sábado, setembro 10, 2011

Preço.

Era uma baita mulher! Maravilhosa em quase todos os sentidos. Curvas incríveis, olhos que faiscavam vida, curiosidade e senso de humor e seios...que seios! Invejei o sujeito. Sim, coisa vil, cobicei a mulher do próximo enquanto o próximo ainda estava próximo. Mas isso não durou. Nos sentamos na mesa e ela reclamou da lentidão dele, da distração dele e de muitas outras coisas que me pareciam perfeitamente naturais em um macho sadio. A inveja transformou-se em compaixão. De fato ela era algo raro e lindo, mas o preço a ser pago era muito alto para quem ama mais a própria pele.
Isso. O amor não é importante, mais importante é se conservar inteiro. O amor foi algo que a sociedade inventou para fazer com que as pessoas ficassem atadas umas as outras como xipófagas canibais. No início ainda tentamos racionalizá-lo, libertá-lo dos tiques e posses que o tornam tão louco; mas é impossível. As pessoas são criadas em meio a miséria de famílias que não sabem nada de ensinar a fé em si mesmo e responsáveis por tantas outras mutilações noticiadas pelos jornais a cada momento. Além disso é preciso pagar nossas contas, lidar com a possibilidade da morte e revolver dilemas dos quais as palavras não podem dar a mais breve noção. O amor, se vier, deve não interferir em nada disso. Mas muita gente não sabe. A única felicidade que eles experimentaram na vida foi derivada da participação homogênea em alguma família maluca. Eles querem ter novamente aquela sensação de diluição do si mesmo no outro e por isso perdem todas perspectiva e senso de auto-preservação. A solidão não é o inferno. A masturbação sábado a noite não é o inferno. O inferno é a guerra diária, a castração solidária que implica a cobrança recíproca e o ciúme coletor de impostos a serviço da alma honesta. O inferno é a velhice cercada das lembranças de ingratidão centenária, o inferno é uma luta da qual ninguém tem coragem de sair fora por medo da vida que nunca soube ver frente a frente. E a vida é isso: Salvar a própria pele. O inferno é aquilo: cultivar o tirano com beijos.

terça-feira, agosto 16, 2011

Perdas e danos.

Minha vida é uma coisa que não tem nada de muito especial. Nem eu, por conseguinte. Apenas alguns padrões estranhos, algumas carências surdas, algumas solidões inusitadas e muito cansaço. Esse cansaço de muitos combates por causas abandonadas, esse combate que deixou tantos mortos e histórias sangrentas no subsolo do meu edifício. Vi alguns personagens estranhos em minha vida. Algumas pessoas meio tortas, meio toscas, fantasmas encarnados que se quebraram nas onda
O Neideval foi um deles. Um menino que vi crescer, uns sete anos mais jovem e que por entre as contradições da família se tornou surfista. A mãe e os irmãos cristãos, o pai um semi-tirano disfarçado que sempre me recebia com um sorriso falso, odioso e mal. Morando na favela, sem os recursos materiais necessários para a auto afirmação mas achando-se muito esperto Neideval viu no surf um outro eu. Eu para ele era o tosco, divagador, o comedor de livros que não comia ninguém. Com o Surf vieram as drogas, a loucura, o Rock. Não gostava de muita reflexão. Era avesso as nossas divagações platônicas. Ele achava que isso não era divertido. Neideval um dia enlouqueçeu, começou falando com sombras e terminou com o olho partido. Converteu-se à igreja evangélica como a mãe e os irmãos. Agora tomava remédio controlado. Não sei se o problema era biológico ou existencial, aos meus olhos ele nunca teve nada parecido com bom senso. Não tive mais notícia dele, mas sei que já não surfa.
Teve também o Ednaldo, um sujeito que gostava de ficar bêbado para externalizar seu sentimento de fracasso ao som do heavy metal. Andava junto com as pessoas que andava comigo e por isso faz parte dessa história. Uma coisa curiosa, assim como Neideval ele também não falava do próprio fracasso. Todos eles queriam parecer o que não eram, e a contradição era visível a olhos nus. Meninos fracos e sozinhos espremidos pela loucura familiar ou pelo abandono da família. Ednaldo também tornou-se crente numa certa altura da vida. Substituiu uma embriaguez por outra e continuou sustentando a mesma mentira a seu respeito. Um dia foi hospitalizado. Comeu alguma coisa infectada e um verme alojou-se no seu cérebro. Morreu pouco depois.
O Paulo foi um caso a parte. Muito protegido pela mãe, que por sinal me detestava por me considerar um vagabundo sem família (o que em certa medida era verdade) Paulo não namorava e a sua juventude resumia-se a estudar, jogar voley uma vez ou outra e colecionar revistas em quadrinhos. Um dia ele deixou de frequentar as quadras dos jogos de voley e enclausurou-se em casa e nos estudos. Pouco depois passou nos exames dos fuzileiros navais e desapareceu definitivamente. Noivou com uma garota, sem que ninguém soubesse de qualquer experiência afetiva anterior, noivado que durou alguns anos e terminou sem muitos motivos. Um dia soubemos que ele se tinha enamorado de um outro amigo nosso de velha data, o Rafael, e por esse amor inusitado deixou de falar a mãe dominadora e com os amigos de quem sempre escondeu as preferências.
Houveram outras vidas assim em minha vida. Dezenas delas. A Jucimeire, estrangulada pelo ex-namorado traficante que não aceitava separar-se de uma das poucas garotas brancas do bairro. O próprio Rafael, menino triste e inquieto que já fora meu aluno de arte marcial, que encantou-se com o romantismo marginal das drogas e que, ao que parece, encontrou no amor do Paulo uma forma de sustentar o vício. O Jorge, louco que contornava o meu quarteirão centenas de vezes no mesmo dia e que, segundo diziam, havia enlouquecido depois de atropelar uma família quando era motorista da coca-cola. Um dia acharam o corpo dele preso a uma hélice de navio na maré. Aparentemente os remanescentes da família assassinada o haviam amarrado a uma pedra e lançado ele na água.
Os assassinados pela polícia, as espancadas pelos caras bacanas, os homossexuais religiosos, os de boa família que se tornaram policiais psicóticos, as esposas loucas e assassinas...agora você entende porque não tenho motivos para me orgulhar do meu passado.

sexta-feira, julho 29, 2011

Seminário.

