Segunda-feira, Julho 13, 2009


Ela colhia auroras com as mãos
da solidão.
Seu vestido de estrelas e sua boca de outono
acobertava infinitas crises
e terremotos no seu peito.
Ela precisa de um grito...
Ela procurava o nome exato que
daria a sua dor o selo nobre da fatalidade.
Mas ela não encontrou o lirio
e apesar de conhecer o rio e sua direção
deitou-se na orla das coisas congeladas
para ver o seu pássaro morrer.

Convite em vermelho

Meu horizonte poderia não ser
Um imenso abismo,
Com estrelas insensatas e meteoros inquietos
Costurando o espaço frio entre nossos corpos
Sedentos de uma aurora que ainda não chegou.
Nossos caminhos poderiam deixar de ser palmeiras
Agitando-se nas caricias de um temporal que jamais se afasta,
Mergulhando as raízes em nossas vidas atuais,
Frias como a terra, cinzas como o pó,
Isensatas e prudentes como tudo que se passa
No passado.
E o futuro é um largo mar,
Que convida nosssos passos e os nossos medos
Para dançarmos na destruição alegre
Dos muros e das pedras que impedem
O amor.
E o amor é uma palavra ousada que tomba no final,
É a bandeira sustentada pela nossa fome,
Fome de um brilho que se veste do olhar,
De um pedaço de aceno que se consuma no destino
De uma sentença clara calada pelo mêdo.

Quinta-feira, Julho 09, 2009

O gato de louça.

As proposições de Minha tristeza
Velam minha vigília
Para que meu ser tenha
Repouso.
Quarto de menino, coração de gaivota
destroçada,
Ponte partida e pão da espera
Para aguardar por nada.
Para aguardar por aquilo que me falta
E Pela dor inevitável
Que sinto por ser gente
Seria eu um tolo?
Um sapato sem canção esperando
O amanhecer?
Um tigre desolado e cercado
Pelo seu rugido
Pelo elo contingente que se cria
Nas circunvoluções
Do sexo.

Quarta-feira, Julho 08, 2009

Co - Incidências

Como o revoar dos pássaros

ela se foi sem ter marcado,

sem ter esperado para observar

encantos.

Se partiu com a aurora e a magia

levando a primavera

sem deixar as flores.

Ela não quis me conceder

amores,

nem partilhar dos meus temores

que fervilham na escuridão

Ela foi uma ponte no espaço

Uma proposta falida de abraço

Um calor que não chegou a ser vulcão.

Que não chegou a ser delírio

Nem embriaguês, nem gozo, nem vontade

Apenas observações, coincidências

encontros imprevistos nas ruas da cidade.

Terça-feira, Julho 07, 2009

Saliva da poeira.

Contra as coisas e os intevalos
Eu nada tenho a protestrar
Senão a poeira da memória.
E a gargalhada insana do
asfalto.
Estas mãos que se estendem e
Esse retorno infindavel do abraço.
Para iludir o fardo
E adocicar o passo.
“Minha sentença doce
Onde estará minha sentença?”
E eu levanto minhas mãos para agarrar
o ar.
Meu ramo de hortelã obeserva tantos campos
De delirios penitentes e de afetos tantos
E refresca o lábio rubro que suga-me
ao luar.
Trago um esboço de euforia e uma loucura
Relativa,
Para consumar o leito
Para consumir a vida
E cultivar os meus passos
Na dimensão do entardecer.

Entrega em eco

Para enfeitar teu leito
De estrelas e de luto
Me coloco ante sua decisão.
E se eu não passo pela porta,
Com os olhos deslumbrantes
Se permaneço um estranho,
Observando a sucessão,
Se não me contenho entre os
Espasmos horizontais do seu desejo
É que trago em meu peito
Mariposas de asas
Devastadas.
Pois de asas devastadas são as minhas mariposas.
Inquietas e distantes, infinitas e sedentas
Ansiosas por uma implosão distante
E pela redenção da entrega absoluta.
Esses olhos calcinados, essa contabilidade dos abraços
Essa irregularidade que se consuma
Em eco.
Esse eco que reverbera em grito
Esse grito que quer clamar
Amor.

Sábado, Junho 27, 2009

Você poderia me levar para longe,
E poderia se nutrir com silêncio
Poderiamos acalentar um cacto confuso e
Uma multdão de formigas.
A lua devoraria nossos corações e o
Sereno cairia sobre o livro aberto
Em nossa cama.
Seriamos dois e não teriamos
A ninguém,
Seriamos multidão
E um grito surdo no vazio
Não rasgariamos nossas consciências
Nem invocariamos o asfalto
Para defender a nossa causa.
O sorriso do tempo passaria
com a colheita geral dos encontros
mas adormecemos com nossos fantasmas no leito
Lábios opacos de encanto
mãos dadas com uma velha profecia.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Quero que me queiras, que me queiras com manhãs
E caminhadas
Com o júbilo silvestre no sorriso do capim,
Com o crescer silencioso das pedras sobre milhões de
Estrelas.
Eu tenho asas e você nunca cantou para meu sono,
Nunca levantou um só protesto contra o anoitecer
Que se aproximava.
E toda vez que meu sono de menino desertado
Rasgava teias,
Desfolhava girassóis
Você consumava a negociação
Com o vendedor do nada.
Quero que me queiras, mas também que não esqueças
Do quintal
Que não percas a contabilidade e
As perpendiculares coisas simples
Que nos afligem a cada amanhecer.
Que a cada amanhecer sempre nos afligem.
A caminho do trabalho eu estou tranqüilo:
Tenho um alaúde e um chapéu de zinco
E sou o filho preferido
Do brilho que existe
Em cada lembrança de desejo
Deserdado.

Domingo, Junho 21, 2009

Projeto de a(r)mar

Amaria melhor e mais intensamente, sem as cores de meu verbo
Sem o galopar dos meus presságios.
Seria eu então um menininho privado de algarismos, garrafa de vinagre e lembrança
Das janelas.
Beijo perene ancorado na visão de novas primaveras congeladas,
Eu amaria melhor e mais intensamente sem minhas visões de mortos
Sem meus serões noturnos sem a voz dos campos desolados
Sem meu temor,
Sem minha dor,
Sem o coração de pássaro molhado acolhido pela relva em construção.

Eu amaria melhor e mais intensamente se brotassem margaridas
em minhas sombraçelhas,
se eu capturasse a essência do sereno
o dom da paciência e do florescimento.
EU amaria melhor se eu fosse alguma coisa,
se tivesse gravidade
Se me deslocasse para uma outra ansiedade.

Quinta-feira, Junho 18, 2009

Nosso amor é uma pequena ponta mesquinha
de horror.
Nossos afetos são os arames que cercam a planice
irregular do futuro.
Precisamos fazer algo a respeito das nuvens,
a urgência de uma ação corretiva grita nas alamedas
da aurora,
e os manifestos da rotina estão inscritos em nossos pulmões
abstratos.
Mas não existem coisas abstratas!
Não existem nuvens!
Não existem manifestos e a rotina não se inscreve em nada,
apenas no temor diário que nos mantém prisioneiros.
Pois não sabemos olhar nos olhos do incerto,
e devastamos nossas asas com fuligem, suspeita e controle.
Para no final de tudo seguirmos vazios,
nos agarrando a fumaça
com a marca das garras tatuada no peito
de outros tantos limites .

Domingo, Junho 07, 2009

sábado a noite.

Sentado em um bar qualquer
observando um velho ricaço
sugar o lábio neurótico de sua
esposa.
Bebendo para investir novamente
e para acelerara inevitável
derrota.
Eu conheço a rota de fuga,
sei consumar o processo,
mas apenas me sento em um bar.
Para observar moçinhos preservados da treva
com suas garotinhas sem cancros
e eu bebendo apenas por despeito e inveja,
para simplificar o julgamento do mundo.
Eu palmilhei a estrada,
sei onde está a saída,mas apenas me sento
em
um
bar.

Domingo, Maio 31, 2009

Sobre a ansiedade.

Como pode um homem pressionado pela pobreza material sentir que toda sua vida é uma mentira? Não é a sobrevivência a primeira exigência que a vida impõe? Ou algum distúrbio mental poderia ser responsável pelo delírio burguês ao qual damos o nome de “busca da felicidade” na alma de um condenado? Essas perguntas afligiam a esse mesmo condenado que extraia o seu sustento de uma vida falsa que se dividia entre o trabalho angustiante e uma vida afetiva insossa. Talvez essa fosse a razão da sua ansiedade. Ou talvez a causa de tal insatisfação fosse muito mais profunda e estivesse localizada nas esquinas do seu passado, nas marcas cegas e nos hematomas que a realidade lhe tinha tatuado na carne pouca. Havia muitas vozes a falar em seu nome, e algumas delas até alegavam que ele era feliz, outras afirmavam, todavia, que ele era feliz apenas na medida do possível e finalmente algumas que afirmavam que a felicidade não existia, ou que era inatingível. E entre esses pensamentos que se revezavam esse homem seguia falando aos seus amigos, amantes e parentes sobre coisas das quais não tinha certeza alguma. Impedia-lhe talvez o medo a verbalização de sua incerteza. A ansiedade das pessoas em verem suas próprias escolhas confirmadas por ele pressionava-o e exigiam dele a mentira como único recurso de convivência social. O hábito, o medo e as próprias dúvidas desse homem colaboravam para levá-lo a repetir os seus dias em uma constância admirável, embora nele mesmo tudo fosse um jogo permanente de forças prontas para ceder as circunstâncias. Esse homem duvidava que qualquer vida humana possuísse um ponto final em determinada escolha. As mudanças que ele constatava em si mesmo faziam-lhe cético em relação a estabilidade das emoções e crenças alheias. Todavia, ele não duvidava absolutamente que houvesse pessoas estáveis para as quais o que é bom, belo e desejável não muda nunca. Enfim, ele duvidava da própria duvida e assim acabavam acreditando que os outros estavam certos e que sua insatisfação era apenas algo passageiro, que sua vida ia melhorar, que iria ter um emprego melhor, uma casa própria, netos etc.
De todas as coisas o que mais deixava esse homem triste é que com a sua incerteza ele fazia sofrer a quem ele tinha em alta conta, pessoas em quem ele depositava um grau relativamente estável de afeto, e que sofriam com a simples menção da palavra “dúvida”. Essas pessoas precisam da “certeza” do seu afeto, da sua eterna fidelidade, da impossibilidade de mudanças e da clareza sobre sua verdadeira natureza. Então ele acrescentava ao seu fardo o cuidado polido de ocultar os seus pressentimentos, afinal além de não ter certeza destes, eles poderiam ferir a quem não merecia. A mentira, como já dito, era algo inevitavel para esse homem, fosse ela acerca de seus atos, fosse ela acerca dos seus pensamentos e sentimentos. Era ele um joguete de circunstâncias e uma vitima de seus próprios atos. Cada um destes atos e escolhas cristalizava-se ao seu redor como uma pele de diamante e cada um que o observava acreditava que essa pele era ele mesmo e exigia-lhe, implicita ou explicitamente a confirmação deste preconceito. Se um dia ele mostrou-se interessado em barcos e por esse interesse conheceu pessoas, estas o encontravam na rua e colocavam-se a falar interminavelmente em barcos, e ele já não se interessava de forma alguma neste assunto. Essa incomoda situação repetia-se em muitas áreas da sua existência.
Viu esse homem lugares lindos onde poderia ter vivido outras vidas mais belas, ou sofrido de dores maiores. Conheceu esse homem mulheres que poderiam ter-lhe dado uma vida mais plena, filhos fortes e autênticos ou simplesmente loucura e morte. Sabia de profissões promissoras que poderiam lhe ter garantido uma carreira brilhante, inscrevendo seu nome na história ou somente garantido-lhe uma vida monótona e a pobreza mendicante.
Assim a vida desse homem foi escorrendo, não sem mudanças, claro, mas sem a realização da maioria das possibilidades de sua alma que se revolviam em seu amâgo como filhos. Esse homem não viveu amores que em sua mente poderia ter vivido se ele mesmo vivesse em um mundo movido por forças outras, nem se aventurou aos horizontes que ora sorriam com suas promessas e ora ameaçavam com suas ameaças. Ele envelheceu sem ver diminuídas tantas inquietações. Silenciosamente progredia nele a consciência de que agora só lhe restava à pergunta: E se?

Terça-feira, Maio 26, 2009

Anamnése

Facas pontiagudas e a pressão adjacente de paredes cada vez mais próximas. Meu pensamento. Permanentemente atemorizado pela loucura dos meus chefes ou pela inanição de meu passado, e eu já não sei. Talvez a chama do desejo acossando a posse e a falta de uma couraça para insensibilizar contra a reverberação do mundo. Ação e reação. Todos estão na chuva, mas é possível que eu tenha saído sem a minha capa. O poder é a crueldade, o êxito é a crueldade, o planejamento, a meta, o anêlo recoberto da dourada poeira da auto-comtemplação estetico-moral é redundantemente…crueldade. Vejo a neurose em seus olhos, a fome em cada gesto, o poder que precisa ser exercitado e testado a cada novo evento decisório onde se consumam as definidas posições. A lingua exercita-se em direção ao dente estragado procurando pela sensação agradavel de saber-se sensitivo através do atrito e da fricção. E o poder é fricção. O poder é a densidade conferida pelo contato com aquele que se vira como pode. “Tens respeito pelo fardo!” Disse um dia Napoleão a uma bela cortesã que maltratara um estivador. mas o peso que o fardo traz, e sensação de vida que provêm do esforço, não se compara a sensação quente que emana do poder. É preciso desaperecer diante desse olho infame. É preciso escorrer para fora das contradições. O esmagamento precisa cessar de maneira radical desfazendi a mania visual, a submissão alheia, o êxito de nossas virtudes e a perda do momento inefável em que poderiamos estar LÁ.
O poder.
O poder.
O poder.

Sábado, Maio 16, 2009

Escuta Zé Ninguém!

Exiges que a vida te conceda a felicidade, mas a segurança é-te mais importante, ainda que custe a dignidade ou a vida. Como nunca aprendeste a criar felicidade, a gozá-la e a protegê-la, não conheces a coragem do indivíduo reto. Queres saber o que és, Zé Ninguém? Ouve os anúncios publicitários dos teus laxantes, das tuas pastas de dentes e desodorizantes. Mas não ouves a música da propaganda. Não distingues a abissal estupidez e o mau gosto de coisas que se destinam a ficar-te no ouvido. Já alguma vez prestaste atenção às piadas que o intelectualóide larga a teu respeito nas revistas? Piadas sobre ti e sobre ele, piadas de um mundo reles e desgraçado. Escuta a tua publicidade aos laxantes e saberás o que és.
Escuta, Zé Ninguém: a miséria da existência humana é visível à luz de cada um destes pequenos horrores. Cada ato mesquinho teu faz retroceder de mil passos qualquer esperança que possa restar quanto ao teu futuro. E sentes isto tão penosamente que, para não o saberes, inventas graças de mau gosto e chamas-lhes “humor popular”. Ouves a piada que te humilha e ris-te com os outros. Ris-te do Zé Ninguém, sem entender que é de ti que te ris, tal como milhões de outros Zés Ninguéns. Já alguma vez perguntaste a ti próprio por que razão dá espaço ao longo dos séculos à tal brincadeira maliciosa? Já alguma vez te chocou até que ponto “as pessoas” são ridículas nos filmes?
Sentes-te infeliz e medíocre, repulsivo, impotente, sem vida, vazio. Não tens mulher e, se a tens, vais com ela para a cama só para provar que és “homem”. Nem sabes o que é o amor. Tens prisão de ventre e tomas laxantes. Cheiras mal e a tua pele é pegajosa, desagradável. Não.sabes envolver o teu filho nos braços, de modo que o tratas como um cachorro em quem se pode bater à vontade. A tua vida vai andando sob o signo da impotência, no que pensas, no teu trabalho. A tua mulher abandona-te porque és incapaz de lhe dar amor. Sofres de fobias, nervosismo, palpitações. O teu pensamento dispersa-se em ruminações sexuais. Falam-te de economia sexual. Algo que te entende e poderia ajudar-te. Que te permitiria viveres à noite a tua sexualidade e que te deixaria livre durante o dia para pensar e trabalhar. Que te faria ter nos braços uma mulher sorridente em vez de desesperada, ver os teus filhos sãos em vez de pálidos, amorosos em vez de cruéis. Mas quando ouves falar de economia sexual dizes: “O sexo não é tudo. Há outras coisas importantes na vida”. És assim, Zé Ninguém.
( Trecho do livro Escuta Zé Ninguém - Wilhelm Reich )

Sexta-feira, Maio 15, 2009

Contra os comediantes.

Rir ou chorar diante de fatos demonstra a incapacidade de lidar com eles . A piada assim como o terror brotam da extrema impotência. Por isso o sexo é protagonista tanto dos mais terríveis crimes como das melhores piadas.
Juan Leon

Aos incautos.

As palavra que escrevo nesse blog querem ser lidas. As musicas que eu coloco nesse blog querem ser ouvidas. Os lamentos que escoam desse blog, que correm pelas ruas, que supuram nas esquinas querem despertar a piedade. O tesão frustrado que move os péssimos versos desse blog querem seu harém. Esse blog é uma lamuria, uma fanfarronada, um gesto vergonhoso que traria risos a boca desdentada de um mendigo. Mas esse blog não implora, não pede comentário e vai continuar se abarrotando das inutilidades que são destiladas pelo meu pensamento. Muito úteis para mim, elas são a esquiva e o golpe certo, a dança de Muhamed Ali e o soco de uma polegada do B. Lee. Acima de tudo ó incautos...Esse blog não barganha comentários.

Segunda-feira, Maio 11, 2009

Eu estou aqui


Nunca esperei nada de muito fantástico da vida. O que sou foi forjado na luta agoniada contra três temores: a fome, o abandono e a vergonha. A vontade intensifica-se quando se reúnem em uma mesma pessoa um orgulho imenso e um terror inominável. Sem o orgulho para reagir o horror geralmente esmaga e o que resta é um frangalho mal ajustado e bem conformado. Sem o horror para acossar a decisão, para obrigar os sentidos a lidar com a emergência a vida corre letargia e perde-se muito tempo e energia com mesquinharias. Preocupação com a publicação antes da produção da obra, com a popularidade antes da própria vida. O gozo pleno é uma função da urgência. Só os urgentes são criveis e reais. A urgência não permite planos, não pode perder tempo, não cede espaço para a intrusão do alheio. O pressentimento da extinção talvez seja aparentado com essa posição, mas não quero adentrar esse terreno. Para mim ele inspira vida. Vida rica e produtiva, vida de multiplicação e sorte, vida de atenção e pertinência. A urgência move o Leão, pois sua presa é rara e cada momento é decisivo. Nem só o talento, ao contrário do que pensam, determina sua existência, mais principalmente o acaso. O acaso é o Deus do forte.
Ela veio para mim desinibida. Seu lábio vermelho tremia na expectativa de prazer que ela também já não sentia há muito tempo. os dias não tinham sido generosos com ela e a tinham deixado marcada pela tristeza, tatuada de olheiras e com o corpo tenso por medo de sofrer. Mas eu sabia de sua historia mesmo sem jamais tê-la visto antes. Abracei seu corpo magro com força e a puxei de encontro a mim, ela sentiu meu desejo pulsar,eu senti sua alma vibrar, ela sabia que eu a queria. Arranquei a sua roupa com uma brandura cheia de fúria e lhe acariciei os cabelos- Seus olhos brilhavam- Ela disse-me sussurrando:
-Eu não sabia que podia ser assim...
-Geralmente não pode meu bem - Lhe respondi- Mas nós estamos perdidos , e pessoas como nós não tem nada a perder.

Deixei meus dedos correrem sem direcção pelo corpo dela quente até que nua ela entorpecida se entregasse. Sorvi sua essência quente. Provei do seu gosto salgado. Esperei que ela estivesse estremecendo em convulsões alucinadas, para saber como um homem de verdade faz, acostumada que estava aos imberbes rapazote da graduação. Contorceu-se enquanto caiam por terra todos os pudores e somente então a invadi com um gesto forte e firme. Até o fundo.
Ela gozou por todo corpo apresentando com uma evidência irrefutável a minha confirmação.
Eu quis levar adiante, apesar de não oferecer muitas opções de viabilidade social. Desempregado, com filhos e completamente envolvido em uma regularidade afetiva com outra pessoa que não pretendia abandonar. Saquei que algo tinha mudado quando o telefone dela ficou ocupado o dia inteiro e o meu não tocou de forma alguma. Tinha sido um lance incrivel, com nossos corpos sedentos chegando lá, baudelaire no pé do ouvido, beatles, blues e pink floyd com um vermelho por do sol... mas ela tinha razão,e eu sabia. O tempo todo elas sempre tem razão...Só o derrotado romantiza a derrota lhe emprestando ares de grandeza. Mas quem faz isso sabe que engana a si mesmo...eu sabia. Ela tinha caido fora...e as pontas de cigarro espalhadas pelo quarto,as garrafas de vinho, baíra e conhaque dançavam uma valsa insana ao redor de minha cabeça...Velho fudido. Maquiavel de suburbio, Sartre de favela, ultima palavra na bôca moribunda do futuro, e no fundo, mas no fundo, bem no fundo eu permanecia o brilho cristalino de uma inocência singular. Muitos meses depois desse incidente ainda me arrastava pelos bares imundos bebendo e trepando tudo que aparecesse pela frente...Havia perdido o pouco de brio e dignidade que possuia...Tudo cheirava a merda.... passei por ela outro dia e vi que estava bem. O cara ao lado dela era bem mais novo e mais sensato que eu e minha barba em contraste com a careca, minhas roupas amarrotadas cheirando a vômito, meu livro de neruda amassado em baixo do braço devem tê-la feito suspirar de alivio por ter caido fora a tempo...Sem saber do que eu poderia ter sido se ela tivesse ficado. Provavelmente nada, mas essa era um dúvida que ela deveria considerar e por não ter considerado ela ficou lá e eu estou aqui.

