quinta-feira, janeiro 17, 2008


Um homem e o seu tempo.

Mesmo depois de já ter passado por tanto aperto na vida, nunca deixam de existir os momentos em que tudo parece perdido. O senhorio hoje pediu a casa de volta. Sou forçado a reconhecer que ele foi mais gentil que a média oferecendo-se para cobrar a metade do valor do aluguel enquanto a minha mulher estivesse desempregada. Hoje a paciência e o altruísmo acabaram e ele reivindicou o imóvel ou o valor completo do aluguel e como eu não tenho esse valor o que resta é o retorno ao subúrbio, a lama de suas ruas, a miséria e as dificuldades em relação ao transporte; é como descer ao fundo de um lago escuro, infestado de monstros, depois de patinar no gelo fino por meses. Na televisão o repórter fala de tiroteios e balas perdidas. Depois de mudar-me vou ter de acordar às cinco da manhã para pegar o ônibus lotado para a faculdade e dormir a meia noite depois de viajar cerca de duas horas entre o trabalho no callcenter e minha casa no Rio Sena.
Minha mulher está na cozinha preparando o almoço. Do outro lado da cidade minha filhinha deve estar saindo da escola e indo para sua casa, também numa favela. Sentado no meu quarto, tomando um gole de vinho e desperdiçando as poucas chances que tenho eu perco meu tempo me lamentando nestas linhas, como se fizesse algum sentido escrever a respeito do que já está resolvido. Por outro lado, isso é a única coisa que me faz continuar. Saber que não importa o quanto à treva avance, eu irei ser a testemunha de meu próprio combate, e irei relatá-lo ainda que seja somente pra mim. Acho que para além dessa minha compulsão de escrever sobre tudo que me ocorre já não me importo e me tornei insensível para muitas das coisas que prometem felicidade ao comum dos mortais, talvez como uma maneira de evitar a dor e o desespero de aspirar por um bem estar inalcançável. Meu coração tem espaços amplos e claros para abrigar a alegria, mas suas paredes desabaram ao serem obrigadas a reter apenas o possível; eu lamento, mas não culpo a ninguém. Tudo é acidental e impermanente. O ser humano adapta-se a tudo. Logo estarei novamente inserido na vida feia e sem horizonte do subúrbio e, por conseguinte irei me mesclar com aquelas ruas sem asfalto com aquela vida sem esperança e irei beber vinho barato, enquanto retorno mansamente ao buraco da lama do qual nunca deveria ter saído. Por que tudo isso? Sei lá! A gente vai tateando, procurando um caminho melhor, ouvindo os conselhos, tentando lidar com os acidentes, e as coisas podem dar certo ou não. Quando elas dão certo nós nos orgulhamos e atribuímos a nós o mérito pelo sucesso (ou a Deus, o que dá no mesmo) e quando dão errado culpamos o destino, nossos pais ou simplesmente... A sorte. Eu simplesmente não extraio responsabilidade alguma de nada, as coisas acontecem assim ou assado e pronto. Nós temos que lidar com os fatos da melhor maneira possível, e eu, mudo e assombrado, não consigo ser outra pessoa senão eu, mesmo sabendo que isso não dá certo.
Minha filha me liga do celular que ganhou da mãe. Quer saber se vou matriculá-la na escola particular como lhe prometi ou se ela vai estudar novamente em uma escola pública. Digo que ainda não tenho resposta. Que estou acertando uns negócios; mentindo para minha filha, é claro que não tenho o dinheiro para a escola. Mais uma vida tendo o seu roteiro escrito à revelia das nossas esperanças. Deve haver algum charme em ser pobre nos Estados Unidos ou na França, no Brasil e na África isso não só é desprovido de charme mais é também patético. Patético como as deformidades faciais, patético como a falta de afeto dos bebuns, estúpido como tartarugas viradas de costas balançando para o ar suas pernas minúsculas. O problema não é “a pobreza”, o problema é a minha pobreza, o meu problema, e vocês dirão que além de derrotado também sou um egoísta, não sei bem o que isso quer dizer, mas tudo bem. Agora tenho que me levantar para tomar banho e ir trabalhar. Gostaria de terminar essas linhas com alguma lição moral ou citando qualquer um desses espíritos iluminados que tanto admiramos, mas meu tempo é curto e minhas preocupações são longas, tão longas que eu vou terminar de virar essa garrafa de vinho antes de me levantar, tomar banho e ir trabalhar com o sorriso vencedor no rosto que meu patrão espera que eu tenha .

quinta-feira, janeiro 10, 2008

A balada do entardecer.


A praça fervilha embalada pelas batidas primitivas da música popular de minha terra, e eu, escritor fracassado e trabalhador braçal de folga estou em meio à multidão que se deleita e se contorce como um bando de tênias alucinadas. Chamam a isso divertimento. O Jhony me convenceu com muito esforço a abandonar meu claustro ajudado pela minha abstinência sexual prolongada, não fosse por isso as garrafas de vinho e os discos da Billie Holiday não me deixariam sair de casa em mais um final de semana. Talvez o hábito de remoer as chagas, talvez a leitura de muita filosofia, talvez os meus demônios trancados. Mas o Jhony é um bom sujeito, tranqüilo e, com uma cara boa demais para ser filósofo inteligente o bastante para permanecer de pé. Os bares que formam um círculo ao redor do lugar disputam à potência de seus equipamentos de som enquanto as garotas recém saídas da adolescência disputam à potência de seus glúteos. Levando nossa própria garrafa de vinho abrimos caminho através da turba em busca de um pedaço de espaço, uma clareira eqüidistante dos diversos focos de coletividade barulhenta.
Sentamos os dois em um canto mais calmo abaixo de algumas árvores. Existe muita alegria no mundo, sim, muita felicidade. A política é bem melhor e a filosofia também. Alguns são felizes comprando e gastando segundo o direito que eles tem fazerem isso e outros são felizes perseguindo algum ideal segundo o mesmo princípio. As pessoas encontram-se e se despedem quando acham que já não vale a pena. Isso também é muito bom. Sem obrigações, vontade livre, felicidade sim! Não sei por que não estou satisfeito. Talvez porque me falta dinheiro, ou fé. O vinho acaba e Jhony vai comprar outra garrafa. Fico mastigando o filtro de meu cigarro e nada ao meu redor me parece viável. As pessoas falam demais, encontram-se somente para isso. A linguagem é um planeta doce, onde florescem árvores de esquecimento e onde se forjam os laços de recíproco engano que as atiram umas as outras. Mas, a garota de pele clara e lindos cabelos negros caindo em cachos lindos sobre os ombros está me olhando. Algo de esquisito ou repulsivo? Vasculho minhas roupas em busca de algo fora dos padrões. O furo em meu sapato não está visível. Força, Juan Leon a garota está olhando para você, fique firme homem, você não está na lona afinal de contas, ela lhe quer. Seu olhar me atinge em cheio, cobrindo minha pele de uma eletricidade adolescente e eu me levanto lentamente e vou em sua direção. Vitória ou morte. A luz de suas pupilas ou a sombra do desprezo e da dor. – Boa noite – Eu lhe falo tentando esconder a ansiedade e o medo – Tudo bem? – Maldição homem! Dois meses sem uma trepada e isso é o melhor que pode fazer? – Boa noite – Ela responde sorrindo e me encarando em desafio, sou um cara de sorte – Eu queria convidá-la para dar uma volta em um lugar onde houvesse, sabe... menos mundo – Ela gosta do que acabo de falar e joga a cabeça para trás em uma sonora risada que quase encobre os cânticos orgíacos da noite. Depois se levanta ajeitando os longos e negros vestidos e saímos dali conversando. O Jhony pasmo não acredita no que vê quando passo por ele com a garota ao lado. Um calvo fantasma choroso e uma linda dama dos Bosques de Lorien: uma contradição em termos, mesmo assim seguimos.
Atravessamos vielas escuras e nos afastamos da praça, o cérebro procura as palavras certas para a ocasião. Ela me olha de maneira interrogativa e duas olheiras denunciam alguma sombra pairando sobre uma vida que não deveria ter vocação para a dor. Passamos pelas ruas mais ricas daquele bairro pobre, vazias e silenciosas. Seus moradores divertem-se longe dali, longe da feiúra, do desespero e do barulho de seus miseráveis vizinhos que moram do outro lado do bairro. Pergunto o nome da deusa élfica que em silêncio me acompanha: - Camila, ela responde. – E o seu? – Juan Leon, poeta menor, peixe que bóia no mar do acaso, caçador de estrelas decadentes, biógrafo do que não chegou a ser, as suas ordens. Ela ri e me pergunta onde moro, aponto para a constelação sagitária, a esquerda de Andrômeda. Seus olhos brilham curiosos, talvez com algum temor. – Você é um sujeito diferente... O que faz em um bairro miserável como Periperi? – Ela pergunta ajeitando os cachos negros sobre o ombro enquanto retira um maço de cigarros da bolsa. Percebo suas mãos tremendo um pouco e algum tipo de lente opaca sobre o brilho de seus olhos. Falo um pouco sobre aquela história mastigada do menino que perdeu o pai antes de nascer, que tinha uma mãe louca que escondia o almoço e o deixava desmaiar de fome nas calçadas, criado pelo avô hipócrita e suas receitas de moral. Cresceu doente, mas não a doença da pele e do corpo e sim a doença da mente espedaçada, da falta de esperança. Conto essa história a Camila como a história de outra pessoa. Com o orgulho e a altivez de quem não se envergonha, de quem olha para o sol e não inveja outras vidas. Camila ouve em silêncio. Dentro do seu corpo forte, de curvas estáveis, um espírito intenso pulsa em uma respiração profunda. Paramos sob algumas árvores. Ela fala pouco de si mesma, se reserva com o cuidado de quem ainda não cicatrizou. O frio da noite agora beija nossa pele. O que nos trouxe aqui Camila? Além do meu óbvio desejo por suas carnes tensas, por sua boca rubra, por seu desejo quente, o que nos trouxe aqui? Que mão de acaso a jogou no caminho desse pariá sem sorte e sem talento, sem dinheiro e quase sem dentes, que nada tem senão perguntas, fome e uma profunda tristeza. Minhas palavras e piadas sobre os bonecos de papel que se agitam na nevasca acabam. Acendo um dos meus cigarros e olho para o céu.
- Você acredita que podem existir outros mundos melhores que o nosso? – Camila pergunta com uma voz melancólica.
- Talvez minha querida, mas como saber se o que chamamos de mundo melhor, não é apenas um mundo como nós queremos? – E ela poderia ter o que quisesse qualquer garoto bonitinho com bíceps sarado e uma voz de mongolóide. Mas está aqui e pergunta ainda sobre um mundo melhor.
- Eu diria ainda que mesmo em um mundo perfeito, ainda haveria nuvens de dor sobre as auroras do sonho. Camila me olha e sorri. Uma menina rica, ela conta. Mais velha de uma decadente família burguesa que só o dinheiro mantinha de pé, mas o dinheiro acabou, e a outrora punjante força moral da família se tinha tornado patética. A mãe e seu catolicismo hipócrita e ressentido a tornaram um boneco esquizóide querendo manter velhas tradições que já não se mantinham. O pai arranjava amantes muito mais jovens e abandonara a mulher e os filhos. Mas havia algo mais. Um travo amargo de algo tão forte e sujo que as palavras relutavam em traduzir. As lágrimas vieram a seus olhos lindos e eu beijei Camila sobre o farfalhar das amendoeiras. Deixei minha solidão escorrer para sua boca e meu espírito inquieto envolveu sua tristeza. Éramos dois indivíduos sob o céu infinito, gozando do momento breve em que as leis que regem a atração entre os sexos tinham sido anuladas. Eu desejei-a louca e intensamente e senti seus seios fartos arfando sob a camisa escura. Passamos a noite em um hotel das redondezas.
Eu já tinha possuído muitas mulheres. Desde a primeira namorada cristã que eu bolinava por baixo dos longos vestidos, até as putas sórdidas piores que minhas punhetas. Mas nenhuma como Camila. Seu corpo forte e rígido, suas carnes brancas e suaves, o bico marrom de seus seios e a vulva alta que se movimentava como uma planície contorcendo-se nos terremotos. Eu tive Camila. A possui por horas a fio dando a ela o melhor de mim. Ela queria a vida como um náufrago quer respirar. Queria gozar com uma fome que parecia brotar de suas entranhas. E eu lhe mostrei o caminho, primeiro com beijos suaves nos seus olhos profundos, descendo ao seu busto gostoso, com a ponta da língua até sugá-la em essência carnal e úmida. Enquanto ela se contorcia em espasmos. Depois a penetrei docemente enquanto ela gemia de medo e desejo até chegarmos juntos lá, naquele ponto extremo em que as consciências dissolvem, em que o desespero é transmutado em paz.
Após uma noite de sono profundo acordo, e Camila já foi embora. Levanto e me olho no espelho: a mesma cara horrível de Gollum careca e sem dentes. Tomo meu banho e o relógio avisa que já deveria estar no trabalho, Camila deixou o telefone em cima da estante. Enfio no bolso e me visto. As ruas e sua loucura me recebem de braços abertos. Mas eu estava bem. Forte e firme, um homem completo. Não apenas um a mente agitada que lê Nietsche, Stiner e Heidegger. Não apenas um escritor fracassado e um ressentido. Não, eu sou um homem e louvado seja o evangelho de Reich! Abram alas para o homem completo que pensa coisas profundas e sabe fazer uma mulher gozar! Mas o ônibus lotado me deixou na porta do trabalho, eu desci, vesti o uniforme e entrei no supermercado para cortar minha cota de peças de carne. O trabalho exaustivo ao lado de pessoas sem alma, com pele de madeira e vontades de chumbo. Paradas, domadas com todo repertório de valores estabelecido. A segunda feira acaba e volto para casa. Apesar do cansaço ainda sinto o gosto de Camila em minha boca, sua tristeza doce, como eu gostaria de tê-la agora esperando em minha casa para beijá-la sorrindo na chegada e dizer: - Ah, meu amor é tão difícil. E ela talvez fosse sorrir e dizer: - Eu entendo. E eu acho que ela ia entender.
Abro a aporta do apartamento minúsculo de quarto e sala. O cheiro da comida podre me invade as narinas. Abro a janela de dois palmos voltada para uma favela e penso no meu próximo estágio. Tiro as roupas jogando cada peça no chão e entro no chuveiro. Cada gota de água uma bênção, uma redenção, a única a qual tenho direito. Depois de enxuto e vestido sento na esburacada poltrona e ligo o rádio, música popular da Bahia: lixo. Pego o telefone e ligo para o número que a Camila me deu. O aparelho do outro lado da linha chama insistente e ninguém o atende. O noticiário elenca o seu menu de atrocidades, fraudes e corrupção comuns em nosso país , e mo meio da torrente de miséria uma me chama a atenção.
- Mulher tenta o suicídio jogando-se de um prédio, seu nome: Camila Alonzo. Meu corpo sacode como se tivesse levado um soco. Pego minha carteira e saio em disparada pelas ruas, com uma frase me ecoando nos ouvidos: Ela sabia.
Eu atravesso as ruas movimentadas como um louco. Os prédios parecem insanos caixotes de concreto para o armazenamento de pessoas. Chego ao ponto de ônibus, ele nunca demorou tanto e eu penso em tragédias, hecatombes e armagedons para aliviar minha angústia espalhando a miséria sobre o mundo. Chega o coletivo. Quase não me importo com a cara das pessoas. A viagem atravessa o péssimo trânsito da capital. Uma mulher reclama do marido e um sujeito musculoso conta vantagens ao amigo. Mas afinal que tecido de acaso, que golpe de foice sua mão manipulou desta vez? Qual é sua trama, sua piada sinistra, para extrair de minhas entranhas uma iluminação que não quero? O ônibus chega ao centro e desço alucinado abrindo caminho entre as massas. Camila, Camila o que você fez? Escolheu a saída mais curta? Optou pelo gesto violento e sem barganhas? Eu sem fé, louco e cético, acomodado e preguiçoso faço aos poucos o que você fez de uma só vez. A aposta de Pascal, um lance muito alto, Camila nós não sabemos e o meu sacrossanto egoísmo gostaria de te ver sofrendo ao meu lado, de pé. Sim, de pé, mas para quê? Para a rotina de todo dia? Para a trepada garantida? Para a obrigação da trepada? E o medo da traição? Não Camila, você poderia ter achado um caminho, todos nós podemos.
Atravesso duas praças do centro e seus aposentados sentados no banco a jogar dominó ou distribuir a fé em receitas. Passo correndo e alguns me apontam, a vida e o telejornal se tocam. Chego ao imenso edifício onde Camila está internada. Suas janelas negras de vidro se perdem nos céus. Lembranças de minha infância doente nos hospitais, a solidão imensa do quarto, o cheiro de formol nas coisas e suas enfermeiras sem afeto para meu coração de menino órfão e triste. Depois, teve meu avô e suas últimas crises, seus internamentos em que não se lembrava meu nome. Nossa alma se desfaz em pó no decorrer do caminho, e no final resta o corpo uma caixa cheia de leite apodrecido.
Entro na entrada e o gorila da segurança me aponta a recepção. A garota que me atende já não sente mais dor. Sua face dura anuncia a morte de tudo que poderia ter sido uma vida. - Camila Alonzo, qual o quarto – Eu pergunto. E o fantasma do que poderia ter sido alguém diz o número do quarto, desconfiada. Atiro-me na direção do elevador, mas na espera da cabine espelhada eu me pergunto: mas de que adianta? Em que isso vai ajudar Camila ou a mim? Talvez só para macular a memória do anjo divino em meus braços? Para estrangular a beleza do que é breve com as garras famintas do apego? O elevador chega e me leva em poucos minutos até o fatídico andar. Atravesso os corredores até chegar à porta da UTI onde Camila repousa entre tubos, agulhas e monitores. Como um pássaro sendo engolido por uma maquinaria demente. Uma mulher alta e esbelta de face encovada encontra-se de pé ao seu lado. O selo da moral ressentida, da morte da alma e da mesquinhez talhado em sua face maquiada, um ser decaído de si, um fantasma e uma paródia da vida, essa é sua mãe Camila? Ela também conspirou para sua loucura? A mulher adornada estava chorando, um choro sem fé e formal, ela me olhou com olhar assustado e odioso. Eu dei as costas e me afastei da porta. Desci as longas escadas com o peso imenso de um fato nas mãos. Olhei para o céu de fim de tarde e ele me pareceu vazio e estúpido. Como quase tudo que eu via pelo caminho, apenas minha sinceridade parecia clara, minha residência na terra me dava um norte, mas, eu me sentia vazio e cansado como quem cai em um precipício infinito ao imaginar que abraça a aurora. Camila agora estava voando em um céu iluminado e sem culpa, obrigado querida, eu estarei com você.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