Faz muito tempo que usamos a palavra pequenina,

e eternidades que nós não sabemos

onde e quando torná-la um fato ou nossa sina

e entre a selva dos alheios nos perdemos


Entre a necessidade de seguir aquela rota

que orientou os bisavós, em seu receio

e o levantar de uma canção com nova nota

para repetir a confissão de um velho anseio.



Esse anseio pobre, feio, e ordinário

de possuir uma pessoa como se ostenta

um candelabro de bronze em um seminário


De padres que não acreditam e não tem fé

e esgotam as energias na contenda

contra a mesma coisa coisa que todo mundo quer.

No baile dos eunucos.

Um mundo de destroços espaçados,

é o que vejo sob o verniz dos risos

um jogo de lances encenados.

bisturis para cortes imprecisos.


Sob a vontade de certeza que está no rosto

nas marcas que o tempo firma na expressão

continentes perdidos em oceanos de desgosto

amanhã que nunca chega, triste valsa sem canção.


Repetida, imitada, exigente e amassada

entre as pressões dos pais e a luta armada

coisa estranha que nunca vai surpreender


Onírica aflição de um eunuco arrastado

os prazeres mutilados para permanecer atado

a vida que consiste em se deixar morrer.

quarta-feira, julho 27, 2011

Cinismos.

Se minha vida errada não se encaixa em sua sua canção
por ser tão afinada, cheia de planos, farta de amor
dá os teus ouvidos para meus versos, louca paixão
deixa por um segundo o seu castelo, vem ver a dor.


Essa dor amargurada, que cultivo dia a pós dia
intérprete da noite, alma antiga e meio cansada
como um naúfrago da estrada, que se afogou na calmaria
eu espero pelo açoite, que me reserva a alvorada


Essa alvorada em que irei compreender
A contradição que sempre abriguei no peito
Luta ilusória de quem não sabe perceber


Essa novidade, apocalipse de abismos
na compreensão finita que muita coisa não tem jeito
tornará amantes nossos dois cinismos.

sábado, julho 23, 2011

Alea Jacta Est.

O que ainda não foi dito sobre

A tristeza?

Que ela tem a face de anjo?

Que bebe da seiva do que poderia ser

Uma chance?

Esparramada pelas paredes se estende como

Um manto verde de limo

Onde leio a palavra:

Acabou.

Meus dedos cansados não correm

Velozes a traçar sobre o papel

Minha vida

Minha mente aturdida não acompanha

O raciocínio do sábio,

Meu coração orgulhoso não se acovarda

Diante do precipício.

O vinho me recebe, última dádiva

Para um condenado,

Última cartada para quem já nasceu

Sem futuro.

O que ainda não foi dito sobre a dor?

Que ela é uma foice sem brilho?

Que podemos abraçá-la e morrer?

Escoando pelos cantos de mim

A seiva do amor me abandona

Minha crença no mundo apodrece

Sinto vergonha de dar esmolas

E não espero mais nada de meus irmãos.

Um cachorro sem uma das patas é a lição

Que eu quero.

Um bebezinho mutilado é a resposta precisa

Para que possamos despir-nos da esperança,

Da meta e do propósito,

E simplesmete beber nosso vinho em silêncio

Enquanto tudo permanece cruel

E sem som

Assim seja.

sexta-feira, julho 22, 2011

Pintura.

Não corro atrás do amor,
mas deixo a porta aberta
pinto poesia e flor
sobre a tela da rua deserta.

Cadeira

Estou sentado numa sala cinza,
pressionado pela aflição
a vida passa do outro lado,
uma linda beleza triste
carregando Neruda à mão.

Sem amor, meta ou futuro,
estar no agora é sentar nessa cadeira
olhando a vida passar lá fora,
(com suas agonias e gozos)
tenho feito isso minha vida inteira.



segunda-feira, julho 18, 2011

Maturidade

Conhecer as delícias da paixão, escrever sobre elas. Sangrar pelo silêncio da pessoa que se deseja, ouvir músicas desesperadas e chorar. Beber amargurado pela ausência da luz que lhe é negada pela pessoa que se quer. Viver tudo isso de modo hipotético, e no final das contas, não estar apaixonado e esquecer de todas essas coisas. Eis o segredo que a maturidade nos ensina.

Uma resposta para a pergunta, "porque não gosto de futebol"

Não passo procuração de minha alegria. Que seja pouca, mas que seja baseada nos meus atos e não em vitórias de indivíduos que desconheço, cobertos por cores que não dizem nada e representando um símbolo por um salário bem maior que o meu.

minha versão sobre o amor

Ah.... as mulheres.

a doçura de suas mágoas,

a força temerosa de seu silêncio,

o medo terrível que eu sinto

perto de todas elas...

O brilho nos olhos quando amam,

o gesto de desprezo

quando não querem.

chuva fina sobre o oceano sozinho...

E ainda mais, sobretudo,

as mãos e os gestos.

A soberania de seus desejos

sobre minhas opniões.

Depois das batalhas,

a suavidade e a força

que se oculta para favorecer

a minha vaidade

infantil.

Sempre serei um menino por elas,

encenando

indiferênça e poder

aos seus olhos.

Lindas, todas são lindas

quando choram, aconselham

e esperam,

quando gozam, quando amam, quando são crueis.

Durante tanto tempo não as

compreendi,

durante tanto tempo não as

encontrei,

e hoje ainda me escapam.