Quinta-feira, Maio 07, 2009

Deus e Jesus na terapia familiar. Já era hora!

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Machado de Assis, O maior e talvez o único escritor brasileiro

"O Homem é uma errata pensante . Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes."

Sábado, Maio 02, 2009




Para variar.

Eu estava esperando a minha mulher chegar em frente a um tumultuado shoping center e resolvi entrar em um sebo para passar o tempo procurando alguma coisa de interessante ou de inesperado para alimentar-me de metafóras ou pontos de vista. Pilhas e pilhas de livros atestavam milhares de tentativas mal sucedidas de deixar um registro do percurso finito de outros. Um livrinho pequeno com uma gravura sinistra na capa me chamou a atenção, chamava-se "banquete dos vermes". Não conhecia aquele autor. O sujeito estava realmente de mal com a vida. Sempre conseguimos encontrar alguém mais radical que nós, e isso não deixa de ser engraçado, embora não sirva de conforto. "Os vermes tem mais sorte que nós, pois desconhecem o passado horrendo de sua sinistra refeição." Putz. Isso sim é tentar acabar com o brinquedo dos outros. Todavia não comprei o livro, já tenho espécimes exóticos em demasia em meu terrário de sombras. Minha mulher chegou e fomos as compras, procurei ser simpático e não reclamar muito das pessoas. É mais importante estar atento.

Sexta-feira, Maio 01, 2009

Dois lados.

OS vencedores tem músculos de bronze
Reluzindo ao sol poente
Com um Deus elevando-se sobre seus passos
Radiante brancura e zombante sorriso
Até a meta final.

Vencedores tem um nome a zelar,
Precisam de lindas mulheres para ostentar
Em vitrinas
ou de carros brilhantes para consumar
seu orgasmo.
Vencedores possuem, agarram, rasgam, batem o pé
Telefonam para o tio da policia,
Ou para o paizão empresário,
Estão nos sonhos de suas mães
Na contracapa da vida contada em salões
Míticos de devastadores boatos.
Vencedores vivem em um palco do filme que foi
Feito para eles.
Vencedores comparam-se, medem-se, maldizem a expressão menor
E só aceitam o sucesso.
Vencedores se não envelhecem cercados por mulheres gananciosas
Enfiam uma bala na cabeça como recurso final
De impotência.

Fracassados se olham com olhos de opera
Contam canções de lirismo quando desce a cortina
Amam como quem recebe uma esmola
e aceitam a migalha que lhes
Cai sobre os pés em confirmação ao pressagio.
Fracassados geralmente encontram na virtude um argumento
E na história uma desculpa.
Fracassados são incapazes de elaborar uma dança,
O NÃO está em seus lábios e seus olhares são a pretensão
Que se esquiva
Para os banheiros out-sideres onde difamam o anfitrião
Que lhes impôs um convite.
Fracassados são preguiçosos e impopulares,
Cultivam suas dores ou se escondem delas
Em bueiros de palavras confusas.
Fracassados chegam sempre ao final
Com as mãos cheias de fábulas
Fracassados geralmente acabam cedendo a alguma forma de
Igreja,
tombando como cepos dementes em poças de sangue ou
esvaindo-se em loucura e veneno enquanto consideram a nobreza.

Segunda-feira, Abril 27, 2009

É impossível achar palavras para descrever o que é necessário para aqueles que não conhecem o horror. O horror tem um rosto...e você deve ficar amigo do horror. Horror e terror moral devem ser seus amigos, do contrário são inimigos a temer.


Marlon Brando (Coronel Kurtz) Apocalipse Now

Domingo, Abril 26, 2009

Habeas Corpus para Juan Leon

Juan Leon tem um girassol que padece
e registra suas petições e reclames
sem obter resultados ou corpos.
Juan Leon está só
em um sentido que ultrapassa a física,
Juan Leon está vendado, atado, amputado,condenado,
com o único sonho restante dissolvendo-se
em um redemoinho insano de desmaios, desafeto e paradoxos.
Juan Leon estende a mão para a aurora
mas ela está com a mão ocupada
segurando um x-burguer
com o seio imenso escapando pela camiseta
indiana.
Juan Leon não está surpreso pois
Os arcanos previam,
Os Aurivedas previam,
Nostradamus previa,
O psicanalista obeso que estacionou o carro importado sobre seus pés previu,
Todas as merdas de passarinho que tombaram sobre seu rosto impotente
desde a primeira masturbação solitária previram
TERIA QUE SER DESSA FORMA.
Mas ele tentou reverter a jogada apostando mais alto
em uma rodada de cartas contra um Royal Straight Flush
enquanto toda a mesa entregava as pontas.
Juan Leon é um caso confuso,
um insucesso aplaudido,
que permanecerá contestando
o ruído das dobradiças
e a progressão geométrica da dor.

Sábado, Abril 25, 2009

Estudando o protestantismo!

video

Quando as imagens falam por si!

Sábado, Abril 18, 2009

Pais e FIlhos

Quando eu era um adolescente vagando pelas paisagens devastadas do subúrbio, gastava o meu tempo entre os esportes de rua, investidas mal-sucedidas a garotas e bravatas com alguns amigos na esquina. Eu era o rei do escárnio, da maledicência e da picardia; No mais era uma garoto muito mais inofensivo e tonto que os demais. Todavia, sempre exerci um papel bem marcante nas rodas de bate papo, dominó e baralho. As mães dos outros garotos tinham algeriza da minha pessoa. Consideravam-me, via de regra, má influência. Demasiado livre, demasiado solto e sem amarras, e o pior: sem uma mãezinha para me puxar as orelhas. Na época, creio que isso era bem doloroso. Não podia ir a casa desses meus colegas, precisa aguardar que saíssem para tratar dos planos para o próximo jogo de cartas, a próxima partida de volei e outros arranjos com os quais me ocupava para ocultar minha falta de meta ou propósito.
Hoje olhando retrospectivamente eu vejo o quanto a minha inveja era injustificada. A maioria dos meus amigos se dividiu entre três rotas de vida que são para mim igualmente feias e sem gosto como bocados velhos e frios de pão sem manteiga. Alguns deles ainda moram com suas famílias ou mães. Tornaram-se perpétuos apêndices da mentalidade gregária que a familia geralmente representa. Outros seguiram exatamente o caminho traçado pelos pais e perderam com isso a confiânça neles mesmos. Suas vidas são uma copia fajuta do que seus pais foram e, eu acho, ninguém convive bem com isso. Mas o pior caso para mim é o daqueles que passaram tanto tempo mentindo para os pais, fazendo-os acreditar que eram aquilo que eles queriam, que perderam completamente a capacidade de lidar com a vida de peito aberto, sem enlamear tudo que tocam, e sem a capacidade de encantar-se definitivamente com as coisas. É o que R.D Laing chama de vínculo duplo. Venera-se alguém e essa veneração implica negar alguns anseios e pulsões. Mas para negar nossos anseios sem nos negarmos a nós precisamos acreditar que o objeto de nossos anseios não é digno deles, pois são sujos, feios, maus, falsos, mentirosos e etc.
Assim venera-se o que não satisfaz e o que poderia dar satisfação se odeia.
É claro que tenho minhas patologias e desesperos (basta ler rapidamente esse blog para perceber) mas existe algo que para mim está para além da alegria ou da dor, é a criatividade e o heroismo pessoal. Naõ creio que essas vidas que listei tenham qualquer traço desses valores.

Quinta-feira, Abril 16, 2009

"Mulher mata marido, irmã e sobrinha."

"A delegada Rosane de Oliveira revelou os detalhes do crime que chocou a comunidade de Novo Hamburgo nesta quarta-feira. A empresária Roselani RadaeliAvila, 45 anos, matou o marido Flávio Machado D´Avila, por volta das 5h38 de terça-feira, para evitar ser internada em um clínica devido a um quadro de depressão."
Extraído do Jornal o Diário de Canoas 15/04/2009
Mais uma vez nosso conhecimento acerca do que convencionamos chamar de limites morais para a ação humana revelam-se insuficientes. Mais insuficientes ainda revelam-se também nossas pretensões de justificar esse sentido ético por recorrência ao que denominamos de "essência humana". Para tentar reconstruir e cimentar o abismo que abre-se sob os nossos pés ao refletir sobre essa tragica situação, os psicológos, sociológos, psiquiatras e criminalistas irão, certamente, falar bastante e talvez convençam as massas que tem sede dessa desculpas como o beduíno tem de Água. Todavia as conversas nas ruas ainda revelam que o emplastro dos especialistas por enquanto ainda não cicatrizou a ferida na consciência ética da multidão. Como explicar, sustentando nosso senso do que é um ser humano, a situação na qual sem um motivo minimamente consistente uma mulher mata fria e calculisticamente uma mãe que também era sua irmã, uma criança que também era sua sobrinha, e um homem que era seu marido. Com três cortes secos feitos a faca ela ceifou a vida daqueles que ela mais deveria amar e nós, que nos consideramos "normais", precisamos encontrar uma explicação, um motivo, algo que pudessemos imaginar que nos levaria a fazer a mesma coisa se estivéssemos em seu lugar.
Temo ter que dizer que não temos essa explicação. A grande quantidade de fatores que interferem sobre a ação e a deliberação, desde a necessidade material às necessidades psicológicas e simbólicas inviabilizam, penso eu, uma explicação no sentido lógico-metafisico como estamos acostumados. O amor é uma palavra que usamos para legitimar nossa dedicação a algumas pessoas pessoas mesmo a custa de prejuízos para nós; Bem poderia, por outro lado, ser considerado também uma loucura e um disparate causar uma dor ou abrir mão de um gozo por outro indivíduo. Mas somos assim, na maioria das vezes, e outras pessoas também o são e por isso nos sentimos legitimados nesse nosso comportamento, mas isso é apenas uma questão estatística.
O fato é que não sabemos se há ou não limites, regras e fatores determinantes para o comportamento dos indivíduos, nem como o trabalho, a história e o quotidiano destes interage com as suas escolhas e preferências. Mas vivemos em uma sociedade que precisa de seus mitos para conseguir coexistir. Um deles é o da "normalidade psíquica" o outro é o que que qualquer ser humano sadio só age com propósitos racionais". Ouvi dizer que depois de certo tempo na corporação ou no exercito alguns policiais e soldados passam a ter uma espécie de compulsão gratuita pela violência e até mesmo pelo desejo de matar. Mas se a sociedade precisa de soldados e policiais o que fazer? Bom, o melhor é acreditar que os indivíduos que praticam tais atos são doentes e casos a parte.
(...) Não importam as explicações, precisamos seguir vivendo.

Terça-feira, Abril 14, 2009

Meus sentimentos sobre a maioria das pessoas.

Valhacouto de marginais! Filhos de meretrizes soezes! Sibaritas! Porcos nefelibatas! Corruptos corruptores! Ladravazes, ladroaços, ladravões e ladronaços! Mequetrefes! Vira-bostas! Apedeutos! Mefíticos! Mentecaptos! Rufiões! Cáftens! Proxenetas! Caraxués! Tuberculosos cerebrais! Boçais e boçaloides! Bunodontes! Peçonhentos! Relapsos! Contumazes! Mussaranhos! Obnubilados! Patetas! Patuscos! Pancrácios! Vacuns! Torpes! Insidiosos! Melífluos! Caras-de pau! Pérfidos! Falsos varões de Plutarco! Sepulcros caiados! Filisteus! Traidores! Sacripantas! Maquiáveis de subúrbio! Provincianos! Fariseus! Crápulas! Vândalos! Cafonas! Bregas! Gonorréicos! Disentéricos! Excrementiformes! Equinococos! Larvares! Alvares! Patetas! Bucaneiros! Bifrontes! Sofistas! Cínicos! Bufões! Merdosos! Sicofantas! Songamongas! Genocidas! Embusteiros! Parasitas! Coprófagos! Vampiros! Estupradores! Sodomitas! Prostitutos! Delinqüentes! Marginais! Narcotraficantes! Criminosos! Tintureiros de dinheiro! Rapaces! Predadores! Velhacos! Ali Babás! Nauseabundos! Prepotentes! Arrogantes! Preguiçosos! Furrecas! Jurássicos! Coliformes! Estelionatários! Bonifrates! Mambembes! Boquirrotos! Apocalípticos! Covardes! Vendidos! Comprados! Traiçoeiros! Formadores de quadrilha! Vendilhões! Cínicos! Mentirosos compulsivos! Abortos da natureza!

Desespero cuotidiano (como permanece atual)

Manhã estúpida depois do sono e o banheiro
cheirando a vomito e desespero...
Não foi um sonho.
Cheiro de café,oração matinal, pássaros cantando,
e Deus em seu trono rindo
obsceno.
está ficando
pior...
8 horas imensas esperando
para engolir minha alma,
o açougue gelado,
o riso amarelo das velhas,
querendo o melhor pedaço de carne.
Eu e outros fracassados
golpeando com força e retirando a vontade de viver
das tripas da morte para sair rastejando aos últimos raios
moribundos do sol
sem ninguém para contar
o quanto é difícil....

Sábado, Abril 11, 2009

A dor e a percepção da dor.
As portas precisam estar livres dos batentes e
a gravidade cuotidiana das coisas pressiona para fora um milhão de inquietos anseios.
Eu questiono meu sonhar
e as imagens que borbulham da cabeça
após um dia de trabalho & sangue.
O medo acossa o batalhão das taras
e a sede do prazer não é um impulso claro
e nem sem contrações nervosas que esgotam nossa singularidade.
Mas eu, que me escrutino na perspectiva do atrito indispensável para prosseguir desperto daquelas confusas alucinações e me pergunto...
Onde nos furtaremos ao golpe sangrento da ânsia
e do anêlo evidente de ser?

Sábado, Abril 04, 2009

Politica, cultura e intelectualidade no Brasil.

O panorama politico, intelectual - cultural brasileiro oferece tanta variedade quanto nossa fauna. Nesse quesito podemos nos orgulhar de ser a maior democracia da América latina, não só em tamanho mas também em variedade. vejamos algumas características desta nossa diversidade tão original . Começarei pelos políticos: como é normal no imaginário cultural de um pais que ainda não livrou-se de sua tríplice herança católico-tribal-feudal, no Brasil a actividade politica é exercida com um espírito muito pouco profissional. Politica, na maioria dos casos, é uma prática sacerdotal, esotérica, envolta em uma aura de mistério, onde os "irmãos da ordem"(do dinheiro) protegem uns aos outros, enquanto o público que os elege e é por tais sacerdotes surrupiado cala-se e venera como convém fazer em assuntos religiosos. Ou então desdenha destas pessoas (como nossos avós faziam pelas costas dos padres ao final das missas) mas sem fazer nada de positivo acerca delas.
Com relação ao panorama cultural a variedade é tão grande que eu precisaria escrever mas do que já fiz até aqui nesse blog e não conseguiria tal façanha, vou citar apenas alguns poucos elementos desta. Quem já morou em um subúrbio pobre de Salvador vai entender do que falo. O primeiro aspecto que quero ressaltar é a falta de preocupação com o próprio destino. Os jovens vivem até a maturidade na casa dos pais e se as oportunidades são poucas, por razões que conhecemos bem, eles as tornam ainda menores com algumas inclinações nada pragmáticas. A primeira delas é o ancoramento no solo materno e paterno. Fico bestificado como os jovens que tenho conhecido nas periferias reluta em sair dali. Os vínculos familiares ancoram os indivíduos em seus lares, os vínculos sociais estimulam a repetição, a padronizarão e as vezes as únicas opções possíveis são: tornar-se protestante, criminoso, pai de família sub-remunerado ou militante de esquerda. Isso sem falar das contradições inseridas em nossas praticas comunicativas, o machismo ralaaxerecanoxão, o pessimismo nadavalenadafoda-seosistema e etc, etc, etc.
Com a intelectualidade brasileira não é diferente. Ainda mal recuperada da embriagues do idealismo marxista (muito necessária em certas circunstâncias) saudosa do encantamento medieval e rancorosa em relação a vida mediana, nossa vida intelectual nos oferece um curioso (mas nada novo) painel. A critica pela critica, a pouca disposição em assumir demandas realizáveis, a compaixão pelas massas mas sem sequer sonhar em ocupar as mesmas fileiras que essa mesma massa que pretende defender. Além disso existe a ideia de que ser intelectual é ser critico, radical e profundo. Valores que o cristianismo já havia incorporado ao seu catecismo.
Enfim, ficaria listando essas e outras manias por horas, mas basta olhar para os lados para perceber que nem conseguiria fazer a metade deste imenso trabalho.

Quinta-feira, Abril 02, 2009

O confronto (fragmento III)

Coloco os óculos, o boné pego as chaves e estou pronto para a loucura de de novo. No leito ela ainda dorme enroscada na almofada com um sorriso iluminando sua face linda. Pois que repouse enquanto puder, ao despertar cada um de nós que atender as reivindicações do horror. Desço pelo elevador social e o porteiro me cumprimenta desconfiado, a viatura com outros agentes me espera na saída do prédio. Eu sei o que as pessoas pensam sobre os policiais. Em sociedades virtualmente guerreiras soldados são venerados. O lavrador, o comerciante e até mesmo o religioso; Todos eles sabem que suas vidas dependem do trabalho insalubre daqueles homens estranhos. Mais meus vizinhos me temem pois a guerra que eu travo não está na fronteira, eu a trago para o batente de suas casas, porta adentro de seus lares. Eles temem a nossa face obscura que comunga com um lado da vida que gostariam de esquecer, mas invejam o fato de exercermos legalmente a violência que só lhes cabe dentro de limites. As putas balançam suas bolsas ao passarmos pela rua 28 para estourar mais uma boca de tráfico. è claro que já fodi umas duas ou três nessa região, mas as da orla são melhores, menos arriscadas e de farda elas sugam um sujeito sem cobrar pelo serviço. Mas porque foder algumas putas quando as gatinhas da universidade, doces e suaves oferecem suas vaginas, seus seios, sua alma diante da nossa farda e do nosso distintivo?
Somos recebidos a bala na subida da favela. A chuva assassina desce sobre os carros e os blindados adotam as posições de guerra. Alguns grãos de poeira serão soprados para longe hoje. Como um sedento amante empunho meu fuzil, desço da viatura como um raio e antes de me dar conta disso já estou espremendo o gatilho satisfeito. Esse é o meu trabalho.

Quarta-feira, Abril 01, 2009

Break fast de Sombra

Eu corro pelas ruas despido sob olhares que enxovalham, acossado pela vergonha que não poupa transeuntes, semáforos fechados, vizinhanças temerosas e o assassino que habita ao meu lado perturbando meu jardim.
Vejo oceanos negros onde bóiam nossos mortos, nossas casas de madeira se erguem sob a lama, escombros de sentença abraçam nossas vidas e eu tento me erguer e formular uma resposta que escoa entre meus lábios e tomba no silêncio e no vazio.
Boca costurada,
seráfico mistério,
amor de impotência,
compaixão universal por uma totalidade inexistente,
mahakaruna do absurdo,
Buda deserdado, sexo rasteiro gritado pelas ruas fode, trepa, tabaco, corno, puta, cachorra,Buceta,
Violentamente, violentamente, violentamente.
E seguimos cegos sem parâmetros para mensurar o nosso equívoco achamos gasolina, penduramos os sapatos e construímos setas pontes e embrulhos para conter a inquietude faminta que revolve entranhas derruba os governos e empunha armas
parado aí filhodaputaquevouteestouraracabeça
todos querem ver, todos querem... participar.
E a vida segue em seguida definhando até o gran finale tedioso ou o esmagamento súbito.
E ninguém pode se esquivar
e
ninguém
pode
se
esquivar.

Sábado, Março 28, 2009

Vomitório reflexivo de um profeta aposentado

Senhores, venho até vós comunicar-vos o manifesto definitivo do direito a ser singular em oposição aos velhos celebralísticos processos, religiosos e medianos de apenas estar sob a face da terra para depois desaparecer sob as cortinas indevassadas, sob as coisas gerais que nos tocam sem sabermos .
Venho até vós enaltecer-vos pela grandiloqüência dos supermercados, pela futilidade dos vossos pensamentos, pela inutilidade das letras que escrevestes enquanto a garra arrasava vossa polpa tenra de imaculada consciência.
Quero agradecer-lhes, sobretudo, por quase coisa alguma, pois sou reticente, quero elogiar-vos por engravidar crianças, por antecipar a dor, por fazer a própria criança acreditar que deve engravidar, que não há espaço sobre a terra sem calça Saint-trópé, beijo na boca internet, sexo rala a xareca no chão, favela ê favela, favela eu sou favela, nos subúrbios para substituir a fome .
Apenas bandeiras, clamores, bandos, foices, edifícios, o capitalismo deve cair, morte a burguesia, que venha Jesus meu todo poderoso, esperando pela definitiva mão do acaso, desertificação absurda que cavalga na noturnidade seca de preâmbulos rochosos, sem a noção exata de sua finitude cada um prossegue com seu dom justamente adquirido
De comparar-se
De acusar como dedo fétido
De viver voltado para fora
As escarradas que chamamos decisões perpetuam nossa ofensa
E seguimos sorridentes acrescentando nossas razões ao panorama indiferentemente lúcido de milhões de estrelas.
E isso é o que somos.