A laranja caida e os espinhos do bosque.

Há um período da minha vida do qual me lembro vagamente. Acho que foi entre os catorze ou quinze anos. Nessa época eu morava no subúrbio com minha mãe, suas crises nervosas periódicas e meus dois irmãos menores. Habitávamos um pequeno barraco de madeira próximo à maré e o mau cheiro do lixo misturado aos peixes mortos da baía dos tainheiros era constante. Vivíamos da pensão que minha mãe recebia e do dinheiro que meu padrasto não gastava com bebida. E eu muitas vezes não tinha o que comer, pois o pouco alimento era reservado aos filhos do marido de minha mãe que geralmente estava dormindo sob o efeito dos tranqüilizantes.
Vivendo nessas condições, com roupas rasgadas e sem as condições mínimas de dignidade tive que começar a trabalhar muito cedo. Primeiro, ensacando mercadorias por trocados e depois recebendo meio salário mínimo de um ganancioso protestante dono de uma mercearia.
Pensando agora naquela época acho que até não foi tudo tão ruim, ao contrário do que se pode imaginar. Eu estava envolvido por uma atmosfera de doce conformismo e glorificação romântica da pobreza, a ponto de nem chegar a me dar conta do quanto eu estava atolado na lama. Quando comecei a trabalhar essa minha “inconsciência” foi particularmente problemática. Eu não me dava conta do quanto era perigoso viver, e do quanto às coisas poderiam ser difíceis para quem não se cuidava. A conseqüência direta disso é que eu vivia chegando atrasado nos bicos que arrumava, não escovava os dentes e raramente penteava os cabelos. Eu nem era punk ou revoltado com qualquer coisa, apenas não tinha noção de nada. Era distraído, poeta, covarde cheio de auto-piedade, consequentemente uma vítima perfeita para a exploração e satisfação das tendências sádicas dos patrões. Lembro bem da maneira como eu era constantemente torturado pelo protestante que me deu o primeiro trabalho em sua mercearia. Ele me obrigava a estar na porta do mercado às seis horas da manhã todo dia, mas, nunca chegava lá antes das oito horas. Todavia, caso eu não chegasse no horário solicitado sempre tinha um olheiro, algum outro comerciante para me denunciar. E então eu sofria com o chicote da ameaça de desemprego. Passei boa parte da minha vida com pesadelos nos quais era demitido e a realidade nunca deixou de corresponder aos meus temores.
Enquanto eu trabalhava minha vida se resumia a trabalhar, fazer contas das despesas e chegar em casa exausto e dormir. E quando estava desempregado ( e eu estive assim a maior parte do tempo) vagabundeava jogava vôlei na rua e recebia chingamentos de minha mãe. Uma vez depois de descarregar várias caixas com mercadorias cheguei em casa tão exausto que um ladrão pulou a janela do barraco levou o botijão de gás, um liquidificador, meu único par de sapatos, todo dinheiro de minha carteira, e eu não acordei. Só me dei conta do furto quando fui pagar meu almoço. Nessa época eu dormia em um outro barraco em uma invasão ainda mais sórdida que aquela que vivia minha mãe; Ela tinha trocado o barraco de madeira por uma geladeira usada e umas panelas de alumínio e eu dormia lá para tomar conta.
As ruas do subúrbio tinham entradas e vielas que nunca deixaram de me dar calafrios. Eram comuns os boatos sobre assassinatos, desovas, assaltos e espancamentos. Um dia, quando retornava do trabalho no mercado do protestante escroto vi acidentalmente um grupo de homens saindo de um beco escondendo suas pistolas. Tentei me fazer de desentendido e seguir em frente, mas um deles me chamou:
- Hei seu “corujão” – era a gíria usada para denominar os alcagüetes – Ta olhando o quê?
Continuei andando, achando que a estratégia ainda poderia funcionar, foi quando o grito do outro ecoou. – Parado aí fila- da -puta ou te meto uma bala.
Senti o corpo inteiro gelar e pensei: esta é a hora. Eu era só um moleque de seus quinze anos e nunca tinha sido tratado daquela maneira. Acho que ainda hoje ouço aquele grito ecoando do fundo da escuridão meus sonhos.
- Estava olhando o quê elemento – indagou um dos três homens, me puxando pela gola da camisa enquanto aplicava um tapa seco em meu pescoço – uma lágrima tremeu em meu canto de olho enquanto eu tentava desajeitadamente desfazer o mal- entendido.
- Veja só cara, eu “tava” só passando e...
É verdade que na época era comum para um rapaz de minha idade usar gírias, mas naquela situação isso foi uma completa estupidez, provocada pela minha inconsciência e ingenuidade já citada.
- “ Cara”? Você me chamou de cara?
O do bigode que me tinha agarrado pela gola aplicou outro tapa, mais forte e mais seco, enquanto puxava a pistola coma outra mão e a encostava em minha nuca. Senti o frio do metal colado na cabeça como uma agulha que injetava o desespero diretamente para dentro de minha alma.
- Me deixa ver o braço – um outro aparentemente mais calmo me tirou da mira do bigodudo furioso e esticou meu braço – bom, drogas injetáveis você não usa, trabalha?
- Sim senhor eu trabalho
- Tem como provar? – vasculhei os bolsos da imunda calça jeans até encontrar o amassado contracheque que o sujeito ergueu na luz enquanto os outros dois olhavam furiosos e de arma na mão.
- É você não parece um marginal, mas tem que evitar andar nesses lugares a essa hora da noite – eu não respondi nada. Ele me deu uma tapinha amistosa, em um tom ao mesmo tempo de conciliação e ameaça e eu me arrastei para o barraco de minha mãe atônito. Não argumentei nem contei a ninguém sobre o que tinha acontecido. Não havia o que dizer. Essa foi a minha primeira lição de mundo, naquele dia eu comecei a acordar para uma parte da vida diante da qual a minha atitude sempre permaneceu a mesma: Silêncio e assombro.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Na vida dura
no caminho escuro,
ainda assim voçê vai conseguir.
Se mantiver os ombros em linha,
se guardar a lembrança das horas,
se cultivar as rosas do afeto
e se mantiversereno em meio a tempestade.
È o maximo que se pode fazer e também
é o melhor.
melhor que se perder em sonhos loucos
e que definhar em uma vida mofada
mensurada por notas fiscais.
Na vida dura,
no caminho escuro,
no apego a si
voçê conseguirá irmão
voçê conseguirá.
pois as flores que merecem viver
rasgam o asfalto a procura de luz.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Brio

Um homem pode cair,
mas não comungar com a lama.
um homem pode chorar
mas não fazer do choro um pedido.
Um homem pode passar fome,
vender a alma,
comer da própria merda
e em seguida olhar o mar
e pensar que está tudo bem.
mas um homem não pode
se arrepender e maldizer os seus gestos
nem estabelecer os seus passos
na ignorância absoluta do fim
sem perder o brio e a persistência
que o sustentam e mantêm,
enquanto cavalga o dorso da vida
e se alimenta da própria gordura.

sábado, dezembro 29, 2007

Praia.