Minha compreensão sobre elas

é trêmula e medrosa

como as mãos de um garotinho

que pela primeira vez deu um beijo.

domingo, julho 10, 2011

Mais uma de amor.

Um dia eu amei perdidamente,

Foi lindo, foi profundo

foi pior que a morte.

Tão breve e estúpido

Que ninguém se lembra

Vergonhoso e absurdo

como apanhar na escola.

Um dia eu amei profundamente,

Não me lembro quando,

Mas aconteceu.

As vezes reviro essa lembrança breve

Como quem olha uma lápide

Para se assegurar

De que o trabalho foi bem feito.

culpa

Viver uma vida sem deixar mágoas,
talvez não seja possível
nem semear girassóis sem rasgar a pele do chão.
É claro que deixaremos rancores,
é óbvio que serei odiado,
e amado em proporções bem medidas.
A perfeição não combina com a vida.
Nem a culpa com o meu coração.

quarta-feira, julho 06, 2011

Manhã



Mais uma manhã de café, telejornal e chuveiro
com a repetida impressão de ser breve,
o intervalo complexo entre os vãos.
Ainda assim eu não lavo minhas mãos
não fecho nenhum caminho para mim
concilio o saber do meu fim
com a sabedoria de fundar um estar leve.

sábado, julho 02, 2011

Ondas

O talento em viver não produz gestos
grandes,
pequena agitação entre as ondas
como a simular um presságio.
Meu vizinho idoso lendo o jornal,
a animação dos pedreiros na obra,
o jovem encantado com as mãos da namorada
entre as suas.
O talento em viver está, eu pressinto,talvez nessas coisas,
se sabemos deixá-las passar
ondas lindas, porém sem propósito,
arabescos humanos na superfície do mar.

sábado, junho 11, 2011

Vai ser assim.

Então vai ser assim. Sem dinheiro, mais isso já não é nenhuma novidade. Os deuses não colocam escudos sobre costas eretas e o que eles chamam de amor é algo que nunca irá florescer por detrás das muralhas que levantaste contra ataques. As coisas não irão mudar. Essa é uma constatação que se faz quando se chega a casa dos 30 e os 40 estão cada dia mais perto. Você já considerou as hipóteses, perdeu alguns anos submetendo-as a empiria e ao jogo especular da razão. Um sujeitinho quebrado. Os amigos trepavam contentes nos muros de outrora enquanto você lia o Gita. E agora eles vêm para querer me falar de alma, Deus e outras panacéias que sequer beberam direito. Com 25 anos você ainda não conhecia o deleite inefável escondido no derrretimento de uma xota. Conhecia as paixões, já havia trepado em vagões suburbanos de trem e pulado a janela da vizinha para passar a manhã inteira fodendo. Mas não sabia como fazê-las gozar. Não conhecia a crueldade indispensável do coito e por isso a sua ternura era patética e vã. Agora tens quase 40. Teu peito confuso tem quinquilharias inúteis e seu pensamento é uma caldeira a serviço do nada. Mas mesmo assim, às vezes, você, ouve canções emanando das coisas e se deleita em uma cega confiança na vida. Mas já não se espanta há algum tempo, nem se apaixona, treme ou suspira senão de pavor diante do abismo onde ficaste um bom tempo. Com a mesma obstinação de uma erva daninha você resistiu até agora contrariando as expectativas.

Hoje você passou com sua filha em frente a uma loja onde viveu a sua primeira experiência profissional. Um dos seus ex-colegas de trabalho estava na entrada do prédio. Você Pensou em cumprimentá-lo, mostrar a ele que sobreviveu, que estava muito mais inteiro do que na época em que ele e os outros tentavam te esmagar com piadas sobre sua magreza, com galhofas pelas roupas amassadas, com maldades e fofocas pelo seu despreparo. Não o fez, entretanto. Preferiu evitar a mímica social que fingiria saudade, bons tempos e boa sorte à frente. É assim. Você prefere poupar a energia que poderia ser gasta com os esforços por redenção, ou vingança. Você quer se afastar do passado, não é? Você quer ser outra pessoa, recriar-se das cinzas do que ficou para trás e por isso me acompanha nessas lembranças. Mas é tão difícil encontrar um padrão que dê conta das mutações que sofreste. Não encontras palavras que sirvam para te enunciar para os outros. Colocam camisas em teus ombros, mas elas não servem. Querem te encaixar em modelos feitos para casos comuns, querem agarrar-te mas estás besuntado de questões e vagueza. A teia ordinária que ordena as vidas não sustentou tua queda. Como podes ter um sentido para palavras tecidas com a seiva das famílias, dos cuidados e repressões que não ocorreram em ti? E no entanto sabes amar, não é? De um modo confuso a palavra ainda faz sentido pra ti. Mas quando você a dilui no caldo fervilhante do caos, quando não te agarras a sede da posse, quando queres o sopro inefável da vida dançando entrelaçada com a morte...as pessoas dizem que não sabes amar. E segues assim aturdido. Cuidadoso com os negócios e desorganizado com o resto. Acalentando sonhos adolescentes no peito, com sabedorias remotas no lixo, filho dileto do acaso.

sexta-feira, maio 20, 2011

Meu poema

Meu poema representa quase um atavismo

uma dificuldade inata no ato de crescer

uma patologia incurável no meu psiquismo

meu poema se parece com um alegre perecer.

Um alegre instante breve, que se sabe limitado

canhestro e tosco, se exibindo ao poente

respirando no papel, pela palavra consumado

Sendo o que pode ser, se apagando sorridente.

Meu poema é a flor, na beira da estrada

que sorri enquanto queima, sem ser percebida

veio ao mundo para gozar sua temporada

E se acaso o colheres para enfeitar o seu amor

Isso nada aumentaria no valor de sua vida

Ele incendiaria satisfeito, como inútil flor

sábado, abril 23, 2011

Nuvem.