Sexta-feira, Março 27, 2009

Pesquisas


Pesquisas mostram que as pessoas negras têm complexo de inferioridade ao ver famílias brancas
Pesquisas mostram que os Judeus se preocupam exclusivamente com a sua lascívia financeira
Pesquisas mostram que o Socialismo é um fracasso universal onde quer que seja praticado pela polícia secreta
Pesquisas mostram que a Terra foi criada 4.004 anos a.C, um Divino Bang
Pesquisas mostram que pardais, abelhas, lagartas, galinhas, porcos e vacas exibem sinais de comportamento homossexual quando aprisionados
Pesquisas mostram que a Confissão da Inerrância Batista do Sul é a mais virulenta forma da Verdade Cristã
Pesquisas mostram que 90% das pessoas que vão ao Dentista têm dentes ruins escovar seus dentes violentamente três vezes ao dia após as refeições estraga as raízes
Pesquisas mostram que Hollywood continua fazendo os melhores filmes, a sexualidade degenerada que as Nações Unidas é Boa [ ] Ruim [ ] Indiferente [ ] para os interesses americanos
Marque uma opção
Pesquisas mostram que a homossexualidade Reconstrucionista Cristã é Pecado, Lesbianismo crime contra a natureza, AIDS uma praga enviada para punir papa-Anjos gays bissexualidade desaprovada por 51% dos Americanos
Pesquisas mostram que jovens metaleiros que assistem TV alcançam maior QI do que os nativos dos rios Amazonas e Ucayali que não têm antenas
Pesquisas mostram que as orcas e as baleias apresentam Inteligência Mais Alta
Pesquisas mostram que a Corrupção Espiritual do Individualismo Elitista & a Arte Degenerada foram as causas de Ditaduras na União Soviética China e Alemanha que a posse de pornografia no Instituto da Família Americana resultou em um aumento de 35% dos crimes sexuais entre as bibliotecárias do instituto ver comportamento assassino em besteiróis de TV aumentou em 100% o comportamento de linguagem violenta pelos Chefes de Estado intercontinentais
Para concluir pesquisas mostram que o universo material não existe
Allen Ginsberg

Domingo, Março 22, 2009

Não é a semelhança que engendra a mediocridade e sim o hábito de medir-se com o outro."

Juan Leon domingo ás 22:00 após duas cervejas

"Todo amor é o aceno da vida com uma das mãos e o golpe da morte com a outra"

Juan leon Domingo às 23:00 depois de cinco cervejas

"Todo mundo deseja ser original, mas ninguém está disposto a chupar um parafuso
ou limpar latrinas para isso"

Juan leon 00:00 de segunda, vomitado falando merda e incapaz de ser coerente.

Sábado, Março 21, 2009

Juan Leon

Juan Leon Não tem chance.
Está de pé em um ringue por mero descuido
da morte.
Juan Leon é um fardo até para si,
um estorvo completo no caminho da vida.
Juan Leon não consegue,
não é viavel nem forte.
Juan Leon não teve um pai,
Juan Leon não teve uma mãe,
Juan Leon se arrastou entre os restos e
ficou feliz quando encontrou algumas migalhas.
Juan Leon conta bravatas e acredita nelas as vezes
Juan Leon ouve musica para perdedores
se veste como perdedores
ama como perdedores
E fica fascinado com o silêncio na tarde.
Juan Leon é um projeto sem meta
com a consciência da morte enterrada
entre as gordas costelas
careca, faminto, vaidoso, egoista, machista,
e irremediavelmente contaminado
pela inocente ternura das coisas sem peso.
Juan Leon Sofreu como um porco
e não sabe passar a bola para frente.
Juan Leon Vai deixar de existir logo, logo
e o nada irá refletir-se em seu olho
opaco de quem encontrou uma casa vazia.

Sexta-feira, Março 20, 2009

Expurgo

A praia era distante e suas dunas de areia alva erguiam-se por toda orla até sumir-se no horizonte onde começava a cidade e sua loucura. Eu estava tentando fugir de algo que me perseguia há algumas semanas. Não tinha dinheiro, não tinha uma garota, não tinha uma filosofia, uma família ou qualquer outra estrutura sobre a qual pudesse montar minhas fortalezas. Os poucos trocados que me sobravam após pagar o aluguel não me garantiam o bastante para ir a um bar encher a cara sem ter o saco escrotal pressionado pelas botas de uma cultura que me era indigesta. Rejeição tácita daquilo que não nos oferece oportunidade de barganha. Rejeitava, rejeitava e rejeitava. Ficassem eles com seus pactos sombrios, seu cerebralismo faminto e seu punho de sangrento sucesso. Eu me esquivava para uma vida extremamente cinza por fora, mas ardente, pulsante e criativa por dentro, esperando apenas o momento oportuno para explodir em uma torrente de vida, que o silêncio iria coroar gargalhando nas minhas auroras. Diante dessa impotência sombria adquiri o hábito de acampar em meus finais de semana. Arrumava alguns trapos na mochila, pegava o ônibus e retirava-me para uma praia não muito distante, mas afastada o bastante para isolar-me da exposição aos ruídos horrendos que as pessoas normais produzem quando cessa o trabalho.
As pequenas elevações encimadas por coqueiros e cobertas em alguns pontos de vegetação rasteira separavam o mar de um longo e estreito rio com águas escuras. Do alto era possível ver seu caudaloso percurso, quase se perdendo no infinito. O som do mar era a soma do ruído de todas as ondas, grandes e pequenas, rebentando-se nas pedras. Ouvindo-as atentamente, separando o som aparentemente uniforme em suas partes integrantes, o meu pensamento louco e suas inquietações silenciava-se, punha-se apenas a observar. Em um ponto do rio as pessoas, turistas e nativas, banhavam-se e faziam barulho perturbando a harmonia do local com seus estridentes gritos. Em meio à imensa beleza daquela paisagem eles eram exceções, um pequeno tanque de confusão em meio ao imenso reservatório da paz e do silêncio. O momento as parecia pressionar, o encontro social lhes irritava a polpa do afeto e eles tinham que falar, falar e falar. Falar para justificar, para lamentar, para defender-se e permanecerem os mesmos apesar das injunções do destino.
Eu armei a minha barraca, tirando as roupas meticulosamente da mochila, separando os alimentos dos livros. Arrumei alguns gravetos e palhas de coqueiro secas, fiz uma pequena fogueira, fiquei fumando um cigarrinho enquanto o tempo passava por mim desdenhoso. A Tarde estava acabando e os turistas começavam a se retirar com seus carros para sua vida confusa e espremida entre preços e danos, apetites e cobranças, medos e desejos. Eu estava satisfeito, apesar de ainda sentir a coisa movendo-se por detrás das reflexões. Peguei minha uma toalha e me dirigi para o rio. A areia fina fazia atrito em minhas carcumidas sandálias. O céu estava ficando avermelhado e misterioso. Sozinho cheguei a beira do rio, sozinho nela sentei-me e fiquei constrangido ao perceber que estava interrompendo a vida em seu curso. Um casal namorava bem perto de mim empolgado. O rapaz estava jogando duro e a garota lhe dava todas as razões necessárias para justificar seu esforço. Linda como a essência da sinceridade calada, os cabelos morenos caídos sobre os seios polpudos que o rapaz sugava ávido, com uma lagrima caindo do olho direito. Me senti um criminoso, um facínora por ali me encontrar observando um mundo do qual eu tinha sido expurgado. Eles não me viram. Uma pequena moita e a empolgação brilhante do momento lhes asseguravam a continuidade autêntica de suas pulsões. Eu, calado e embasbacado fiquei tão mudo e seco de vergonha que me levantei e saí tremendo por dentro. A consciência plena de que não era viável. Na fuga esqueci uma de minhas sandálias, segui até o acampamento com a certeza do exílio e apenas um dos meus pés calçados.

Quinta-feira, Março 19, 2009

"Tenho um bastão comprido de bambu, com um laço de couro na ponta, que uso para tratar com mulheres. Eu coloco o laço em volta do pescoço delas, para que não possam fugir nem se aproximar muito. É como o negócio que se usa para pegar cobras"

"Nunca me esforcei para ser um sucesso. Simplesmente aconteceu. Eu apenas tentava sobreviver."

"Não importa com quem você se case, sempre acorda casado com outra pessoa"

Marlon Brando

Terça-feira, Março 17, 2009

A garota virtuosa.

Ela era muito bonita, sem dúvida uma das garotas mais estupendas que já conheci. Também não era estupida, pelo contrário, lia muito, escrevia alguns textos muito inteligentes e possuia um ar fantastico de quem está desabrochando em metamorfose constante. Todavia, ela era ríspida e seca. estava sedimentada sobre uma base a partir da qual rejeitava a maioria das pessoas. Não recebia bem a conjuntura dos fatos e gritava contra a poeira da convivência. Não sei que espinhos entranharam-se em sua alma e ela vivia uma mentira. Naõ aceitava nada que não fosse o reconhecimento da sua sublimidade outorgada pela dor, pelo brio...por suas virtudes. Ela não sabia fazer concessões. E quando as fazia era por desprezo a si mesma. Arrastava um olhar de desterro ou um falso encanto por coisas a toa, detalhes insignificantes para esquivar-se as comparações. Não comia carne, odiava os U.S.A, desprezava o prazer mediano em que os homens se esqueçem de fardos tão pesados que ela jamais sonharia carregar. Ela interpretava si mesma de uma forma ímpar e com isso negava as vestimentas que o mundo lhe oferecia para vestir. Não sei se sua aptidão artistica, se seu intelecto inquieto era um produto dessa fissura nos gestos ou se era algo mais próprio e regular em seu ser. De quealquer forma era impossivel trocar alguns verbos com ela a menos que se estivesse caido, revoltado ou absolutamente cativo de seus encantos, encantos esses que ela sempre tentou demonstrar que não dava muita importância.
No entanto a despeito de suas pretensões essa garota cresceu e casou-se. Seu marido, um eterno adolescente sem muito senso de responsabilidade viveu toda a vida dos pecúnios paternos. Ela acrescentou aos seus fardos o da velhice. Não viveu os encantos de si mesma, não colheu os frutos de seu corpo durante as suas primaveras, não testou muitas hípóteses, tornou-se seca e rancorosa e murchou sobre os compromissos de um mundo contra o qual tentou mover sua batalha.

Sexta-feira, Março 13, 2009

"O homem é a fera dilatada."

"Certos homens são sonhos, outros gritos."

"Os ricos ocupam um lugar definitivo e inabalável na existência;
os pobres fazem-se mais pequenos para não ocuparem lugar."


"O amor é cada qual ser como um cão. É a gente ser menos que nada e eles
serem tudo."

Raul Brandão - Os pobres

O confronto (trecho II)

A decisão de escrever é uma atitude louca, uma tentativa desesperada de conseguir contornar o precipício. Poucos conseguem. Atravessamos, na maioria dos casos, o deserto sozinhos e somente na narração dessa história alguém caminha conosco. Acenamos com nossos gestos e com nossas palavras, alguém nos retorna outros gestos e outras palavras e a necessidade de fugir ao fato cruel de nossa solidão transforma esses acidentes em união, mas estamos sempre sozinhos. Imploramos para que leiam nossos poemas, desejamos ser amados por nossos corpos ou nossas escolhas e tudo isso não mais é que a fuga desse isolamento que não queremos. E o motivo pelo qual não queremos não importa, não modificaria em nada essa ânsia sabê-lo. Eu não me arrependi de atirar no traficante ontem a noite, ouvi depois o choro de sua familia, era só mais um trabalho. Creio que também não guardaria magoa se fosse ele a me atingir. Creio. Ambos os lados compõem um jogo, uma dança cujo propósito, se é que existe algum, desconhecemos. O capitão quer me condecorar pela ação, tentei faze-lo entender que isso não me interessa, que não me diz respeito e que o sucesso e a vitória são tão acidentais quanto contrair uma gripe. Todavia, ele tem seus próprios motivos. Noite de folga, a mulher fala em sair e ir a uma festa com amigos de trabalho, mando ela ir sozinha e fico em casa bebendo, ouvindo Stravinsky e fumando uns cigarros. A rua lá embaixo está agitada todos procuram alguma coisa e eu apenas reajo e espero. Um novo confronto haverá de chegar.

Quinta-feira, Março 12, 2009

Espere a primavera Bandini.

John Fante Morreu cego.
Ditava as imagens para sua esposa e não podia consumir nicotina.
Seus olhos estavam voltados para o mundo de dentro onde ele transitava
Entre as ruas e conversava com as palmeiras risonhas.
John fante elaborou seu relato com a caneta tinteiro
Da coragem de estar.
Ele sabia o que estava acontecendo e não tentou ir muito longe com aquilo.
John fante comprou seus cigarros,
viu o combate seguindo,
não se misturou com a lama
E permaneceu de pé em seu encanto e espantado.
John fante era bastante sutil para não espremer as palavras
John Fante era um homem e não estendeu seu clamor ao além,
John Fante não se revoltou, senão brevemente.
Consumiu as suas energias com a vida para além da revolta.
E translucidamente foi homem o bastante
Para não conceber desistências,
Para não cantar heroísmos ou fugas
Para olhar a noite chegando
O tempo passando
E a primavera esvaindo.
John Fante terminou em silêncio
transitando entre os caminhos confusos que ele tateou
buscando a alegria,
buscando a dignidade
e um bom vinho para celebrar
sua vida.

Quarta-feira, Março 11, 2009

"Se um homem marcha com um passo diferente do dos seus companheiros, é porque ouve outro tambor"

"Até quando nos sentaremos nós nos nossos alpendres a praticar virtudes ociosas e bolorentas, que qualquer trabalho tornaria descabidas? "

"A virtude a que chamamos de boa vontade entre os homens é apenas a virtude dos porcos na pocilga, que dormem juntinhos para se aquecer"

"Mil vezes sentar-me à vontade em cima de uma abóbora do que comprimir-me entre outras pessoas numa almofada de veludo'

( HENRY DAVID THOREAU )

Domingo, Março 08, 2009

O confronto (trecho)

A coronha do revolver estava espremida entre os meus dedos enquanto eu atravessava a favela. Ouvimos tiros vindo do alto do morro, provavelmete os traficantes estavam resistindo a nossa invasão. Era somente mais um dia de trabalho. Mais um maldito dia de trabalho que poderia ser de qualquer outro trabalho. Qualquer trabalho, em qualquer parte do mundo: seria a mesma merda de luta, as mesmas pessoas se chocando, querendo, querendo e querendo; Não importa o quê. Só esse movimento louco importava. Os rapazes do meu batalhão agora capturaram um pobre infeliz com uma arma enferrujada e alguns papelotes. Provavelmente deve ter tido sua glória e seu heroismo como um soldado do tráfico. Mas e agora? Em poucos minutos as coronhas dos rifles descem sobre seu rosto e ele é só mais um saco de sangue pisado e ossos quebrados. E é somente isso que somos? As vezes gosto de imaginar que estou me afastando, e então ficar apenas olhando. Olhando a crênça cega na vida e no seu beneficio, no prazer desejante e na fome de ser algo diante dos olhos de alguém. ondas e ondas imensas de pesoas se rasgando, mordendo, beijando...Querendo permanecer acima de tudo. Eu consegui mirar na cabeça do sujeito que se acreditava escondido no alto de uma laje. O tiro foi certeiro. A mulher e os filhos daquele traficante iriam chorar naquele dia.

Vale encantado - Para Indra meu eterno Girassol.

Ela poderia ser tanto,
ela teria horizontes imensos,
os barcos a aguardavam no porto
mas quem a recebeu tinha garras e jaulas.
E seus dias alegres foram pulverizados,
com a cinza dos mortos
e com fracasso herdado que precisa ser transmitido.
Açougueiros se reproduzem,
harpias nefastas amamentam com fel
e meu girassol está condenado.
Você lembra-se do riso do verão?
você recorda da doçura do vale encantado?
tua memória embotada não alcança
seus sonhos?
você foi engolida pelo sistema odioso
que rejeitei
Mas não consegui te salvar...
Mas não consegui te salvar...
Lama para paredes brancas!
Fogo, para a pele da face!
Sede para a necessidade de repouso que arrastamos
tentando preservar nossa sanidade.
Eu guardei alguns doces para você entre os bosques
e minha mão está estendida com o SIM tatuado,
Cultivarei aquilo que o ódio arrasou,
cuidarei dos arcanjos, das fadas e do vale encantado.
"o gênio está morto. Temos necessidade de mãos fortes, de espiritos que estejam dispostos a abandonar o fantasma e criar a carne."

Henry Miller

Sábado, Março 07, 2009

"Mesmo com a barriga vazia, sempre se pode ter uma ereção!"

Henry Miller

Sexta-feira, Março 06, 2009

A arte do amor.

A arte
de devorar o desejo não ultrpassa instantes
nem exsitem raizes sob a superficie do afeto
mas processos de gozo persitem nas horas
caladas em que teçemos processos e metas
contabilizando privações da infância,
e projeções de pessoas
que sustentam em suas estruturas a própria
envergadura do amor.
E o amor é uma palavra gasta,
mastigada
e suja,
erguida pelas mãos de matronas
padres,
juizes,
e acorvadados poetas.
Mas o amor que flosresce nos gozos
sem intenção ou propósito,
na afinidade do acaso entre os corpos e vidas
sem permanência
irá persistir
e sobre suas colunas cantaremos um dia.

Quinta-feira, Março 05, 2009

A Igreja e o Aborto- Vale a pena reclamar?

A igeja recentemente manifestou-se contra o aborto legal de uma garota de 9 anos que depois de ser abusada pelo padrasto ficou grávida de gêmeos. Ora, aconstituição assegura que as vitimas de violência sexual ou cuja gravidez pode implicar risco de vida tenham direito ao chamado "aborto legal", mas até a esse tipo de aborto a igreja se opõe. Isso causou indignação por parte dos movimentos feministas, mas eu não entendo porque. Afinal, a religião é e sempre foi em todas as suas expressões institucionais e politicas um freio e uma pedra atada aos pés da sociedade em geral, e desejar que a religião deixe de sê-lo é pedir que ela seja outra coisa e não religião. O protestantismo é menos radical com relação ao aborto, pelo menos em algumas de suas facções, mais nem por isso pode ser considerado uma religião liberal. Basta consultar qual a opnião dos pastores acerca dos homosexuais, lésbicas, travestis ETC. Em qualquer desses casos as palavras doente ou posseso será utilizada para referir-se a orientação desses indivíduos. Agora veja: Nós que assimilamos Freud e Darwin, que acreditamos que a religião é obsoleta em todos os seus aspectos, que acreitamos qe um comportamento moral não precisa estar vinculado a uma posição religiosa, será que ainda precisamos reclamar da religião? Acho que não. Deixemos o papa, os "Bispos" berrarem aos seus asseclas sua rejeição do liberalismo, eles nada poderão contra nossas instiuições, nem contra nossa liberdade. A menos que a miséria e a pobreza continuem aumentando ou que hecatombes naturais ou bélicas nos assolem, pois diante da dor e do desespero a fragilidade dos indivíduos os levam a recorrer quase inevitavelmente a formas atávicas de fundamentalismo religioso. Portanto o verdadeiro desafio é promover e acreditar através da ação em uma sociedade economicamente inclusiva e não protestar contra os conservadores religiosos.

Terça-feira, Março 03, 2009

Um excelente ensaio sobre a Psicanálise e Richard Rorty por Jurandir Freire :

http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/Rorty2.htm

Papo cabeça

- Uma das piores coisas dessa pós modernidade relativista é que não podemos mais condenar nada nem ninguém ! Todo mundo pode dizer que está certo , todo mundo pode achar que tem razão, e o mundo escorre lentamente para o inferno.

- Bom, seria preciso em primeiro lugar determinar se podemos realmente afirmar que há um mal essencial (o inferno) e depois se o mundo caminha necessariamente para ele através da pós-modernidade. E segundo, se constitui algum tipo de anti natureza o fato de alguns projetos humanos fracassarem.

Ensaios Sobre Freud, Darwin e a Crise. Parte II

Em que circuntâncias procuramos a verdade e qual é sua relevância para cada um de nós? Penso que o que chamamos de verdade constitui, na maioria das vezes, o ponto a partir do qual pretendemos nos firmar para provar que os propósitos ou afirmações de alguém estão em contradição com ele mesmo, com sua essência ou com a essência do mundo ou da linguagem. Como o cientista de nosso liberalismo, Freud Poderia nos auxiliar a considerar obsoletas essas recorrência a verdade com o próposito de dobrar o outro, de fazê-lo reconhecer que suas opções e escolhas pessoais devem submeter-se a algo maior que ele mesmo. Devidamente incorporada a nossa cultura essa interpretação permitiria a produção de um amplo espectro de liberdades nunca dantes sonhadas, bom como um grau superlativo de tolerâncias e de convergências de interesses através da relativização de nossas exigências particulares acerca do que é o bem, o certo,e o desejavel.
Darwin poderia fazer o mesmo com nossa politica. A naturalização do bem estar, e a descrição da felicidade com um processo contigente de adequação entre o ser humano e o mundo poderia facultar-nos a descrição da politica com uma permanente tentativa de superar problemas momentâneos e injunções do contexto. Essas tentativas, obviamente teriam seu sucesso vinculado a dependência da criação de ferramentas, dispositivos, leis e práticas que ainda não temos e que só poderiam ser desenvolvidos "coletivamente" uma vez que o que estaria em jogo seria a sobrevivência e o bem estar de nossa "especie.

