veio descendo as escadas ao nosso encontro. Norma era uma mulher imensa, cheia de sardas e com dois e imensos olhos verdes que a faziam parecer com alguns tipos de peixes das grandes profundidades do oceano pacífico.
-Olha amor quem eu encontrei no ônibus, o Juan Leon!
- Olá Norma...
-Leon, há quanto tempo! Porque nunca mais foi nos visitar lá na loja?

Pergunta imbecil. Quem é que retorna com prazer ao abismo onde foi torturado? A conversa continuou. Da parte dos dois. Eu ficava calado ouvindo e concordando. Vez ou outra eu olhava para o relógio, tentando demonstrar que logo teria que ir embora. De repente algo estranho começou a acontecer. Notei que só a Norma falava. No meio de uma frase dela Hernano as vezes tentava entrar na conversa mas a voz dela de levantava e ele retornava ao seu silêncio sorridente. Ela falava de como organizava a vida dos dois, da igreja evangélica que frequentavam, de como ele era desleixado e de como ela resolvia tudo, o que lhe custava muito trabalho, claro. Em uma dessas longas exposições da Norma eu olhei para o Hernano pelo canto do olho e o rosto dele pareceu-me estar deformando-se, como em um dos quadros do Eduard Munch, mas quando eu o olhava de frente parecia normal (exceto por aquele sorriso amerelo e aquele par de olhos vazios). Era algo desnorteante. Comecei a questionar o meu juízo. Experimentei esfregar os olhos e respirar fundo, mas nada funcionou. A Mulher de Hernano continuava falando, engolindo suas pífias tentativas de se expressar, enquanto pelo canto dos olhos eu continuava vendo seu rosto assumir diferentes contornos, cada um mais bizarro que o outro. As vezes se parecia com uma massa de modelar acinzentada na qual pregaram dois olhos arregalados daqueles que costumavam pregar nos ursos de pelúcia de má qualidade. As vezes se parecia com alguns alienígenas de desenho animado. Aquilo tudo foi me deixando zonzo e a mesma experiência se repetiu várias vezes, sempre com um padrão diferente. Um calafrio começou a me subir a espinha. Fiquei tonto e no meio de um dos extensos sermões daquele peixe horrendo eu me despedi e saí dali olhando o relógio como desculpa. Eles ficaram parados no portão, sem entender nada. Cheguei ao consultório suando frio e quase não consegui prestar a atenção nas recomendações do médico. Saí da consulta atônito. Não era exatamente um alívio saber que existem coisas bem piores que ter seu traseiro invadido pelo dedo de um médico. 

Texto e contexto.

O que somos, senão uma vã tentativa de não sermos mal interpretados?

segunda-feira, outubro 14, 2013

Talvez o fim chegue em breve, então todos estarão enganados.

Literatura

Para pessoas como eu, parece perda de tempo ocupar-se de literatura meramente para ver nas páginas do livro, nas peripécias dos personagens, a realização dos meus desejos ou a vitória final de minhas convicções. Para tais propósitos existem as novelas, as ideologias e a religião.

quinta-feira, setembro 19, 2013

O velho.

- Seja doce, mas também tente ser firme. - o velho dizia -  Na dúvida sobre ser firme ou doce sempre prefira ser firme.

Ela me dizia essas coisas entre uma baforada e outra do cachimbo de madeira enquanto apertava e enrolava uma madeixa do cabelo branco cada dia mais ralo.