Vazio eu caminhei sobre destroços,
pela mão do acaso me salvei de insanos males,
sem os cuidados da palavra que depois me disseram
que era linda,
sem os laços infinitos que me disseram que se chamava
mãe.
Vazio, corrompido, inefável e celeste
com um travo de amargura e um peito estremeçendo em gritos
esperando por alguma coisa pela qual nunca gritei.
Buscava o que não conhecia, tinha fome sem lembranças
e habitava a ilha do desdém
onde cultivava a melodia cantada pra ninguém.
Ela não seguiu o curso esperado, eu me desviei da rota,
me parti, me recobrei, me reconheci sem sustos
e ela ficou lá...
parada gritando pelo que não protegeu
pobre nuvem tola que nunca choveu.

terça-feira, março 15, 2011

Olhar partido.

Sou um desses garotos de olhar partido

Sentados, famintos, com o pensamento alado

Com as mãos tranqüilas sobre a noite quente

Esperando ali, quase eternamente.

Você está vestida como uma pantera louca

Seu corpo tem fúria, tem fogo a boca

Eu fico sentado, com um riso fino,

Você nem sequer suspeita, sou o seu destino.

Sou desses sujeitos, de um olhar cinzento

De histórias duras, de amor violento

Que Você não deixaria em sã consciência

Entrar no teu corpo, lhe trazer demência.

Mas você moveu-se, como puro acaso,

Um oceano em chamas, algo inusitado

Essa noite então, vai haver luar,

Tenho céu e inferno para lhe mostrar.

segunda-feira, março 14, 2011

Meu blues (my Funny valentine)

Sentado em memórias, me apoiando em riscos,
eu bebo você suavemente em vinho
sintetizando sonhos, domesticando os gritos,
na multidão perdido e ainda assim sozinho

Aretha confortando, Holiday ferindo
um amor de transgressões, a contradição de amar
Um oceano fugitivo na escuridão fugindo
Um contato doce amargurando o estar.

Mas derrepente assim, muda para mim o bar
A porta se abre, ela flutua infinita e linda
ondas de poesia e Funny Valentine no ar

Para meus braços desliza meu sentido de alegria
mesmo depois de me ferir tão mortalmente ainda
ela é a minha garota, meu blues e minha poesia

sábado, março 12, 2011

Minha cartada.

Nada mais do que um quarto e papéis

Nada mais que minha solidão companheira.

Entre quatro paredes sustentando a trincheira

Com os quadros da mente pintando painéis


Preservando energias do drama de estar junto

Desacreditado de tudo, com a chama a queimar

Execrado em silêncio, um suave amor defunto

Cercado de fantasmas que desaprenderam a cantar


Com poucas cartas, atenção, e paciência

Do outro lado da mesa: a morte e o nada.

Nada mais que um plano, uma só cartada.


Recorrendo ao blefe, a malicia, e minha persistência

Seguem rodadas, adversários com cartas incríveis

Eu Fazendo com ouros e valetes coisas impossíveis.

sexta-feira, março 11, 2011

Uma lição óbvia

Ele já havia passado por aquele mesmo caminho dezenas de vezes, sem se dar conta da existência do bar. Era um sujeito de hábitos regulares, de rotinas, e sempre tomava o mesmo trajeto para ir e vir do trabalho. Contudo, aquele era um dia diferente. Um caso antigo, uma mulher casada com quem já se envolvia há algum tempo lhe tinha dado carta de despejo dos seus lençóis. Tinha sido um lance bem tórrido, e ele, rapaz sem muito traquejo com as mulheres, tinha ficado apaixonado pela figura. Assim, de espinhela caída e coração desfeito em juras esquecidas de amor ele notou o barzinho no canto da rua e resolveu entrar. O cubículo era bastante quente e escuro. Em um balcão de madeira gasta e suja escoravam-se silenciosos alguns homens com seus copos. Ele entrou, escorou-se também no balcão e pediu:

-Uma cerveja por favor.

O homem do outro lado do balcão, um ancião calvo e de dentes amarelados olhou para ele e respondeu.

- Pela tua cara vais precisas de algo mais forte.

O rapaz ficou um pouco sem jeito. Então estava assim tão óbvio?

-É, acho que você tem razão. Me vê uma cachaça.

O rapaz recolheu-se novamente nos seus pensamentos, na sua dor. Um outro bebum do seu lado tocou-lhe no ombro e comentou.

-Esquenta não meu fio. É assim que as coisas são.

Ele assustou. Estaria aquele velho lendo os seus pensamentos? O que havia de errado com aquela gente, gostavam de bancar os advinhos? Resolveu ficar calado, para ver até onde ia essa encenação de bebuns.

- É assim mermo – Continuou um velho – logo se vê que vosmicê num tem as manha com as muié, por isso essa cara amargurada.

O rapaz não se conteve e resolveu dar corda à conversa.

- É. Parece que está estampado em minha cara mesmo. Levei o fora. Mas o problema não é o fora em si. É tudo que ela me dizia. Que morreria se eu a deixasse. E depois terminou comigo de uma hora para outra.

O velho balançava a cabeça condescende enquanto o rapaz contava a sua história. Os detalhes da relação eram acompanhados de goles regulares da cachaça que algum tempo já tinha chegado em suas mãos. Quando já havia listado todos os motivos para sua convicção acerca do amor da garota, quando o álcool em seu sangue o despiu dos pudores e da auto-estima que obriga os homens a calar suas mágoas, o rapazote prorrompeu em prantos.

-Aroldo, traz outra cachaça pro menino! Com os diabos, a gente tem que ficar pedindo! Gritou o velho. Aroldo sorriu, balançou a cabeça (sabia que isso fazia parte do Mise en cene do velho) e encheu novamente o copo dos dois.