Segunda-feira, Março 02, 2009

Duas histórias de externalismo

Katia era unanimidade em nossa rua. Quando ela saia de casa no final da tarde para comprar pão ou ir ao mercado fazia os pobres fedelhos que jogavam bola na esquina tremer em suas bases, mas Katia não lhes dava a miníma. Orgulhosa, de andar altivo que impunha um certo respeito a molecada do suburbio mantendo-a a distância, Katia era assunto recorrente em nosso imaginário. Ela dispensava os estudos, afinal para que estudar quando o mundo inteiro parece abrir as portas quando ela passava rebolativa e se como exemplo de feminilidade ela não via nada para além dos horizontes românticos cantados nas novelas e rerpodzido por sua mãe e amigas? A Tania era diferente, sempre levada e sapeca, embora não menos formosa, ela misturava-se aos moleques na maioria das brincadeiras e não disfarça um certo atrevimento nas roupas que usava e no vocabulário que empregava. Tania identificava-se com as fêmeas aventureiras, fatais e sedutoras que via estampadas nas capas de revista masculina e nos vidéo clipes. ELa também tinha pouco a fazer na escola além de ensaiar seus artificios sedutores e namorar. As duas cresceram e se tornaram mulheres deslumbrantes. Diante da apreciação masculina Katia descobriu uma estrada para a construção de si-mesma. Cedeu as cantadas do rapaz mais possesivo e laborioso do lugar. Seu primeiro e ultimo namorado, o Paulo César era cobrador de ônibus, o que para os padrões da periferia era grande coisa. Ela tornou-se a sua esposa com 16 anos, sobre os protestos do pais, claro, e daí em diante a história de suas dores, alegrias e futuro confundiu-se com a história de Paulo Cesar, e para ela, essa fusão não foi muito vantajosa. KAtia, como era, brilhante e luminosa, em menos de 10 anos converteu-se em uma matrona ressentida, imensa, fofoqueira e permanetemente atormentada pelo ciúme.
A Tania, por sua vez, não casou-se. Transou pela primeira vez com 13 Anos e como sabemos, garota que transa fora de um relacionamento "estavel" na pereiferia fica "falada", foi o que aconteceu e Tania nunca mais teve o que chamamos de namoro "sério". Teve várias experiências afetivas e sexuais, com jovens deliquentes, motoristas de ônibus, Traficantes perigosos até virar mãe solteira aos 18 anos pela primeira vez, aos 20 pela segunda e com 25 já tinha 04 filhos. Cada um filho de um pai diferente, o resultado de um diferente insucesso. Aos 26 Tania converteu-se a uma igreja Protestante radical, a mesma que frequentava a matrona chorosa chamada Katia. Tornaram-se irmãs de culto e amigas e inventaram muitas justificativas para o sucesso dessa amizade erigida com os destroços de um imenso fracasso.

Domingo, Março 01, 2009

Ensaios Sobre Freud e Darwin e a crise. Parte 1

Precisamos redimir Freud e Darwin. Isso implicaria trabalhar arduamente para diferenciar a obra de Darwin de sua leitura hobesiana e obra de freud e suas interpretações marcuseanas, junguianas e Dawirnianas. Vivemos um momento delicado e perigoso da história pois certos riscos implicitos à tentativas contigencialistas como a politica democratica se concretizaram de maneira critíca. A recente crise do sistema econômico, a desorganização desse mesmo sistema econômico mundial e a conseqüente frustração momentânea de todas as expectativas dos pensadores liberais fazem resurgir o clamor pela segurança e estabilidade, bem como ao espirito de renúncia e suspeita acerca da maioridade dos indivíduos, que sabemos bem onde desagua. É um momento delicado, pricipalmente para os paises onde o processo de instauração da cultura iluminista não culminou na realização mediana dos nossos ideais de secularização e livre fruição para todos. O desemprego aumenta, o crime também e na esteira de tudo isso a possibilidade de avanço constante da barbarie em todos os seus aspectos. A reversão do presente quadro e o resgate das possibilidades de alimentar a esperança em uma sociedade secular e liberal, penso eu, dependerá em ultimo caso das decisões e acasos ocorridos no campo econômico, contudo, penso eu, existe algo que os literatos e filosófos como eu podem fazer. Poderiamos retomar Freud, publicizá-lo em uma linguagem menos chocante para o individúo que não nutre interesse pela filosofia nem pela ciência. Sim, penso na produção voltada para a ênfase aos aspectos "estetizantes", singularizantes da Psicanalize de Freud. Veja Freud permite-nos como enfatiza Rorty, vermo-nos como autores de nossa própria história. A psicanalize Freudiana aponta os acidentes e acasos da vida de cada pessoa, e a forma particular através da qual cada um reage a tais acasos, como determinantes para constituição de sua Psiquê. Sim, subtraindo s denúncia dos aspectos "patológicos" dessa determinação pelo acaso, bem como toda sua pretensão de encontrar uma metasicologia, Freud poderia ser o nosso "cientista" do liberalismo. (continua)

Decadência - Raul de Leoni

Afinal, é o costume de viver
Que nos faz ir vivendo para a frente.
Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente
O hábito melancólico de ser...
Vai-se vivendo... é o vício de viver...
E se esse vício dá qualquer prazer à gente.
Como todo prazer vicioso é triste e doente,
Porque o Vício é a doença do Prazer...
Vai-se vivendo... vive-se demais,
E um dia chega em que tudo que somos
É apenas a saudade do que fomos...
Vai-se vivendo... e muitas vezes nem sentimos
Que somos sombras, que já não somos mais nada
Do que os sobrevivente de nós mesmos!...

Sábado, Fevereiro 28, 2009

Valsa de Ahasverus

Ela sabe que eu não seria,
não poderia,
e que a circunferência da terra
não tem começo também.
Ela fareja meus sentidos, conheçe os
meus impulsos e nunca me viu
chamando mamãe ou papai.
Ela me avalia, pesa, mede, compara e derruba
a pedra final sobre minha pobre carcaça.
Chorosa, onanista, orgulhosa, decadente e feia
e no entanto
divinamente imaculada e brilhante.
Ela me aponta as amigas,
dissemina o meu dossiê, grita nas praças após eu sair:
"Ele lê Albino Forjaz, Ele ouve Hank Wiliams,
Ele Acha que o Bukowiski, o Fante e o Steinbek são os maiores"
Ele não vai a igreja,
ao samba,
Ao Show de Rock na carlos gomes vestindo
camiseta do Che Guevara, louvando velhos panfletos pendurados
na descarga"
Ela faz tudo isso...
Se afasta das cortinas para lavar os anos que viriam no tanque
na familia, no dia a dia da certeza canonizada de um afeto acinzentado
querendo,
desejando,
ansiando
pela loucura que eu trago na virilha.
Ela vai no dia a dia petrificando-se e esvaindo-se
até o breve rio
da resignação.

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

Um corpo irrefutável.

Ela estava colocada a uma distância razoavel, distraida o bastante para não perceber o meu olhar. Seu namorado, marido ou amante a envolvia pela cintura em um abraço que demonstrava posse e orgulho. A exibia com a um troféu, e seu rosto liso e bem barbeado, suas roupas justas e seu carro ponta de linha denuciavam o hábito de extrair muita satisfação dessa exposição social do afeto. Decaido e ciníco demais para esperar do conluio social algo mais que perseguição ou indiferênça eu não teria tais pretensões em relação aquela garota de cintura esguia, seios firmes e olhar distante que ocupava o estreito espaço entre os braços do tacanho garotão. O cabelo cortado na altura do pescoço e o jeito coquete de quem provoca até dormindo, tratando peixe ou lavando roupa estimularia uma batalha árdua, um trabalho delicado de dedos, linguas, suspiros e sedenta invasão. Um sonho de garota, do tipo que nem em meus mais audazes sonhos esperei possuir. Todavia eu era um velho olhando para um outro mundo, um velho cético sobre os grandes espiritos iluminados, casamento, fidelidade e a sublimidade do sublime.
Minha cerveja esquentou e eu pedi outra para o pobre garçom que asfaltava o trecho que lhe cabia no acesso a sucursal do inferno. A rapaziada se refestelava indiferente ao olhar ciníco do velho e careca que observava fascinado a bela dama, suas possibilidades carnais e o regojizo infinito que ela poderia proporcionar a um amante cuidadoso e dedicado, esse seria eu, claro. A bexiga apertou depois da quinta cerveja, um tanto grogue levantei-me e fui ao banheiro que ficava aos fundos. O torpor alccolico, a convergência das imagens, a queda absoluta e a descofiança do si-mesmo eram engolidas pelo tesão intriduzido em meus pensamentos pela visão daquela beldade infante. Onde terminam as planices da poesia? Como redimir aqueles que não foram bastantes astutos para inventar a própria redenção? Lancei um bom jato de urina que demorou uma eternidade, lavei as mãos e saí do banheiro. Parei no contramarco que dava acesso a um quintal do bar e acendi um cigarro, foi quando uma perfmue suave me envolveu e uma mão me tocou o ombro. Ao virar-me ela estava de pé em minha frente. Estremeci de alto a baixo em um impulso adolescente, como se todas as trepadas, recursos aos bregas, desmitificações da feminilidade tivessem se anulado. SUa boca transpirava sexo, seu busto saliente transpirava sexo, o pé de seu umbigo exposto transpirava sexo e eu naquele momento quase acreditei em Deus.

-O senhor poderia me dizer as horas, meu tio?

O aguilhão da realidade atravesou-me o peito e eu lhe dei as costas sem conseguir contornar com algum cinismo aquela veraz acusação. Paguei a conta e fui para casa. Minha mulher assistia televisão de touca na sala e como sempre acusou minha bebedeira. Desssa vez não consegui elaborar honrosamente meu fracasso.

Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009

Ensaio sobre o poder.

Sem falsa modéstia, eu já li quase tudo que existe para ser lido em termos de literatura religiosa. A religião gosta de nos fazer acreditar, de diversas maneiras no poder humano sobre a realidade. Ser feliz em meios as farpas, encontrar um caminho claro no meio de uma selva. Não posso afirmar que levei a sério as disciplinas que a religiosidade coloca como requisito indispensável para chegar a esse poder, e, portanto toda minha retórica pode ser acusada de incompleta, por não ter se submetido ao testemunho da experiência. Em contrapartida, nunca me pareceu uma jogada muito honesta pedir a um sujeito que se debate para não morrer, que é espancado cinco vezes por dia, que cresce nos esgotos mendigando afeto, que acrescente a sua luta a busca por iluminação ou santidade. E eu ainda nem estou filosofando... Minha única refutação é a prudência e tampouco tive uma mãe religiosa para sentir a necessidade de preservar o respeito por algumas palavras quando elas já não tem mais utilidade.
Veja, Prometi a minha filha outro dia, em um acesso redentor, que a levaria em uma viagem. Queria dar-lhe a chance de passar por situações que me foram vedadas pelo cristianismo de quem me criou, um cristianismo de renuncia, reclamações e cerebralidade fria. Prometi, e o ultimo resquício de minha antiga religiosidade é o hábito de me manter escravizado por minhas promessas, então, chegando à data da viagem prometida, mesmo não tendo dinheiro, mesmo vivendo de bicos e submetendo-me a uma dieta de pão com água , eu comprei as passagens com o que trazia guardado a sete chaves para alguma emergência e começamos a nos preparar. A pequena era só ansiedade. Oito anos de perguntas, ensaios para uma identidade e brilho refrescante de uma vida que começa. Olhando-a arrumar diligentemente as suas coisas, ignorante sobre a falta que o dinheiro da viagem ia me fazer, inconsciente do sentimento de vanidade que assalta os velhos diante da alegria, eu me perguntava se não seria uma grande crueldade a vida, mas detive esse pensamento com a mão e o esmaguei como a um inseto.
No dia da viagem tão sonhada minha mulher chegou atrasada do trabalho, e como se um duende maligno estivesse conspirando, não achamos ônibus também para a rodoviária. O desespero de mim se apossou: Quanto vale a decepção de uma garotinha de oito anos? Pegamos um taxi em meio a minhas projeções sobre os cinco meses fazendo hora extra que me esperavam. Parecia-me ter visto impresso no bilhete que o ônibus sairia as onze e trinta e tínhamos então apenas dez minutos quando chegamos a rodoviária. Fui a um caixa eletrônico tirar alguma grana para um lanche e o caixa estava quebrado. Minha mulher blasfemava por eu não ter feito isso antes, mas tínhamos pão com banana guardado na sacola e fomos para o embarque. Achei a plataforma bem vazia, onde estavam todos? Somente nós, em pleno carnaval íamos embarcar? Foi quando percebi que me enganara: O ônibus estava marcado para as 11h15min e já tinha partido. Corri para tentar alcançá-lo na saída, minha mulher e filha vieram atrás de mim. Caíram pães e bananas atrás de nós, as pessoas riam e perdemos nosso ônibus.
Meu coração estava estraçalhado. Não tinha outro ônibus. Não consegui reaver o dinheiro da passagem. Minha filha chorava, minha mulher estava pasma eu...bem, eu não era nada senão um poço de Caos e impotência.

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

Chuang Tsé pulando carnaval

Todos desejam destacar-se. Ensaiam gestos, fingem talento, criam cavanhaque, estudam filosofia, escrevem horriveis contos, esboçam algo que pretendem chamar arte ou pulam carnaval. Todos querem destacar-se. Não ser visto, não ser comentado, tornar-se uma palmeira falante em meio ao mundo é a nossa concepção de inferno. Todos querem destacar-se, todavia, ninguém quer ser diferente. Sem novos caminhos, sem novas palavras...A velha estrada e, se possivel, seguindo as marcas de alguém que já passou. A polpa tenra do hálito vital de nossas almas expira sempre, doa de si algo que não tem. Vive em débito perpétuo pois nada produz que sacie a própria fome. Somos Hematófagos de seres feitos de madeira. Mumias celebradas e baterias esquecidas...Mas nos sustentamos do barulho e da aparência do barulho. Perdemos tudo...Perdemos a folha que caiu sobre o teu dedo do teu pé.
"o sábio não explica a questão, mas se revela na clara luz do dia"

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

No cais

Eu quero atravessar a rua e não falar.
Eu preciso desse momento sem palavras,
sem a junção esquizofrênica entre a consideração e a ida,
como um bêbado precisa do regurgito e do desmaio,
eu preciso atravessar a rua em vão.
Abandonar a cidade dos motivos sem mapas ou tratados.
deixar-me levar pelos meus passos adormecido e sem sonhos
mas olhando abertamente o riso sepultado das pessoas
em dias translúcidos de chá mate, água fria e mim.
Eu preciso de uma brecha no pensar,
de uma janela no seguir,
de uma desembarcação para o lugar onde cessam direções
e compromissos.
Eu preciso atravessar a rua, sem ser interpretado
querido,
dito
ou esquecido...
Eu só preciso atravessar a rua.

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009


Blog, auto critica e vaidade flatulenta.

Uma das criticas mais razoaveis a serem feitas a sociedade conteporanêa é a de que ela varreu da face terra a presença da auto-critica. Embora essa observação, por si mesma não seja suficiente para corroborar a tese de que vivemos os piores momentos da história humana, não posso deixar de apontar a guiza de sarcasmo os incidentes que nossa civilização tornou possivel. Um deles é crênça generalizada na natureza democratica do talento. Hoje em dia quase todo mundo acredita-se um artista habilidoso em alguma aréa. A musica é a mais requisitada entre os adeptos dessa crênça. Um rostinho bonito, tocar um instrumento, achar-se "diferente"uma herança artistica familiar e pronto: eis o cantor. Esse fenomêno é um tanto óbvio, não irei portanto deter_me nele. Quero falar de um outro, aparentado desse, mas que me diz respito de uma forma mais estreita. É o fenomêno da internet, e dos blogs em particular.


A internet permitiu que todos os indivíduos tivessem a possibilidade de expor o que produzem ao olhar de outros indivíduos, não importa a natureza dessa produção. Em consequência disso todos passaram a expor, e a querer ser visto. Mas quem iria ver, se todos querem expor? Logo surgiu a solução: as pesoas passaram a visitar os "my espace" "bloggs" e "orkut's" alheios a fim de serem notadas. Aqueles que eram visitados passaram a retribuir as visitas para manter a clientela. E assim todos garantiram olhares e seguiram acreditando que tinham algum tipo de talento em suas planas e óbvias pessoas. O plágio também tornou-se uma constante, e é desesperador perceber como as pessoas são semelhantes a buracos negros que de tão vazios acabam sugando tudo que vêem para tentar preencher-se e seguir acreditando que têm substancia. Eu citaria nomes, mas isso não seria elegante. Todavia é deprimente ver indivíduos tentarem corroborar as próprias auto-imagens através do plágio, da bajulação e do auto engano . É claro que a internet, assim como nossa sociedade, proporciona tantas possibilidades interessantes e ricas que essa perda não chega a ser relevante. Demais, quem defende a democracia a qualquer custo como eu, não pode opôr-se ao livre exercicio da flatulência, mas também não posso deixar de expor o que registra o meu olfato.

Para prosseguir- Ensaio de um pragmatismo romantico 2

Viver entre outras coisas requer paciência e tato. Uma estratégia mais sutil, um desejo melhor articulado, expectativas mais razoáveis e menos exageradas. Veja, se as coisas não correspondem ao que desejamos a responsabilidade sobre o desgosto que daí advém me parece que é muito mais nossa, que escolhemos nossos desejos, que da vida que não os satisfaz. Afinal quem foi que determinou a necessidade absoluta de certos desejos? E quem foi que determinou qual atitude iremos adotar diante do impedimento de obtermos um certo resultado? E, ademais, bater o pé no chão e maldizer forças invisíveis como a sorte, deus, carma, a sociedade ou a biologia e etc não irá ajudar-nos, eu acho, a obtermos o resultado que desejamos. Saúde, controle, satisfação e um certo sentido de maleabilidade e adaptação são as coisas que todos nós mais desejamos, no entanto , elas devem ser dimensionadas de forma que não estrangulem seus próprios projetos.
Todavia, o problema apresenta-se quando percebemos que ninguém tem apenas um desejo e toda escolha que contempla um desejo ,ou um “bem”, implica a desistência de outro. Não percebemos isso quando o desejo contemplado extrapola imensamente todos os outros que possuímos ou não apresenta contradição com estes no momento mesmo da escolha. No momento em que isso ocorre nos encontramos na difícil situação de ter que fazer um escolha sem o referencial necessário para nela nos sentirmos seguros, pois todo referencial só irá apresentar-se APÓS termos feito a eleição de qual bem fundamental irá nortear nossa ação. Agir assim implica possuir os valores citados no inicio desse texto, estes, Não são valores EM SI MESMOS como aqueles divulgados pela religião ou pela bíblia, são valores que me parecem úteis, quando precisamos realizar nossas escolhas e avançar um passo que seja em direção a uma vida mais clara, aberta e sem contradições dramáticas.

Sábado, Janeiro 31, 2009

Rancor.

A culpa é o seu argumento...
Queimar cidades que não se curvam a teu poder.
Dias destroçados de lamuria,
rancores semeados
Pela tentativa vã de erguer-se
ao patamar de uma antiga condição.
A pulverização do brio,
A vingança a qualquer custo,
A consideração movida pelo desejo de fugir
à condição finita que nos determina a todos.
que nos determina a todo
se você consome o breve tempo destinado
em horas arrogantes de resgate do passado

Quinta-feira, Janeiro 29, 2009

Sentenças - Um estudo topológico do abismo.