O vento,
o mar,
a cerveja,
o Sol e a minha filha na agua brincando
como um peixe sorridente.
Todos os meus pensamentos
indo e vindo com as ondas
beijando a areia e os meus pés.
A trégua do combate
insustentavel com o mundo
e minha esposa sonolenta
com a minha filosofia inacabada.
Um beijo molhado de sal
e de areia da pequena
e a minha dúvida clara
conduzindo
meu coração até o infinito.


Trégua

Eu chego em casa cansado
as vistas doendo
o corpo em frangalhos
e a dispensa vazia para uma refeição decente.
da sala minha mulher
Assiste a sua novela e grita:
"não deixa as roupas
espalhadas,
o gaz acabou!
vai folgar esse fim de semana?
Quem é Beatriz?"
Eu tiro a roupa peça por peça
e entro no chuveiro
a agua caindo no meu corpo,
pequenas gotas frias,
e por alguns momentos
tudo fica bem.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

THat´s all right, mama.

conheci muita gente na vida
muitos rostos se balançando na luz
como se estivessem vivos.
Almas de chumbo pesando no espaço
estorvando o caminho,
reclamando,
como se o mundo inteiro girasse
em torno de seus intestinos.
mas poucas pessoas que caissem na treva
que tivessem frieiras
que se sentissem sozinhas
e se mantivessem serenamente
elas mesmas.
E talvez nem seja um problema
o fato das coisas serem assim.
Tudo deve estar perfeito,
Um maldito cisco no meu
olho me impede de enchergar.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Sobre pedras e bandeiras

Era ainda madrugada quando o velho Samuel atravessou os caminhos de tábua erguidos sobre a maré, deixando seu pequeno e torto barraco emdireção a mais um dia de batalha. Nas mãos ele levava duas sacolas de plástico, uma com algumas mercadorias novas para vender e na outra o almoço dentro de uma pequena marmita térmica embrulhada em pano de prato branco. Samuel quase não sentia o frio do sereno em sua face cheia de sulcos e queimada pelo sol, tornara-se em certa medida insensível a mudanças de temperatura quando estas se verificavam no interior de sua rotina. Mecanicamente, seguindo essa mesma rotina ele atravessou mais uns duzentos metros sobre tábuas que balançavam aos seus aos seus pés até atingir a parte da invasão onde já tinham aterrado o mangue, e o lixo amontoava-se na margem da península exalando um mau cheiro imenso, que Samuel também não percebia. Apenas ocupava o seu pensamento a necessidade de conseguir algum dinheiro, pois a comida em casa estava acabando e ele se via obrigado a resumir suas refeições a ovo frito e farinha. Tinha também conta do fiado na venda do João, que já lhe cobrava fazia meses, e logo não lhe venderia nem sua sagrada cachaça do batismo. Chegou ao ponto de ônibus e enquanto esperava o coletivo entrou na venda do João, que ficava proximo ao ponto e pediu, como era de costume, uma dose – A do batismo, por favor seu João – O homem de meia-idade, com a barriga imensa escapando pela camisa aberta entortou a boca e despejou o liquido branco no copo – Muito obrigado – Samuel agradeceu estalando a língua, e abrindo um largo sorriso despejou parte do conteúdo no chão bebendo o restante – Quando você vem pagar o que deve Samuel? - Questionou João de costas para o balcão – Ainda essa semana, seu João, não se preocupe – É bom mesmo, ou não vai achar mais fiado em minha venda – de cabeça baixa Samuel recebeu o desacato e foi para o ponto unindo-se aos outros tantos que como ele esperavam o transporte, e que como sempre também veio lotado. Samuel correu até a porta dianteira deixou as sacolas, deu a volta e apertou-se para dentro do ônibus.Seus setenta anos pesavam mais nessa hora, mas a rotina e o hábito também anestesiavam parte desse desconforto.
Alguns quilômetros e muitos solavancos depois o ônibus chegou ao centro da cidade. As pessoas desceram como bois ruminando o assunto de suas vidas umas para as outras e Samuel pegou as suas sacolas e também desceu. As ruas estavam imensamente agitadas. Era época de eleições e os militantes dos diversos partidos podiam ser vistos em diversos pontos da cidade agitando suas bandeiras dediversas cores. Samuel nunca se interessara por politica em seus setenta anos de vida, homem rústico, de pouca educação sempre vivera de sub-empregos e com dificuldades criara o único filho, que tinha ido morar com os parentes ao completar 18 anos, Leonardo.Foi muito duro para Samuel criar um filho junto com a esposa vendendofrutas e trabalhando de carregador em feiras públicas, mas agora esses dias tinham acabado. O Leonardo morava com alguns parentes ricos e frequentava uma universidade, desde que morrera sua mãe e ele ia tocando a vida com sua cachaça, seu futebol e seus cigarros.
Chegando a praça onde montava seu ponto de venda de frutas Samuel dirigiu-se até o depósito onde os ambulantes como ele guardavam as suas mercadorias. Pegou o tabuleiro de madeira, o cavalete, o pequeno banco e em seguida transportou um a um os caixotes de maçãs e pêras armando-os sob o tabuleiro forrado de papel laminado. Porém do outro lado da praça uma manifestação de um grupo de estudantes universitários misturados amilitantes de um partido radical gritava em frente a um banco estatal que ia ser privatizado. Os manifestantes tinham interditado o acesso ao banco. A policia fortemente armada de escudos e cacetetes preparava-se para desobstruir a entrada do banco. Os universitários cantavam em êxtase palavras de ordem. A policia começou a marchar em sua direção, do outrolado da praça Samuel observou o tumulto e as pessoas que corriam de um lado ao outro. Temeroso de um assalto que lhe tirasse o ganha-pão ele começou a guardar sua mercadoria apressadamente.
Foi quando explodiu o conflito, a policia avançou sobre os manifestantes possuídos pelos seus ideais, com aforça não menos persuasiva de seus cacetetes. Aqueles munidos de pedras e paus tentaram defender-se como puderam, a principio tentando manter um solidário bloco coeso, depois correndo, batendo e apanhando desordenadamente e ao fim correndo sensatamente para salvar a pele, foi nessa última parte do combate que a onda humana precipitou-se sobre Samuel que começava a recolher suas frutas. Na fuga desesperada os manifestantes saiam apanhando tudo o que encontravam pelo caminho com o propósito específico de afastar o inimigo que avançava e capturava um a um os bravos guerreiros do ideal. Foi numa dessas fugas que um dos estudantes apanhou um paralelepípedo sob a chuva de balas de borracha e atirou sob os policiais, o projétil atravessou o ar mas não atingiu nenhum policial. Tentando esconder-se em um dos becos para esquivar-se das balas Samuel tornou-se o alvo para a pedrada do estudante, e caiu com a cabeça partida, com o sangue jorrando aos borbotões, seus últimos pensamentos foram desconexos e misturavam a dúvida sobre o que tinha atingido, a preocupação com o dinheiro para os cuidados médicos e o medo acarretado por tudo que já tinha ouvido sobre a morte e o julgamento de Deus. A revolta foi contida e muitos estudantes presos, alguns jornais traziam estampadas as fotos dos estudantes agredidos e outros jornais, chamados sensacionalistas notificavam o incomum fato do estudante que matara o velho pai que não via há muito tempo em meio ao tumulto e a fuga.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Olho o mar

Olho o mar
e as ondas de pessoas
se chocando entre si.
olho o mar
com o copo de de cerveja,
o peito retorcido
e a ânsia de viver que se consuma
em luta
e em silêncio.
olho o mar,
e o pobre homem fraco
que grita com as ondas
que pragueja contra a vida
que odeia o liberal
que não consegue ir em frente
perseguido em seus pnsamentos
pelo pai escroto.
sua fragil embarcação travestida de ideal,
e seu mundo alheio totalmente voltado para fora.
olho o mar e espero acontecer
o brilho louco do que ainda não
sei,
minha sobriedade linear sem grandes pretensões.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Tramas e Acordos

Tarde de sol de um feriado, agraciado pelo indulto do patrão eu bebo minha óbvia cerveja e folheio o relatório do Steinbeck enquanto a pequena diverte-se a poucos metros de mim. Ela já fez vários amigos em poucos minutos no parque. Tenho muito a aprender com ela, é um fato, minha suspeita acerca dos conchavos e das tramas nas quais os outros nos envolvem ergue uma barreira entre mim e o coração geral da vida. Ou talvez seja só o resíduo de minha timidez esmagada diante da sadia crueldade necessária. Brincando de pega-pega com os novos amigos Tina ainda não sabe dessas coisas. A maioria das pessoas também não sabe. Talvez não haja nada para ser sabido, afinal de contas. No entanto, ainda que não seja saudável não consigo deixar de pensar na minha garota se consumindo em ciúmes, e o que é o ciúme? Uma tentativa de furtar ao outro sua indeterminação, o que ele tem de mais humano? Uma trama ou um jogo onde as mãos do medo movem as peças dos peões que somos nós? E ninguém está livre do medo.
Prefiro deixar tudo isso de lado. A tarde está linda e as folhas das árvores agitam-se na carícia do vento. Existem risco e dúvida por trás de tudo que nos cerca e isso talvez não seja tão ruim. Mas, como ultrapassar o cordão de névoa que constitui o apego? Também forjei os meus nas noites secas e sozinhas nas quais vaguei sem a luz de um corpo feminino, todavia ainda oscilo vagamente entre a incerteza afirmativa do que sou e essa sombra fria que chamamos segurança.
Não sei até que ponto, somos tecidos do fio de temores dos nossos ancestrais. - O meu namorado tem andado muito estranho – Uma garota em trajes sumários comenta com a amiga que toma um refrigerante. – Agora só quer me levar para sair uma vez por mês! - Ela completa agitando as mãos com unhas imensas e bem pintadas de vermelho- Cuidado amiga. - A colega adverte interrompendo o sorvete- Deve estar com outra na rua, é melhor tomar cuidado com o que é seu.
Fico pensando se é o resultado de uma tradição caquética ou se é impossível amar alguém como indivíduo.
- Papai me compra um sorvete? – Tina me pergunta com seu sorriso maroto; eu enfio a mão no bolso e tiro duas moedas e lhe dou.
- O que o senhor está lendo?
- Lobo mal e os três porquinhos – Respondo.
- Não é nada.
- O senhor está lendo fi-lo-so-fia.
E sai correndo na direção do seu sorvete. Ela tem razão, sempre teria.
O lobo mal pode ser qualquer coisa e nem sempre temos um porquinho com uma casa de tijolos para nos esconder. O lar espedaçado do éden de Steinbeck pode ter sido o meu. A cicatriz no braço, o beijo de uma faca manipulada pela minha ex-mulher é uma prova disso.
A tarde aproxima-se lentamente do final. Chamo a pequena para voltar pra casa, um momento difícil. Mas, ela aceita meus argumentos: pipoca e brincar de monstro e herói, onde eu sempre serei o monstro. Nada muito diferente, mas dessa vez pelo menos é divertido. Damos as costas para o parque deixando para trás momentos alegres, um sonho na memória do tempo. Meu amor se dilata e expande nas quatro direções do universo com o sorriso dela. Chegamos em casa!