-Vou te contar uma história meu fio. Quando terminar vosmicê vai entender que muié é coisa pra gente trazer no forcado, que nem aqueles laço de pega cobra que nós faz passando a corda pro dentro do bambu. Num deixa a bixa chegá perto, mas tenta segurar com força. É que nem macaco gordo, num larga um galho mermo ruim, a menos que veja outro para segurar. Quando eu tinha menos que sua idade me enrabixei com uma dona muito da boa. Era mulher dessas de parar o trânsito. Devia de saber que era problema. Me apaixonei pela dona de um jeito que ficava doente só de pensar em largar. Mas começaram a falar dela pra mim. Diziam que se deitava com todos os moleques da vizinhança e eu fiquei muito brabo, e mermo sofrendo resorvi teminá. Num é que a mulhé chorou que não queria terminar, que ia se matar se eu deixasse ela e todas essas coisa? Pois bem, acabei desisitindo e fiquei de paz com a danada. Uma semana depois eu peguei ela pendurada nos beiço de um dos meu maio camarada. Sabe o que ela disse?

Nessa altura o velho parou, deu uma risada entremeada com uma tosse seca, bebeu mais um gole de cachaça e olhou bem no fundo dos ollhos do rapaz que a essa altura até parecia sóbrio de tão atento que estava. Imitando voz feminina e desmunhecando o velho completou:

- “Eu bem que já ia terminar com você hoje Gilmar”

Uma gargalhada ecoou pelo bar. Todos riam freneticamente. Gimar cospia cachaça a quilômetros. Aroldo havia parado de lavar os pratos e se escorava na velha geladeira para não cair. Apenas o rapaz não ria. Ainda não tinha captado o sentido da coisa toda. Continuou ali bebendo e conversando, a noite caiu, ele resolveu que iria para casa. Naquele dia ele aprendeu uma coisa que tinha a impressão que todo mundo sabia, menos ele.

quinta-feira, março 10, 2011

Vivere masturbart est.

De repente você olha para os lados e se dá conta de que o jogo está todo armado e você não pode fazer muita coisa senão tentar se esquivar do que for possível. As leis, os gostos, os padrões, a expectativas das pessoas: tudo armado. Nas televisões eles tentam lhe dizer quais são seus heróis, como você deve viver. Na verdade eles falam em nome do que acham que é o que a maioria quer dizer, e se essa maioria não existia antes ela passa a existir quando eles terminam de falar. As televisões masturbam o ego das pessoas, e não há nada de que gostemos mais do que sermos masturbados. Desde pequenos, em nossos berços, nossos pais nos masturbam com seus olhares encantados, extasiados de “como é lindo meu bebê” (eles próprios masturbados pelos outros pais que já tiveram ou vão ter um bebê) e esse bebê cresce, monta uma empresa e arranca o couro de seus funcionários para obter o mesmo sumo de adocicada aprovação que recebeu de seus pais. Ou então esse bebê tão festejado, percebe subitamente que seu fornecimento de masturbação foi cortado. Ah, Man ele realmente não gosta disso. Aí fica amargo, o mundo lhe parece uma coisa muito, muito feia, e ele converte-se em um verdadeiro estorvo na vida dos outros bebês que não tiveram problemas com seu suprimento de masturbação.
E nisso resumem-se as coisas: Masturbar para ser masturbado. Mas se você precisa comer, ou se alguma outra função de sua vida reclama sua energia e não lhe sobra atenção suficiente para masturbar outra pessoa, além de si mesmo, então você vai ter problemas. Fomos inoculados desde a mais tenra infância com o hábito da masturbação recíproca e se você distrair-se dessas obrigações com certeza alguma coisa vai lhe faltar logo, logo. Nisso se especializaram os programas de televisão. Cantores, músicas e novelas são inventadas todos os dias para satisfazer essa necessidade. As redes de televisão masturbam os artistas, que masturbam os políticos, que masturbam o povo (enquanto lhe esvazia a carteira) que soberano trabalha de sol a sol para pagar a conta de todas essas masturbações. Você acha que alguém escreve, como eu, em blogs, para ouvir coisas do tipo “isso que você faz é uma merda”? Claro que não! Quem fizer isso certamente ficará impopular e isso é um crime de lesa majestade! Quem é que fica horas e horas relendo o que escreveu antes de publicar para ter a mínima certeza de que não fez merda? Que nada! Basta visitar alguns blogs de outras pessoas e elogiar bastante para receber apreciações positivas. O segredo é saber com os outros estão vivendo suas vidas, o que eles ouvem (as pessoas dirão eeeuuu não faço isso, gosto da Ivete por causa do t-a-l-e-n-to, e quem sou eu para provar o contrário) como amam, se vestem e etc. Assim as chances de receber sua dose de masturbação aumenta bastante. É um esquema banal, idota mesmo, e qualquer um pode fazer-se valer dentro dele. Mas não sei por que diabos está me parecendo tão estúpido agora, assim mesmo estou entrando na fila para tentar receber a minha dose.

sexta-feira, março 04, 2011

Apenas uma noite ruim.

Acordo no meio da noite com um grito de socorro entalado na garganta. Com o que eu estava sonhando realmente não lembro. O coração ainda bate acelerado e eu fico ali deitado olhando para o vazio esperando aquilo tudo passar para eu poder voltar a dormir. Do meu lado minha mulher dorme acolhida pelo repouso dos justos. A cidade está em silêncio exceto pelo ladrar de um ou outro cachorro nos confins do universo. Tudo parado. Sem contas a pagar. Um emprego garantido pelo menos até o final do ano. Minha filha está indo bem na escola e parece muito mais saudável do que eu quando tinha a sua idade. Uma mulher, um emprego, um projeto. Parece tudo perfeito, então por que essa coisa ainda se arrasta pelos corredores escuros de minha mente? O que ela quer de mim? O que é isso tudo?

