Palavras acidentais, produzidas em gesto espontâneo para desaparecer em seguida no turbilhão do nada.
sábado, setembro 10, 2011
Preço.
terça-feira, agosto 16, 2011
Perdas e danos.
sexta-feira, julho 29, 2011
Seminário.
Faz muito tempo que usamos a palavra pequenina,
e eternidades que nós não sabemos
onde e quando torná-la um fato ou nossa sina
e entre a selva dos alheios nos perdemos
Entre a necessidade de seguir aquela rota
que orientou os bisavós, em seu receio
e o levantar de uma canção com nova nota
para repetir a confissão de um velho anseio.
Esse anseio pobre, feio, e ordinário
de possuir uma pessoa como se ostenta
um candelabro de bronze em um seminário
De padres que não acreditam e não tem fé
e esgotam as energias na contenda
contra a mesma coisa coisa que todo mundo quer.
No baile dos eunucos.
Um mundo de destroços espaçados,
é o que vejo sob o verniz dos risos
um jogo de lances encenados.
bisturis para cortes imprecisos.
Sob a vontade de certeza que está no rosto
nas marcas que o tempo firma na expressão
continentes perdidos em oceanos de desgosto
amanhã que nunca chega, triste valsa sem canção.
Repetida, imitada, exigente e amassada
entre as pressões dos pais e a luta armada
coisa estranha que nunca vai surpreender
Onírica aflição de um eunuco arrastado
os prazeres mutilados para permanecer atado
a vida que consiste em se deixar morrer.
quarta-feira, julho 27, 2011
Cinismos.
sábado, julho 23, 2011
Alea Jacta Est.
O que ainda não foi dito sobre
A tristeza?
Que ela tem a face de anjo?
Que bebe da seiva do que poderia ser
Uma chance?
Esparramada pelas paredes se estende como
Um manto verde de limo
Onde leio a palavra:
Acabou.
Meus dedos cansados não correm
Velozes a traçar sobre o papel
Minha vida
Minha mente aturdida não acompanha
O raciocínio do sábio,
Meu coração orgulhoso não se acovarda
Diante do precipício.
O vinho me recebe, última dádiva
Para um condenado,
Última cartada para quem já nasceu
Sem futuro.
O que ainda não foi dito sobre a dor?
Que ela é uma foice sem brilho?
Que podemos abraçá-la e morrer?
Escoando pelos cantos de mim
A seiva do amor me abandona
Minha crença no mundo apodrece
Sinto vergonha de dar esmolas
E não espero mais nada de meus irmãos.
Um cachorro sem uma das patas é a lição
Que eu quero.
Um bebezinho mutilado é a resposta precisa
Para que possamos despir-nos da esperança,
Da meta e do propósito,
E simplesmete beber nosso vinho em silêncio
Enquanto tudo permanece cruel
E sem som
Assim seja.
sexta-feira, julho 22, 2011
Pintura.
Cadeira
pressionado pela aflição
a vida passa do outro lado,
uma linda beleza triste
carregando Neruda à mão.
Sem amor, meta ou futuro,
estar no agora é sentar nessa cadeira
olhando a vida passar lá fora,
(com suas agonias e gozos)
tenho feito isso minha vida inteira.
segunda-feira, julho 18, 2011
Maturidade
Uma resposta para a pergunta, "porque não gosto de futebol"
minha versão sobre o amor
Ah.... as mulheres.
a doçura de suas mágoas,
a força temerosa de seu silêncio,
o medo terrível que eu sinto
perto de todas elas...
O brilho nos olhos quando amam,
o gesto de desprezo
quando não querem.
chuva fina sobre o oceano sozinho...
E ainda mais, sobretudo,
as mãos e os gestos.
A soberania de seus desejos
sobre minhas opniões.
Depois das batalhas,
a suavidade e a força
que se oculta para favorecer
a minha vaidade
infantil.
Sempre serei um menino por elas,
encenando
indiferênça e poder
aos seus olhos.
Lindas, todas são lindas
quando choram, aconselham
e esperam,
quando gozam, quando amam, quando são crueis.
Durante tanto tempo não as
compreendi,
durante tanto tempo não as
encontrei,
e hoje ainda me escapam.
Minha compreensão sobre elas
é trêmula e medrosa
como as mãos de um garotinho
que pela primeira vez deu um beijo.
domingo, julho 10, 2011
Mais uma de amor.