segunda-feira, novembro 26, 2007

Negócios

Pedro Felipe terminou seu banho tranquilamente assobiando uma música do Djavan e saiu enrolado na toalha em direção ao quarto. Abriu a porta do imenso armário que ficava embutido na parede e se pôs a escolher entre as diversas roupas que ali estavam a mais adequada para a ocasião. Tirou uma camisa multicor, estilo amante latino, e uma calça jeans preta muito justa, o que o deixava com uma máscula aparência.
Vestiu-se lentamente deliciando-se com o pensamento de ter os seios da Bety em suas mãos. Pedro Felipe sabia do que as mulheres gostavam e sabia tirar proveito de sua posição. Depois de vestido Pedro foi até o barzinho luxuosamente adornado com estatuetas com motivos Hindus e retirou a garrafa de whiske 25 anos. Ele encheu um copo e bebeu admirando-se no reflexo da vidraça de seu luxuoso apartamento. Considerou-se um grande homem. Jovem, solteiro e bem sucedido empresário que soube administrar o patrimônio da família sem se casar muito cedo.
Terminou sua dose e pegou o elevador pessoal. Cada andar de seu prédio era um apartamento, o de Pedro Felipe era a cobertura. Chegou ao estacionamento por volta das 21:30 e sua Ferrari vermelha o esperava. O assobio longo do alarme sendo desligado soou na noite e Pedro Felipi entrou, o pequeno crucifixo preso no painel balançou quando ele deu a partida e ligou o som; Jorge Vercilo começou a cantar enquanto ele saía do prédio e pegava a rua principal. Pensou nas ações da empresa de cosméticos que estavam em baixa e precisariam ser vendidas. Também havia a planilha de custos da empresa de sapatos, seria preciso demitir 30% dos funcionários para fechar o mês sem prejuízo, tudo bem as demissões seriam feitas. Negócios são negócios. Ele continuaria crescendo 3 pontos acima das outras empresas no próximo ano.
A chuva caia nas ruas do centro e o sinal fechou. Pedro parou e ficou com pensando em investimentos para o próximo ano. Foi quando o vidro do carro foi estilhaçado com um estrondo de um cano fuzil invadindo seu carro junto com os cacos e a água da chuva- Mão na cabeça filho da puta- Berrou o encapuzado que empunhava a arma enquanto outro portanto um revolver arrebentava o vidro do outro lado do carro- Quietinho, quietinho aí porra, ou te corto no aço – Pedro ficou em choque e levou alguns segundos para recobrar o controle –leva tudo, pode levar o carro –ele falou gaguejando mas entes de terminar recebeu uma coronhada seca de fuzil na boca que lhe arrebentou metade dos dentes e estraçalhou o nariz –Fica calado seu merda- O homem do fuzil gritou, José Carlos era seu nome, arrastando em seguida Pedro Felipe desmaiado pela gola da camisa , enquanto o outro que portava o revolver, chamava-se Dimas, tirava do bolso uma fita adesiva e amarava os pés e mãos do rico empresário. Atado com um porco Pedro Felipe foi lançado ao porta-malas do carro. Dimas e José Carlos entraram rapidamente no veiculo e cortaram as ruas da cidade em alta velocidade subiram uma rua que margeava o oceano e chegaram a favela. Na entrada de uma rua onde os barracos humildes, muitos furados a bala se misturavam com bares onde homens jogavam sinuca e bebiam aguardente alguns traficantes armados de metralhadoras faziam guarda. Um dos guardas armados se aproximaram do veiculo e depois de falar alguns segundos com José Carlos, se afastou e a Ferrari seguiu até uma grande garagem onde um homem com vários colares de prata e cavanhaque bem feito esperava na porta. José carlos e Dimas desceram do carro e o chão de barro enlameou os seus pés - trouxemos a encomenda como combinado chefia, e um acréscimo que pode render alguma grana- fez sinal para o Dimas que abriu o porta malas e tirou o Pedro Felipe que murmurava suplicas incompreensíveis em função da mordaça- Tudo bem, o carro paga a divida –Falou o homem de cavanhaque- mas seqüestro não me interessa por enquanto, não é rentável e oferece um risco que não posso correr, a vendagem tem sido boa e não quero pelotões anti-sequestros na favela. Termina o trabalho que começou e estamos quites.- José carlos colocou o fuzil na cabeça do Pedro felipe que pensou em Deus como não fazia há muito tempo, contudo as ultimas palavras que ouviu foram- Bom... Negócios são negócios.- em seguida José Carlos espremeu o gatilho.

terça-feira, novembro 20, 2007

Farelos e migalhas.

Estou carregando os fardos de farelo e agora levo o último da minha cota da manhã, o suor junto com a poeira do farelo virando lama em minha pele e a rota calça jeans assando a lateral de minha perna. Após terminada minha jornada sento a um canto do depósito para fumar um cigarro. O Joe cara-de-tigre senta do meu lado e começa a murmurar algo sobre o jogo de futebol de ontem à noite. Pobre afro-descendente quase feliz em seu esquecimento e sua ignorância do que somos. Carne para o moedor e pedras para o muro da insensatez. Joe pede um cigarro e eu dou, ele sorri ao puxar a fumaça, dentes podres como o nosso orgão natural do afeto. Levanto para ir até o ancoradouro comer um sanduíche de pão ovo e presunto e tomar o suco de laranja que a Dan fez pra mim. O alto-falante – um corvo da desgraça- chama meu nome entretanto e interrompe os planos para minha refeição. Subo as escadas para o escritório do gerente remoendo presságios e esperando o pior, o gerente Rodrigues aponta a cadeira e eu me acomodo no couro importado, seus olhos injetados e sérios, os vincos na testa de quem conta dinheiro aos finais de semana, a foto da mulher gorda e flácida e dos filhos pretenciosos na estante: - Seu rendimento caiu Sr.Leon – ele fala folheando papéis enquanto olho para o ponto cego entre nossos olhares. - No 1º trimestre houve uma queda de 20% e esse processo tem se repetido – Submetido aos números e sua verdade não me sobram argumentos, apenas me limito a ouvir calado enquanto ele desfia seu corolário de sentenças e ameaças polidas. - Se continuar assim teremos de fazer cortes no orçamento.- As palavras escorrem de sua boca como a saliva de um crocodilo, um réptil de gravata e um inimigo do outro lado da fronteira. Me vem a cabeça que a humanidade é uma palavra vazia, que estamos perdidos na treva e que viver é um projeto insensato. Rodrigues abre a gaveta de mogno com os dedos de unhas bem feitas e relogio que me sustentaria durante um mês e retira a folha de papel onde se vê no alto da página: Advertência, uma estratégia sutil para demitir sem pagar os encargos,porém não assinar é pedir para ser demitido mais cedo. 33 Anos poucos dentes na boca, sem talento nem profissão eu assino e deixo a caneta de prata do patrão em cima da polida e brilhante mesa de mogno. Seu aperto demão, um requinte de cinismo e crueldade me mandam descer, eu fito cada degrau de acesso ao salão ainda desnorteado e acossado por um medo ancestral. A renuncia e o suicídio, o assassinato e a gestão de negócios, e todos os budas que viveram de arroz e meditação em uma Asia na qual não haviam corporações, televisão nem Marx. Eu ando até o cais para deglutir meu repasto e quase sinto vontade de chorar, não por mim, estou disposto a pagar meu ônus pela construção do inferno, mas pela pequena Tina que me ama sem reservas. Mais um cigarro após o lanche e as águas da baia abaixo do cais me convidando ao seu abraço final de afogamento, não, muito dramático, melhor morrer com as armas nas mãos, ficar observando até onde a treva pode avançar. A sirene toca e eu sei que é hora de voltar ao trabalho, o Joe já está próximo da sua cota de fardos e se prepara para carregar o primeiro. Existem muitas maneiras de considerar um homem feliz, não consigo pensar em uma na qual eu me enquadre, continuamos a jornada de trabalho até o final da tarde, depois do último fardo a gritaria do pessoal no chuveiro, as brincadeiras sobre quem tem o pau menor e todas essas coisas que eles fazem para amenizar o constrangimento de levar uma vida apertada por contradições e indigências. Os últimos raios de sol no rosto e os cabelos ainda molhados me provocam umasensação agradável. As folhas de árvore balançando sob o toque do vento, as nuvens no céu azul longe e a consciência de perceber tudo isso sem estar ali, sim isso também acontece só não sei como vai me ajudar quando eu perder o emprego.

Como era Beatriz

A noite quente de sábado ,em um verão que agita as pessoas e as arranca de suas casas também me arrasta, me traz até a rua 18 e seus bares barulhentos ,seus pedintes deformados pela maldade que nasce da miséria. Mas nem sempre. Eu ando por essas ruas de pedra antiga onde ainda se pode ouvir o eco dos escravos desgraçados e dos índios atormentados diante da coroa e suas perversões. Vou por vários quarteirões fumando e observando , esperando o cansaço ou o motivo aparecerem para entrar em algum bar e beber algo . Aqui as garotas tentam ganhar a vida como podem , cada uma diferente e por motivos diferentes vem aqui , ao centro histórico dar o corpo ao deleite alheio por trocados, objetivando a subjetividade alheia enquanto objetivam a própria subjetividade , um corpo espiritual e volátil de afeto tecido com a bruma de um futuro raramente cogitado.
Resolvo entrar em um barzinho sem musica onde um velho taverneiro serve doses de cachaça guardada em pequenos barris, ele as serve no balcão de madeira onde fileiras de bebuns se encostam e sorvem o liquido claro para regar com luz a alma escura. Eu também peço uma dose para a minha. Enquanto espero pelo meu quinhão de paraíso eu penso na queda e no encontro, na perda da inocência e no prazer angustiante de pensar, recordações de Blake e relatórios para a academia sobre um Stirner que nunca entendi, e por isso não fui admitido. Que tudo se opõe, que viver é uma permanente impermanência, que o gozo é o motor da ponte móvel entre as pessoas , que a compreensão é produzida como a bílis do meu fígado... Minha dose chega e eu a viro em um só gole e peço outra. O fogo da verdade química queimando minha garganta e um feminino anjo negro me olhando do outro lado do balcão. Ela conversa com um sexagenário mais calvo que eu e provavelmente mais abastado também. Sua pele escura, seu lábio grosso, seus seios fartos que me agitam o sangue e uma ternura infinita que me acena de seu riso despojado. Ela pede licença e se afasta de meu concorrente mais idoso, sou solidário para com a marca da idade, mas nesse caso meu desespero se impõe.
Ela sai do bar e eu a sigo, até pararmos em uma barraca cigarros- um maço de malboro- Ela pede- É um cigarro forte para um lábio tão suave - eu comento em seu ouvido e ela sorri olhando - me nos olhos com um atrevimento que me faz gelar com as possibilidades. –Podemos dar uma volta? - pergunto e ela responde afirmativamente com um gesto de cabeça.
Andamos varias quadras fumando e falando sobre nossas vidas. Entramos em outro bar e entornamos mais algumas cervejas. Beatriz: uma vida na favela e 6 irmãos,filhos de uma mãe solteira abandonada varias vezes. Um riso amplo e forte, uma voz intensa como o brilho do sol ao meio dia e uma tristeza muda que nunca se acusa mais que está lá: o excesso de palavras para falar do que é obvio. Consumada a aliança de confiança e atração recíproca subimos para um motel que funciona atrás do bar. Seu corpo despido das peças arbitrarias do vestuário que a oculta se mostra para mim. A curva acentuada de sua bunda, o púbis levemente depilado, o seios coerentemente erguidos na carne consistente e seu gesto feminino de entrega...como um deus tomado pela graça transcendente eu a tomo de maneira suave e furiosa. Como esquivar-se as solicitações da carne? Como refutar as premissas da argumentação do gozo? Como não admitir a compreensão profunda que nasce de uma união sem exigências entre um homem e uma mulher?
Invadi beatriz com calma e profundamente arrancando-lhe suspiros e gemidos finos como vidros se partindo, lutamos desesperadamente na copula louca, na busca da fonte que mataria nossa sede e nossa fome. Cada penetração uma corrente elétrica de realização e força, cada movimento dos quadris de beatriz uma iluminação instantânea e uma redenção do ego, até atingirmos o ponto Maximo em que seu corpo se contorce como uma enguia louca, com a tensão dos músculos e um grito fino no mesmo instante em que me esvaio dentro de suas pernas em uma torrente de gozo quente. Na ternura do momento que se segue desfilam em minha mente as cenas da vida solitária que me espera do outro lado da porta , e eu peço para beatriz que fique do meu lado, mas ela diz que não, e se cala. A fumaça de meu cigarro dança na escuridão do quarto e o silencio interrompido apenas pelo rumor da rua lá embaixo são minhas únicas percepções do mundo por vários minutos, até seu soluço abafado explodir baixinho. Eu abraço Beatriz com força e não digo nada, mas entendo profundamente sua convicção.