Fecho os olhos para tentar retomar o fio do repouso perdido, debalde. A mente se movimenta entre varias imagens como um disco arranhado que passa de uma faixa para outra sem chegar a terminar música nenhuma. Mas não só isso. Algumas palavras ecoam dentro da caixa da minha cabeça como vozes que se elevam amplificadas por um milhão de alto falantes. O que elas dizem? Não sei, não compreendo. Não é que seja uma língua desconhecida ou coisa do gênero, eu apenas não entendo. Acho que não dizem coisa alguma. São simplesmente sons sem sentido gritados dentro do meu cérebro. Começo a entrar em pânico. Temo pela minha razão. Quando era adolescente tive experiências parecidas. As vozes ficavam ali ecoando sem dizer coisa alguma. Será que a doença de minha mãe me alcançou finalmente? Mas minha mãe tem apenas problemas de nervos, algo que nunca entendi muito bem, e isso não tem nada a ver como nervosismo. Tento me impor, respirar fundo, apelar para lucidez mas não consigo. Levanto da cama. Vou ao banheiro, sento no vaso e folheio um gibi para me distrair; a sensação de que estou pirando permanece comigo. Tomo um banho frio, vou à cozinha e bebo um copo quente de leite; sei que tudo vai se repetir quando eu me deitar. Contudo, como sou e sempre serei um durão, resolvo me deitar mesmo assim.

Fico ali, olhando para o teto e pensando, conjecturando, tentando explicar. Quando eu era um rapazote triste e sem mulher eu achava que tinha nascido para realizar algo grande. Algo que não poderia ser feito sem sacrifício e heroísmo. Acreditei nisso por muito tempo, até perceber que me manter respirando já era heróico o bastante, haja vista as condições em que nasci. Hoje meu heroísmo consiste apenas em levantar todo dia e sorrir para as pessoas. Talvez eu tenha ido muito longe nesse meu entricheiramento psicológico e alguma coisa esteja pedindo socorro dentro de mim. É possível, sim, quase tudo é. Mas e daí? Que conclusões extrair desse fato, se for realmente um fato? Também não sei responder. Penso nos meus heróis; Krishnamurti e seu vazio incompreensível e nobre, Huxley e suas aventuras místicas, Chico Xavier, um grande sujeito que nunca consegui compreender, Stirner um personagem autêntico e solitariamente forte como Bukowiski e sua adolescência e rebeldia. Penso também em muitos outros, mas nenhum me serve mais de modelo. As coisas ficaram muitíssimo mais complicadas. O sono aproxima-se, a cabeça aquieta-se, desapareço na escuridão finalmente.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

domingo, fevereiro 20, 2011

Matemática

Então não havia muita coisa a ser feita. Eu tinha mesmo que me juntar a aquele grupo de sujeitos toscos vestir a mesma farda, cuja cor azul se perdia sob as manchas de graxa, e encarar o batente. O pai de uma namorada havia conseguido o serviço pra mim, depois de eu ser demitido do trabalho com ofice boy na loja de fardamento onde fui torturado psicologicamente de incontáveis maneiras. Não era muito asseado. Não escovava os dentes também. Minha educação familiar consistiu de um conjunto fragmentado de máximas morais, baixa auto-estima e solidão. O encontro com a violência característica do mercado de trabalho foi uma coisa realmente desagradável. Todo mundo sabia de coisas óbvias que no horizonte da minha consciência sonhadora e entorpecida sequer tinham relevância. O resultado era previsível. Trabalhei dois anos de oficie Boy e fui demitido sob circunstâncias surreais que irei contar um outro dia. Mas aquele trabalho que eu ia começar era diferente. Nada de escritório, ar condicionado e as pessoas comentando o meu cheiro. Nada das fofocas e intrigas estúpidas dos funcionários a cata de alguma promoção. Nada de documentos que eu cansava de perder e me desesperar em noites de insônia. Não, ali a selva apresentava uma outra face. Eu estava sendo contratado por uma empresa terceirizada para desempenhar a importantíssima função de auxiliar de operações. Na prática o serviço consistia em limpar os filtros de óleo de mamona, retângulos sustentados sob quatro pernas, como mesas sem tampo, no meio dos quais dependuravam-se placas também de aço de 50 a 60 kg cada uma. As placas eram perfuradas no alto e cobertas de uma lona, sob a perfuração o oléo quente de mamona jorrava misturado ao pó de carvão e ao agente filtrante. Elas precisavam estar bem ajustadas umas as outras, ou o óleo quente jorraria sobre nós. Para isso havia uma manivela no final de cada retângulo que apenas três ajudantes juntos conseguiam fazer girar. Após apertadas as placas o óleo jorrava e quando terminava nós as afrouxávamos e nos colocávamos a raspar das placas quentes a borra de carvão e agente filtrante que o óleo havia deixado. A borra caia em um tacho situado abaixo do retângulo, que depois esvaziávamos com um carro de mão. O processo era repetido todo dia em turnos de 12 horas.
O repouso de uma hora não era suficiente para dormir, e as vezes nós conseguíamos arquitetar estratégias para burlar a vigilância canina do encarregado, um sujeito com o curioso nome de Prospício. Vi muitos sujeitos pedirem demissão após o 1 dia de trabalho. Caras durões, mas que tinham pelo menos uma mãe ou um pai para garantir um prato de comida. Eu fiquei um ano inteiro. O óleo era utilizado, entre outra coisas, para produzir detergentes. Então havia muita soda caustica esparramada por todo local. Usávamos essa coisa para lavar os banheiros da fabrica. Algo tão imundo que gelava a espinha só de olhar. As feridas advindas do uso da substância eram comuns. Uma vez fiquei o mês inteiro sem poder calçar sapatos.
O dinheiro que eu recebia era pouco, mais com as horas extras somadas dava uma grana maior que qualquer outro serviço que tivesse feito. Mas os pais de minha namorada achavam que tinha que contribuir com alguma grana para despesa dela, uma vez que estávamos transando e ela lavava minhas roupas. Um rapaz normal teria uma mãe para fazer isso, como não era o caso, não sobrava muita coisa. Um dia, ao sair da casa dessa garota, eu fui abordado por um assaltante. Eu estava naquele momento com os poucos trocados que sobravam após pagar a divididas e dar a despesa na casa dela. Ainda faltava pagar o aluguel do quarto e sala em que eu dormia e comprar alguns quilos de arroz e frango para comer o restante do mês.  O sujeito foi violento na abordagem, mas não mostrou a arma. Exibia apenas um volume pontiagudo sob a camisa que parecia o cano de um revolver.
-Me passa a carteira seu filho da puta, ou lhe estouro os miolos.
Já ia tirando a carteira para entregar, mas exitei. Afinal, o que haveria a perder? Tudo se passou diante de meus olhos em um flash e a decisão me pareceu óbvia, comecei a correr. Por sorte ele não estava armado pois não ouvi os estampidos dos disparos. Até hoje, quando lembro, não acho que foi uma loucura. Uma matemática simples e uma das coisas mais racionais que já fiz. Ainda hoje, dada as circunstâncias, me parece que eu agi com bom senso. Na época suicídio não passava pela minha cabeça, minha educação religiosa  havia selado essa rota de fuga, mas isso não quer dizer que eu achasse que a vida era um bem supremo. Simplesmente me pareceu que qualquer coisa seria melhor do trabalhar naquele inferno, sem qualquer perspectiva de futuro,  e ainda não poder pagar minha própria refeição. Foi um cálculo perfeito. Duvido que qualquer pessoa com bom senso pense o contrário.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Familia

