sábado, novembro 20, 2010

Permanência na terra

A rua barulhenta como sempre me faz lembrar da substância da qual as pessoas são compostas. Precisava me aliviar um pouco, muitas dúvidas, muitas incertezas. A dor pode até passar, algumas se vão sem deixar vestígios, outras nos acompanham para sempre; estas últimas se entrelaçam com aquilo que nós éramos antes delas nos alcançarem com os seus meandros. Ao olhar o rosto de uma pessoa você pode ter um pequeno mapa dos assaltos que a vida fez a uma alma, e as deformidades que tais golpes engendraram. Você vê uma criancinha sorrindo: Ainda não tem dores, ainda não recebeu os golpes, ainda não foi submetida as pressões e danos, exigências e entalhes, castrações e perdas. Em seguida você vê um adolescente: forja suas armas, testa novos esquemas para evitar o horror que ele já conhece. Procura estratégias para se fazer valer. Fortalece as suas posições através de conluios e associações, depreciações de coisas diferentes e as vezes uma certa crueldade. Então você vê um velho: a peça acabada, convicto das suas convicções, moralista até a raiz de sua medula antiga, as vezes invejoso daqueles que gozam o que já não pode, emprenhado em fazer a roda da dor seguir o mesmo curso, com todos os entalhes do destino gravados em sua face que reflete algumas vezes a ternura de um por do sol após uma batalha inútil.
É sempre assim quando me ponho a caminhar. Não importa muito o lugar para onde vou, meu caminho e sempre recortardo pela compreensão incômoda das pessoas que me atravessam o caminho. Com um emprego estável eu talvez não trouxesse a cabeça tão inquieta de reflaxões.As vezes sinto o dedo de velhas tragédias folheando novamente o livro desta breve vida. Em um pais tão fartamente repleto de perigos e de insanas coisas se passando a cada esquina a pobreza se parece muito mais com uma Geena assustadora. Contudo, não dá mais para prosseguir com esse desabafo tolo. Meu vizinho está despejando embaixo da minha janela alguns milhares de litros de música baiana. O mal cheiro da sexualidade reprimida, e portanto pútrida, em forma de estupidez verbal torna o ar irrespirável. Preciso levantar-me, fechar da janela e chamar Chopin para melhorar a atmosfera.

3 comentários:

Enzo de Marco disse...

hello meu grande irmão !!! não obstante desse mundo descrito por ti , vejo- me completamente atolado nesse grande e atormentado caldo soteropolidano,no entanto as faces continuarão atormentadas pela vida e pela dor de não te-las , os jovens ah esses podem possuir a esperança de algo novo...
saudações e ternura
Enzo de marco

no mundo da lu(a) disse...

Olá!
Estava passeando pela blogosfera e caí aqui....
grata surpresa, posto que escreves muito bem.

É triste anadar as voltas com estas torturas mentais...por outro lado se as crianças são muito inocentes...( seriam mesmo?) os adolescentes muito rebeldes(....?) e os velhos muito velhos....restamos nós apenas...os inclassificáveis...
Resta apenas a nós o poder e direito de quebrar todos os rádios que tocam música baiana...hehe
E salve chopin!!!!
bjs.

Vivi Coração Dos Outros. disse...

É muito bom passar por aqui.