Um dia eu amei perdidamente,
Foi lindo, foi profundo
foi pior que a morte.
Tão breve e estúpido
Que ninguém se lembra
Vergonhoso e absurdo
como apanhar na escola.
Um dia eu amei profundamente,
Não me lembro quando,
Mas aconteceu.
As vezes reviro essa lembrança breve
Como quem olha uma lápide
Para se assegurar
De que o trabalho foi bem feito.
culpa
quarta-feira, julho 06, 2011
Manhã
Mais uma manhã de café, telejornal e chuveiro
sábado, julho 02, 2011
Ondas
sábado, junho 11, 2011
Vai ser assim.
Então vai ser assim. Sem dinheiro, mais isso já não é nenhuma novidade. Os deuses não colocam escudos sobre costas eretas e o que eles chamam de amor é algo que nunca irá florescer por detrás das muralhas que levantaste contra ataques. As coisas não irão mudar. Essa é uma constatação que se faz quando se chega a casa dos 30 e os 40 estão cada dia mais perto. Você já considerou as hipóteses, perdeu alguns anos submetendo-as a empiria e ao jogo especular da razão. Um sujeitinho quebrado. Os amigos trepavam contentes nos muros de outrora enquanto você lia o Gita. E agora eles vêm para querer me falar de alma, Deus e outras panacéias que sequer beberam direito. Com 25 anos você ainda não conhecia o deleite inefável escondido no derrretimento de uma xota. Conhecia as paixões, já havia trepado em vagões suburbanos de trem e pulado a janela da vizinha para passar a manhã inteira fodendo. Mas não sabia como fazê-las gozar. Não conhecia a crueldade indispensável do coito e por isso a sua ternura era patética e vã. Agora tens quase 40. Teu peito confuso tem quinquilharias inúteis e seu pensamento é uma caldeira a serviço do nada. Mas mesmo assim, às vezes, você, ouve canções emanando das coisas e se deleita em uma cega confiança na vida. Mas já não se espanta há algum tempo, nem se apaixona, treme ou suspira senão de pavor diante do abismo onde ficaste um bom tempo. Com a mesma obstinação de uma erva daninha você resistiu até agora contrariando as expectativas.
Hoje você passou com sua filha em frente a uma loja onde viveu a sua primeira experiência profissional. Um dos seus ex-colegas de trabalho estava na entrada do prédio. Você Pensou em cumprimentá-lo, mostrar a ele que sobreviveu, que estava muito mais inteiro do que na época em que ele e os outros tentavam te esmagar com piadas sobre sua magreza, com galhofas pelas roupas amassadas, com maldades e fofocas pelo seu despreparo. Não o fez, entretanto. Preferiu evitar a mímica social que fingiria saudade, bons tempos e boa sorte à frente. É assim. Você prefere poupar a energia que poderia ser gasta com os esforços por redenção, ou vingança. Você quer se afastar do passado, não é? Você quer ser outra pessoa, recriar-se das cinzas do que ficou para trás e por isso me acompanha nessas lembranças. Mas é tão difícil encontrar um padrão que dê conta das mutações que sofreste. Não encontras palavras que sirvam para te enunciar para os outros. Colocam camisas em teus ombros, mas elas não servem. Querem te encaixar em modelos feitos para casos comuns, querem agarrar-te mas estás besuntado de questões e vagueza. A teia ordinária que ordena as vidas não sustentou tua queda. Como podes ter um sentido para palavras tecidas com a seiva das famílias, dos cuidados e repressões que não ocorreram em ti? E no entanto sabes amar, não é? De um modo confuso a palavra ainda faz sentido pra ti. Mas quando você a dilui no caldo fervilhante do caos, quando não te agarras a sede da posse, quando queres o sopro inefável da vida dançando entrelaçada com a morte...as pessoas dizem que não sabes amar. E segues assim aturdido. Cuidadoso com os negócios e desorganizado com o resto. Acalentando sonhos adolescentes no peito, com sabedorias remotas no lixo, filho dileto do acaso.
sexta-feira, maio 20, 2011
Meu poema
Meu poema representa quase um atavismo
uma dificuldade inata no ato de crescer
uma patologia incurável no meu psiquismo
meu poema se parece com um alegre perecer.
Um alegre instante breve, que se sabe limitado
canhestro e tosco, se exibindo ao poente
respirando no papel, pela palavra consumado
Sendo o que pode ser, se apagando sorridente.
