domingo, setembro 06, 2009

No verão de 82

No verão de 82 meu avô não se sentiu muito bem,
e minha mãe dormia com comprimidos.
EU não fui a escola no verão de 82
pois faltavam livros e planos para nortear
meu conflito.
Eram fartas as lições de moral
e escassos os cuidados humanos
e eu crescia na umidade escura dos dias
como um feijão que brota da queda.
No verão de 82 eu não tinha amigos.
no verão de 82 eu escrevia poemas,
no verão de 82 os dedos me apontavam
e eu era a piada mais divertida da rua.
As passagens da noite eram muito frias
e eu tecia paraísos e fantasias
onde exercitava impotência.
No verão de 82 ninguém se importava
tudo estava mergulhado no caos de acidentes
sem fotografias para registrar a inércia.
No verão de 82 estão as longas raízes
estão as premissas de mim,
as razões de meus tolos amores
e dessa agonia sem fim.

2 comentários:

Guerra disse...

São as primeiras horas da manha, retorno do castigo diário, o corpo em frangalhos a mente devastada pela minha guerra singular e me deparo com o poema intitulado, No verão de 82, o que dizer então?
A opulência liberal de um poeta, que escreve não para intelectuais, nem multidões e sim para as pessoas simples, a legitima comunhão com o homem isolado, e foi entre eles (nós) que cooptou tudo quanto pode de expressivo em versos com sangue. Frases livres do conformismo em voga, desesperança em toda extensão das estruturas semânticas, a legitima e pura mensagem a um homem, que apesar de muitos, ainda é raro. Jogado num mundo problemático. Glorias a audácia, a mensagem, a coragem e a nobreza, deste poeta que tenho a honra de chamar de amigo, pelos singelos raios de lucidez a todos nós. Faulkner um dia nos disse: “Queria, e ainda quero, para a poesia, o claro brilho do sol e o sopro do ar fresco”, - inocente Faulkner.

Ethiane disse...

Bem..Depois do comentário do colega acima.Fico apenas a imaginar este verão de 82.