Pequenos grãos de poeira voavam no quarto quando acordei. O leve mal estar da bebedeira e o conhecido sintoma da falta de meta. Exausto, mastigado e sem qualquer prerrogativa.
Sonhar nunca foi um anestésico desejável para os meus cancros. Terminações do inacabado e opressões simbólicas que não alimentavam minhas trincheiras com sentido. O remorso também é uma alegação vazia, um fantasma desenvolvido por professores sem competência para a vida. A dor passada e o medo de sua recorrência é que se encarnavam quando a benção da noite sem delírios não me acobertava. O dia que me esperava poderia trazer uma nova aurora, o reconhecimento contingente de outras linhas que, a semelhança destas, escrevi entre catarses contingentes de dramas revividos. Haveria a entrevista, eu talvez fosse confirmado, não havia outra possibilidade maior de sobreviver com brio, pagar as contas e talvez, quem sabe, mostrar a minha filha que o pai dela não era um completo fracassado. Mas havia o medo, havia o inevitável, havia a incerteza que sempre fiz questão de admitir. Olhei firme para o canto da casa e podia jurar que havia alguma coisa movendo-se na sombra, algo esperto, malicioso planejando a próxima jogada para esmagar-me o nobre coração. Lancei-lhe uma cusparada em desafio e saí para comprar cigarros e algum repasto atravessando a turba das vozes que se misturavam ao sol do meio dia. As pernas estavam doendo e sinceramente não sentia nenhuma disposição para ser sociável, portanto, procurei o mais vazio dos mercados. Perdi alguns minutos nesse processo e outros tantos olhando as prateleiras e pensando no que comer, sem conseguir estabelecer uma média ponderada entre o melhor prato para o meu refinado paladar e o preço acessível aos trocados que trazia no bolso da calça desgastada.
Às vezes tenho a estranha sensação de que todos estão me observando, e tentando (por algum sórdido motivo) chamar minha atenção. Uma senhora imensa, com o cabelo coberto de rolinhos de papelão parou do meu lado e começou a falar dos preços, da qualidade das mercadorias e do atendimento do mercado. Vespas gigantescas não me dariam tanto medo, invasões alienígenas não me dão tanto medo, patrões obesos e suas esposas viajando de iate em um ensolarado final de semana não me dariam tanto medo quanto pessoas que falam sozinhas. Abrigo-me no requisito que mais prezo em uma democracia, o direito A SACROSSANTA INDIFERENÇA. A mulher me olha uma, duas, três vezes, desiste e vai procurar uma outra vitima. Eu me resolvo pelo molho de tomate, macarrão e algumas lingüiças. A garota que passa as mercadorias recorre a estratégia da invisibilidade sorridente, no gesto pago meramente objetivado ela se salva da possessão alheia. Cada um quer o seu feudo, e as pessoas amáveis são as piores. O seu olhar escorre para dentro de si em um ódio calado e sorridente. Penso que o mundo seria muito mais suave, as estradas seriam mais abertas se não houvessem tantas exigências penumbrosas, tantos círculos confusos para chegar ao mesmo ponto de partida. Como nos casamentos por exemplo. Energia gasta, tesão desperdiçado automutilação inútil. E eu me ponho a pensar na minha utopia: “Senhor Juan Leon, no quesito desempenho sexual o senhor contemplou as exigências do contrato, mais nos tópicos seguridade social, previsibilidade afetiva, exclusividade corpórea e apresentabilidade social o senhor realmente não foi bem avaliado e terá de ser demitido desta relação” Simples direto e sem meias palavras. O fim do absolutismo na vida das pessoas. Tangibilidade e espaço para soluções mais rápidas. Aleluia Huxley!
Chego ao desterro pequeno e abafado do meu quarto, carregado destas palavras absurdas e destas parcas e vergonhosas compras. Os livros estão por toda parte, assim como as revistas masculinas, os rascunhos mal acabados de possíveis contos e poemas e recibos nunca pagos que me levarão para o abismo. Coloco a água do macarrão no fogo, separo as lingüiças com uma faca em pequenas rodelas e faço o mesmo com as cebolas. Frito tudo no óleo e aguardo que a água ferva enquanto ouço um Hank Wiliams colocando uma fumaça no juízo e acompanhando o Krishnamurti em sua tentativa. Nada de tentar resolver. Nada de tentar não tentar. Afinal de contas, seus infelizes, vocês vão ou não vão encarar QUAL É MESMO O PROBLEMA? Bom, muito bom. A água ferve, jogo o macarrão lá e fico misturando para evitar o grude. O satanás do macarrão. Queimem seus infelizes, cozinhem no meu fogo, derretam seus corpos esbeltos de farinha de trigo hahahaha. O macarrão chega ao ponto, lavo a massa em um encardido escorredor plástico, jogo a coisa toda no meu prato, cubro com o molho pronto comprado por trocados e laureio minha obra com as rodelas de lingüiça engorduradas. Um manjar. Coca-cola para minha ulcera e tudo está perfeito.
Acabo com a minha criação em algumas garfadas. Uma metáfora perfeita do que é viver, e só me resta terminar o trabalho soltando a massa marrom e desprezível no vaso sanitário. 15:00 horas. Aproxima-se o horário do fatídico resultado. Será Juan Leon publicado finalmente? Será o romantismo trágico refutado pela contingência desejada da democracia? Leitores para quem não traz consigo as credenciais? Eu quero ter meu pessimismo refutado e também não vou dizer que é nobre. Vou para o chuveiro e esfrego bem as partes, mas não me masturbo, poderia dar azar, é melhor não arriscar a essa altura do campeonato. Quase chego a rezar... quase. Vestido com uma puída calça jeans e uma camisa social desbotada me atiro novamente as ruas.
Após atravessar metade da cidade chego ao reluzente centro empresarial onde as rapinas de gravata decidem o destino das ratazanas estropiadas. O edifício da editora perde-se na imensidão do espaço. Uma torre inimaginável, um castelo cercado pelos fossos de tradições herdadas, de filhos que seguiram os seus pais, de pais que seguiram os pais deles, de acumulação determinada pelo medo e eles tem razão. A vida oferece as premissas para isso e eu não posso refutá-los, todavia, estou situado em uma posição desvantajosa e por isso os desprezo. Desprezo a sua falta de criatividade, o seu senso de acordo, a convicção de seu parco senso do que é viver... áridos desertos, mais não é culpa do dinheiro e sim da preguiça alimentada com o leite tenebroso da família. Mas preciso da migalha deles e por isso estou aqui. O recepcionista me olha com suspeita e me mostra o elevador. O que há com esse cara? Nunca viu um escritor? Que tolice a minha, esqueci repentinamente que agora os escritores falam sobre “caminhos sagrados de Santiago Compostela” “como ficar rico sem fazer esforço” e vestem ternos bem cortados ou descontraídas blusas brancas sem estampa no calçadão de Ipanema.
Chego ao escritório no 26° andar e uma secretária linda me recebe. Peitos formidáveis. Como uma juventude sadia fazendo amor em prados verdejantes e redenção absoluta em um gozo apenas, mas ela estraga tudo me olhando com desprezo. Eu me apresento, ela me pede para sentar e eu espero tremulo pela minha sentença.
A porta se abre. Um sujeito cheio de trejeitos femininos sai da sala com um ar blasé. È isso que é ser um escritor hoje em dia? A garota chama meu nome e diz que eu posso entrar. Minhas pernas quase não respondem. Os supermercados não estão oferecendo vagas. Não tenho contatos que possam me conseguir um emprego como professor. Já não tenho idade para carregar os fardos de farelo que me permitiram alimentar a minha filhinha até os sete anos. Talvez essa seja minha ultima chance. Atrás da imensa mesa um sujeito mais redondo que eu ocupa o centro de uma sala repleta de livros enfileirados nas paredes. O cabelo grisalho meio despenteado tenta me convencer de que ele é um sujeito comprometido com a cultura, mas os vincos de sua testa insana me mostram que na verdade quais são as suas verdadeiras intenções.

- Sr, Juan Leon, Avaliamos os teus contos e devo lhe confessar que estou surpreso. São muitos bons

Eu gelo. Será que finalmente alcancei o meu lugar? Então é isso? Sim, Sim, agora percebo que tudo faz sentido. Ah! Como fui tolo duvidando, era só um experimento para burilar minha palavra, sim, sim um longo e tenebroso sonho do qual despertei agora. Mas ele não tinha terminado ainda.


-Todavia, não temos mercado para o que escreves.

O chão desaparece sob os meus sapatos, o frio toma conta de meu peito enquanto ele desfia seu rosário de observações prudentes sobre o iluminismo, a internet, auto-ajuda e os manuais. Após perceber que já não há mais solução, que eu sou antiquado e ressentido em demasia para ser assimilado eu balbucio a minha sentença interrompendo seu brilhante raciocínio.

- É que nos falta uma hecatombe nuclear.
-Como? Desculpe Sr Juan, não entendi.
- uma Hecatombe, sabe? Pessoas sendo queimadas nas ruas como papel sequinho, sabe? Brancos, negros, pobres, ricos... Todos, sem exceção. Queimado, tentando salvar suas peles sem pensar em mais nada. É o que falta para que algumas coisas tornem-se relevantes. Não que eu deseje que isso aconteça, claro, é apenas uma observação solta. Bom, tenho que ir, uma importante editora americana mandou-me uma carta dizendo que eu sou a maior descoberta literária depois de Hemingway.

Levanto da mesa do meganha e o deixo lá estupefato. Ao passar pela secretária peituda deixo escapar baixinho.

- Quando quiser chupar uma pica de verdade me telefona
Desço o elevador e a rua me recebe como uma puta louca sedenta do dinheiro que não tenho. Ela não me perdoará. Me cortará os membros e eu terminarei meus dias me arrastando com um pequeno molusco a me alimentar de excrescências. A mundo rodopia. Meu corpo cresce e encolhe como uma bola de soprar. Sento em um meio fio com a cabeça entre as pernas esperando o despertar que nunca chega, o fim da longa noite que pode não trazer alivio.

Eu não sou um escritor !

Eu não sou um escritor. Um escritor tem um plano, uma técnica, um discurso. Um escritor tem uma visão geral de mundo que ele tenta tornar concreta através de suas palavras. Um escritor tateia, anda as cegas no mundo, esbarrando nas obrigações que ele impõe, tentando delas se esquivar porque ele sabe que tem que escrever, e algumas vezes, sabe até “o quê” ele tem que escrever. Um escritor tem uma linha estável de temas e de formas. Ele acha que encontrou a maneira mais digna e apropriada de escapar da morte que nos ronda a todos. Quem se afeiçoa a um escritor, abre um de seus livros e sabe mais ou menos o que vai encontrar. Não, eu acho que não sou um escritor, eu sou mais parecido com um lutador de boxe. Sei que as pessoas que tem na leitura um prazer ou um ideal, que suspiram e se elevam ao ter um livro diante do olhar, não gostarão dessa comparação. Sei também que algumas pessoas em geral consideram o boxe uma barbárie, uma estupidez que deveria ser abolida do cosmos. Eu também acho. Mas e o funcionário da empresa de limpeza que recolhe nosso lixo? E o policial que todo dia oferece o peito às balas? Não deveriam essas profissões serem extintas? Mas elas servem aos nossos interesses, e é isso que está em jogo ao condenar o boxe, portanto eu não condeno.
Concordo com o velho F.X. Toole quando ele disse que o boxe tem algo de contrário a natureza. Quem sobe em um ringue ao invés de fugir da dor, vai de encontro a ela. Ele avança na direção do medo, fixa as pupilas no que lhe pode destruir, balança e se move ao invés de ficar petrificado pelo horror. Concordo também com Myke Tyson. Quando sobe em um ringue, todo homem tem um plano, até levar o primeiro soco. Eu procuro não ter planos. Sigo de pé, observo o que está acontecendo e tento reagir a contento. Mantenho-me em sincronia com as imposições do agora, sobrevivo como posso e registro tudo em um limbo não pensado que vai se transformar em palavras para rebater o ataque geral das coisas. Também não tento me esquivar ao fato de que sou eu sobrevivendo como posso, berrando minha dor para suscitar aliados e forças ocultas que em mim mesmo. Se eu inspiro sei que a platéia irá me levar para frente. E se for útil para eles, tanto melhor. Seremos honestos e companheiros. Eu escrevo como quem luta, e convoco cada pessoa a viver as próprias lutas com o que escrevo. Por tudo isso eu acho que não sou um escritor, eu sou um lutador de boxe. Eu carrego a marca das pancadas e preciso olhar de frente o medo para colocar meu sangue no papel. Todo boxeador um dia cai. Todo lutador tem um adversário esperando para derruba-lo, tudo que ele pode fazer é adiar esse dia, e dar um espetáculo ao publico enquanto isso.
Meus contos falam sobre desemprego, solidão, crises conjugais, traições, morte, responsabilidade. Tento não ser doce nem repulsivo. Pretendo apenas vier meus dias e me manter desperto para não ficar imobilizado pelo medo. As vidas que relato são a minha vida refletida por mim mesmo, desdobradas em outros nomes que passaram pela minha história. Quando estou escrevendo eu só tenho a mim, e ao meu desejo de compartilhar e oferecer algo a quem está me confirmando ao ler o que eu escrevo. Eu espero estimular alguém a cantar seu próprio canto, a lutar sua própria luta: Eu sou um lutador de boxe!

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

Versos para meu cancro

Você pensa que foi uma vitima?
você acha que não vale a pena?
Você espera algo que não sabe o que é
e se queixa de não conseguir alcançar?
você chora?
você lamenta?
sente-se ao cair da tarde um pobre e desprezado
quase nada sob os raios indiferentes do crepuculo?
Eu tenho um cancro que supura toda noite,
ele fede, doi, é duro e terrivel...
Ele odeia as pessoas,
ele despreza a esperança,
Mas aprendeu a cantar.
E seu canto é tão doce...
E parece tão tolerante com tudo..
mas nunca deixou de ser um cancro horrendo explodindo em pus,
ele está tão exposto a tudo..
Sua carne viva apodrecida
se irritando e maldizendo até mesmo
a luz do sol.
Mas eu não tenho pena do meu cancro
você tem do seu?

Domingo, Janeiro 18, 2009

Mêdo

As pessoas tem mêdo.
Erguem-se as baricadas e espelham-se nas multidões,
Epiderme de espuma montada sobre gravetos,
Por esse pequeno e asmatico motivo elas gritam
E gritam por esse motivo.
Atropelam-se nas exigências, retraem-se nos calabouços,
Erguem-se
No movediço.
Esperando,
Cobrando,
Vigiando,
Vingando-se com as unhas sujas
Da palavra.
Sim, as pessoas tem mêdo.
Mêdo de ser e de não ser,
Da grandeza e da pequenez
O peito exposto para o olhar subjetvo
E o ódio permante contra o que não estava lá.
Se denunciam no silêncio, estropiam pela força, revidam
De muitas formas
De muitas formas eles revidam,
Mordendo-se em bons bocados.
Em suas faces, em suas vozes, na afetação de seus sorrisos,
No resultado vaidoso de uma ponderação reticente,
Eles se mostram pra mim,
E mostram-me apenas mêdo.

Domingo, Janeiro 11, 2009

Vamos...

Corram crianças...
lá estão os seus brinquedos.
Centopeis cerebrais de ferro, Muco artificial de enchofre,
Arame farpado para os jogos de afeto
e mêdo.
Saltem por sobre as estacas ensandecidas interminaveis
fincadas em suculentas carcaças de amanhã,
sem cuidado ou previdência,
assim foi
assim será e deve ser eternamente.
Até que os astros rolem sem centro sobre o umbigo carmico das coisas.
Crescer e utilizar machados, fertilizar antes de florir, apodrecer
pelos insetos antigos e louvaveis funerais queridos.
Aqui chegamos...
-Contradição para todos os desejos !
- Amaramento de toda viabilidade de clareza !

Trepada por obrigação, bater o ponto, um contrato, as telenovelas reforçando
toda negação humana formulada em claustros e mancomios espelhados.

Como o vale é amplo...
Uma brisa sutil percorre de ponta a ponta o caminho
daquele que se sufoca na poeira de suas cegas exigências.
O sangue coagula nas folhas por onde se arrastou
uma palavra.
E os passaros sorriem sem compreender a estupidez
de quem seguiu sobre os espinhos.

Domingo, Janeiro 04, 2009

Sopros

Retornei, e estou pasmo!
Ouvi em cinco dias o rumor geral
dos seres, das rochas, das cachoeiras e
plantei em meu coração sementes de possibilidade
que agora me estrangulam todos os projetos.
Ouvi a voz do silêncio (sei que consideras isto absurdo)
E pude fluir no lento pulsar dos milênios que arrastam vivos e mortos
em seu torvelhinho.
Eu mesmo quase morri.
Eu mesmo que amaldicoei a mão da vida
agora me encontro esmagado de encontro a uma palavra
sem som.
A você que agora me escuta
A você meu amigo, minha amante, meu filho e filha
mãe, inimigo (eu sei que tenho inimigos)
sangue de minha alma e parceiro de salmos e cantigas
quero diirigir agora este breve relato:
Os homens não são arrastados pelo tempo,Suas vidas não são covas de desespero e dor somente,
Não servimos a trono algum nem existe despóta sobre nossos dias,
Somos a própria força clara e inocente que se move e quer realizar,
displicente e sem nenhuma pretensão.
Aqui estamos e seguimos,a erva segue, o capim cresce
Nós continuamos.
Estamos presentes ao espetacúlo em papeis
irrefletidos,o lavrador em sua fé na terra, o policial em sua crença no poder
da força, o intelectual em seu mundo de palavras, a garota em seus sonhos de afeto
e dor e todas as outras forças que se cruzam e se despedem como brumas multicores destinadas
ao esquecimento,
pois tudo deve ser esquecido
e essa é a nossa redenção.
Enganou-se aquele que cantou a eternidade
e a permanencia,
o designio e a premiação,
eu canto a finitude e a contigência
na qual nos abraçamos e ultrapassamos
nossas formas
e esta é uma mensagem vã
que eu achei necessario partilhar contigo.

Terça-feira, Dezembro 30, 2008


Inferno

Somos nós quem levantamos os muros de nosso próprio inferno. Esse muro é feito de um cimento brilhante e desejavel, que continuamos a venerar mesmo depois da parede erguida, e enquanto gritamos contra nosso tormento não percebemos que boa parte de sua estrutura é composta do mesmo material que alimenta nossos sonhos. Queremos atingir nossas metas, mas não queremos assumir a consequência de nossas metas. Queremos uma mulher peituda e bunduda mas não queremos uma mulher superficial e chata. Queremos um(a) parceiro(a) fiel e dedicado(a) mas não queremos ser objeto da possesividade de alguém. Queremos alguém que não tenha ciúme e não seja possesivo e não queremos que essa pessoa sinta-se livre para desejar outras pessoas. Absurdo. Como se os sentimentos humanos pudessem brotar da magia, do milagre, da rendição incondicional a nossos encantos. Como se todos os atos humanos não se originassem de uma mesma postura a respeito da vida. Queremos o alcool sem a ressaca, o sexo sem o cansaço, dinheiro sem trabalho, inteligência sem desgastante estudo, fidelidade sem possesividade...em sintese, a vida sem consequências. E quando as consequências se apresentam, como grandes crianças mimadas que somos, batemos o pé, damos chilique ou até ameaçamos suicidio. Queremos que a vida seja gratuita e que nossas escolhas não tenham um preço. E que as coisas que elegemos como as mais desejaveis não venham com algum tipo dissabor. Deve-se isso a nossa educação religiosa, pois a religiosidade estimula a irresponsabilidade. Estamos lançados ao mundo e a ele reagindo e quer aceitemos isso ou não, o que consideramos bom ou mal é a nossa resposta para a pergunta fundamental: "o que queremos nos tornar?"Penso que é impossivel responder a essa pergunta sem ter que pagar por ela de alguma maneira. E somos nós mesmos que iremos cobrar. Ainda não encontrei sobre a terra um só individúo que não tivesse queixas sobre seu modo de vida, e no entanto, quem mais poderia ser responsavel pela vida que levamos senão nós mesmos?

Sábado, Dezembro 27, 2008

Stirner

Seculos de cristianismo sedimentaram entre os individuos uma forma bem caracteristica de lidar com o mundo. A canonização dos própositos humanos em valores "transcendentais" é um dos traços dessa herança cristã. Apesar de constituir uma aréa bem especifica da filosofia, a critica dessa herança pretende ultrapassar a divisão classica entre filosofia e senso comum por questionar todas as hierarquias valorativas baseadas no que seria o valor intríseco da verdade. Para autores como o jovem Hegeliano Max Stirner o único critério para julgar o valor de uma ideia seria o interesse de quem a defende, pois as ideias assim como as demais ações humanas são modos de obter o gozo em relação ao mundo, para através desse obtermos a nossa ataraxia, nossa auto-fruição. A verdade, segundo essa descrição, seria apenas um fantasma, que veneramos quando esqueçemos que a origem das ideias é o nosso interesse. Em breve irei publicar outros pequenos artigos sobre o Stirner. Segue abaixo o link para baixar alguns livros dele.


http://www.4shared.com/network/search.jsp?searchName=stirner&searchExtention=&searchmode=2

Sábado, Dezembro 20, 2008

Os termos nos quais colocamos a coisas que consideramos uteis são os mais diversos. Ser pragmatico em um certo sentido não exlui o idealismo, pois há problemas para os quais a solução pode depender de uma certa atitude de desdém em relação ao mundo. Entre as literaturas do "ressentimento" a que considero mais bem sucedida é a de Albino Forjaz, "Palavras cinicas" a segunda é a de Matias Aires, " Reflexão sobre a vaidade dos homens" e Omar Khaiam " O Rubayat" os 3 dão os mesmos choques elétricos do cristianismo sen o ônus da falta de inteligência e da fé. Seguem os inks para baixa-los.

Matias aires

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38089

Albino Forjaz

http://recantodasletras.uol.com.br/arquivos/770482.pdf

Omar Khayam

http://www.4shared.com/file/18375091/b1019df/rubayat.html
A proxima cerveja
o proximo amor
e a morte....
expectativas razoaveis.

Quinta-feira, Dezembro 18, 2008


Condição severa.

O sopro está no centro de si
tem sua parte de espaço
e o movimento cego que corta.
A carne do tempo é opaca,
Assinalada pelo laço
inevitavel das perseguições,
dos diabos confusos,
da peste isolada,
a carcumência celebrando
em meio a castelos deserdados e setas anteriores fendendo
nossos dias de trabalho
planejamento
e sede.

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

Buterfly

Não escrevam.
Coletem as impressões gerais
e reguem as paginas das dor
com gestos.
Não escrevam
principalmente poesia
se não encontrarem na estrada
para a confiança
desespero, dor, loucura, fome
e uma borboleta transparente
assobiando ao sol nascente.
Poupem-se das horas gastas
sob pensamentos vastos.
Ganhem dinheiro, casem,vão aos estadios lotados, as igrejas lotadas
as praças lotadas
pela ampla estrada do sucesso a qualquer custo.
Mas não escrevam...
Preservem a unica dignidadeque lhes é possivel.

Domingo, Dezembro 14, 2008

Talvez ela considere ofensivo, mas tinha uma linda xota. Alta, popuda e deliciosa quando sorvida. Conquistada sem muitos esforços, mantida sem muitas crises, cumplice das transgressões e do "deliriuns canabiens". Gostava de meter e depois fumar um ouvindo essas coisas ultrapassadas que rapazes carcumidos como eu veneram. Um Dylan (one more cup, oh sister) e aquela fome partilhada no embate corajoso do ataque quente e da recepção macia. Sim, sim e sim.Sexo é simples. Carne é simples. E as nossas almas precisam de pouco mais do que espaço e coragem. Eramos dois univeros isolados se mesclando em meios a uma tempestade de metidas, gemidos, chupões, catarses e...repouso. Repouso necessário para seguir em frente, repouso indispensavel para ter clareza e vislumbrar a face radiante...do vazio

Sexta-feira, Dezembro 12, 2008

Flama

Quero-te devastadamamente
com um sopro inflamado
e um mel de estrelas.
Quero-te com a ingenuidade da hortelã
pisada pelas geadas
e pelo temor do amanhã.
Quero-te errado
vagabundo,
cético
e totalmente dobrado
pela tua disciplina,
pela tua dobra de corpo,
pelo teu reino de dor.Quero-te incerto,
sem um amanhã
para a louca tempestade que arrasta os meus cansaços
em direção aos teus desejos.

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Segunda-feira, Dezembro 08, 2008

A fofoca e a filosofia

Ainda mantemos como herança de nossos avós o hábito de comparar nossos destinos. Isso deve-se, creio, ao fato de algumas pessoas só conseguirem levar a vida adiante se acreditarem de alguma maneira que são melhores que as outras. Ainda que o que aqui eu chamo de "melhor" possa ter diversas aplicações, é no entanto um fato notório presente tanto nas fofocas das velhas comadres, na auto-promoção dos playboys através das suas façanhas sexuais ou mesmo no orgulho daqueles que acreditam-se mais fortes ou mais "realistas"que os outros. Não creio também que esse tipo de hábito seja um "mal" por si mesmo, é apenas mais uma opção entre tantas, mas que sempre vem recoberta de uma aura de superioridade que envolve quem o assume. Pode ser caricato visto de perto, ou pode ser muito útil quando se é um completo fracassado diante das próprias metas que sem essa crênça já teria estourado os próprios miólos(ou os alheios). Algumas religiões tem o mesmo efeito. Eu prefiro optar pelo que Richard Rorty chama de uma concepção Darwiniana do conhecimento. PAra tal concepção qualquer ideia ou postura visa unica e exclusivamente o bem estar de quem a sustenta. Logo, não existem ideias ou comportamentos melhores uns que os outros, todos atendem a necessidades pessoais que variam de um individúo para o outro. Nessse sentido, a "fofoca existencial" essa que tenta impor aos outros as próprias preferências seria apenas uma "hiperbole", um desejo de anular a vida privada alheia, submetendo-a a uma concepção pessoal de como o mundo deveria ser. Portanto, você que perdeu seu tempo lendo essas linhas, poupe-se de chamar o que eu escrevo de "ressentimento" ou "apologia do fracasso", há muito tempo parei de dar ouvido as comadres.