Meu poema é a flor, na beira da estrada
que sorri enquanto queima, sem ser percebida
veio ao mundo para gozar sua temporada
E se acaso o colheres para enfeitar o seu amor
Isso nada aumentaria no valor de sua vida
Ele incendiaria satisfeito, como inútil flor
sábado, abril 23, 2011
Nuvem.
terça-feira, março 15, 2011
Olhar partido.
Sou um desses garotos de olhar partido
Sentados, famintos, com o pensamento alado
Com as mãos tranqüilas sobre a noite quente
Esperando ali, quase eternamente.
Você está vestida como uma pantera louca
Seu corpo tem fúria, tem fogo a boca
Eu fico sentado, com um riso fino,
Você nem sequer suspeita, sou o seu destino.
Sou desses sujeitos, de um olhar cinzento
De histórias duras, de amor violento
Que Você não deixaria em sã consciência
Entrar no teu corpo, lhe trazer demência.
Mas você moveu-se, como puro acaso,
Um oceano em chamas, algo inusitado
Essa noite então, vai haver luar,
Tenho céu e inferno para lhe mostrar.
segunda-feira, março 14, 2011
Meu blues (my Funny valentine)
sábado, março 12, 2011
Minha cartada.
Nada mais do que um quarto e papéis
Nada mais que minha solidão companheira.
Entre quatro paredes sustentando a trincheira
Com os quadros da mente pintando painéis
Preservando energias do drama de estar junto
Desacreditado de tudo, com a chama a queimar
Execrado em silêncio, um suave amor defunto
Cercado de fantasmas que desaprenderam a cantar
Com poucas cartas, atenção, e paciência
Do outro lado da mesa: a morte e o nada.
Nada mais que um plano, uma só cartada.
Recorrendo ao blefe, a malicia, e minha persistência
Seguem rodadas, adversários com cartas incríveis
Eu Fazendo com ouros e valetes coisas impossíveis.
sexta-feira, março 11, 2011
Uma lição óbvia
Ele já havia passado por aquele mesmo caminho dezenas de vezes, sem se dar conta da existência do bar. Era um sujeito de hábitos regulares, de rotinas, e sempre tomava o mesmo trajeto para ir e vir do trabalho. Contudo, aquele era um dia diferente. Um caso antigo, uma mulher casada com quem já se envolvia há algum tempo lhe tinha dado carta de despejo dos seus lençóis. Tinha sido um lance bem tórrido, e ele, rapaz sem muito traquejo com as mulheres, tinha ficado apaixonado pela figura. Assim, de espinhela caída e coração desfeito em juras esquecidas de amor ele notou o barzinho no canto da rua e resolveu entrar. O cubículo era bastante quente e escuro. Em um balcão de madeira gasta e suja escoravam-se silenciosos alguns homens com seus copos. Ele entrou, escorou-se também no balcão e pediu:
-Uma cerveja por favor.
O homem do outro lado do balcão, um ancião calvo e de dentes amarelados olhou para ele e respondeu.
- Pela tua cara vais precisas de algo mais forte.
O rapaz ficou um pouco sem jeito. Então estava assim tão óbvio?
-É, acho que você tem razão. Me vê uma cachaça.
O rapaz recolheu-se novamente nos seus pensamentos, na sua dor. Um outro bebum do seu lado tocou-lhe no ombro e comentou.
-Esquenta não meu fio. É assim que as coisas são.
Ele assustou. Estaria aquele velho lendo os seus pensamentos? O que havia de errado com aquela gente, gostavam de bancar os advinhos? Resolveu ficar calado, para ver até onde ia essa encenação de bebuns.
- É assim mermo – Continuou um velho – logo se vê que vosmicê num tem as manha com as muié, por isso essa cara amargurada.
O rapaz não se conteve e resolveu dar corda à conversa.
- É. Parece que está estampado em minha cara mesmo. Levei o fora. Mas o problema não é o fora em si. É tudo que ela me dizia. Que morreria se eu a deixasse. E depois terminou comigo de uma hora para outra.
O velho balançava a cabeça condescende enquanto o rapaz contava a sua história. Os detalhes da relação eram acompanhados de goles regulares da cachaça que algum tempo já tinha chegado em suas mãos. Quando já havia listado todos os motivos para sua convicção acerca do amor da garota, quando o álcool em seu sangue o despiu dos pudores e da auto-estima que obriga os homens a calar suas mágoas, o rapazote prorrompeu em prantos.