terça-feira, novembro 13, 2007

Um dia na vida de Pedro Diogo

Pedro Diogo acordou naquela manhã com a cabeça entorpecida do vinho e o peito estraçalhado pelos sonhos perturbados que sempre lhe perseguiam o sono. O ar abafado de seu quarto e o barulho dos homens bêbados no bar em frente lhe lembraram que se tratava de uma manhã de domingo, sinônimo de bebedeira, encontro familiar e praia para todos, menos para ele que já acordava coma metade do dia encomendado ao patrão. Pedro Diogo foi ao banheiro tomou banho e escovou os dentes sem nenhum pensamento claro. Na cama da qual se levantara deixou a companheira dormindo languidamente. Após o banho e as necessidades elementares Pedro Diogo esquentou o café e passou manteiga em dois pães dormidos, sem importar-se com o queijo e presunto que tantos podiam ter, nem com a sopa de papelão, única possibilidade para outros tantos.
Após terminar sua breve refeição Pedro Diogo sentou-se ao chão de seu minúsculo apartamento de quarta sala banheiro e pôs-se a ler. Não se tratava de um jornal com as notícias do momento, nem de um romance policial, mas de alguns textos acadêmicos que se obrigava a ler imbuído de uma espécie de fé, na esperança de que tais estudos o ajudassem na mudança do tipo de vida que levava.
Sua mulher levantou-se e dirigiu-se ao banheiro. O barulho da água caindo ao chão lhe fez lembrar de que não estava sozinho. Acendeu um cigarro, juntou os livros e pôs-se a andar remoendo idéias.
- Fumando novamente? – A mulher falou com mal - humor, sua fisionomia carregada expunha sua intenção violenta de tolher-lhe aquela liberdade.
- Só um cigarrinho, sabes que não sou viciado.
- Sei que não quero tornar-me viúva, nem sua filha quer ficar órfã. – Ela falou com uma expressão que misturava desdém e complacência. Pedro Diogo nada disse.
Calou-se, como sempre fazia quando a estreiteza do contexto não satisfazia suas exigências mínimas para uma interlocução digna e sincera. Continuou a fumar seu cigarro, enquanto folheava as páginas de um livro qualquer.
- O pão acabou – disse-lhe a esposa, e mais não foi preciso. Pedro Diogo ouviu a ordem implícita na observação, ajeitou os poucos cabelos que lhe restavam e lançou-se a rua tumultuada e tomada por pessoas barulhentas, cujas faces variadas lhe davam vertigens.
Tudo isso lhe atingiu e Pedro Diogo tentava alargar sua perspectiva no sentido de abarcar o horizonte e fugir daquele caos de percepções, mas uma linda morena de seios fartos destacou-se da multidão e Pedro Diogo foi reconduzido novamente a si – mesmo, agora sedento e energicamente agitado.
Pedro Diogo comprou seu pão necessário e retornou ao lar, a patroa já preparava o feijão óbvio. O relógio marcava a proximidade do fatídico momento de dirigir-se ao trabalho. Pedro Diogo foi ao banheiro tomar banho e preparar-se, a água banhou-lhe o rosto com seu toque frio, enquanto ele tentava entregar-se totalmente aquela sensação. Deixando de resistir, acreditava Pedro Diogo, ele deixaria de estar ali. Terminou o banho. Na cama a sua mulher assistia televisão e lixava as unhas. Ele vestiu-se lentamente enquanto observava as imagens que se sucediam na tela. Nenhuma delas lhe dizia respeito. Nem o acidente aéreo, nem o assalto a banco... Nada significava nada. Apenas com seu passado nas mãos Pedro Diogo achava patéticas as vidas alheais. Não se irmanava com os sentimentos alheios, sentia-se atado a si próprio como uma pedra a montanha.
Após vestir-se a almoçar Pedro Diogo beijou a esposa com os lábios molhados de medo e ternura e lançou-se novamente as ruas em direção ao trabalho. Andou algumas quadras antes de chegar ao ponto de ônibus. O sol do começo de tarde esquentou sua pele e uma brisa marítima lhe beijou o rosto pasmo.
Acima dos edifícios o céu lindo era um mundo inalcançável que Pedro olhava para tentar afugentar o desespero, sem conseguir, todavia.
O ônibus lotado o recebeu e ele se acomodou como pôde, tentando evitar o contato físico e psicológico com tantos e quantos o cercavam, até chegar ao seu destino. Chegou ao trabalho cerca de vinte minutos antes da jornada e fumou um cigarro no jardim que dava acesso ao prédio onde funcionava o callcenter. Lançou fora o cigarro e se despediu do céu azul e dos seus sonhos entrando em seguida no salão de atendimento onde centenas de pessoas sentadas em frente aos seus respectivos monitores falavam desesperadamente. Centenas deles, enfileirados, olhando a tela constrangidos. Como um grande tabuleiro de autômatos. Pedro Diogo procurou uma posição de atendimento disponível e se sentou. As ligações começaram.
A primeira era de uma senhora que furiosa com o valor da fatura queria cancelar sua linha. A segunda era de um senhor também furioso, mas por que tivera sua linha cancelada sem o seu consentimento. E foram dezenas dessas situações. Algumas mais simples outras mais complicadas. Uma atrás da outra as reclamações iam se sucedendo.
O interesse alheio, as idiossincrasias pessoais, as patologias de cada um escoavam pela linha telefônica em direção aos ouvidos de Pedro Diogo que tentava proteger-se em vão trás de uma muralha glacial de objetividade. Depois de três horas nessa maratona insana, na qual ele era avaliado incessantemente através das ligações que atendia, do tempo que demorava em cada uma, do tom de voz que usava, Pedro Diogo olhou aliviado para o marcador digital no monitor, pois atingira seu esperado intervalo para o lanche. Desceu para o pátio em meio à gritaria de tantos com o eco das vozes dos clientes lhe consumindo os pensamentos. Tomou um café quente e fumou um cigarro, sentiu-se melhor, mas passou, teve de voltar o atendimento depois de dez minutos. Para mais cinco horas de atendimento.
Centenas de reclamações e problemas depois, sua jornada terminou. Pedro Diogo encerrou os sistemas, pegou a mochila e foi para casa. Mais uma vez esperou no ponto a chegada do coletivo e mais uma vez ficou ouvindo impassível a conversa de seus colegas de trabalho. Ele nada tinha a dizer. Apenas queria seguir vivendo e se possível sem tanta resistência por pare do mundo. Subiu para o ônibus e apesar de levar sempre um livro na mochila resolveu não ler. Ficou calado prestando a atenção em si. Isso costumava fazer bem, mas Pedro Diogo não sabia por quê. Chegou a seu ponto e começou a andar as várias quadras que o separavam do lar. A escuridão se esgueirava pelos becos imundos do subúrbio onde morava. E foi ao passar por um dos becos que Pedro Diogo ouviu uma voz furiosa gritar.
- Parado aí, seu filho da puta!
Pedro Diogo gelou e ficou parado enquanto dois vultos encapuzados e portando pistolas avançaram sobre ele.
- Tira a carteira! Tira a carteira! - O mais alto gritou.
Imobilizado pelo medo Pedro Diogo demorou a obedecer e recebeu uma coronhada na cabeça. Caiu no chão como um pacote estúpido e os homens lhe retiraram a carteira, o celular e começaram a lhe chutar as costelas enquanto diziam:
- Branquelo de merda. E davam um chute.
- Ta gostando de apanhar veadinho? E davam outro chute.
No chão com o sangue escorrendo da boca Pedro Diogo, pensava que ia ser difícil trabalhar no dia seguinte com as costelas partidas. Foi quando sentiu a coronha fria do revólver na cabeça.
- Vai morrer agora, branquelo. Pedro Diogo sentiu uma profunda tristeza, mas ao contrário do que costumam dizer sobre esses momentos não viu sua vida desfilar diante de seus olhos. Apenas lamentou, pois doravante sua filha ficaria sem pai e sua esposa sem marido.Porém, a para sua sorte, a arma falhou com um click seco e os homens correram assustados ao ouvir um carro aproximar-se.
Pedro Diogo ergueu-se cambaleante e foi para casa com dor nas costelas e muito preocupado com o dinheiro que iria ser gasto com remédios.

Percurso Finito

Estou aqui em uma festa na casa de Hélio Mariano e ele está contando suas aventuras pelo Vale da Chapada. A Dan, minha garota está do meu lado, agarrada em meu braço em silêncio. Sua melancolia lhe transpira pelos poros, mas não existe frio nesta tristeza, antes é possível sentir o calor insano do que quer saltar para fora mas se encontra contido por algum tipo de laço, alguma corda de fraqueza ou algo mais forte que o desejo de prazer e deslumbre do corpo: vaidade? Não sei. Há tantos entre tantos entre o possível e o que é, e a carne que pulsa é tão ingênua diante das tramas da vontade que prefiro me calar atônito.
Hélio me pergunta algo sobre Castañeda – Se ele estiver certo, não podemos dizer isso – respondo – E se ele estiver errado tudo que pode ser dito não faz sentido algum. – Ele ri e os imbecis drogados que lhe cercam não entendem nada.
Saio para dar uma circulada com o copo de vinho na mão, o calor alcoólico correndo pelas veias e os pedaços desconexos de pensamentos flutuando no caldo da percepção indivisa e homogênea como sopa de feijão. O momento e a alegria que escorrem entre os dedos e a instabilidade que tenta encontrar um ponto claro. O que quero? Só descubro quando vejo a garota de pele clara, em contraste com a pele escura de Dan ( seus antepassados estragulando tigres na savana, dançando para o milho florescer, gritando enlouquecidos ao deus da mata).
E isso me faz suspirar e a desejar ardentemente, mas e a Dan e seu suspiro? E a ética costurada pelos compromissos mudos que assumimos contra o que queremos? O mundo é contingente e Shiva Nataraja surpresa se assusta com o que criou em sua dança. Apenas os homens, e nesse caso as mulheres, tentam extrair ordem até do próprio ventre do que é caótico: o desejo.
A garota tem os olhos acinzentados e o lábio fino de quem não conhece as tramas do poder. Sua saia hippie de quem acha que é louca, sua tatuagem para consumar um ser que não se deu, e eu a desejando mudo e desesperado. E quanto ao carma? A corrente de causas infinitas que nos determinam inevitavelmente? Todas as questões que isso não responde inclusive aquela pergunta: Quem provocou o giro inicial da culpa? Não sei como minha ignorância pode estar alicerçada em algo tão antigo. Ainda assim se repete a velha oposição entre o que quero e o que devo, mas nenhuma das duas coisas me parece seguro. Viver não é bem uma atividade sensata.
A garota percebe que eu a estou olhando, agora sem o álibi do copo de vinho que jaz vazio em minha mão. Ela não demonstra desconforto, já não sou um garoto e nada em mim lhe chama atenção. Eu me lembro da segunda nobre verdade: A dor vem do desejo. Anulação, fraqueza, niilismo. Nietsche e seu bigode impotente berrando e sorrindo alternadamente. É absurdp crer que basta simpleste ser e estar? Para além dos predicados e dos juízos? Dou às costas a beldade élfica e volto para os braços de minha princesa melancólica. Aceitação e renúncia: sem metafísica nem fé.Mais e o delírio beat de viver desabrochando como um girassol sem peias? E o experienciar que para algumas metafísicas não cristãs é o vôo da águia para além da segurança? Uma jogada arriscada, e tenho poucas fichas, ou não?
Chego à sala e sento ao lado da minha Kaka ( apelido extraído de seu gosto pelo Kafka e pelo mau hábito de plagiar Buckowski), Hélio agora discute com Léo sobre o Decamerão, Doors, Marijuana e Ezra Pound. Eu sem entender nada viro outro copo de uma só vez e a Dan percebe que não estou bem. Invento uma desculpa me despeço dos amigos e caio fora. No caminho falo algumas coisas pra preencher o vazio entre nossos corpos separados. O frio da noite roça com seu dedo de questões meu olho triste. Chegamos a casa e eu durmo soluçando em choro no abraço de kaka.





segunda-feira, novembro 12, 2007

Filosofia !!!

