terça-feira, janeiro 26, 2010

Como faria Pereio - Herculano Netto

Ontem alguém me disse, em circunstâncias constrangedoras, que eu não valia nada. Não foi o xeque-mate, faltou ênfase, mas me calei -, também não me ofendi, pelo titubear da pronúncia sabíamos que não era verdade (devo valer pouco como o refugo de feira ou o jornal de ontem). A expressão “você não vale nada” é uma tendência, está na dublagem dos filmes, dos desenhos animados, em toques de celulares, em trilhas de novelas. Faz as vezes da palavra “canalha”, que já teve lugar cativo nas artes cênicas. O silabar de canalha na voz de uma musa da pornochanchada ou de uma diva hoolywoodiana ganhava contornos dramáticos, resumia tramas, despedaçava relacionamentos, fomentava paixões. Se espalhava na ferocidade do grito lancinante de Walter Franco no campo de batalha.
Canalha é uma palavra musical, sôfrega, excitante até. Fabrício Carpinejar, numa crônica famosa, diz que ser chamado de canalha por uma mulher é o domingo da língua portuguesa, é um elogio, uma agressão afetuosa. Talvez haja quem não simpatize com ofensas de nenhuma maneira, esses, certamente, não se deixaram aquecer na febre da inquietação e apanharam o primeiro paracetalmol que encontraram na gaveta, arrefecendo o devaneio, o desejo. Queria ser chamado de canalha ao menos uma vez, seria um prêmio, a certeza de que alcancei o pódio no coração de uma mulher. Queria ser chamado de canalha, soaria mais impactante, violento, vivo. Mas não se fazem mais calúnias como antigamente, canalha é uma ofensa em desuso, démodé.
Ontem, quando disseram que eu não valia nada, dei um riso cínico, irritante, como faria Paulo César Pereio.

Postagem extriada do blogg : http://herculanoneto.blogspot.com

Um comentário:

Por que você faz poema? disse...

Estamos juntos nesse trem!