-Aroldo, traz outra cachaça pro menino! Com os diabos, a gente tem que ficar pedindo! Gritou o velho. Aroldo sorriu, balançou a cabeça (sabia que isso fazia parte do Mise en cene do velho) e encheu novamente o copo dos dois.
-Vou te contar uma história meu fio. Quando terminar vosmicê vai entender que muié é coisa pra gente trazer no forcado, que nem aqueles laço de pega cobra que nós faz passando a corda pro dentro do bambu. Num deixa a bixa chegá perto, mas tenta segurar com força. É que nem macaco gordo, num larga um galho mermo ruim, a menos que veja outro para segurar. Quando eu tinha menos que sua idade me enrabixei com uma dona muito da boa. Era mulher dessas de parar o trânsito. Devia de saber que era problema. Me apaixonei pela dona de um jeito que ficava doente só de pensar em largar. Mas começaram a falar dela pra mim. Diziam que se deitava com todos os moleques da vizinhança e eu fiquei muito brabo, e mermo sofrendo resorvi teminá. Num é que a mulhé chorou que não queria terminar, que ia se matar se eu deixasse ela e todas essas coisa? Pois bem, acabei desisitindo e fiquei de paz com a danada. Uma semana depois eu peguei ela pendurada nos beiço de um dos meu maio camarada. Sabe o que ela disse?
Nessa altura o velho parou, deu uma risada entremeada com uma tosse seca, bebeu mais um gole de cachaça e olhou bem no fundo dos ollhos do rapaz que a essa altura até parecia sóbrio de tão atento que estava. Imitando voz feminina e desmunhecando o velho completou:
- “Eu bem que já ia terminar com você hoje Gilmar”
Uma gargalhada ecoou pelo bar. Todos riam freneticamente. Gimar cospia cachaça a quilômetros. Aroldo havia parado de lavar os pratos e se escorava na velha geladeira para não cair. Apenas o rapaz não ria. Ainda não tinha captado o sentido da coisa toda. Continuou ali bebendo e conversando, a noite caiu, ele resolveu que iria para casa. Naquele dia ele aprendeu uma coisa que tinha a impressão que todo mundo sabia, menos ele.
quinta-feira, março 10, 2011
Vivere masturbart est.
E nisso resumem-se as coisas: Masturbar para ser masturbado. Mas se você precisa comer, ou se alguma outra função de sua vida reclama sua energia e não lhe sobra atenção suficiente para masturbar outra pessoa, além de si mesmo, então você vai ter problemas. Fomos inoculados desde a mais tenra infância com o hábito da masturbação recíproca e se você distrair-se dessas obrigações com certeza alguma coisa vai lhe faltar logo, logo. Nisso se especializaram os programas de televisão. Cantores, músicas e novelas são inventadas todos os dias para satisfazer essa necessidade. As redes de televisão masturbam os artistas, que masturbam os políticos, que masturbam o povo (enquanto lhe esvazia a carteira) que soberano trabalha de sol a sol para pagar a conta de todas essas masturbações. Você acha que alguém escreve, como eu, em blogs, para ouvir coisas do tipo “isso que você faz é uma merda”? Claro que não! Quem fizer isso certamente ficará impopular e isso é um crime de lesa majestade! Quem é que fica horas e horas relendo o que escreveu antes de publicar para ter a mínima certeza de que não fez merda? Que nada! Basta visitar alguns blogs de outras pessoas e elogiar bastante para receber apreciações positivas. O segredo é saber com os outros estão vivendo suas vidas, o que eles ouvem (as pessoas dirão eeeuuu não faço isso, gosto da Ivete por causa do t-a-l-e-n-to, e quem sou eu para provar o contrário) como amam, se vestem e etc. Assim as chances de receber sua dose de masturbação aumenta bastante. É um esquema banal, idota mesmo, e qualquer um pode fazer-se valer dentro dele. Mas não sei por que diabos está me parecendo tão estúpido agora, assim mesmo estou entrando na fila para tentar receber a minha dose.
sexta-feira, março 04, 2011
Apenas uma noite ruim.