Domingo, Dezembro 07, 2008

Eu nasci nisto

Eles não poderão
alcançar.
Os seus dedos famintos e cansados
e o olhar de medo impedirão aquele gesto.,
Eles só terão explicações..
como foram fortes,
como resolveram tudo aquilo,
qual a medida exata,
E cada polegada de sucesso
ou heroismo.
E então
No tempo certo toda merda acumulada
irá jorrar dos abismos qual imensa tempestade.
Nesse exato instante
e a partir desse momento
Haverá espaço entre as trincheiras
para a vida plena.
O pequeno gesto que eles não irão lograr
é o aceno diário,
e o cumprimento leve
que lançamos ao horror.

Quinta-feira, Dezembro 04, 2008

Natalícia de Aragorn

Ficando mais velho. O cancro dos dias cada vez mais exposto, as chances cada vez menores, a corda apertando em torno do pescoço. Os momentos doces ficando cada vez mais caros. Talvez existam redenções e fugas, sucessos e vitórias, reconhecimento e admissão...mas ainda não descobri como. Sempre um mal entendido, uma nova prestação a pagar um esbarrão com o incerto. Ficando mais velho. Sem o atenuante do aproveitamento do passado nem a compensação da vitória a qulaquer custo. Mas, de uma coisa tenho certeza...a escuridão não me levará a rastejar. Não irei pedir clemência diante dos tribunais, nem implorar por misericórdia. A armadilha foi muito bem montada, reconheço, mas não vou cair com preces ou salmos entre os lábios. QUe venha a escuridão, que venha o desespero, não cheguei até aqui para desistir do estandarte vermelho que carrego. Eles estão em maior numero, eles tem o gado, os pastos, rios, mulheres e a força. Eu tenho a mim. Essa clareira há de sustentar o meu conflito.

Quarta-feira, Dezembro 03, 2008

Um dia nada bom..

Não sei o que é bom nem ruim para os outros, mas apenas para mim. Todavia, gosto de especular. Naõ sei os motivos das ações dos outros. Não sei o que leva um sujeito que nunca cortou definitavemente o cordão umbilical a se achar o "FODÃO". Também não sei o que leva uma senhora a acreditar que tem direitos de propriedade sobre alguém somente porque lhe cedeu alguns doces momentos de partilha corporal. Não sei...Mas gosto de especular, e isso me parece muitas vezes perigoso, porque não sei o motivo pelo qual eu o faço. Mas especulo que a minha especulação pretende me fazer sentir superior a quem não o faz. Mais uma estrategia sórdida entre tantas. Cada um se defende com o que tem. A verdade é o canivete mais usado para roubar a simpatia que não conseguimos conquistar. Cada um está só. As pessoas são frageis e envelheçem, a morte é o de menos. Temos mêdo uns dos outros e de não termos uns aos outros para termos mêdo. Queremos uns aos outros e não queremos que nos queiram de determinada forma. Complicado. É, hoje de fato não foi um dia bom.....

Domingo, Novembro 30, 2008

O passo e o abismo.

A diferença entre nós dois
não é uma questão de escolha.
A diferença entre nós dois é a diferença
entre o expurgo e a chegada,
entre o acolhimento
e a rotulação de estorvo sobre a testa.
Um cortina rasgada de esperança
em berço maculado de desdém,
a absoluta desertificaçãodo afeto...
Um laço claro entre a consumação da vida
e a procura do caminho a seguir.
Uma certa dose de tolice...
A diferença entre nós,
é a diferença entre ter se perdido
caminhando as cegas
e não conseguir impor o padrão herdado
ao mundo.
A diferença entre nós é a diferença
entre a absoluta falta de laços
com as pessoas
e o ninho confuso e quente que gerou
teus pesadelos.
A diferença entre um nada livremente atormentado
e as correntes que arrastas e lhe fazem sentir
a segurança.
Um vazio imenso aos domingos....
A necessidade de fingir que tem amigos...

Sábado, Novembro 29, 2008

video

Quarta-feira, Novembro 26, 2008

Memorial dos redimidos ( para Orlando)

Todo fracassado sonha em sair da lama
e teme retornar para lá.
Uma casa bem grande,
Um quarto arejado,
"Porra onde estão meus óculos especiais?"
"Hoje iremos com a ferrari, mercedes é para perdedores !"
Uma mulherzinha doce e sensata
Para ouvir juan baez
enquanto ele lê Henry Miller
e acha que se deu bem.
Todo fracassado tem Brio
e memória,
e sabe que as coisas ruins
não tem redenção,
e sabe que as coisas boas
tem que ser disputadas a tapa
tiro,
sangue,
e dor...
Flores indescritiveis
em meio a devastação.

Sexta-feira, Novembro 21, 2008

Bosque secreto.

Amo quando vens para mim,
sem nada pedir, inteira dada.
Teu corpo rijo e sincero,
sedento e fresco,
oculto e meu.
Querendo o que me destroi
Ansiando pela visita severa
que entra e se vai como um sopro
inflamado.
Levo teu nome na lingua
Carrego na boca teu gosto
Sou filho dessa floresta
marcado por essa chaga
Bosque secreto da agua da vida
descemos ao poço,
meu bem,
para encontrar a saida.

Quinta-feira, Novembro 20, 2008

Ramo

Guardo muitas coisas no quintal

Cacos estilhaçados e noites irrefletidas

Fotos de nossa senhora com saltos altos

e alguns comprimidos velhos de

voluntário desperdicio.

Todavia separo semafóros e sentenças

das pontas imberbes de grama sedenta,

acalentando com irresponsavel cuidado

um amor que se sustenta

de dores.

Mas percebi uma nuvem...

todavia, me afligiu um preságio...

e vi no olhar que me vê

um brilho despedaçado.

Ela não crê no alto

Ela não eleva uma preçe

Ela não comunga do esquecimento comum

que sustenta a multidão

Ela tem a pele brilhante como a petala

banhada no orvalho da imensidão

E tece seus dias desfiando questões e projetos

enquanto ergue os ramos para sustentar

a palavra.


contabilizando as sensações,

Eu diria que ela está do um outro lado

e que merece a felicidade

sem as pessoas no caminho.

Deni, esse poema é para você.

Segunda-feira, Novembro 17, 2008

Considerções sobre o Boxe e a verdade.

Uma das frases mais razoaveis que já vi alguém pronunciar não foi dita por um filosófo nem por um santo, foi dita por um Boxeador com psicose maniaco depressiva e campeão do mundo: Mike Tyson. Questionado sobre a melhor estratégia para ganhar uma luta ele respondeu "quando sobe no ringue todo homem acha que tem um plano, até receber o primeiro soco".
Acho essa frase fenomenal, e apesar do velho Mike ter sido arrastado pelos próprios dêmonios, ela mostra quantas lições uma vida dificil pode ensinar. O motivo do meu apreço por tal sentença é simples: todo mundo tem suas certezas, e acha que não vai modoficá-las de forma alguma! certezas sobre o que é bom e mal, verdadeiro e falso, desejavel e odioso, até tomar o primeiro soco.
A única forma de manter-se toda vida com as mesma convicções, estratégias de como se sair bem de um jogo ruim, é ser preservado do ringue, coisa que muitas pessoas conseguem através da proteção conferida pela familia, pela sorte ou pela doença. Quem está vivo e fora dos muros erguidos pelo passado inevitavelmente tomará alguns socos e terá que rever seus planos, ou então beijar a lona e esperar o paraiso.
Veja, as ruas estão cheias de caras que acreditam poder enfrentar o mundo inteiro apenas com a sua revolta. Tendo nascido nas periferias e se alimentado do caldo do ressentimento que ensina que somente a "atitude" e a esperteza são suficientes para um homem se dar bem na vida esse caras terminam estampados nas paginas policiais ou se acomodando entre a escravidão, a igreja e o futebol.
Tem os religiosos , mas essses basta olha-los um pouco para rapidamente darmo-nos conta da verdadeira natureza dessa opção.
Mas no final das contas uma coisa é razoavel pontuar, também não existe nenhuma certeza de que não ter estratégias é a melhor politica.
A única coisa que se pode saber é que nossas crênças são tecidas com a teia da história de cada um, e podem e devem ser mudadas quando não satisfazem aquilo para que se destinam: a capacidade de esquivar-se dos socos da vida.

Sábado, Novembro 01, 2008

Advertência aos que tem brio

Max stirner me ligou
ontem a noite,
cansado e com sono
foi um dia difícil na zeladoriado hospício.
Sua voz estava cansada e caia
uma chuva de cachorros mortos
na rua.
“Acho que uma mosca me picou”
Ele falou
“Elas vivem me mordendo também”
Respondi
“Não consegui pagar minhas dividas,
Fui em cana,
minha mulher me deixou,
E como falei tudo aquilo,
também não encontro trabalho”
Ficamos os dois em silêncio.
A linha clara da convicção já havia ligado
os caminhos,
não podia ser diferente,
não tínhamos essa certeza também
“É isso ai”
Eu falei “
É isso ai”
Ele respondeu
Disse ainda qualquer coisa sobre um copo de vinho algum dia
e se despediu.
Eu voltei para meus cigarros psicotrópicos,
Meu site pornô,
Meu blues e meu country...
E antes de apagar minhas luzes
uma pétala de flor colorida pousou
sobre minha credencial para a vida.

Quinta-feira, Outubro 30, 2008

Notas sobre a valentia

Tudo se resume para alguns
A estar indignado.
E para outros
A ter um membro entre as pernas.
Mas indignação, membro, herança
Ou qualquer outro predicado
passivo
Não constituem mérito algum.
E fique claro,
Flores que crescem no vale
Não erguem barricadas de chumbo
O porco esfolado que grita
E a rasa virilidade que fere
Estão de mãos dadas na sombra.

Uma audiência

A entrevista foi marcada para as oito, porém chego mais cedo, com o específico propósito de impressionar pela pontualidade. Tolice, ninguém percebe nem mesmo a secretária loura de óculos e decote violento, gostosa demais para ser interessante, do tipo que não goza, pede o extrato bancário para saber o que dizer depois da transa.Alguns caras chegam depois de mim para o teste, uns dez e todos com caras horríveis e gestos de exagerado cuidado ou descontração forçada. Cada vez que meu olhar se cruza com o de algum deles procuro desviar rápido, evito assim uma interlocução indesejada feita de representação e senso comum. O que teria eu para falar com esses caras? Devem ter esposa chata que reclama por causa do copo fora do lugar e pede separação todo domingo à noite, amigos que os convidam para a pelada de final de tarde e cervejinha barulhenta em pocilga de esquina ou pastor evangélico para vender paz de espírito e auto - estima. Não, conheço bem esses mal entendidos sociais, além de muito desagradáveis não acrescentam nada nem a eles nem a mim “ cada macaco no seu galho” filosofa a sabedoria popular com muita propriedade.É curioso perceber como essas pessoas facilmente se aproximam uma das outras, após alguns minutos várias linhas de conversação foram estabelecidas. Depois de uma hora parecem grandes amigos, se ficassem mais uma hora acabariam marcando um churrasco entre suas famílias e apenas eu e a loura gostosa não seríamos convidados, ela pelo orgulho de seus dotes físicos e eu pela minha chatice silenciosa. A porta se abre e uma outra mulher, também linda, sai e fala algo com a loura tão baixo que não consigo ouvir. Todos se calam e ficam esperando começar o chamado para a entrevista. Eu sou o primeiro e ao ouvir meu nome levanto-me e tenho a impressão de que todos os olhares estão sobre mim, caminho até a porta e antes de empurrá-la respiro fundo quase chego a desejar que Deus me ajude. Meu desespero, todavia não chega a esse ponto.A sala é sobriamente decorada e sentada na mesa a linda (por que só existem mulheres bonitas em agências de emprego?) de cabelo preso em rabo- de- cavalo escreve algo, ou finge que escreve:- Com licença.- Entre e sente-se, Sr. Leon.Com todo cuidado eu puxo a cadeira e sento, tentando demonstrar tranqüilidade e esconder o que sinto a respeito de toda sua fingida cordialidade.- Você é casado?- Separado.- Tem filhos?- uma filha de quatro anos – A cada pergunta respondida ela baixa a cabeça e escreve algo; como adivinhar o que ela quer ouvir? Afinal de contas ninguém está interessado em verdades, numa agência de empregos, aqui o que importa é ser aceito ou rejeitado para o jogo de ratos, e eles fazem as regras.- O que você espera desse emprego, Sr. Leon?Que raio de pergunta é essa? Espero conseguir me alimentar dar a despesa de minha filha, pagar o aluguel e talvez tomar um vinho e fumar uns cigarros. Sei porém o que ela quer ouvir.- Ora, o que todo mundo quer, um salário.- Disso nós sabemos Sr. Leon, o que não sabemos é o que você espera que a empresa faça por você: ela sorri complacente e gesticula num gesto amplo como se espalhasse pétalas de flores, nesse exato momento minha cabeça começa a rodar. Preciso do maldito trabalho, a pequena precisa, mas preciso também não perder a noção de quem sou, se isso acontecer já era sanidade... Tenho que encontrar um meio termo.- Olhe senhorita, sou experiente em diversas ocupações, domino bem a linguagem e não tenho medo de trabalho pesado, isso é o que tenho a oferecer, agora acredito que o que a empresa pode fazer por mim é me pagar pelo meu trabalho.- Mas e seu desenvolvimento pessoal, crescimento profissional, promoções, carreira. A respeito de sua realização, você acha que a empresa pode ajudá-lo a atingir isso? – Ela me olha nos olhos sorrindo, eu levanto a cabeça respiro fundo e digo:- Acho que não senhora, essas coisas pretendo atingir sozinho, isto é, na suposição de que sejam atingíveis.A entrevista continua, ela faz outras perguntas e continua fazendo suas misteriosas anotações, mas o tom de sua voz muda e eu percebo que já não sou mais uma possibilidade. Ela emite alguns comentários sobre a vaga e o salário, com um certo desdém, e no final repete o conhecido adágio “não se preocupe, nós lhe ligamos” e me manda porta afora. Fim de jogo, não sou aproveitável por não estar dobrado o bastante para caber no bolso do patrão. Sem ganchos(será?) nas costas e sem dinheiro para o aluguel e para a desepesa da pequena. Na áfrica nesse exato momento crianças são devoradas por abutres, alguém está descendo de um helicóptero que custa alguns milhares de dólares em Malibu ao LADO DE UMA LOIRA PEITUDA, e tudo parece muito estúpido. Um imenso acidente, sem importância mesmo. Do outro lado da rua um sujeito em trapos caga de´spreocupadamente sob o olhar estupefato de respeitaveis cidadões. Arvores secas e sem gritos, ereções involuntarias e sem gesto, Minha hemorroida que começa a doer...onde estão os brigadeiros? sorrisos inefaveis? solidões desconhecidas pela minha rota errada? pelo meu bastão de fogo? As crianças sendo torturadas? maniácos na condução das coisas? e tudo andando como deveria desde o inicio especulado e o controle imovel que não há. Aumento minha compreensão dos mecanismos, acendo aquele cigarro já citado, entro no ônibus e a vida me refuta.

Domingo, Outubro 26, 2008

Armadilha para Jonas.

Viveu o velho Jonatas uma vida veneravel. Criou os seus filhos da melhor maneira que lhe foi possivel, o que não evitou que um entrasse para ocrime e que a filha mais nova engravidasse de um adolescente malandro e preguiçoso, como muitos que se pode encontrar pelas periferias. O velho Jonatas, ao contrário da maioria dos homens nascidos e criados na favela, nunca procurou ostentar as suas parcas conquistas aos olhos dos vizinhos, e ao contrário de sua mulher nunca se importou muito com o estes pensavam sobre a sua vida. Foi seguindo seu curso de vida muito mais por inercia do que por qualquer tipo de “virtude” (se é que isso existe”) e se viu aos sessenta anos completamente enroscado em uma constragedora situação. A questão é que sua filha precocemente “amaziada” com o vagabundo do seu genro sempre trazia algumas amigas para assitir televisão em sua casa, e como não quizessem criar confronto Jonas e a Mulher não colocaram objeção. Ora, tinha Jonas a impecavel reputação de grande pai de familia, cuja renuncia a uma vida de festas e aventuras teria garantido, por exemplo, que o filho mais velho se formasse Médico e que sua mulher fosse uma especie de simbolo da realização feminina
-olha a constância
diziam os vizinhos ao ver a mulher de Jonas passar com a sacola do pão, altiva e segura
- Isso é que é uma mulher feliz
Foi nesse contexto que Jonas se viu um dia bolinando a amiga da filha por debaixo da mesa onde tomavam café. Era uma Negra linda a clariça. Peitos arrebitados, bunda rechonchuda e um pé de umbigo que provocava dores fortes no peito carcumido do velho Jonas, e ele não segurou a onda. A menina gostou do joguinho. É claro que Jonas sabia que aquilo não era certo. A garota além de ser menor de idade poderia ser sua filha, ou neta. Mas nada disso alterou o curso dos fatos e uma noite, após todos terem ido dormir Jonas foi pé ante pé, ofegante como um porco prestes a ser abatido até chegar ao quarto de hospedes onde dormia a Clariça. A menina bancou que estava dormindo e Jonas sabia que aquilo era parte do jogo não se fazendo de rogado. Levantou a coberta e viu na meia luz aquela bundinha arrebitada desenhada pelo minúsculo short. Tirou a camisa dela e viu os peitos. Duros, com os bicos amarronzados em posição de alerta. Jonas ofegava quase perdendo o folêgo, e ainda nem tinha metido. Tirou o Short da menina , que ainda fingia dormir, e em seguida liberou a pica latejante com a enorme cabeçorra vermelha. A garota tremeu de olhos fechados como se soubesse o que iria acontecer. Jonas colocou a ponta na entrada e foi metendo devagar. A menina convulsionava e tremia, Jonas aumentou o ritmo e enfiou tudo. Ainda de olhos fechados clariça gemeu baixinho:
- Ai ! seu Jonas

Jonas continuou indo bem fundo, na hora exata de gozar tentou tirar a ferramenta para não correr o risco de engravida-la, mais clariça nesse exato momento abriu os olhos e com um risinho satânico exclamou:
- Acha que vai fugir de dentro de mim assim “seu Jonas”.
Naquele instante Jonas compreendeu tudo, e descobriu que estava perdido.


Afeto Romântico e Afeto Reacionário

Era muito comum no século XIX que os filósofos, literatos e sociólogos se debruçassem sobre os hábitos e idiossincrasias sociais de seu tempo com o propósito (implícito ou explicito) de exercer sobre as peculiaridades do comportamento de seus contemporâneos alguma influência. O tipo de sociedade que sucedeu a do século XIX condenou ao ostracismo das tribunas das igrejas e a marginalidade dos folhetins sensacionalistas o tipo de juízo que moveu a política e a vida privada de nossos antepassados. Pessoas como Nelson Rodrigues, profundamente comprometidas com o projeto de “descaracterizar” a moralidade burguesa, ou escritores de auto-ajuda como o Roberto Shiashiki, muito mais bem sucedidos nas vendas, que reproduzem narrativas medievalescas de afetividade fundada na fidelidade, casamento, renúncia e etc. fundam-se nessa tradição demasiado recente para nós Brasileiros. Em um determinado momento senti a necessidade de escrever sobre a polaridade ambígua desses dois partidos, o dos conservadores, que procuram adaptar o ritmo frenético do nosso modo de vida as velhas e não tão bem sucedidas expectativas sobre como se deve ou não se deve amar, e o partido dos românticos que há mais de um século seguem gritando que o prazer imediato e contingente deve necessariamente submeter à estabilidade da vida familiar.
No sentido de realizar o experimento pós moderno de submeter alguns dos nossos há bitos e costumes a uma forma de atitude comunicativa semelhante a que intelectuais dos dois partidos realizaram, irei dividir essas “inquirições sobre a cultura” em dois grupos: Investigações Românticas e investigações Reacionárias. As investigações românticas partem de um pressuposto comum, que é: A singularidade, a espontaneidade das supostas “pulsões” e “instintos” são melhores que o calculo e a certeza “burguesa” e constituem, ambas, o fundamento do valor dos indivíduos. As investigações (ou melhor, dizendo, as afirmações) reacionárias por outro lado se baseiam-se no pressuposto Cristão de que o indivíduo possui uma “essência” estável a qual nós nos afeiçoamos, portanto, se ocorrem mudanças no comportamento dessas pessoas que comprometem nossos pressupostos afetivos isso constituiria conseqüentemente um dolo, não só para nós que somos “traídos” por alguém que nos mostrou uma “falsa essência”, mas principalmente para o próprio traidor que será inevitavelmente “castigado pelo futuro”.
Essas duas posições, inseridas ambas em nossa cultura e componentes presentes em qualquer diálogo sobre afeto, felicidade e relação constituem heranças e paradigmas que norteiam a forma como as pessoas se descrevem a si mesmas e aos outros indivíduos. Ambas as descrições advogam a posse da “verdade” sobre as “reais necessidades” de homens e mulheres, e são, via de regra, nexos onde a vida publica e a vida privada se encontram muito próximas. O vocabulário que utilizamos para nortear nossas ações, mantendo algum grau de coesão e eficiência, na relação com outras pessoas e o vocabulário que utilizamos para firmar nessa relação os critérios para nossa satisfação ou insatisfação estão estranhamente próximos em questões afetivas e sexuais. Kafka disse certa vez que “A mulher é a ponte para o mundo”, ignorando o conteúdo relativamente machista dessa afirmação, podemos dizer que ela reflete exatamente a compreensão Nelson Rodriaguiana do ciúme e da moralidade como meros reflexos de nosso adestramento social. O outro, segundo essas duas visões, nos conduz ao mundo social e público, a felicidade comunal (diriam os reacionários) e a suas cobranças por adequação (diriam os românticos) e sua conseqüente contradição com nossos instintos “verdadeiros”.