Como muitas pessoas que lêem as barbaridades que escrevo, vivem cobrando de mim algumas linhas mais sérias e menos ressentidas, e como é notório meu hábito impopular de entre uns goles e fardos de farelo ler um Nietzsche um Heidegger ou um Sartre me senti na obrigação de escrever algo sobre filosofia. A princípio pensei em formular alguns princípios e máximas, ou em desenvolver algum ensaio sobre algum autor ou idéias, mas isso levaria muito tempo e como logo, logo, a dona que esquenta meus lençóis vai chegar e interromper meu refinado raciocínio, desisti desse projeto e resolvi falar de maneira mais superficial sobre essas coisas. Os filósofos são gente complicada, se eu tivesse que afirmar a existência de uma verdade absoluta, essa seria a primeira candidata; A segunda seria algo como: obviamente nenhum filósofo precisou dar duro para sobreviver, apenas leram muito e escreveram. Isso pode ser bem sofrido, é verdade, mas eu falo de correr atrás de bandido, carregar sacos de farelo ou dirigir um ônibus oito ou dez horas por dia. Se tivessem feito isso não imagino que tipo de filosofia nós teríamos, talvez nenhuma. Levar uma vida dura deixa as pessoas com uma visão bem estreita e impede o elevado pensamento necessário ao desenvolvimento do saber filosófico.
Sendo assim, nós pobres mortais que se reproduzem muito cedo, que precisam dar duro oito horas por dia e que possuem uma patológica inclinação para o velho e bom “tapa -na- macaca”, quando ocorre-nos o raro desejo de ler um bom livro de um desses sujeitos, nunca conseguimos deixar-nos persuadir e enfeitiçar por seus delírios como eles gostariam.
Nós geralmente lemos os filósofos como se lê um romance, esperando pelo lance seguinte achando fantásticos os movimentos e as mudanças, para depois fechar o livro e ir viver a vida fora do cinema. Todavia, é claro que não faltam devotos para um filósofo. O mundo está cheio de gente atrás de certeza, elevação e de uma forma de ficar por cima da carne seca.
Tem um lance bem psicotrópico na filosofia. Frases desse tipo evidenciam o fato: “presentidade quer dizer: o que constantemente concerne ao homem e lhe oferece morada” Sentiu a viagem? Não? É que é preciso várias doses pra ficar “ligado no lance”. Depois de viciados em diversas substâncias esses sujeitos começam a berrar as suas utopias. Nada contra, também tenho a minha. Por exemplo: fico pensando como seria tudo mais fácil em um mundo no qual não houvesse patrões, essas pessoas de olhos raivosos e sanha assassina. Mas, a minha utopia é bem mesquinha e se resume em um projeto pessoal atingível com os seis pontos da loteria. É, mas quem é capaz de provar que não existe coisa muito mais mesquinha por baixo desses altaneiros anseios reformistas? Prefiro não correr o risco, fico com a minha medianidade.
Acho que as pessoas têm o direito de escolherem o tipo de descrição do mundo que mais lhes aprouver, de se submeterem ao papa, ou as idéias de qualquer um pensador. É claro que estou inclinado a não gostar dessas pessoas, afinal a minha descrição do mundo é uma na qual não existem descrições de mundo pensadas de forma definitiva ou justificadas com pretensões de verdade, e na qual o pensamento está a serviço do momento e não o contrário.
Há momentos nos quais o mundo se parece singularmente com uma montanha de estrume, mas isso é rápido e passa assim que ligo a televisão, tomo uma cerveja ou que minha filhinha começa com seu imenso estoque de perguntas. Sendo assim tão volúvel ( como me disse uma senhora insatisfeita com minha ironia) fico puto da vida quando esses meninos me vêm com suas profecias do apocalipse e perco a compostura. Numa dessas ocasiões de mal entendido social, um menininho de universidade saiu com essa:
- O paradigma cartesiano bitolou a mente das pessoas, as tornaram seres cruéis e desumanos. Precisamos de uma mudança para um paradigma plural, de amplas possibilidades.
Estava fumando um cigarro e deixei o menino falar bastante até que enchi o saco e falei:
- Não sei... Por que mudar? Se as pessoas querem ser cartesianas, que sejam. Não vejo nenhuma “humanidade” para ser corrompida. Vejo apenas pessoas diferentes, com diferentes noções do que é e do que não é corrupção e do que é humanidade. Se você não gosta de alguém, você sai de perto, não tenta desentortar o sujeito. Se não pode sair de perto desenvolve outras estratégias menos conflituosas e constrangedoras, esse salvacionismo pós-moderno me cheira a catequese.
Rapaz, o menino começou a tremer e já não falava coisa com coisa. Na verdade foi bem cruel, podia ter continuado calado. Quem possui uma descrição muito sólida sobre as coisas, quem usa uma idéia ou um sistema de idéias como baliza fica chocado quando ouve coisas desse tipo. Até me arrependi, é verdade. Mas, faria tudo de novo, ah se faria.
A essa altura já é possível perceber mais ou menos quais são as minhas opiniões sobre filosofia, ou sobre falta de filosofia, dirão alguns. É que eu acho que a vida, a minha vida é muito curta para ficar pensando em coisas tão gerais de maneira tão insistente. Prefiro continuar vivendo um dia de cada vez, esperando pelo dia de amanhã para saber o que pensar. Praticando algo parecido com o que os chineses chamam de Wu-Wei, numa espécie de taoísmo irônico. Superando os problemas, tomando meus porres quando o cancro supura, tentando ser um pai legal e um amante não muito escroto ( redefinindo essas qualidades todo dia) ouvindo meu blues e até acreditando em alguma filosofia de vez em quando.

quinta-feira, outubro 25, 2007

A estupidez de um dia

Enquanto a garota toma banho e se prepara para dar o fora eu fico estirado esperando que ela saia para conseguir respirar ar puro. Foram sessenta reais jogados fora em troca de uns quinze minutos de um gozo superficial e incompleto e um sentimento de impotência e frustração que se segue a relações desse tipo. Acho que a palavra imoral não se aplica no caso pois nós dois concordamos com os termos da negociação, e se seguirmos uma linha de raciocínio adotada pelo utilitarismo valor de moral de uma relação deriva de sua utilidade para a sociedade, e o que seria mais útil para uma sociedade de pessoas frívolas e cruéis que a possibilidade de uma relação temporária e baseada apenas na satisfação de necessidades imediatas? Cometo uma falácia? Pouco me importa. É assim que me redimo perante minha própria consciência pelos minutos anteriores sobre esta cama de motel barato. Cochilo um pouco quando acordo a garota já deu o fora. Levanto-me e vou me lavar na esperança de também limpar a alma que foi derrotada diante das justas reivindicações do corpo. Alma? Será?
Desço as escadas do motel assobiando qualquer coisa do Elvis, não por acaso a ingenuidade dele, e as orgias que ele depois promoveu em Grace Land me fazem lembrar meu passado de pai de família honesto, espirita empenhado e cidadão preocupado com casa, dinheiro... Dinheiro que agora uso para pagar um motel onde tentei minimizar as tensões do meu desejo em seu longo combate com as possibilidades da vida real. Dinheiro que me custa várias horas carregando fardos, perambulando a cata de serviços, dinheiro...
Uma chuva fina cai sobre a cidade e as pessoas com seus guarda - chuvas correm de um lado para o outro. Sorte de quem tem para onde ir quando chove o que não é o caso de uma família de sem – teto apertando-se o máximo possível debaixo do toldo de uma loja. Que ponte de comparações é possível construir entre seres nestas condições e os pançudos ricaços em suas luxuosas mansões? Ambos os casos causam-me tristeza e revolta e diante dos dois eu e toda humanidade estamos impotentes.
Os ricos não se convencerão de sua doença e os miseráveis precisam de bem mais que esmola e caridade. Encosto-me ao pára-peito de um prédio tentando abrigar-me da chuva que parece piorar a cada minuto. Meus sapatos vão se encharcando e minha calça jeans ( a única que tenho) já está úmida, daria dez anos de minha vida por um cobertor e um copo de vinho, coisas neste momento mais importantes para mim que a iluminação ou o reino dos céus.
Num breve intervalo de tempo percebo algo de estranho acontecendo em minha frente, uma senhora acuada a um canto da rua entrega sua bolsa a um rapaz quase colado a ela, ele olha para os lados assustado: é um assalto.
Meus nervos entram em estado de alerta e algo em meu coração começa a gelar, não sei se é medo, raiva ou desejo de estar enganado, porém, para minha infelicidade não estou e o homem corre na minha direção. O que eu tenho com isso? São só uns trocados a velha vai ficar bem. O homem passa zunindo por mim e contrariando todos os princípios de auto-preservação eu o agarro pela gola e ele vai ao chão, só que antes de cair me agarra e eu rolo com ele pela lama. Enquanto o chão se aproxima eu me pergunto por que fui tão estúpido, uma voz me responde que eu estava cansado de ficar só olhando fingindo que não é comigo, antes da voz dizer outra coisa um estampido ecoa na noite. Ele estava armado, algo em minha barriga começa a queimar, ainda consigo acerta-lhe um soco que o desacorda antes da vista começar a rodar, minha vida inteira desfila diante de meus olhos. Vejo meu avô me ensinando a contar, o nascimento de minha filha, minha separação, as noites de bebedeira e então, tudo se apaga.
Pessoas falando coisas incompreensíveis, luzes por todos os lados, o chão se movendo, um choro abafado distante e tudo se apaga novamente. Quando recobro definitivamente a consciência olho para o lado e vejo uma linda enfermeira mexendo em alguns aparelhos.
- Bom dia, senhor Leon, como está se sentindo?
- Eu estou no céu? Você é um anjo?
Ela não diz nada só balança a cabeça e sai. Enfermeiras, devem ser frígidas e masoquistas ou não suportariam ver tanto sangue e continuar sorrindo como fazem. A porta se abre novamente e minha ex-esposa entra chorando com minha filha nos braços. Acho que gostaria de ter ela mesmo feito o serviço.
- O que você quer fazer? Deixar sua filha órfã?
- Não, mais algumas pessoas tem se esforçado bastante para isso.
A pequena Tina sorri como se nada tivesse acontecido e principia com seu imenso estoque de perguntas, que o médico não me deixa responder, pois tira as duas da enfermaria e depois voltando-se para mim pergunta:
- Como se sente filho?
- Já estive pior doutor.
- O que você fez foi uma ação muito nobre.
- E estúpida também.
- Mas agora você vai ficar bem, não se preocupe.
- Obrigado doutor, mas eu duvido muito.
Os médicos sempre acham que possuem solução para tudo que entra no seu consultório, ou simplesmente não se importam? Não lhes tiro a razão, para conviver no dia a dia com exibição da face grotesca da vida devem precisar deixar algo morrer dentro do peito.
Lá fora a lua já brilha de novo no céu, pela janela do quarto vejo seu brilho, os prédios acendendo as luzes, os maridos cansados chegando a casa para o abraço dos filhos e o calor das esposas... Fecho os olhos relaxo e deixo o dia acabar.

"Homos decadentes"

Aprendi com a experiência a perceber quando a noite deu o que tinha que dar e a desistir de tentar prolongá-la através da madrugada a custa de pileques, cansaço e vexame. Tanto na guerra como na vida é importante saber a hora de recuar e viver um dia de cada vez. Por volta das onze horas da noite de qualquer sábado geralmente já estou tão bêbado quanto Buckowski. E percebo quase sempre que o álcool não compensa isso não me impede de beber no sábado seguinte levado pela velha compulsão de repetir os fracassos na esperança de algum dia ver a alvorada surgir na minha noite escura, entretanto tudo isso é só pendor poético e romantização. Eu não sou tão ébrio quanto gostaria nem tenho esperança alguma de que algo de novo possa mudar o atual rumo das coisas, no final de uma garrafa de vinho isso fica bem evidente. Dou uma olhada em volta e não vendo nenhuma beldade disposta a esquentar a cama de um escritor fracassado que já passa dos trinta me levanto meio cambaleante e lentamente abro caminho através do cardume humano que pulula na praça.
Carros, música, bundas e desespero sorridente zombam de minha trajetória. De repente uma voz familiar grita atrás de mim:
- Onde pensa que vai, seu banto? – Aguço o olhar e vejo vindo em minha direção duas figuras incomuns e conhecidas.
- Eu pensei que você já tivesse sido mandado para as minas de carvão do congo – Respondo-.
Frederico, o poeta Nerudiano, parceiro de outros carnavais e ex-rastafari espalha pelo seu rosto magérrimo (uma espécie de mistura de Gandi com Herman Hesse de pele morena) seu sarcástico riso enquanto seu companheiro Gustavo, um grande companheiro de abismo, me oferece um de seus entusiasmados abraços.
- Seu sacana, por onde tem andado? – Ele pergunta quando termina sua apologia.
- Fugindo dos pedagogos e assassinos – Exclamo olhando para Frederico.
- Você é mesmo um problema, então coloca os pedagogos no mesmo plano dos assassinos?
- Gustavo pergunta
- Não, os assassinos são mais sinceros- respondo.
Gustavo balança sua juba presa por uma tiara enquanto ergue diante de seus olhos de Garfield uma garrafa de vinho quase cheia e sorri. Essa vai ser uma noite difícil.
- Acho que não vou beber mais – Tento salvar o que me resta de bom senso.
- De jeito nenhum – Gustavo sanciona – Hoje é até o dia amanhecer.
- Vamos lá Leon, afinal há quanto tempo os três cavaleiros do apocalipse não se encontram? Afiei minhas esporas e vim para morder o pescoço de qualquer franguinha – Frederico olha para as meninas que passam ajeitando os óculos.
- Acho que já fomos um tanto longe demais numa mesma direção pra conseguirmos qualquer sucesso, nesse campo – Não concorda Gustavo?
- Que nada cara! Basta querer, sabe como é “chegar junto” - O otimismo dele encontra motivos, em sua própria condição, não na nossa.
Eu e Frederico nos embrenhamos pela densa floresta das idéias, da observação, da busca. Ignorando por alguns instantes os profundos complexos que nos levaram até elas e tentando redimir o passado, as dores e decepções com a conquista de certa grandeza no presente, conquista essa, cada vez mais difícil levando-se em consideração os valores que norteiam a vida de nossos contemporâneos. Após alguns instantes a alegria improcedente de Gustavo nos abandona e Frederico exclama:
- Está ficando cada vez pior Leon, as pessoas estão ficando doentes e a minha solidão cada vez pior, é difícil sustentar a existência de auroras quando a noite de faz tão longa.
- Segura a onda cara, se você vacilar agora eles vão pisar na tua garganta. Tenho tentado matar os monstros na medida em que vão aparecendo, não deixando que se reproduzam e aproveitando os momentos doces e lindos dos intervalos .
- E é muito belo quando isso acontece, você já percebeu Leon? Aquele momento em que o pensamento se dilui em sensação? E o tempo abraça suavemente o espaço? A garota do lado, a idéia intensa na cabeça, o caminho diante dos pés....
- Claro Frederico, mas... Estamos um tanto quanto inspirados hoje não? Afinal o que nos trouxe aqui foi outra coisa mais concreta.
- Ah sim, concreta... Quente e úmida também.
Mas não atingimos nossos objetivos pessoais conscientes, quanto aos inconscientes que se pode dizer? A praça aos poucos vai se esvaziando e as garrafas de vinho também. Muitos garotões arrastam suas presas enquanto são eles próprios arrastados pela vida, para a morte de olhos vendados como porcos. Amparados um no outro um poeta e um escritor exibem embriaguez, vômitos e risos já que não puderam exibir seus talentos, mais um dia nasce sobre as coroa sangrenta dos vencedores.