Viver um dia por vez, eles dizem pra mim,

Enquanto as laranjas caindo não são percebidas

e apenas um ou dois gestos evitam o pior.

No quintal solitário de um sitio sem sonhos

Na vida infantil de um menino sem pai

Nos ultimos dias de um velho sem

chance.

Nada a pedir, quando ninguém é culpado,

Nem a lamentar quando a morte decide

E no entanto essa cratera calada supura

Todos os dias sem redenção

nem remédio.

Pegue as roupas, se puder levantar-se,

Siga em frente sem tantos lamentos

Porque depois de você outros irão pela estrada.

Outras faces marcadas tentando aprender a sorrir.

São essas as coisas que giram , são essas as arvóres

De onde despencam o meu pessimismo,

Como despencaram meus irmãos pela ribanceira

Do acaso

E até hoje caem sem se dar conta disso.

Nenhum almoço tranquilo para nivelar os dilemas,

Nada parecido com a ligação das pessoas

Apenas memórias sem calendário, nomes sem importância,

Sem noite feliz, maternidade, namoro escondido, bolas de sabão

Beijo de boa noite e todas as coisas agora tão tolas

Que deixariam de ser para alguém que não é.

Ficou esse estar, aos 37, pagando as contas e tentando

seguir

E a morte sentada na cabeceira da mesa

a sorrir.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Sobre entregar a rapadura.

O Leandro sempre me pareceu um sujeito tranqüilo, mas nos últimos tempos andava bastante ensimesmado. Algo lhe perturbava, era possível perceber. Já não participava das rodas de bate papo, não comparecia as reuniões da velha guarda para tomar uma cerveja e conversar sobre filosofia. Permanecia apático e silencioso no canto dele como eu mesmo muitas vezes já houvera ficado também, mas no meu caso isso era bem mais normal. A mulher dele parecia não perceber essa mudança, continuava a mesma mulher de sempre; cuidava da casa, lavava as roupas de ambos e até parecia mais feliz que de costume e o motivo era óbvio. É que o Leandro já não saia para a farra e certamente já não vivia as costumeiras aventuras de sempre e qualquer que fosse o motivo dessa sua redução ao sacerdócio do lar, sua mulher (é claro), não podia deixar de vê-la com bons olhos.
A maioria dos rapazes também não percebeu a mudança. Nossa amizade sempre foi muito irregular e contingente. Não tínhamos data certa para nos reunir. Acontecia uma vez ou outra quando um de nós resolvia ligar para os outros e marcar, mas todos compareciam. Embora fossemos anti-sociais em relação a maioria das pessoas entre nós mesmos éramos muito leais. Sujeitos sem muita expectativa ou recursos mas com a convicção partilhada de que o brio e a admiração recíproca é tudo que temos em meio as trincheiras. Lembro-me que foi exatamente o Leandro quem alertou-me certa feita para o livro do Robert. M Piercing O zen e o Manual da Manutenção de Motocicletas. Dali extraímos o termo Briologia que passou a constituir a viga mestra de todo nosso edifício de valores construído em meio a garrafas de cerveja, narrativas de sucesso e de fracassos afetivos, falta de grana e etc. Nunca soubemos ao certo o que essa palavra significava. O estudo do Brio, que pode ser entendido como uma forma de honradez, lealdade, auto-afirmação admiração sincera pelos pares etc.Enfim o brio era o que impedia, nas palavras do Bukowiski, um homem de “entregar a rapadura”, e Leandro até então nunca tinha entregado.
Bom o fato é que um dia nos encontramos acidentalmente num evento da academia. Como eu, ele tambem era um egresso das classe menos alfabetizadas e que havia entrado pra vida acadêmica para fugir da deprimente condição de trabalhador braçal no Brasil. Leandro parecia mudado, sem aquele brilho feroz no olhar. Estava estudando Karl Marx e um certo constragimento foi inevitável quando o encontrei. Havia cedido a pressão, foi o que pensei, entregou a rapadura Falou alguma coisa sobre filiação partidária, algo estúpido para perguntar a alguém como eu; Leandro já soube disso algum dia. Nos despedimos e saí dali com uma idéia na cabeça. Uma sensação meio stirneriana de que o mundo é uma casa assombrada e por não resistir ao medo que causam os fantasmas as pessoas terminam enlouquecendo, convertendo-se elas mesmas em possessos. Isso quando as famílias não obtêm o sucesso em torná-las possessas desde a infância. Possuídas por ideais, palavras, metas e exigências que lhes dão a sensação ilusória de que existe algo como um grande capitão no leme do navio. Mas eu sei que não há, ou se há, com certeza saiu para almoçar E OS MARINHEIROS TOMARAM CONTA DO NÁVIO.