Como habitante de uma cidade grande da America do sul profundamente inclinado, pela minha educação catolico-cristã, a monogamia e ao mesmo tempo como intelectual que aprecia a contribuição da história e tende a achar que a fidelidade, ainda que ocorrendo em um lugar ou outro, nunca chegou a constituir a regra do comportamento sexual humano eu sugeriria que sua exigência a priori e sagrada representa uma forma inadequada de sincronizar o comportamento privado e o publico. Em contrapartida a essas duas partes de minha formação eu ofereceria uma postura não fundamentalista em relação ao afeto, como tenho sugerido em relação a outras questões. Por fidelidade eu substituiria a palavra “regularidade afetiva” e por infidelidade eu colocaria e expressão “variação de comportamento sexual”, tal substituição permitiria algum ganho no campo da liberação de “enemas” afetivos da mesma forma que a palavra “erro” representa um extraordinário ganho em relação à palavra que a antecedeu “pecado”, um ganho que aumenta incomensuravelmente quando substituímos ambas pela palavra “diferença”.
Com essas mudanças poderíamos, quiçá, eliminar tanto a intolerância romântica quanto a reacionária, assumindo em relação ao afeto uma postura democrática e falibilista que não inviabilizaria a consumação nem das relações estaveis nem dos projetos afetivos que priorizam as experiências contingentes. Se a cultura prosseguir no movimento que tem adotado nos últimos três séculos creio ser inevitável que algum arranho semelhante ao que sugeri ocorra. As pessoas tem se inclinado, em minha opinião a descreverem-se de forma cada vez menos vinculada a juízos morais religiosos e homogeneizantes e a sociedade tem prosseguido desde o século XVII afrouxando cada vez mais os laços que costumavam ligar as opções privadas e a aceitação publica. Esvaziado o conteúdo religioso das uniões sexo-afetivas o que restaria do vocabulário no interior do qual a palavra fidelidade tem algum sentido? Veríamos então os sentimentos com estados contingentes e a convivência com um (a) parceiro (a) como algo não menos contingente, resultado das diversas forças, escolhas, atividades e opiniões que compõe a individualidade de cada um e não como uma escolha refletida por um “alguém” em detrimento de outros.

Terça-feira, Outubro 21, 2008

Trabalho !

Depois
de 14 horas de trabalho
raizes de amargura,
chuva de detritos,
um horizonte em chamas,
já não há mais nada para o amanhã
exeto talvez,
mais trabalho
e algum sintoma de patologia
inesperada.
Um grande
imenso
inominavel
tonel de merda me parece
tudo isso.
Mas a mente escorre para o final do
mês,
um condenado a prisão perpétua
esperando o
proximo prato
de sopa fria.

Segunda-feira, Outubro 13, 2008

Residência

Moro em um quarto pequeno
com alguns livros
muita baratas
e uma senhora um
tanto melancólica
que tem sido boa para mim
na maioria das vezes.


Minha janela abre-se para um mundo
em crise
Papeis cheios de poesias possiveis
fogem das minhas mãos
sujas e ocupadas.
Meus amigos,
quase todos,
se debatem
também contra o destino.
Já carreguei fardos de farelo
limpei latrinas nas madrugadas
de um mundo cada vez mais rico
e mais feliz.
Chorei em domingos ensolarados
e fiquei muitos contente durante
algumas hecatombes.
Agora eu quero apenas uma trégua,
vou exibir minhas credenciais
diante do acaso
e exigir
e que minhas tristezas possam abrir as suas asas
cinzas sobre o mundo
livremente.

Sexta-feira, Outubro 10, 2008

Overall

Não sei o que diria Neruda
Nem como cantaria isso o dylan.
A dificuldade em erguer-se da bruma
para verter nosso sangue em vão.
Emergir do escuro,
da redenção vazia do nada,
Para comtemplar a face do horror
por 12 horas seguidas.
Golpeando com o desespero
psicopatas sem diagnóstico,
Cristos sem rebanho,
Santos sem céu,
Sabios sem adoradores.
E no final de tudo...
Abrir a porta de casa,
tirar o sapato,
sorvendo
sabendo ,
e desejando,
.....
a paz
...
Para descobrir
em seguida
que não
terminou.
Por um motivo ou
outro.
......

ver as coisas
se impondo
e ficar
oservando...
Eu
aceito.

Quinta-feira, Outubro 09, 2008

Conciliação

Eles estão parados no meio
Com a sua cota de ódio,
Eles estão afastando o incerto
Com socos, gritos, exigências ou julgamentos.
Eles são muitos...
Milhares sobre a face da terra.
Entulhando as estradas com verbos, adjetivos e marcas.
Eles estão parados no meio,
E precisam estar certos.
Exigem estar certos.
Matariam Bebezinhos e comeriam seus figados
Para estar
Certos
Pode-se olha-los e conhecê-los com facilidade
Não oferecem mistérios
Não oferecem perguntas
Não nos acenam com as mãos
Só possuem o ódio
O mêdo
E o imenso e inexoravel desejo
De estar
Certos
Ó miseraveis....
Meus irmãos.

Sábado, Setembro 27, 2008

Pela indeterminação-2

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Pela indeterminação !

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You gime a mountain

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Quarta-feira, Setembro 24, 2008

Cantar

Alguém irá cantar para mim quando eu partir
E as mãos do tempo irão tocar o dia.
Minha dor voará por sobre as casas
Gritando
um sim.
Alguém irá cantar
para mim quando eu partir
E minha semente
seguirá com o fardo da batalha
e da esperança louca,
O vento acusará os vermes
que sugaram minha medula,
os seres pobres
que ficaram no caminho.
Alguém irá cantar quando eu partir
sem saber se partir tem algum propósito
ou se é somente o proximo engano.
irei me despindo aos poucos
diante do olhar mesquinho
de quase todo mundo
até ficar inteiro novamente
como sempre foi
enquanto consegui cantar.

Segunda-feira, Setembro 22, 2008

Ela

Será que ela sabe o quanto?
Terrtórios inexplorados e imensos
esperando o olhar dela para existir.
Mas talvez nunca existam,
leis inesgotaveis,
regras gigantescas,
e uma cara hedionda me olhando
no espelho....
Será que ela sabe o quanto?

Quarta-feira, Setembro 17, 2008

Cerveja no domingo.

Existem pessoas importantes nas ruas e avenidas,
motivações santificadas florindo ao sol nascente,
Escolhas cruciais sendo tomadas nas latrinas.
Nas arquibancadas dos açougues
sangue jorra cantando aleluias a locomotiva do amanhã
e enquanto a importância arranca a pele fresca do momento,
Eu bebo cerveja aos domingos.
Sei que existem fracassados e heróis
bandeiras, bundas, paraisos valentia e talvez
alguma
esperança.
Mas quando me permito esqueçer
a guerra,
quando a furia da metralha e o desejo louco de existir se calam
eu sento,
talvez com algum blues
fico em paz com tudo
e bebo cerveja
no domingo.

Terça-feira, Setembro 16, 2008

Ao Deus Desconhecido.

O vale é mais perigoso quando
a chuva ameaça e não vem
Pó na gola de nossas camisas,
o gado sedento sem agua
E os filhos do patrão devorando toda comida
Os mais velhos sussuram escuros segredos
Loucos, os jovens bebem como servos dementes.
A cabeça de meu cavalo tombou com um baque
e minha mulher estremece se tardo.
Mas precisamos atravessar esses dias
e seus maus presságios
tributos sem resposta a um deus
que já não serve.

Doce e amargo...B.J Thomas legendado !

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Sábado, Agosto 30, 2008

Chuva no domingo de sol.

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Quinta-feira, Agosto 28, 2008

Balada do desespero e da batalha.

Buracos na estrada, meu amor.



Guardemos as migalhas e os resquicios



do que temos



para um amanhã incerto.



A garra e o pavor se esgueiram



a peçonha da maldade



nos persegue,



Edificios no horizonte,



avaliações e prazos,



Numeros, papeis, trovões, morte



desespero.



As portas entreabertas e os



olhares,



terriveis arvores secas e locomotivas mortas



em meio ao caminho que não nos leva a parte alguma.



que não nos levam



a parte



alguma.



Corre minha pequena,



carrega minha arma



prepara nossa mala,



Essa noite fugiremos



antes que a onda se levante e engula nossos sonhos



se eles não tiverem sido estraçalhados



por nossas proprias mãos



covardes .

Quarta-feira, Agosto 20, 2008

Cortinas

Nós não sabemos onde chegar
e na verdade puco importa.
As cortinas cobrem os viadutos a as auto-estradas
e o experimento geral do mêdo não termina.
Estamos todos em acordo com relação a esse ponto:
Que permaneçam os dedos costurados
e que as palavras não digam coisa alguma
para que cheguemos satisfeitosa terra cinza do sucesso
do êxito
e da frustração final
Esse é o unico fundamento
dos pedidos de desculpa
e das privações
do amor abnegado e do grito indignado
sucesso êxitoe a frustração final.
PAra exaurirmos satisfeitos nosso sopro breve
felizes de que descemos abraçados
em trincheiras diferentes
de uma batalha universal.

Domingo, Agosto 10, 2008

Um longo caminho

Ninguém sabe como começa. Quando cada um de nós se dá conta já é tarde demais, só resta seguir em frente. Não é um passeio, nem uma escola. Trata-se de uma expectação constante, uma observação sem conclusões ou uma guerra infindavel. Não podemos nos esquivar. Cada um de nós está sozinho. Tentando obter êxito a qualquer custo, cada um dispõe a principio só de si mesmo e do que faz disso depende todo resto. Há tantas estratégias quanto pessoas no mundo e ninguém é inocente, isso nos irmana e nos afasta. Gostariamos de legitimar nossas pretensões de êxito, mas não existe nada de ilegitmo ou de legitimo. Tudo que há é a luta e a tentativa de dela evadir-se, que também é luta, e a consciência que nada mais é que o risco que essa luta acarreta.

Quinta-feira, Agosto 07, 2008

Sueno con serpientes-Silvio Rodrigues

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Uma peróla do genuino romantismo latino.

Finitude.

Como um náufrago me encontro diante dos teus olhos
E dos teus desejos.
Quase sem recursos, sem palavras luminosas e sem a fúria necessária
Para ser acreditado.
As nuvens não respondem, elas apenas carregam a água e os trovões
E o sol não nos ajuda, ele apenas traz a sede e a consciência de nossa caminhada
Por isso estou diante de teus olhos sem palavras e sem gestos
Sem querer subtrair uma vírgula ao texto inacabado
Nem erguer-me mais que o indispensável para conseguir sobreviver.
Meu bem, estou diante dos teus olhos.
Será que voçê pode suportar e sustentar-se
Sem reduzir nem macular
O copo de café e a sentença que define
O beijo de amor e a ferida que nos acompanha?
Ah querida, silencia enquanto o tempo escorre
Pelas nossas rugas e pelos nossos devaneios
Silenciosas confissões de nossa finitude.

Jesus numa moto-Zé rodrix

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Terça-feira, Julho 15, 2008

O anzol e o sonho.

Elas esperam por voçê...
E o anzol parado reluzindo na sombra
de nossas noites errantes
de vagabundagem e solidão.
Uma cama quentinha,
comida decente,
e com sorte
algumas belas e regulares trepadas
sem camisinha.
Na chama dos ciúmes partilhados
e na guerra inevitavel de ser gente.
Um Deus cativo no altar do afeto.
Sem nenhum espaço
para SER SOZINHO.
Ou então...
Uma pustula etlíca se arrastando nas esquinas da miséria.
Elas esperam por voçê.
Para dar sentido ao movimento equivocado
da vida dividida,
sugar-lhe a seiva a pretexto de cuidado,
secar-lhe o brio a pretexto de virtude
fazendo de voçê um cidadão decente.
Dividido em vidas paralelas para não abraçar espinhos.
Elas esperam por voçê.
E voçê espera pela exceção.

Quinta-feira, Julho 03, 2008

Velhice e amor

A tarde começava a cair quando isaac levantou-se da poltrona ainda sonolento. Os remédios para reumatismo costumavam lhe deixar com o corpo mole e cabeça pesada. Pegou o livro de contos em cima de mesinha da sala e arrastou as sandalias até o sanitário. era o único lugar apropriado para se fazer uma leitura sossegado.Era um bom livro aquele, mas o autor levava muito a sério coisas banais como a existência de Deus ou a escrotidão feminina. "Todavia parece ser um bom sujeito esse tal de Enzo De marco" Pensou Issac. Terminou as suas necessidades elementares, se limpou e deu a descarga. Na sala a sua senhora também já tinha despertado do cochilo vespertino e preparava o café, a janta ou qualquer outra merda que a fizesse acreditar que era importante enquanto resmungava, reclamava e cantava musicas evangelicas . "Ficar velho é de fato uma das piores drogas que acontecem com o individuo quando ele ainda não resolveu dissolver-se dentro de algum tipo de misticismo". Isaac pensava coisas desse tipo, pois sua cabeça doia e sua senhora tinha acabado de retomar a cantiga sobre as infidelidades da juventude de isaac. Toda tarde, precisamente entre as 15:00 e as 19:00 quando a casa voltava a ser ocupada por outras pessoas, a senhora de isaac retomava a mesma narrativa. Eram traições atrás de traições. Umas reais (mas e daí se ela aceitou e não deu o fora?) outras pura invenção, estas por sua vez, frutos de sua sensação de rejeição, derrota, putrefação, incapacidade e dependência.Essa torrente de lama esculpida e costurada com pedaços de eventos reais tranformava-se miraculosamente em uma aura magnifica de brilho e superioridade moral ao tocar a esposa de isaac. Na dor de sua condição ela elevava-se acima do comum dos mortais, não era somente mais uma fracassada, tornava-se uma martir.
Isaac sabia disso tudo e justamente por isso tinha aprendido a não se ofender. Na verdade não deixava de admitir sua parcela de culpa. Continuar casado com cecilia foi uma escolha reiterada durante anos. Reconhecia também que tinha sido um contrato vantajoso para ambas as partes. Para ele o casamento foi garantia de uma casa sem baratas, comida não apodrecida e sexo de qualidade e para ela... bom se foi mal para ela, foda-se! ela é quem deveria saber se virar e dar um jeito na coisa toda. Cecilia Já tinha sido uma bela mulher. Não linda, é verdade, mas era gostosa. Trepava bem também. E apesar de não ser um gênio não implicava com as loucuras literário-filosóficas dele. Era um tanto ôca, mas dava lugar ao eco da voz narcisista do isaac e ele gostava disso. O único problema é que ela era uma mulher e também queria sua fatia de veneração, uma veneração que no caso dela tinha de vir de outra pessoa. Isaac nunca tivera esse problema e continuava sem tê-lo. Só queria gozar e viver sua vida, o mundo e as pessoas que fizessem o que lhes parecesse melhor. Agora Isaac pensava na morte e em uma trepada gostosa com beijo de lingua, algo absurdo e impossivel em sua idade.
Entrou na cozinha e pegou uma fatia de pão, passou manteiga e levou a bôca enquanto Cecilia gritava e acusava. Sua filha entrou na cozinha beijou seu rosto depois beijou a mãe e saiu. Menina Esperta, ele pensou. Tá cagando e andando para as tramas alheias. "Essa sim vai saber gozar, seguir em frente e ainda se emocionar com o pôr do sol". Depois reconsiderou: "Pai babaca. Tudo é uma merda só."
Isaac foi para o quarto e deitou na cama onde já dera tantas metidas magnificas. Também já gritara de desepero e mêdo em silêncio. Pensou no Buda, no Krishnamurti, grandes sujeitos, tentou meditar. Esvaziou a mente e se sentiu muito bem com isso, dava uma sensação de poder e de força. Os pensamentos voltaram. A imagem de uma mulher que trepara a uns 10 anos flutuou derrepente em sua cabeça. "Cionara, que nome, que Foda". Um beijo tão quente, uma coisa tão triste e tão itensa e... desesperada, mas escapou de suas mãos, como tudo de bom que lhe atravessara o caminho. Isaac se sentiu triste e exitado. Colocou o pau semi ereto para fora e começou a se masturbar. "Ahhh, sim, sim " Ele repetia baixinho fazendo algo de que já se tinha esquecido. A mão se agitou, começou a trabalhar de verdade. Ele voltou ao pasado em uma corrida louca e impossivel. Sentiu o coração doer em uma forte pontada. O pau ficou vermelho e Grande. A dor tornou-se insurpotavel, seu peito estava explodindo. Esporrou como um chafariz, perdendo a consciência junto com o desejo. Caiu de lado sorrindo e morreu.

Quarta-feira, Junho 25, 2008

Entendimento.

Sem saber para que lado olhar
como um bebado a se amparar
nos poucos amigos que persistem
eu sigo.
O chão partido
o frutos que não vingam
A mão, o tato e o olhar já não encantam
e o ferrugem das coisas esquecidas recobre
o campo lindo de girassois que semeei.
O olhos mesquinhos querem ver-me de joelhos
ou olham simplesmente seus reflexos,
mas mantenho o brio.
Não sei quem veio pra ficar
nem quem só quer roubar o que restou do nada.
Não temos,todavia, outra escolha senão semear
estrelas de sangue nos céus da persistência
sem esperar entendimento das pessoas.

Segunda-feira, Junho 16, 2008


Quinta-feira, Junho 12, 2008

Uma canção para deni.(delirio de amor cético)

É duro saber o quanto tudo importa tão pouco,
quando nem temos o bastante para prosseguir
nos importando.
Não é nada agradavel sangrar olhando o sol
se pôr,
Nem catar cacos de aurora nos litorais azuis
do desespero.
Mas pelo menos ela está ali...
desfiando também o seu rosário cético,
ciente da separação inevitavel entre nossas consciências
e da linha carnal que une nossas vidas.
É bom ouvir o teu suspiro,
e recostar no teu colo doce
enquanto tudo se desfaz, se renovando eternamente,
e apesar de tudo
e apesar de tudo
ela ainda está ali.

Domingo, Junho 01, 2008

A filha querida

"Me dei conta de que não podia ser de outra maneira." Respondeu o velho homem coberto pela poeira das andanças ao ser questionado sobre como recebeu a noticia do assasinato da filha única que tinha se tornado prostituta em recife. "A mãe dela adorava a noite, e eu sou somente um pobre e ignorante catador de papelão." Suas mãos encarquilhadas pelo trabalho exaustivo se esfregavam uma na outra, fazendo um ruido seco, que se fazia ouvir nos intervalos de sua confissão. " Muito cedo minha filhinha se afeiçou a mãe que passava os dias ao seu lado enquanto eu rastejava pelas ruas e pelos aterros sanitários em busca do que os doutores não puderam aproveitar. A pequena foi crescendo, eu queria "botar" ela numa escola boa, sabe seu moço, mas a mãe dela achava que devia comprar roupa bonita, sapato de gente chique e vivia me maldizendo por causa da "micharia" que eu ganhava com minhas catações." O homem suspirou fundo e olhou para o céu, seu olho claro e fundo era um espelho do abandono. " Nós brigava muito seu moço, e chegou uma hora em tive que ir morar em outro lugar pois a mãe de minha filhinha vivia me ameaçando de morte. Ah seu moço, só num me pergunte como doi prum homem como eu deixar a coisinha mais linda da vida e ir embora sem saber pra onde. Minha pequeninha estava dormindo quando eu juntei meus pano e fui morar na rua." Nessa altura o olhar de seu manoel tornou-se turvo por uma lagrima, ele levantou o copo deu um gole longo na cachaça, estalando a lingua. "mas se eu fico lá, que seria dessa criança seu moço? " Seu manoel levantou a voz e deu um murro na mesa " "e se eu brigo na justiça e tomo a menina pra mim, já apegada a mãe ela não haveria de me ter desgosto então? Vê seu moço, como tudo tinha que ser? Passou-se o tempo sempre ia ver a menina, a casa da mãe se tornou um antro. Tentei varias vezes tirar a menina dali e levar ela embora, mais a danada não queria. Amava a mãe. è duro perceber que o bezerro ama a mão do açougueiro que o vai matar por causa do costume ao pasto que come todo dia." O homem gasto Agarrou a cabeça com as duas mãos e desabou sobre o balcão, estrangulado pela própria impotência. " Olha seu moço, que me censure quem quiser, mas nem deus nosso senhor faria diferente do que esse cabloco fez. Me afastei do único raio de luz dessa minha vida sem sorte nem estrada. Sim. Se cometi eu algum pecado foi o de coabitar com a mãe dessa menina que morreu assasinada em algum puteiro escuro. Viver é uma coisa estranha seu moço, e a culpa é de nossas esperanças".

Terça-feira, Maio 27, 2008

O filho querido

Não vá ! ela gritou ao filho que já se afastava com a arma em punho, decidido a se tonar mais um soldado do tráfico. Com o pranto lhe inundando os olhos Marta afogava-se no próprio desespero e a vida lhe parecia uma armadilha cruel...seu único filho. Sentado nos fundos João souza, o pai preparava a guia de café para mais um dia de batente como fazia todo final de tarde. "não te sensibilizas com o destino de teu filho?""" A mulher gritou batendo no peito. " Cada qual decide seu caminho" João respondeu tranquilamente, traindo, todavia, um travo de amargura em sua voz " E não existem garantias em nenhum dos caminhos que se escolhe" Ele virou-se para a mulher convulsando e disse " Antes de ser nosso, nosso filho é dele mesmo e a vida é uma coisa sozinha".