Os velhos são maus conselheiros, meu filho. Os pais são suspeitos aos olhos dos filhos. São sombras do passado sobre o futuro, e o passado é sempre muito cruel . A imaginação precisa ignorar um pouco o passado para se lançar em direção ao futuro. Por isso os velhos são maus conselheiros aos olhos dos jovens, por isso os jovens são estúpidos aos olhos do velho. O passado é feito de dores, o futuro é tecido com sonhos. Os velhos aprenderam a ser firmes, os jovens gostam de orgulhar-se de sua doçura. O velho já foi jovem e o jovem vai envelhecer. O passado e o futuro dançam abraçados a todo momento. Tente ser doce, mas seja firme também. Não fraqueje, não oscile, não se abra, mas, mesmo tempo, tente não ser cruel ou indiferente. Simule um outro você que seja sensível e mantenha-se, no entanto, guardado e imaculado para não envelhecer com a morte dos sonhos. Vida a vida dos outros mas não espere muito dessa vida. Deixa sua doçura secreta, imaculada, guardada por dois serafins furiosos, e jamais deixe alguém passar por esses portões. Lá no fundo do vale deixe seu sonho. No mais seja firme e seja doce, mas não confunda nenhuma das suas coisas com o que você é realmente.

Eu não entendia o que o velho me dizia. Aquilo parecia-me muito complicado e secreto. Eu gostava de conversar com o velho. Os outros meninos não gostavam. Diziam que o velho era chato, dramático ou louco. Eu não achava. Gostava de conversar com o velho. Mas naqueles dia suas palavras me deram medo. Não dormi naquela noite. Soube que o velho tinha morrido alguns dias depois. Não fui ao enterro, mamãe não deixou. Nunca mais encontrei quem falasse  comigo como o velho falava. De algum modo que ainda não compreendo sentia que algo nele se parecia comigo. Depois que o velho se foi nunca mais consegui perceber esse tipo de identificação com ninguém.

sábado, setembro 07, 2013

Breve Tratado Sobre a Decomposição da Luz.



Já tive muitos momentos horrendos
Mas também dias de sol
Muito breves.
Eles chegaram e se foram
Como garrafas arrastadas pela maré
Para sempre.
Ela gostava de me ver acendendo um cigarro
Gostava de me ver escrevendo,
careca e barrigudo,
Achava charmosa minha decadência.
Possuía um par de oceanos furtivos
Tinha um ar de quem escondia um segredo
Sabia me cativar pelo toque
E fazia essa fúria constante dormir.
Um dia ela se foi sem alarde
Silenciou sem escândalo:
Desapareceu,
Saiu correndo,
Se foi.
Como tudo de doce que eu tive
Ela também escapou bem a tempo
Hoje, quando acendo um cigarro
(mas esse é o meu menor defeito)
Ainda lembro-me dela sorrindo
Extasiada e repleta
De amor.
Sim, ela  tinha o dom precioso
De ver aquilo que eu gostaria de ser.

segunda-feira, agosto 19, 2013

A tristeza não é um Problema.

A tristeza não é um problema
Os derradeiros problemas são as consequências
De não ser capaz de uivar com a matilha.
Todas as coisas que você suportou,
Toda privação, todo medo,
Toda desolação e luto,
Não se comparam as consequências
De não ser capaz de sorrir.

A tristeza não é um problema
O único problema é a solução
Que você encontrou para outros problemas
E que agora cobra seu preço.

Dia após-dia, hora após hora
Contraímos uma dívida para com o acaso
Acumulamos escolhas na caixa dos peitos
E essa coisa toda vai se avolumando
Até explodir em um destino, em uma loucura
Em um lar.

A tristeza não é um problema
Problema é não conseguir dar nome a nada
E olhar uma folha em branco e achar
Que tudo deveria ficar desse jeito.
Que as coisas não tem conserto
que o amor não é, não está, nunca foi.




segunda-feira, agosto 12, 2013

Acaso.

Não dou certezas
mas o que dá?
saberemos se foi eterno
quando acabar.

sexta-feira, agosto 02, 2013

O pior

O pior é a palavra estar morta
e suas flores não dizerem mais nada
o pior é o vazio desse canto
com ecos de uma valsa em vão
o pior é que sua faca não corta
o aço liso do  meu coração.