terça-feira, outubro 23, 2007


Uma audiência

A entrevista foi marcada para as oito, porém chego mais cedo, com o específico propósito de impressionar pela pontualidade. Tolice, ninguém percebe nem mesmo a secretária loura de óculos e decote violento, gostosa demais para ser interessante, do tipo que não goza, pede o extrato bancário para saber o que dizer depois da transa.
Alguns caras chegam depois de mim para o teste, uns dez e todos com caras horríveis e gestos de exagerado cuidado ou descontração forçada. Cada vez que meu olhar se cruza com o de algum deles procuro desviar rápido, evito assim uma interlocução indesejada feita de representação e senso comum. O que teria eu para falar com esses caras? Devem ter esposa chata que reclama por causa do copo fora do lugar e pede separação todo domingo à noite, amigos que os convidam para a pelada de final de tarde e cervejinha barulhenta em pocilga de esquina ou pastor evangélico para vender paz de espírito e auto - estima. Não, conheço bem esses mal entendidos sociais, além de muito desagradáveis não acrescentam nada nem a eles nem a mim “ cada macaco no seu galho” filosofa a sabedoria popular com muita propriedade.
É curioso perceber como essas pessoas facilmente se aproximam uma das outras, após alguns minutos várias linhas de conversação foram estabelecidas. Depois de uma hora parecem grandes amigos, se ficassem mais uma hora acabariam marcando um churrasco entre suas famílias e apenas eu e a loura gostosa não seríamos convidados, ela pelo orgulho de seus dotes físicos e eu pela minha chatice silenciosa. A porta se abre e uma outra mulher, também linda, sai e fala algo com a loura tão baixo que não consigo ouvir. Todos se calam e ficam esperando começar o chamado para a entrevista. Eu sou o primeiro e ao ouvir meu nome levanto-me e tenho a impressão de que todos os olhares estão sobre mim, caminho até a porta e antes de empurrá-la respiro fundo quase chego a desejar que Deus me ajude. Meu desespero, todavia não chega a esse ponto.
A sala é sobriamente decorada e sentada na mesa a linda (por que só existem mulheres bonitas em agências de emprego?) de cabelo preso em rabo- de- cavalo escreve algo, ou finge que escreve:
- Com licença.
- Entre e sente-se, Sr. Leon.
Com todo cuidado eu puxo a cadeira e sento, tentando demonstrar tranqüilidade e esconder o que sinto a respeito de toda sua fingida cordialidade.
- Você é casado?
- Separado.
- Tem filhos?
- uma filha de quatro anos – A cada pergunta respondida ela baixa a cabeça e escreve algo; como adivinhar o que ela quer ouvir? Afinal de contas ninguém está interessado em verdades, numa agência de empregos, aqui o que importa é ser aceito ou rejeitado para o jogo de ratos, e eles fazem as regras.
- O que você espera desse emprego, Sr. Leon?
Que raio de pergunta é essa? Espero conseguir me alimentar dar a despesa de minha filha, pagar o aluguel e talvez tomar um vinho e fumar uns cigarros. Sei porém o que ela quer ouvir.
- Ora, o que todo mundo quer, um salário.
- Disso nós sabemos Sr. Leon, o que não sabemos é o que você espera que a empresa faça por você: ela sorri complacente e gesticula num gesto amplo como se espalhasse pétalas de flores, nesse exato momento minha cabeça começa a rodar. Preciso do maldito trabalho, a pequena precisa, mas preciso também não perder a noção de quem sou, se isso acontecer já era sanidade... Tenho que encontrar um meio termo.
- Olhe senhorita, sou experiente em diversas ocupações, domino bem a linguagem e não tenho medo de trabalho pesado, isso é o que tenho a oferecer, agora acredito que o que a empresa pode fazer por mim é me pagar pelo meu trabalho.
- Mas e seu desenvolvimento pessoal, crescimento profissional, promoções, carreira. A respeito de sua realização, você acha que a empresa pode ajudá-lo a atingir isso? – Ela me olha nos olhos sorrindo, eu levanto a cabeça respiro fundo e digo:
- Acho que não senhora, essas coisas pretendo atingir sozinho, isto é, na suposição de que sejam atingíveis.
A entrevista continua, ela faz outras perguntas e continua fazendo suas misteriosas anotações, mas o tom de sua voz muda e eu percebo que já não sou mais uma possibilidade. Ela emite alguns comentários sobre a vaga e o salário, com um certo desdém, e no final repete o conhecido adágio “não se preocupe, nós lhe ligamos” e me manda porta afora. Fim de jogo, não sou aproveitável por não estar dobrado o bastante para caber no bolso do patrão. Sem ganchos(será?) nas costas e sem dinheiro para o aluguel e para a desepesa da pequena. Na áfrica nesse exato momento crianças são devoradas por abutres, alguém está descendo de um helicóptero que custa alguns milhares de dólares em Malibu ao LADO DE UMA LOIRA PEITUDA, e tudo parece muito estúpido. Um imenso acidente, sem importância mesmo. Do outro lado da rua um sujeito em trapos caga de´spreocupadamente sob o olhar estupefato de respeitaveis cidadões. Arvores secas e sem gritos, ereções involuntarias e sem gesto, Minha hemorroida que começa a doer...onde estão os brigadeiros? sorrisos inefaveis? solidões desconhecidas pela minha rota errada? pelo meu bastão de fogo? As crianças sendo torturadas? maniácos na condução das coisas? e tudo andando como deveria desde o inicio especulado e o controle imovel que não há. Aumento minha compreensão dos mecanismos, acendo aquele cigarro já citado, entro no ônibus e a vida me refuta.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Outra sobre açougues

Eles falam muito na clara intenção de fazer o tempo passar mais rápido, e para quê?
Amanhã estarão aqui comigo novamente cortando arrumando e embalando carnes ou levando-as ao balcão onde os braços esperam seu pedaço de alcatra ou contrafilé. O frio também incomoda e os impede de ficar em silêncio um só minuto, mesmo eu geralmente misantropo e taciturno vejo-me obrigado a partilhar da algazarra e espojar-me na lama da imbecilidade coletiva. Os defeitos unem mais que as virtudes, é um fato, e a necessidade dobra os belos retratos que pintamos tão cuidadosamente.
O movimento repetitivo da embalagem de carnes me endurece os dedos, os rostos sem alma dos clientes ricaços me enrijecem a alma e bebem meu ânimo como um milhão de sanguessugas. Eu escondo-me debaixo de uma glacial indiferença, é a única maneira de esvair-me por completo.
O trabalho maçante deixa na minha mente um ranço de apatia e desprezo. O sujeito que trabalha do meu lado no final de uma esteira rolante pesando os cortes e levando-os ao balcão já perdeu qualquer traço de dignidade há muito tempo e só falta dar o pescoço para os clientes pisarem. Seu olhar meio vesgo não tem brilho e lembra alguém com síndrome de down.
Procuro ser o mais mecânico e artificial possível para com todos que vejo do outro lado do balcão e ignorar seus olhares sedentos, doentes, buscando meticulosamente o melhor pedaço, a melhor oferta, o bife mais suculento todos querendo sempre as doces polpas da vida, um bando de abutres beliscando a carcaça.
- Meu filho consiga-me um osso do patinho – Uma velha absurdamente pintada e embebida em litros de perfume tão enojante quanto sua voz suplica com olhar compassivo.
- Um momento senhora – A minha voz sai como sempre, mecânica e artificial e eles nem percebem. Já perderam há muito tempo à capacidade de diferenciar um ser humano de uma máquina.
Após várias horas de massacre da minha auto - estima desço para o refeitório, mas sinceramente meu organismo encontra-se em tal conflito com minha cabeça que quase não sinto fome, azar dele só tenho uma hora de almoço e a comida terá que descer assim mesmo. Metade do supermercado encontra-se almoçando e o inferno de Dante pareceria um jardim de infância perto da visão abjeta dos funcionários deglutindo seu repasto como bois complacentes. As mulheres não se diferenciam muito dos homens, exceto pelas formas. Suas vozes, brincadeiras e valores são os mesmos. Passa pela minha cabeça até a hipótese de mijarem em pé também e se masturbarem olhando revista de homem pelado. Não, isso não, devem sentir-se muito excitadas diante de um carro importado.
Após o almoço vou trocar de roupa para dar o fora e um chipanzé do meu lado reclama do custo de vida.
- Tudo aumentando! O gás, a luz, a água; o governo não toma nenhuma providência – Ele grita.
- Ora- eu falo sorrindo enquanto penteio o cabelo – Você não tem de reclamar. Jogo de futebol todo domingo, cervejada no sábado, trio elétrico na avenida, deveria estar satisfeitíssimo. Eu é que estou fodido já que não gosto de nada disso e ainda pago o mesmo preço.
- Então você não vive, é um vegetal. – Ele vocifera de olhos vermelhos em fúria.
- Eu concordo, mas cá entre nós, não é muito melhor ser um repolho, batata ou uma alcachofra que um imbecil?
Deixo a resposta no ar e caio fora antes que ele decida resolver a disputa na porrada, preciso deste emprego e o aluguel está prestes a vencer. O sol vespertino saúda minha liberdade efêmera e eu me esforço para tentar enxergar algo de bom e amplo por trás dos olhares estreitos e cruéis, mas só consigo enxergar o reflexo de minha própria insensatez.