(um) Trago

Trago um tormento confuso,
uma fome inquieta e calada
Que me mantêm escavando ruínas,
Que me prende a condenação da estrada

Carrego mapas e contas,
Delírios que fariam sorrir minha filha,
Uma esperança que se agarra nas pontas
que sobraram do jantar da matilha.

Uma revolta cortesã, caprichosa
Diabos da ausência de vício
Uma cabeça atolada de estudos
Um coração de mil precipícios.

Um jeito de amar complicado,
Escrito em um dialeto assírio
Que precisa se manter bem guardado
Para perdurar sem martírio.

Trago no alforje essas relíquias e mais
Outras coisas que a batalha me cala
Tentativas de redenção sem ter paz
Amores para viver sem escalas.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Condicional

Se queres calor, te ofereço
o meu vinho em chama.
terremotos na superfície da pele
e o repouso posterior dos
amantes.
Se for pela fome de um clarão partilhado
te entrego sem gestos sombrios
a polpa plena de meu ser inquieto.
Na alameda dolorosa da vida
dois indivíduos sensíveis se dando
a cada instante em que os rios
convergem.
Se vieres sem o peso das obrigações,
sem a história antiga de culpa e
combate,
ainda tenho morangos que preservei das tormentas
e o carinho desarmado de quem precisa de alguém.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Reconciliação com a terra.

Se o amor é um impulso cego,

É melhor condenar-se ao inverno.

Se não nos orgulhamos do leito,

Estaremos envenenando a fonte

Onde buscamos água e descanso.

É preciso defender-se contra os covardes,

Contra a palavra dos velhos, a fofoca das mães

E o medo daqueles que ficam.

Para que o amor coexista

com a impermanência das coisas finitas

e colhamos os malmequeres do agora

com a canção do sim entre os lábios.

Pois se o amor é uma corrente que arrasta,

Estamos dormindo sobre um precipício,

Fazendo da dor um vício,

Por negarmo-nos a refazer nosso sonho.

O leito e o sonho não podem coesistir

E o combate entre os dois torna o

Horizonte bizarro.

Se o amor não admite razões então é melhor não amar,

E poupar para outros espaços a força de nossa energia

Alada.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Carta aos meus desafetos

Eu sou mesmo esse canalha delinqüente
Que perfurou seu coração todinho
Sacripanta, arrogante, impenitente
Que atirou de canhão num passarinho

Sou mesmo aquele que retalhou seu coração
Depois com garfo e faca comi na sobremesa
Banhei sua feridas com suco de limão
Bebi todo seu sangue como se fosse framboesa

Eu que roubo moedas de pedintes
Atropelo aleijados para não me atrasar
Me aproveito das donzelas que gostariam de casar.

Um monstro, um sicofanta, depravado
Um imundo que aos próprios olhos
Sente-se inteiro, sublime, iluminado.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Wings of silence

Do not let me leave,
do not let me set boundaries
to defend me from emptiness.
Do not open the glass windows,
not light up the room lights
something is moving in the time
a fragment of pain in the dream
shining.
We will be there with open arms
will be together and unarmed
the uneasy silence of our wings
in fully understanding our limits.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Não-ser(sei)

Seria tudo mais fácil se a dor não enlouquecesse as pessoas,
Se a memória dos dias ruins fossem apenas imagens e sons
Acumulados na caixa óssea de nossas cabeças.
Seria tudo mais leve,
se na essência não fossemos nós todos
passado.
Se os choques e hematomas, os hábitos e comparações
Não compusessem um redemoinho imenso
Contra o qual é inútil nadar.
O medo e a perspectiva do medo, da queda
Da morte, da fome
Vergonha ódio e amor.
Na ciranda louca que nos faz o que somos,
Para sempre
e é inútil tentar escapar.
A única saída é olhar nos olhos da besta
Que avança sobre nossos jardins
E caminhar na direção de seus braços, sem pânico.
Para além de resultados e danos
Mesmo que isso destrua a quem amas
Mesmo que isso te torne um Deus.

terça-feira, dezembro 28, 2010

Feliz ano novo para vocês também.

Subi no ônibus lá pelas 21:00 do dia 31 de dezembro de 2010. Os fogos de artifício estouravam no céu de Salvador e o Paripe-Barra estava lotado. Algumas garotas conversavam sobre a festa, sempre bem baixinho, e sobre as expectativas do ano novo. Um grupo de rapazes agitados cantarolavam candidamente refrões suaves,e conversavam de modo educado uns com os outros. Todos estavam sentados e o motorista dirigia com cautela e muito satisfeito. Mas infelizmente acordei: um sujeito de dois metros esfregava sua virilha no meu ombro e alguém ouvia um pagode no ultimo volume no seu celular, um grupo de piriguetes gritava palavrões enquanto relatava detalhes de suas experiências sexuais. O ônibus sacolejava como um epiléptico conduzido por um motorista que parecia uma besta-fera. Tudo muito novo mesmo.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Verbete "natal" do códice tibetano. Especie de Wikipédia do Nepal.

Natal: festa desenvolvida pela religião cristã para substituir o culto de Apolo, divindade pré cristã, que era feito na mesma data. Não tem nenhuma relação com os prinicpais aspectos da religião cristã, cujos ensinamentos de seu fundador, um anarquista de nome Jesus Cristo, pregam a renúncia a vida social, a busca de riqueza, à familia e as tradições culturais. A maioria das autoridades budistas são unanimes em afirmar que o Natal é uma festa crucial para a cultura ocidental por alimentar o espiríto de concorrência. É esse espiríto baseado na inveja e na comparação como outras pessoas que irá desdobrar-se na festa seguinte, o Ano novo quando os ociedentais fazem planos para conquistar tudo aquilo que seus vizinhos exibiram no natal. (Ver verbete Ano Novo)