O pior é essa loucura sem trato
e essa performance vergonhosa
no amor
esse simulacro de alma que esconde
uma dor tão gemente e trevosa
que até minha treva sem paz
tem compaixão dessa espécie de dor.

O pior são os dias contados,
são as coisas que mentimos pra nós
é a fuga orgulhosa de todo passado
apertando a cada dia os nós
que nos arrastam calados
até esses momentos à sós.


O amor em tempos de modorra.

"Você não vê graça em nada", ela me falava com uma expressão preocupada e professoral que em nada me ofendia "leva uma vida vazia, entediante e sem ânimo". Seus olhos tão expressivos e tensos pareciam, de fato, enxergar minha alma melhor que eu mesmo. "simplesmente não posso continuar vivendo com uma pessoa que vive assim...sem paixão, sem sonhos." Eu não tinha muita coisa a replicar frente ao que ela dizia. Provavelmente tinha razão. Eu mesmo, as vezes, pensava daquele jeito sobre mim. Contudo, nem sempre isso me parecia mal. Não via como poderia ser de outro jeito. A vida me parecia na maioria das vezes um biscoito de água e sal sem sal. Em raras e breves ocasiões havia mágica e em ocasiões mais raras ainda...paixão. Mas, olhando em contraste, essa falta de ânimo era algo muito confortável quando comparada com o desespero de meus anos de juventude. Mas é claro que para ela, que me olhava sob a perspectiva otimista da liberdade de escolha, eu poderia deixar tudo isso para traz e viver no "presente", como se o presente fosse outra coisa que não uma montanha empilhada de passados. 
Em público, diante dos olhares inconvenientes, é comum sustentar algum tipo de confiança nas possibilidades do futuro, alguma forma de crença na capacidade de deixar o passado para trás, mas suponho que sobre os nossos travesseiros somos totalmente retrospectivos. Não só isso, como conceber que a mente pode ser outra coisa senão o resultado de uma síntese de passados? Cada um tenta fazer o melhor com o que tem, mas é tolice esperar que o resultado disso seja o mesmo para todo mundo. 
Tudo bem, acho que ela se importava e por isso se desdobrava tentando me convencer de que havia alguma coisa errada comigo. Provavelmente, cheguei a dizer isso algumas vezes, ela tinha razão, mas não sabia o que fazer a partir desse ponto. As pessoas esperam que você seja capaz de tornar-se algo novo porque elas mesmas esperam conseguir algo desse tipo, mas ninguém sabe como. Esse otimismo forçado é algo necessário, certamente não suportaríamos viver sabendo que a maioria das coisas não estão sobre nosso controle. Aliás, parece impossível admitir algo desse tipo o tempo todo. Ela sumiu e não fez falta, aliás, fiquei bem melhor, dado que já tinha aprendido a viver dia-a-dia ao invés de vida inteira.

quinta-feira, junho 27, 2013

A palavra

A palavra

Que a palavra seja reta
como flecha decidida
disparada pelo arco
da vida.

Saída de nossa boca
expulsa do coração
como o uivo noturno
de um cão.

Que a palavra venha forte
para os camaradas da trincheira
que olham nos olhos da morte
a companheira.

Que a palavra seja o momento
seja o instante e paixão
vivo, seco e fugaz
como a razão.

sábado, maio 04, 2013

Confronto

Várias horas em frente ao papel
sem pensar no sucesso, na salvação
na felicidade
ou no amor.
Apenas eu e a morte
olhando nos olhos
um do outro
procurando uma fraqueza
esperando a palavra
o momento
e a luz.
Nesse instante
o escritor é o deus
de um universo sem

um cachorro desprovido de pele
e uma flor amarela
tocada pela luz do luar.

quarta-feira, abril 10, 2013

Poesia essencial

Nunca confie num homem
que não gosta de poesia
ele tem uma alma amolada
uma cegueira no olho sombrio
matematicamente decente, é bem certo
contudo não desejarás tê-lo perto
quando te abraçar teu instante vazio.

sexta-feira, março 01, 2013

Próximo passo.