Acordo no meio da noite com um grito de socorro entalado na garganta. Com o que eu estava sonhando realmente não lembro. O coração ainda bate acelerado e eu fico ali deitado olhando para o vazio esperando aquilo tudo passar para eu poder voltar a dormir. Do meu lado minha mulher dorme acolhida pelo repouso dos justos. A cidade está em silêncio exceto pelo ladrar de um ou outro cachorro nos confins do universo. Tudo parado. Sem contas a pagar. Um emprego garantido pelo menos até o final do ano. Minha filha está indo bem na escola e parece muito mais saudável do que eu quando tinha a sua idade. Uma mulher, um emprego, um projeto. Parece tudo perfeito, então por que essa coisa ainda se arrasta pelos corredores escuros de minha mente? O que ela quer de mim? O que é isso tudo?
Fecho os olhos para tentar retomar o fio do repouso perdido, debalde. A mente se movimenta entre varias imagens como um disco arranhado que passa de uma faixa para outra sem chegar a terminar música nenhuma. Mas não só isso. Algumas palavras ecoam dentro da caixa da minha cabeça como vozes que se elevam amplificadas por um milhão de alto falantes. O que elas dizem? Não sei, não compreendo. Não é que seja uma língua desconhecida ou coisa do gênero, eu apenas não entendo. Acho que não dizem coisa alguma. São simplesmente sons sem sentido gritados dentro do meu cérebro. Começo a entrar em pânico. Temo pela minha razão. Quando era adolescente tive experiências parecidas. As vozes ficavam ali ecoando sem dizer coisa alguma. Será que a doença de minha mãe me alcançou finalmente? Mas minha mãe tem apenas problemas de nervos, algo que nunca entendi muito bem, e isso não tem nada a ver como nervosismo. Tento me impor, respirar fundo, apelar para lucidez mas não consigo. Levanto da cama. Vou ao banheiro, sento no vaso e folheio um gibi para me distrair; a sensação de que estou pirando permanece comigo. Tomo um banho frio, vou à cozinha e bebo um copo quente de leite; sei que tudo vai se repetir quando eu me deitar. Contudo, como sou e sempre serei um durão, resolvo me deitar mesmo assim.
Fico ali, olhando para o teto e pensando, conjecturando, tentando explicar. Quando eu era um rapazote triste e sem mulher eu achava que tinha nascido para realizar algo grande. Algo que não poderia ser feito sem sacrifício e heroísmo. Acreditei nisso por muito tempo, até perceber que me manter respirando já era heróico o bastante, haja vista as condições em que nasci. Hoje meu heroísmo consiste apenas em levantar todo dia e sorrir para as pessoas. Talvez eu tenha ido muito longe nesse meu entricheiramento psicológico e alguma coisa esteja pedindo socorro dentro de mim. É possível, sim, quase tudo é. Mas e daí? Que conclusões extrair desse fato, se for realmente um fato? Também não sei responder. Penso nos meus heróis; Krishnamurti e seu vazio incompreensível e nobre, Huxley e suas aventuras místicas, Chico Xavier, um grande sujeito que nunca consegui compreender, Stirner um personagem autêntico e solitariamente forte como Bukowiski e sua adolescência e rebeldia. Penso também em muitos outros, mas nenhum me serve mais de modelo. As coisas ficaram muitíssimo mais complicadas. O sono aproxima-se, a cabeça aquieta-se, desapareço na escuridão finalmente.
quarta-feira, fevereiro 23, 2011
domingo, fevereiro 20, 2011
Matemática
quinta-feira, fevereiro 03, 2011
Familia
Viver um dia por vez, eles dizem pra mim,
Enquanto as laranjas caindo não são percebidas
e apenas um ou dois gestos evitam o pior.
No quintal solitário de um sitio sem sonhos
Na vida infantil de um menino sem pai
Nos ultimos dias de um velho sem
chance.
Nada a pedir, quando ninguém é culpado,
Nem a lamentar quando a morte decide
E no entanto essa cratera calada supura
Todos os dias sem redenção
nem remédio.
Pegue as roupas, se puder levantar-se,
Siga em frente sem tantos lamentos
Porque depois de você outros irão pela estrada.
Outras faces marcadas tentando aprender a sorrir.
São essas as coisas que giram , são essas as arvóres
De onde despencam o meu pessimismo,
Como despencaram meus irmãos pela ribanceira
Do acaso
E até hoje caem sem se dar conta disso.
Nenhum almoço tranquilo para nivelar os dilemas,
Nada parecido com a ligação das pessoas
Apenas memórias sem calendário, nomes sem importância,
Sem noite feliz, maternidade, namoro escondido, bolas de sabão
Beijo de boa noite e todas as coisas agora tão tolas
Que deixariam de ser para alguém que não é.