Na casa do filósofo

Na época em que eu morava no centro da cidade, em um apartamento minúsculo que dividia com uma senhora, costumava sair do trabalho mais cedo as sextas - feiras para encontrar-me com alguns amigos da velha boemia, na casa do Léo - Filósofo. Eram encontros fantásticos, o Léo era um excelente anfitrião e embora sempre reclamasse da bagunça que a rapaziada promovia, não conseguia esconder a satisfação em dividir seu vinho, seus livros e suas idéias... E era tudo da melhor qualidade. A única coisa que o Léo não dividia era a mulher. Uma senhora corpulenta, de ancas enormes, de pele negra que brilhava e rosto de poucos amigos. Era evidente a insatisfação dessa senhora diante das nossas visitas, e várias vezes a ouvimos comentar atrás da cortina que dava acesso a cozinha:
- Esse bando de vagabundos! Só falam besteira! Parece até que querem dar a bunda pro Léo.
O nosso filósofo fingia que não percebia o mau humor da esposa, mas sua opinião acerca do caráter dela ficava explícita em sentenças do tipo:
- Uma intelectual não sabe foder, ou é frígida e seca demais ou ninfomaníaca e desgovernada; Lawrence é que tinha razão, só às negras sabem gozar.
Dava uma baforada no cigarro um gole na cachaça e passava ao assunto seguinte, sempre dando tudo por muito certo e demonstrado, por mais complexa que fosse a questão.
- O cara que não cuida do corpo, veja só... O cara que só sabe pensar... O corpo atrofia, ele fica doente mesmo pequenininho assim – Fazia um sinal unindo o polegar e o indicador – Por outro lado o cara que é só corpo, que se acha o “ “homão”, caga no pau também porque não se liga, sacou – Estalava os dedos – Perde o “time” – E dando o veredicto sentenciava – O lance é não ter centro, sacou? Sem centro...isso aí : sem centro.
E nesse ritmo a tarde terminava e entrava a noite com a cachaça e o papo rolando. As estantes cheias de livros, revistas e discos nos olhavam impassíveis e nas paredes as manchas dividiam espaço com frases pintadas à grafite do tipo:
- “Todo mundo quer uma pica, não importa pra quê”.
“ “Deus é o existirmos “e isso não ser tudo”“.
““ O homem “é um ser que diz que o homem é um ser que diz...”
Ocasionalmente o encontro era cancelado porque o Léo estava quebrando o pau com a patroa, que berrava feito louca, nós ouvíamos a briga de longe e nem chegávamos perto da casa. Um dia ela deu o fora com um vizinho, menos inteligente e mais positivo. Nosso filósofo ficou arrasado, na primeira sexta–feira após a separação fomos a casa dele e levamos uma bebida e um livro do Nietzsche. Ao ver o presente ele olhou de canto de olho e disse:
- Obrigado Juan, mas não quero ler essa merda; de que me vale a filosofia de um sujeito que nunca soube o que é ter uma mulher tremendo encima do pau? Pra depois ver essa mulher te jogando na cara que você não sabe foder? É fácil criticar o mundo dos outros, quando se está escondido atrás da fronteira.
E dizem que o lance foi punk. Deve ter sido duro para o Léo reconhecer que ele era mais filósofo do que gostaria de admitir. E reconhecer que não importa qual fardo ele fosse obrigado a carregar ia continuar sendo o “ “Léo - Filósofo”. De qualquer maneira com a partida de sua patroa nossas reuniões não ocorreram mais. O Léo não ficava mais em casa e vivia jogado pelas ruas, também já não lia mais nada e tinha abandonado a faculdade de filosofia.
Um tempo depois fiquei desempregado, pois a fábrica de farelo fechou e voltei ao subúrbio. Não tive mais notícia do nosso filósofo, todavia lembro dele com saudade. Espero que ele tenha achado seu caminho nas trevas, e toda vez que me é colocada a opção entre ser “ eu” mesmo no inferno ou qualquer outra pessoa em algum paraíso encomendado, não titubeio escolho a mim, e torço pra encontrar com o Léo no fundo do poço.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Ode a Helio Mariano

HELIO MARIANO EU TE CONHEÇO.
Te conheço quando odia fere o flanco
e a manhã trespassa o peito oco
que arrastas ao mundo humano
com acordes noturnos do lousiana e ecos brandos
de qualquer alan wilson.
Helio mariano,eu te conheço.
quando tua punjança e vigores
coam pelos poros em esforços singulares.
pois ,como eu, és oriundo da esparta
e amas as mulheres e os combates
mas tens espirito...
tenso como a corda de teu arco
inquieto como a larva do amanhã
cinza como os olhos de legolas
Helio mariano eu te conheço,
e segui contigo a senda escura
onde fui o nove dedos
e teu foi o valor quando caí
fossas medonhas de lama e dor
suor para regar as flores do inferno
com buck,burroughs,dom juan....quase genet
fugas breves pelos bambuzais da esperança
dois beats loucos,anjos desfigurados,
em pleno pais piada de de macacos e gente tosca.
Helio mariano eu te conheço
no vALE DO CAPÃO,
quando fez-se a luz
e as aguas regaram nossa fé
e tua força sustentava mundos
helio mariano,nunca esqueças
ordeno que nunca esqueças
te proibo de que esqueças
até que rolem os astros sem centro sobre o umbigo carmico das coisAS
POIS ESTOU CONTIGO
mais do que tu mesmo
e minhas armas são tuas
e tua guera é minha
juntos golpearemos a mão da sombra e destronaremos o rei escuro
até que o verde,a relva,e a folha retornem
e placidos e serenos possamos amar nossas mulheres
e brandos cultivar nossos filhos e canções!!!

Nas encruzilhadas e viadutos.

A cidade lá embaixo me parece pequenina e inofensiva e as pessoas meras formigas agitando-se de um lado para o outro. Tanta gente, tantos rostos, vontades, sonhos e anelos e os nossos ainda parecem tão singulares e importantes. Os carros passam zunindo por mim e alguns idiotas buzinam dizendo gracejos, não me importo. A visão do alto deste viaduto proporciona-me um panorama interessante do mundo. Há um cemitério que recobre uma encosta a uns três quilômetros a esquerda de mim e na estreita avenida que a ele conduz, um pequeno cortejo funerário carrega os despojos mortais de alguém. Tão complexa e frágil é a vida que só mesmo algum tipo de estupidez congênita justificaria a força e a violência que usamos no dia a dia. Agora mesmo, bastaria um passo a frente e todas as minhas irrefutáveis certezas a respeito do depois viriam abaixo. Meu corpo se espatifaria lá embaixo e então? Não sei. Á tantos fatos a serem considerados, a própria coisa que chamamos consciência é tão variada e multiforme que pelo menos a mim não garante certeza alguma. No entanto a possibilidade não chega a me tentar. Há algo de eminentemente bom em viver, exceto em certos dias ou sob certas circunstâncias, não quero considerá-las agora, talvez se trate de estados patológicos da alma, embora eu saiba que isso não é bem verdade.
O vento me acaricia a face suavemente e um bem estar desconhecido me envolve. Deve ser por isso que o pensamento metafísico é tão sedutor muito embora quase sempre equivocado. Ele nos dá uma sensação de universalidade, transposição, segurança quase tão perfeita quanto a que relatam os usuários de LSD.
Num canto retirado e escondido abaixo do viaduto um grupo de adolescentes cheira cola de sapateiro em pequenos sacos plásticos, a alegria imbecil estampada em seus rostos não é muito diferente da que já observei em alguns fanáticos por televisão ou computadores, nela não há traço algum de atenção ou sensibilidade. Suas peles encontram-se escuras em função da grande quantidade de sujeira acumulada e os trajes rotos denunciam motivos que os sujeitam à tão evidente degradação.
Sua insólita confraternização, no entanto está prestes a ser interrompida. Da posição privilegiada na qual me encontro vejo vir vindo uma viatura policial aproximar-se dos garotos, abrirem suas quatro portas e liberar cinco ou seis seres supostamente humanos armados de metralhadoras, pistolas e fúria demente dispostos a terminar o serviço infame que a sociedade tinha começado. Mesmo não reagindo e erguendo os braços os quatro usuários ( que só estavam fazendo mal a eles mesmos) começam a ser submetidos a um espancamento generalizado. Meu Deus! Ninguém vai fazer nada? Parece que não. Aos poucos pessoas que passam pelo local deserto não se atrevem a intervir. Temem o poder destes senhores que ostentam uma força alicerçada no medo e na impunidade, somente eu como uma divindade impotente a tudo observo sem nada poder fazer. Será?
Um dos garotos chora convulsivamente enquanto recebe os tapas e os outros três ( possivelmente experimentados em situações desse tipo) nada dizem, esses apanham menos. Droga! Preciso fazer alguma coisa. Uma onda de insensatez suicida me toma, eu inflo os pulmões...
- Hei seus monstros, deixem os meninos em paz!
Eu grito e saio correndo dali com o coração na mão, ainda chego a ouvir alguns disparos para o ar; não me atrevo a olhar pra trás. Maldição, eu e minha boca. Por sorte um conhecido meu pára de carro ao meu lado e pergunta:
- Para onde vai com tanta pressa Leon, fugindo da polícia? – Ele ri de minha expressão assombrada.
- Isso mesmo, me ajuda? – Não espero a resposta dou a volta e ele abre a porta, em seguida sentencio.
- Corra como nunca correu em sua vida.
Nunca mais vi aqueles policiais ( ainda bem) mas as cenas que presenciei encontram ainda algum espaço entre os outros fantasmas que me atormentam e o choro daquele menino não sai mais de meus pesadelos.

Uma napoleão, um Bufão.

Não há sensação pior que a solidão e no entanto é a que mais me persegue. Ela sempre vem nos sábados e domingos à noite quando a alegria alheia incomoda a minha vaidade ou quando acordo na segunda pela manhã sem um tostão no bolso e com um imenso espaço do meu lado na cama. Nestas horas um frio que corta o muco do pulmão preenche todo o peito, os pensamentos tornam-se desesperados e inconstantes. A pior solidão que sinto, no entanto por mais contraditório que pareça, ocorre quando estou acompanhado. Eu a estou sentindo agora, enquanto apresento os meus textos e poesias a um conhecido, sentado numa mesa do bar e tomando um copo de vinho. Ele olha o primeiro texto, talvez esteja lendo só o primeiro parágrafo, passa para o segundo, terceiro e quarto e me entrega o maço de folhas, dá um risinho e diz vagamente:
-Parece bom...
Eu só posso pensar com isso que ele não tem a capacidade de avaliar o material e consequentemente fazer uma crítica pertinente. Meu desespero engole e elimina a possibilidade de disfarçar a sensação de isolamento e compreensão do fardo de estar só; quando não encontramos ninguém a nossa altura ( mesmo que ela seja das menores). O vinho continua a encher nossos copos, a conversa é que se torna vaga e fútil, com uma pergunta ou outra sobre dinheiro, trabalho, mulher... A vontade que me dá é levantar da mesa, mas permaneço ali, em silêncio ouvindo aquele papo chato e com a ferida me carcomendo as entranhas, droga! Qualquer um é capaz de dar uma opinião, mesmo que seja superficial e equivocada, tem observações a fazer diante do que lhe surge na frente, no entanto o cara só é capaz de dizer: “Bom”. Por quê? Será para não se dar ao trabalho de pensar a respeito ou por sentir-se de alguma maneira diminuído pela incapacidade de produzir algo semelhante? Não sei. Não me considero um bom escritor, nem um poeta razoável, e a avaliação que faço da criatividade da maioria das pessoas que me cercam também não é das melhores, mas pelo menos eu faço alguma avaliação merda ! Dou a cara pra bater, assumo os riscos. O problema é que lhes falta um fracasso advindo de uma grande tentativa e expressar-se, um sim afirmativo de uma tentativa bem sucedida.
Acho que ele percebeu o meu olhar cínico e desdenhoso e prepara-se para ir embora, eu não o impeço, chego até a ficar satisfeito quando essa solidão me atinge, falar exige um esforço imenso que me esgota e só faz piorar tudo. Ele levanta-se aperta minha mão e eu fico ali sentado bebendo no canto do bar olhando as folhas de papel em cima da mesa e perguntando a elas em silêncio: “para quê eu escrevi vocês?” elas não respondem, ficam apenas ali como se quisessem me dizer que existir lhes bastava, continuo bebendo cada vez mais até que o álcool transforma em fúria a minha tristeza. Eu pego uma das folhas subo na mesa diante dos olhos estupefatos do garçom e dos clientes e começo a recitar:


Há pontos de exclamação por toda parte !
Fincados na esquina do transito apressado
Com olhos bundas, peitos e caralhos
Se matando por um pedaço da carcaça fedorenta
E os vermes que nela se arrastam
Eu também quero o meu pedaço
E foda-se o sufrágio universal!
Um braço forte,uma palavra intensa ou somente
A alegria que todos querem, a felicidade que não podem esconder.
Por trás de seus focinhos nojentos...

Nessa altura o Garçom apavorado fez sinal para dois macacos imensos que começaram a vir em minha direção, enquanto o publico surpreso recebia a tudo em transe. Continuei:

Estampados, na revista caras, frios sobre a laje branca
Suavidade quente e linda do teu corpo...
Porquê não tive?
Ahh, sonho louco de uma utopia que me apodreceu
E ninguém acordou no dia seguinte.
Fui agarrado pela gola e forçado a descer da mesa. Um tapa me acertou a orelha e revidei com um soco direto de esquerda. Acertei em cheio mas o outro gorila me pegou pela cintura me jogando a uns dois metros pela porta afora. Cai na rua com fedor de urina e fiquei esparramado no chão rindo muito. Uns minutos depois levantei, com uma certa dignidade confesso. Fui para casa, um napoleão exilado.