Preciso aprender que os horrores
Não me procuram na luz
Que não há mais caçadas
Que eu escapei são e salvo
 que posso ressuscitar os meus sonhos
E olhar na direção do horizonte
esperando embarcações e amores.
Eu ainda preciso relembrar tudo aquilo
Que ninguém deveria  esquecer
Parar de dar duas voltas na chave
De salgar as raízes das flores
De procurar proposições como lanças
Para combater os fantasmas das dores.
Eu preciso ser leve, talvez descuidado,
Diariamente menos sombrio e cansado
Com uma suave paz de hortelã
E talvez alguma fé no amanhã.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

Protesto.


As ruas e seu caos ordenado
As pessoas e seus planos traçados
A arte que não enternece
Nem mata
E por tudo que há
Se faz necessário
Um protesto


Contra o barro do mundo
Contra esse metal reluzente
Contra esses pactos medrosos
Contra essa matemática de amores

Contra essa pedra
Contra esse cal
Contra essa primavera de plástico
Contra essa pequenez de palavras
Contra essa pele sem chagas 

Não tenho nada a opor
Senão
a mim mesmo.

terça-feira, dezembro 25, 2012

Um conto de Natal


Nem tudo foi ruim em minha adolescência. Por exemplo, nos finais de semana eu ia nadar na pequena península chamada “baia dos tainheiros”  e depois  jogar voley na areia imunda da pequena praia que terminava nos pés da igreja de nossa senhora do Lobato. A agua já não era muito limpa naquela época, mas era a única opção de diversão para mim e para dezenas de outros jovens pobres em um bairro que não tinha sequer uma praça ou uma quadra de esportes. Era muito bom exibir o que eu achava que eram os meus dotes de nadador para as garotas. Claro, eu nadava tão bem quanto um macaco se afogando, mas eu não sabia disso. Claro que eu não impressionava ninguém, mas a expectativa de ser focalizado por um par de olhos femininos era muito boa. Um dia até consegui beijar uma garota na praia, quer dizer, quase beijar. Nesse dia eu estava com a máscara de mergulho do meu tio que eu havia pegado sem permissão. Me exibia com a máscara  diante dos olhares extasiados dos outros meninos. Até uma linda garota, com traços de índia, cabelos lisos e negros, me pediu para experimentar. Era minha deixa. Sugeri, grande capitalista que sou,  que permitiria que  ela usasse os óculos se me desse um beijo. Ela concordou, mas o beijo teria que ser embaixo d’agua para seus pais não perceberem.  Sem alternativas eu  aceitei , mas  a coisa toda foi bem complicada. A água era meio marrom e, como tinha emprestado a máscara  pra ela,  não dava pra enxergar nada lá embaixo. Quando eu mergulhava não conseguia unir nossos lábios no tão desejado beijo. Ela vinha ao meu encontro e eu me desviava tentando ir ao encontro dela. Uma breve alegoria do que seria a minha vida afetiva depois de adulto. Quando finalmente conseguimos juntar nossas bocas, o  nervosismo foi tão grande que dei um solavanco no rosto dela e a máscara de mergulho se perdeu no fundo lamacento da maré. Minha tarde havia acabado. Com o peito em frangalhos fui para casa imaginando como iria explicar ao meu tio que havia perdido a sua máscara de mergulho que ele sequer sabia que estava em minhas mãos.  Pior, havia perdido uma das poucas chances que até então tivera para beijar uma garota.