Ficou esse estar, aos 37, pagando as contas e tentando
seguir
E a morte sentada na cabeceira da mesa
a sorrir.
quarta-feira, janeiro 26, 2011
Sobre entregar a rapadura.
(um) Trago
uma fome inquieta e calada
Que me mantêm escavando ruínas,
Que me prende a condenação da estrada
Carrego mapas e contas,
Delírios que fariam sorrir minha filha,
Uma esperança que se agarra nas pontas
que sobraram do jantar da matilha.
Uma revolta cortesã, caprichosa
Diabos da ausência de vício
Uma cabeça atolada de estudos
Um coração de mil precipícios.
Um jeito de amar complicado,
Escrito em um dialeto assírio
Que precisa se manter bem guardado
Para perdurar sem martírio.
Trago no alforje essas relíquias e mais
Outras coisas que a batalha me cala
Tentativas de redenção sem ter paz
Amores para viver sem escalas.
segunda-feira, janeiro 24, 2011
Condicional
o meu vinho em chama.
terremotos na superfície da pele
e o repouso posterior dos
amantes.
Se for pela fome de um clarão partilhado
te entrego sem gestos sombrios
a polpa plena de meu ser inquieto.
Na alameda dolorosa da vida
dois indivíduos sensíveis se dando
a cada instante em que os rios
convergem.
Se vieres sem o peso das obrigações,
sem a história antiga de culpa e
combate,
ainda tenho morangos que preservei das tormentas
e o carinho desarmado de quem precisa de alguém.
quinta-feira, janeiro 20, 2011
Reconciliação com a terra.
Se o amor é um impulso cego,
É melhor condenar-se ao inverno.
Se não nos orgulhamos do leito,
Estaremos envenenando a fonte
Onde buscamos água e descanso.
É preciso defender-se contra os covardes,
Contra a palavra dos velhos, a fofoca das mães
E o medo daqueles que ficam.
Para que o amor coexista
com a impermanência das coisas finitas
e colhamos os malmequeres do agora
com a canção do sim entre os lábios.
Pois se o amor é uma corrente que arrasta,
Estamos dormindo sobre um precipício,
Fazendo da dor um vício,
Por negarmo-nos a refazer nosso sonho.
O leito e o sonho não podem coesistir
E o combate entre os dois torna o
Horizonte bizarro.
Se o amor não admite razões então é melhor não amar,
E poupar para outros espaços a força de nossa energia
Alada.
quarta-feira, janeiro 05, 2011
Carta aos meus desafetos
Que perfurou seu coração todinho
Sacripanta, arrogante, impenitente
Que atirou de canhão num passarinho
Sou mesmo aquele que retalhou seu coração
Depois com garfo e faca comi na sobremesa
Banhei sua feridas com suco de limão
Bebi todo seu sangue como se fosse framboesa
Eu que roubo moedas de pedintes
Atropelo aleijados para não me atrasar
Me aproveito das donzelas que gostariam de casar.
Um monstro, um sicofanta, depravado
Um imundo que aos próprios olhos
Sente-se inteiro, sublime, iluminado.
quinta-feira, dezembro 30, 2010
Wings of silence
do not let me set boundaries
to defend me from emptiness.
Do not open the glass windows,
not light up the room lights
something is moving in the time
a fragment of pain in the dream
shining.
We will be there with open arms
will be together and unarmed
the uneasy silence of our wings
in fully understanding our limits.
quarta-feira, dezembro 29, 2010
Não-ser(sei)
Se a memória dos dias ruins fossem apenas imagens e sons
Acumulados na caixa óssea de nossas cabeças.
Seria tudo mais leve,
se na essência não fossemos nós todos
passado.
Se os choques e hematomas, os hábitos e comparações
Não compusessem um redemoinho imenso
Contra o qual é inútil nadar.
O medo e a perspectiva do medo, da queda
Da morte, da fome
Vergonha ódio e amor.
Na ciranda louca que nos faz o que somos,
Para sempre
e é inútil tentar escapar.
A única saída é olhar nos olhos da besta
Que avança sobre nossos jardins
E caminhar na direção de seus braços, sem pânico.
Para além de resultados e danos
Mesmo que isso destrua a quem amas
Mesmo que isso te torne um Deus.