Sexta-feira, Maio 23, 2008

Cavaleiros e armaduras.

A muito tempo que certas questões deixaram de ter qualquer relevância para mim. A existência ou não de Deus é uma delas, o pensamento como algo desvinculado das nossas inclinações e demandas pessoais é outra. Talvez outras vidas tenham outras coisas a fazer com a existncia de Deus ou com a nessecidade muito humana de uma verdade, mas a minha vida é a única sobre a qual me sinto autorizado a dizer algo. Isso me faz lembrar de ítalo calvino e o seu "cavaleiro inexistente" Alguns precisam da certeza abstrata pois a própria substância concreta é vaga, eles temem perder-se. Outros tem tanta substância concreta que não tem consciência alguma da própria existência abstrata, e rolam soltos no meio das coisas sem conseguir delas apropriar-se. De qualquer maneira essa divisão, como a maioria dos meus pensamentos, é quase arbitraria. A minha vida e o meu caminho se impõem, e se eu desejaria ver as pessoas assumirem um meio termo entre as "taras" do pensamento e os "dogmatismos" da ignorância, isso também tem suas raizes no meu próprio percurso egoista. No entanto gosto de me perguntar: poderia ser diferente?

Terça-feira, Abril 22, 2008

Campo aberto

Nada mais comum que o homem pense sobre seu próprio tempo dando-lhe um papel especial sobre os demais momentos da história. Isso ocorre tanto nas mais elevadas e pretenciosas formas de pensar como nas mais simples e comuns, e por constituir uma forma tão comum e muitas vezes util de lidar com os fatos não irei condenar esse complexo de épico. Apenas gostaria de apontar parao outro lado, para a contigência especifica de cada momento, para a aventura agônica de viver e atravessar o espaço entre o berço e o tumúlo colhendo perçepções, vivendo do interior da própria vida com o que pomos nela er com o que ela nos põe ( e essas duas coisas não estão separadas). Com isso eu quero muito pouco. Afastar os idólos de pedra ensaguentada, os mitos sobre humanos, e deixar o campo aberto, para semear e partir sem esperar pelos frutos.

Segunda-feira, Abril 14, 2008

Para proseguir, ensaio de um pragmatismo romantico.

A vida pode não ser uma perspectiva sombria. No final das contas nos pegamos vivendo um dia de cada vez e percebendo que isso é a melhor coisa que pode acontecer, embora isso não exclua os mais audaciosos planos e projetos. Veja bem: é só uma questão de dimensionar a referência de nossos anseios. Somos homens e caímos na vida sem saber se existe ou não algum projeto inicial, de onde viemos e para onde vamos, e talvez essa dúvida seja a parte mais importante do projeto, ou da falta de um. Somos finitos. Cada segundo de vida é um passo de dança a beira de um abismo no qual se perdem os nossos pensamentos. Mas ainda assim dançamos, pois o abismo é apenas um limite para nossa coreografia e não a determinação de como iremos dançar. É uma coisa puramente formal a morte. Sabemos que ela virá, sem sabermos nada a seu respeito exceto que é um limite. Alguém disse que a morte não afeta em nada nosso ser pois ela vem de fora, de fora das teias de relações no interior das quais existimos. Penso, se isso servir para alguma coisa, que devemos portanto sondar nossos passos de dança na perspectiva desse fato, o de que morremos, sem tentar extrair certezas dele, (isso seria ignorar que além da morte existem outros limites tão intransponíveis quanto aquele.) e que se formos simplesmente seguindo sem perder a consciência acerca desses limites , teremos um vida boa e digna mesmo que isso seja bem diferente para cada pessoa.
Há uma certa fatalidade positiva nisso tudo, sim, porque a fatalidade pode ser boa ou ruim. Há coisas que quando aceitamos se tornam mais simples, nossos desejos tem essa natureza. Lutar contra eles é terrível, aceitá-los– o que implica mais que satisfazê-los- nos alivia de um fardo, e libera energias para ir em frente deixando brotar novos desejos. Aceitar as condições concretas de nossa existência– por mais vago e absurdo que seja isso - tem um certo “quê” de um pragmatismo romântico, pois nos permitiria ultrapassar o que é aceitando-o e nos movimentando em seu interior, deixando exibir-se “o que aparece” como dizem os céticos, deflacionando o ideal e mantendo-se atento a contingência do momento.
Sacudir o pó da inércia e da certeza, ir em frente assumindo risco e abandonando culpas: não seria isso já uma espécie de romantismo? Não estabelecer nenhuma meta descolada do presente, da historia da relação que se estabelece entre nossos interesses atuais e o mundo ao redor: não seria isso uma forma de pragmatismo? Veja meu amigo, eu lhe falo como um homem que também quer continuar, e essas palavras se dirigem muito mais a mim que a você, mas também meu coração tem em ti alimento por isso me realizo duplamente ao ver nos teus olhos o meu reflexo e o mesmo anseio.
Os filósofos, penso, levam demasiado a sério os seus pensamentos, os místicos levam demasiado a sério as suas dores, e nós, que não somos nem filósofos nem místicos, oscilamos entre o medo contingente da dor e as canonizações eventuais do pensamento. Por isso, creio, não podemos nos jactar de uma superioridade em relação a aos filósofos nem aos místicos, pois assumimos ocasionalmente a mesma forma de vida deles, nos alimentando inclusive do que eles produziram, nem podemos nos sentir inferiores, pois é para nós que se dirigem seus trabalhos e é a nós que eles tentam convencer.
Talvez alguns destes grandes homens estivessem certos, talvez um dia venhamos a descobrir que deveríamos ter abandonado as demandas e solicitações do mundo nadado contra a correnteza, mas não vejo como artificialmente transmutar em fato uma hipótese, e viver por suposições e relações entre um pensamento e outro. Por isso irei seguindo, desviando pedras e das dores e incrementando a obviedade da sobrevivência com alguma estética ou mesmo alguma metafísica.

Sábado, Março 29, 2008

Filosofia da Trincheira ll

Colocar as coisas em termos de certo e de errado, de verdadeiro e falso é uma tara nossa, tanto por parte dos imoralistas como por parte dos senhores defensores do ideal. Pretendo sair dessa esfera "teologica", pretendo descrever cada coisa de uma forma totalmente pessoal, mas ou menos como Max Stirner fez no único e sua propriedade, deixando explicito na narrativa o meu interesse em relação as descrições que ofereço, e não obstante, vinculando esse interesse as minhas relações com o mundo, com as pessoas e tudo o mais. Dessa maneira, creio, minhas esperanças em relação a como as coisas "deveriam ser" não estariam fundadas na nessecidade nem na verdade, mas apenas na finitude e na minha propria experiencia pessoal, no meu desejo de gozo e de criar o mundo "a minha imagem e semelhança". Assim evitaria a critica sebosa dos idealistas contra o egoismo, e a limitação, a falta de criatividade e o ressentimento dos "imoralistas". O mundo é "caotico"? é que as pessoas ainda não aprenderam a tornar suas relações prazerosas e não contraditorias livrando-se do vocabulario metafisico-cristão, apostando na propria auto-suficienciia e exigindo um minimo de certezas praticas. "Romantismo Pragmatico" é assim que José Crisostomo chama essa filosofia, eu prefiro chama-lá "filosofia da trincheira," para acentuar o carater de risco, responsabilidade pessoal e incerteza que envolve uma vida assim, e não obstante, a alegria e o gosto pelas coisas doces e simples que, em geral, só conhece aqueles que provaram o gosto das batalhas .

Quarta-feira, Março 19, 2008

Diário de guerra blues.

Desperto, mas não curado
me levanto do quarto quente
com o rosto amarrotado.
na cama ela dorme ainda
caida e encantada
o corpo moreno enroscado
na almofada
doi-me o corpo cansado
da hora extra, noite adentro.
Minha mão lateja e meu peito:
Um poço de excremento.
Ela suspira e murmura
sonhando linda
perdida em campos de flores
sonhando ainda.
UM banho, ouvindo cash
na prisão de folson chorando.
Café, pão e a loucura
no canto do fogão espreitando.
A pele dela tão linda
brilha ao sol nascente
A curva convidativa do seio
seu halito tão doce e quente.
A surrada camisa escura
só de preto consigo lutar,
Na imensa loucura da guerra
eu saio para revidar.
Novas instancias da crise
sem pensar em desistir de tentar
eu deixo minha alegria dormindo
espremo o gatilho sentindo
A força que seu sonho me dá.

Sábado, Março 15, 2008

Filosofia da trincheira

Há uma nessecidade imensa de riso pelas ruas ! E a natureza compensatoria do prazer me leva a suspeita do tragico destino que se move por tras das cortinas da toda essa alegria. Na verdade é irrelevante questionar tudo isso quando viver a propria vida já impõe tantas questões cruciais, o que ocorre do outro lado do muro não interessa senão até certo ponto, e somente em função da minha própria vida e dos propositos que a orientam. Filosofia da trincheira: Cada um que se ocupe dos própios passos e viva da maneira como deseja, pagando por isso o preço devido.

Domingo, Março 02, 2008

Cansaço.

Estar cansado....
Com a luta vã pela defesa dos restos
e a perspestiva razoavel em meio a pequenez.
talvez existam coisas doces e simples
beijos serenos e sem magoa
casas arejadas, mulheres sensatas e algum emprego que não me afogue
na merda.
sim, talvez exista alegria.
Eu posso até saber como ela acontece e perdura
mas somente lá fora, meu bem.
mas somente la fora, meu bem.
aqui somente o cansaço, a espera, a dependencia
e o desperdicio
de tudo.

Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

Aurora estraçalhada

Pensei em escrever um poema,
sobre a minha infância.
Sobre a alegria luminosa daqueles dias insuspeitos,
de cores pulsantes,
sensações profundas,
e arames farpados com o ferugem da maldade
circundando meu afeto,
Sobre os jogos e as tramas de insetos travestidos.
Mas eu não sou mais uma criança...
Agora estou no front comum ao qual chamamos
"realidade",
com o fuzil da esperança espremido entre os dedos.
Não posso errar meu alvo
nem remendar os pedaços da aurora estraçalhada.

Domingo, Fevereiro 10, 2008

Prendendo o folego.

Um homem desconfia que está perdido
quando não treme com olhar da garota
de seios fartos e pele macia,
quando não sorri e suspira com o olhar
manso e intenso da infância,
e quando liga a Tv assim que acorda.
No fundo todos querem acreditar que estão ainda de pé;
agitando seus corpos,
gritando na madrugada,
lutando contra fantasmas,
ou sugando a saliva viscosa das sensações que morreram.
Veja só: eu estou mensurando as dimensões da batalha,
tentando conciliar flores e cancros
e correndo para o por do sol
onde iremos dar as mãos e sorrir.

Sábado, Fevereiro 09, 2008


Sábado, Fevereiro 02, 2008

sobre os dias.

Os dias têm sido quentes e abafados, e como não existem coisas importantes acontecendo, só resta ir vivendo um dia de cada vez, com certa apreensão em relação ao futuro, como não pode deixar de ser. Posso dizer que em geral tudo ultimamente tem tido gosto de sola de sapato. A magia e o encanto já aconteceram, mas são cada vez mais raros. Talvez isso não seja um fato em si, algo intrínseco a realidade, mas apenas uma esquisitice minha. Não há como ter certeza. A televisão é uma coisa absurda, estúpida mesmo. As poucas coisas relevantes que se vê nela são feitas lá fora. O realismo politicamente correto da mentalidade brasileira ainda persegue os fantasmas de suas contradições insuperáveis. As coisas cafonas cheias de chavões que é possível ver na televisão brasileira são somente reflexos das conversas que sou obrigado a escutar toda vez que estou no coletivo ou em um barzinho tentando tomar meu porre sossegado. Uma preocupação estúpida com a vida alheia, uma moralidade medieval com todas as taras e aberrações que o moralismo provoca. Outro dia no ônibus a caminho do trabalho, inadvertidamente ouvi uma garota contando para amiga que ela tinha tatuado o nome do namorado na xoxota, enquanto a colega do lado se queixava do homem dela que já não fodê-la todo dia, como fazia antes. É verdade que essas coisas acontecem lá fora, então que se dane no final das contas cada u vive sua vida. Eu também sigo vivendo a minha, com toda falta de brilho que ela tem, mas tentando manter o estilo, e meus preconceitos também.
No trabalho a coisa não tem sido fácil. Para sobreviver eu tive que aprender a fazer dolorosas concessões, enfrentando um lado da vida que para mim é o mais seco e absurdo. Trabalhar em um call center, por exemplo, expondo-se a todas as tendências patológicas das pessoas. Toda loucura, solidão, abandono, carência e tirania jorrando através de um fone de ouvido. O prurido, irritação e vaidade deles infiltrando-se insidiosamente em seu ouvido e enterrando-se no cérebro como um arame farpado enferrujado. “Podia ser pior”, você pode estar pensando. Eu poderia estar carregando fardos fedorentos de farelo, coberto de sangue de boi em um açougue ou limpando latrinas transbordantes de merda. Já fiz isso tudo, e posso dizer que nesses trabalhos eu tinha pelo menos o último recurso da dignidade de um homem: ficar calado. Os outros rapazes e garotas também não gostam do que fazem. É difícil imaginar que alguém possa gostar disso. Mas eles têm pelo menos o atenuante de apreciar a auto-exposição afinal é o que faz o tempo todo. Expõem-se com suas opiniões apressadas, sobretudo, com sua exigência de atenção constante. A completa incapacidade de ficar calado. Mas no final não muda muita coisa, é sempre a mesma fome e carência de auto-respeito. Por outro lado também conheci algumas pessoas que não se misturavam com esse caldo e que nem por isso tinham mais brio. Era só um tipo de gente mesquinha que se levava muito a sério, que não tinha senso de humor. Tudo que diziam e faziam tinha que ser congruente com seus valores. Se estiverem em um papo descontraído e rolasse um baseado, diziam horrorizados: “não, eu não fumo”. E não era como se simplesmente não tivessem vontade de fumar aquele baseado, eles não “fumavam baseado”, era sua essência, sua lei. Isso os distinguia dos outros decaídos fumadores de maconha. Ainda que se dissessem liberais, pobres irmãos. Existem todos os tipos de devotos erguendo deuses de barro para do alto de suas cabeças sentirem-se superiores, estáveis e seguindo um caminho seguro. “Sinto muito” me disse uma senhora outro dia “mas só transo por amor”. “E se provarem que o amor não existe, que esse papo de amor é só propaganda de novela, você para de trepar?” Eu lhe perguntei. Não consegui a trepada é verdade, e ainda ganhei uma inimiga. Faz parte do jogo. Como já me acostumei com a maior parte das conseqüências do meu caminho torto, também já não me frustro muito com isso tudo. Gosto da minha vida e do que me tornei, e isso embora não pareça não está em contradição com tudo que disse. É que simplesmente não gosto de me gabar das minhas riquezas. Afinal é mais fácil ser compreendido a partir das desgraças. O que eu gosto e valorizo na minha vida eu guardo para mim. Tudo faz parte de um grande jogo e cada um está somente do lado de si mesmo. Algumas pessoas demoram a se tocar com relação a isso e acabam pisoteadas pelo movimento alheio ou sufocadas pela própria incapacidade de se movimentar sozinhas, encontro exemplos disso todos os dias. Gente que fala sozinha, que só anda em grupo, que são vazias como um copos virados. Brrr.... Sinto calafrio só de pensar. Mas são essas pessoas que compõem e média psicológica da humanidade, e é melhor saber conviver com isso, ou a vida pode se tornar bem amarga, e isso é uma coisa que ninguém com saúde quer, não é?

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

O sangue a as madrugadas.

Eu era um sujeito magro, com profundas olheiras lavando o piso brilhante de um imenso mercado. Aquele foi o único trabalho que eu consegui depois de dois anos de desemprego e junto comigo outros tantos fracassados formavam um imenso batalhão de fantasmas, munidos de rodos, vassouras e uniformes que se espalhavam pelos salões iluminados da loja de departamentos depois de seu fechamento. Assim que as portas desciam e o último abençoado cliente saía nós começávamos a molhar, esfregar, encerar e polir enquanto o resto da humanidade desse lado do hemisfério gozava do merecido repouso. O capataz (pobre atavismo) olhava atento cada movimento dos rapazes gritando de quando em quando como um treinador de futebol ensandecido.
Sempre levava comigo o Tão-Te-King na algibeira para ler e me conformar entre as refeições. Como ainda não tinha desenvolvido meu especial talento com a bebida eu anestesiava a consciência de uma maneira menos sincera e mais barata. Saboreava meu repasto afastado do barulho imenso de meus colegas de fracasso e me deitava entre os trajes elegantes da seção de moda feminina. Estirado sobre o chão frio que eu mesmo tinha lavado e polido eu abastecia o pensamento de vazio em loucos exercícios Zens budistas e Koans absurdos que me aliviavam da dor de existir sendo eu. Depois da meditação começava o segundo round e os banheiros femininos eram todos meus. Uma arena que fedia a merda e mijo onde eu lutava com imensos tapetes de borracha azul onde a lama se misturava a tufos de cabelo, esmalte e palitos de dente. Uma vez encontrei um feto ao desentupir uma privada que explodia em merda. Aquele pedaço de carne podre tinha saído de uma linda e cobiçada buceta, na época achei aquilo muito simbólico. Muitos livros poderiam ser escritos sobre o que se pode ler nas portas de banheiro feminino. A palavra puta era campeã de citações acompanhada de perto pela palavra piranha.
Terminava com os banheiros por volta das quatro da manhã e passava para a limpeza dos estacionamentos. Os imensos espaços escuros do concreto vazio eram bafejados por um vento frio que tinha um gosto de treva, não sei bem o que é um gosto de treva, mas o vento dos estacionamentos na madrugada estranha daquele mercado tinha esse gosto e enquanto eu varria os barulhos da noite que terminava dançavam com os ruídos do dia começando. O céu tingido do dourado das alvoradas, o pai de família respeitável recebendo o beijo apaixonado da esposa no portão e eu cheio de êxtases em meu peito metafísico recolhendo as vassouras, os sacos de lixo e o cansaço para o café barulhento no refeitório insano. As bocas se movendo em um ritmo contínuo, sempre falando do mesmo, uma república de zumbis. Depois eu tomava o banho e ia para casa. O que nesse caso não significava repouso. As tardes quentes da favela barulhenta e minha ex-mulher louca e sua pequenez de espírito. Na verdade hoje não guardo ressentimentos a seu respeito, mas me lembro que nessa época ela foi primorosamente cruel. Eu chegava em casa às sete horas da manhã e às dez horas era acordado pelo som da televisão e dos noticiários e das suas músicas horríveis. Aquela atmosfera abafada de queixa e lamúria. Aquele romantismo estúpido e pouco honesto. Acordava com a cabeça pesada e o corpo arrebentado e era obrigado a me levantar, lavar o rosto, comer qualquer coisa (quando tinha apetite) tomar um banho me vestir e ir pra rua. Ficar em casa significava briga na certa. Horas e horas cansativas de acusação e ciúme, afundar debatendo-se na lama de alguns anos de mentiras, rancores e lembranças de outras brigas. Apenas o laço da indigência de dinheiro e afeto apertando nós dois, e cada um tentando aliviar o aperto como podia. Após sair de casa eu ia para a estação de trem. Levava alguns livros, uma caneta e uma pequena agenda onde rabiscava alguns delírios. Viajava sempre de trem. Era rápido e barato, perigoso também. Locomovia-me de um extremo ao outro do subúrbio. Pensando nisso hoje eu acredito que fui um beat a minha maneira. Com os horizontes e o talento mais estreitos que os de Kerouaz, mas com os mesmos sentimentos acerca da maior parte das coisas. Às vezes ia bater com os ossos no sítio de um aposentado espírita que eu adorava atormentar e às vezes terminava a tarde fumando um baseado no estúdio de tatuagem de um cartunista de Paripe. Às vezes eu ia mais longe, e encontrava o "wild child" Mariano, várias cervejas e o retorno para mais uma noite de trabalho.
Um dia acordei mais quebrado que de costume, meus joelhos doíam tanto que eu não conseguia ficar em pé. Por isso naquele dia não saí de casa. Minha ex-mulher ligou o som como de costume e eu fiquei na sala tentando ler. É quase vergonhoso para um homem dizer isso, mas ela tinha um amante, e isso nem era o pior. Na verdade foi um lento processo de putrefação que ocorreu em minha vida, enquanto eu me perdia em delírios metafísicos, e perdia as noites lavando latrinas. Minha ex-mulher reunia-se nos barracos da vizinhança para fumar um baseado, tomar umas doses e certamente trepar. Nessa tarde enquanto eu tentava ler ela vomitava insultos e insinuações sobre a vida que eu levava. A mesquinhez de quem não era capaz de assumir os riscos e as culpas e ir em frente. É verdade que durante boa parte do tempo eu fui um caçador de borboletas mimetizado pelo "belo e o sublime". Querendo tocar as fibras do nirvana enquanto definhava e enlouquecia, mas isso era o meu lance, a minha aposta. Um lance tão alto que a maioria consideraria loucura simplesmente cogitar. E o choque foi inevitável. Nessa tarde, eu esmagado e triturado pelas traições de minha ex-esposa e ainda desnorteado pelo rompimento com as certezas religiosas que até então me tinham impulsionado, eu me envolvi diretamente na briga. Já não tinha as desculpas da fé, nem o muro da crença para me esconder e soltei o verbo. A discussão cresceu, aumentou como geralmente acontece entre duas pessoas feridas. Ela me ofendeu como sempre fazia e dessa vez eu reagi devolvendo o insulto. Saímos no tapa. Ela voou em meu pescoço e eu a empurrei. – Filho da puta, maldito filho da puta – Ela gritava, eu me esquivava de suas tapas e a empurrava quando ela chegava perto. Seria fácil colocá-la a nocaute. Muito fácil. Mas apesar da indignação não achava certo bater em uma mulher. Ela desistiu das tapas e reco