Uma outra chance dessas só ia acontecer no Natal. Apesar de detestar festas de final de ano em 1990 eu fazia parte de um pequeno grupo de dança. Alguns colegas haviam se juntado para ensaiar coreografias com musicas dos anos 60. Foi uma das poucas épocas de minha vida em que eu estava plenamente integrado com a sociedade, em que vivia cercado de amigos descolados, em que eu via garotas e cogitava a possibilidade de beijar várias delas. Na verdade havia uma menina em especial que parecia querer me beijar e apesar de estarmos em plena década de 90, para meus padrões retrógrados, um beijo ainda era muita coisa. Seu nome era Tatiane e era linda como um pôr do sol sobre um milhão de girassóis. No pleno esplendor de seus 16 anos ela era uma preciosidade. Loura, de cintura fina, seios pequenos, olhos levemente puxados e lábios bem desenhados que se abriam em um sorriso devastador para meu pobre coração de menino atormentado. A grande oportunidade de beijá-la iria aparecer no baile de natal onde o nosso grupo de dança iria se apresentar.  Mas havia um empecilho: o traje para a festa.  Acho que falei em outro lugar que eu só ganhava trajes  novos no natal, de modo que meu guarda-roupa se resumia na posse de uma ou duas calças jeans, três camisas, um par de sapatos (geralmente com o solado furado ou descolando) umas 4 cuecas (me envergonho de  comentar as pequenas dificuldades oriundas desse detalhe)  e 3 bermudas. Eu tinha uma tarefa terrível pela frente, convencer minha velha à me dar roupas de natal que servissem para o baile. Minha relação com minha mãe nunca foi das melhores, é verdade, mas nessa específica situação ela foi bem sensível e concordou em cooperar. No final de semana anterior ao da festa percorremos juntos toda a extensão da barroquinha e da baixa de sapateiros procurando uma combinação de calça-sapato-camisa-preço que servisse para os meus propósitos e para os dela também. Não foi fácil, mas achamos alguma coisa. Era óbvio que por aquele preço algo tinha que dar errado, mas eu não tinha condições de pensar nisso naquele momento. No dia do baile eu estava elétrico. Era a primeira vez que Juan Leon estava no centro da cena e não pelos cantos maldizendo o destino. A coreografia começou; ia tudo bem. As pessoas olhavam atentas os meus movimentos precisos como os de um Barishnikov da favela. Era a redenção. Imaginava-me dentro de “Os Embalos de Sábado à noite” e eu era o “Tony Maneiro”; a minha Olivia Newton John me sorria e dançava comigo colocando seu braço suave em torno do meu pescoço; eu era o homem seguro que a conduzia pelo salão. Em um dos movimentos da dança eu levantei a perna um pouco mais e a calça rasgou-se no fundo com um ruído desconcertante. Os demais não perceberam em função da altura da música, contudo eu sabia. O solado do sapato também começou a descolar mas com uma resignação estóica eu consegui manter o sorriso de plástico no rosto até terminar a dança sob aplausos. O pessoal foi para a mesa reservada para o grupo, elogiar-se mutuamente e colher os louros de suas performances. Eu me arrastei até o ouvido de Tatiane e lhe disse baixinho:  -Tenho que ir embora. Ela me olhou decepcionada e aquilo também devastou meu coração. Era a primeira vez que uma garota bonita esperava algo de mim além da distância. Mas não suportaria deixa-la saber do pequeno incidente com minhas calças e sapatos. Disse que havia torcido o tornozelo e por isso  estava andando daquele jeito curioso, parecendo um velho marreco. Despedi-me dos demais e fui para casa sozinho. Estrelas curiosas me olhavam da distancia. Acima delas alguém devia estar se divertindo muito. 

quinta-feira, dezembro 06, 2012


O fio  do seu riso me excita
Mel fresco banhando formigueiro
Minha boca saliva, o peito treme,
como amor apaixonado no chuveiro.

O desdém do seu olhar me estimula
me sacode as vértebras e o chão
ondas de luz derretendo esferas
flores flamejantes, lava vulcão.

Tigresa,


Se vieres descansar da ventania
na maciez desarrumada do meu leito
minha poesia te acolheria 
e afiarias tuas garras no meu peito.