segunda-feira, outubro 11, 2010

Carta para Indra

"Quando casamos nem pensamos nos filhos, mas quando eles nascem percebemos que tudo só aconteceu por causa deles"
Herman Hesse

Lembro-me de quando chegaste. Tinhas alguns centímetros e uma expressão sonolenta e assustada. Algo doloroso começou a funcionar em mim ao perceber que algo tão frágil tinha vindo parar nesse lugar cruel e confuso, e que justamente esse algo precisaria de mim até o dia em que fizesse parte desse lugar também. Mas até esse dia és linda, como eras quando chegaste. Sorrindo sempre. Era mágico perceber como não tinhas coisas de fazer pirraça, ou de revoltar-te contra um “não” vindo de nós. Gostavas de todos os brinquedos, de todas as caretas estúpidas que eu fazia e de pular sobre minha magra barriga enquanto eu tentava dormir depois de uma noite lavando o piso do supermercado. Seu pai muito atormentado com tudo talvez não tenha deslumbrado-se bastante e por isso agora tenta recuperar esses momentos nessa suposta carta. Ias crescendo muito rápido, sempre inteligente e bem humorada. Todos se acercavam de ti como
se fosses uma espécie de fonte mágica da alegria. Gostavas, sobretudo, de rasgar os meus velhos livros, ou de simplesmente exercitar seus dons de artista sobre as páginas de velhos tratados de budismo, teosofia e outros delírios com os quais tentava encontrar uma resposta, quando ela estava ali diante de mim. Até compus uma canção secreta que apenas nós dois conhecemos, lembras? Antes gostavas quando eu a cantava, agora não gostas. Achas ,com razão, que seu velho chorão palhaço está fazendo-te de bebezinho outra vez. Não têm importância. Eu a canto em silêncio para mim toda vez que penso em você minha filha. Uma dia talvez os barulhos da cidade engulam essa canção em meus lábios definitivamente, ou na procura de teu próprio caminho te distancies em demasia para ouvir-me cantar. Tal é o curso das coisas. É sábio aceitá-las, eu acho. A mim, basta-me saber que um dia eu a cantei, e que soube reconhecer ou pelo menos tentei, o presente mágico do acaso que foi você existir para mim no período em que o acaso o permitiu.
Amo-te
Seu pai.

5 comentários:

Aline Carvalho disse...

Simplesmente lindo, me embaçou as vistas, quem dera todo pai criar uma canção para seus filhos, eu pelo menos ia adorar que o meu fizesse isso,
você é o filosofo mais poeta que tive a oportunidade de ler. Sua criança tem sorte em ter um pai assim, ou você é que teve sorte de perceber seu maior tesouro.

Anônimo disse...

Lindíssimo,você deixou transparecer toda doçura e sinceridade a cerca deste sentimento que florece em teu peito por tua filha livre de todo apego existente nas relações de afeto. Acredito que ela tem e sempre terá orgulho deste pai "velho chorão palhaço".

Benjamin de Melo disse...

É deveras salutar saber que ainda existe gente neste mundo! um abraço irmão! e admiro sua coragem de publicar algo tão delicado e pessoal.

Benjamin,
o estilita.

Erres Errantes disse...

Belo texto! A Indra tem sorte de ter um pai com tamanha sensibilidade.

Tiago Medeiros disse...

Meu caro, vc... é foda. Vc teve a coragem de colocar isso no blog e me deu coragem pra dizer q o texto me fez chorar (literalmente). Que bom q vc é meu amigo!