domingo, abril 20, 2014

Aos pedaços



Então você vai dormir, exausto e desgastado, e acredita que terá um noite de sono profundo; no entanto sonha. Você está sendo fatiado, eviscerado, mas não sente dor. Seus pedaços deslizam por uma esteira onde milhares de outros pedaços também estão deslizando. Seu braço agora está na altura de sua cabeça, do lado direito, e do lado esquerdo sua coxa mutilada também desliza e você pensa "eu até que tinha pernas bonitas." 
Então alguém pega sua coxa direita - só agora você percebe como seus pedaços são pequenos - e a coloca em uma lata de sardinhas ao lado do seu braço esquerdo. Você vê o cuidado da pessoa que faz isso e fica agradecido pensando " como seria ruim se ela deixasse um dos meus dedos de fora da lata." 

Você vê um óleo sendo derramado sobre seus fragmentos, em seguida a lata é fechada. Chega a hora de sua cabeça. Os dedos imensos te pegam e colocam na lata. Você até que sente um alívio. "pior era ficar sendo arrastado e mutilado na esteira." Depois vem o óleo e a escuridão. 

Você acorda. Tenta se levantar: não consegue. Seu pescoço doí quando você tenta virar. Está ali, de barriga para cima como uma tartaruga estúpida que foi vítima da brincadeira de um garoto mais estúpido ainda. Você gostaria de se lamentar, de pedir ajuda, mas se limita a suspirar e sorrir com sarcasmo dizendo para si mesmo:



- Está ficando cada dia mais engraçado

Um comentário:

António Jesus Batalha disse...

Seu blog é encantador, estive a ver e ler algumas coisas, não li muito, porque espero voltar mais algumas vezes,mas deu para ver a sua dedicação e sempre a prendemos ao ler blogs como o seu. Se me der a honra de visitar e ler algumas coisas no Peregrino e servo ficarei radiante, se desejar pode deixar um comentário. Abraço.
António.