sexta-feira, maio 20, 2011

Meu poema

Meu poema representa quase um atavismo

uma dificuldade inata no ato de crescer

uma patologia incurável no meu psiquismo

meu poema se parece com um alegre perecer.

Um alegre instante breve, que se sabe limitado

canhestro e tosco, se exibindo ao poente

respirando no papel, pela palavra consumado

Sendo o que pode ser, se apagando sorridente.

Meu poema é a flor, na beira da estrada

que sorri enquanto queima, sem ser percebida

veio ao mundo para gozar sua temporada

E se acaso o colheres para enfeitar o seu amor

Isso nada aumentaria no valor de sua vida

Ele incendiaria satisfeito, como inútil flor

sábado, abril 23, 2011

Nuvem.

Vazio eu caminhei sobre destroços,
pela mão do acaso me salvei de insanos males,
sem os cuidados da palavra que depois me disseram
que era linda,
sem os laços infinitos que me disseram que se chamava
mãe.
Vazio, corrompido, inefável e celeste
com um travo de amargura e um peito estremeçendo em gritos
esperando por alguma coisa pela qual nunca gritei.
Buscava o que não conhecia, tinha fome sem lembranças
e habitava a ilha do desdém
onde cultivava a melodia cantada pra ninguém.
Ela não seguiu o curso esperado, eu me desviei da rota,
me parti, me recobrei, me reconheci sem sustos
e ela ficou lá...
parada gritando pelo que não protegeu
pobre nuvem tola que nunca choveu.

terça-feira, março 15, 2011

Olhar partido.

Sou um desses garotos de olhar partido

Sentados, famintos, com o pensamento alado

Com as mãos tranqüilas sobre a noite quente

Esperando ali, quase eternamente.

Você está vestida como uma pantera louca

Seu corpo tem fúria, tem fogo a boca

Eu fico sentado, com um riso fino,

Você nem sequer suspeita, sou o seu destino.

Sou desses sujeitos, de um olhar cinzento

De histórias duras, de amor violento

Que Você não deixaria em sã consciência

Entrar no teu corpo, lhe trazer demência.

Mas você moveu-se, como puro acaso,

Um oceano em chamas, algo inusitado

Essa noite então, vai haver luar,

Tenho céu e inferno para lhe mostrar.

segunda-feira, março 14, 2011

Meu blues (my Funny valentine)

Sentado em memórias, me apoiando em riscos,
eu bebo você suavemente em vinho
sintetizando sonhos, domesticando os gritos,
na multidão perdido e ainda assim sozinho

Aretha confortando, Holiday ferindo
um amor de transgressões, a contradição de amar
Um oceano fugitivo na escuridão fugindo
Um contato doce amargurando o estar.

Mas derrepente assim, muda para mim o bar
A porta se abre, ela flutua infinita e linda
ondas de poesia e Funny Valentine no ar

Para meus braços desliza meu sentido de alegria
mesmo depois de me ferir tão mortalmente ainda
ela é a minha garota, meu blues e minha poesia

sábado, março 12, 2011

Minha cartada.

Nada mais do que um quarto e papéis

Nada mais que minha solidão companheira.

Entre quatro paredes sustentando a trincheira

Com os quadros da mente pintando painéis


Preservando energias do drama de estar junto

Desacreditado de tudo, com a chama a queimar

Execrado em silêncio, um suave amor defunto

Cercado de fantasmas que desaprenderam a cantar


Com poucas cartas, atenção, e paciência

Do outro lado da mesa: a morte e o nada.

Nada mais que um plano, uma só cartada.


Recorrendo ao blefe, a malicia, e minha persistência

Seguem rodadas, adversários com cartas incríveis

Eu Fazendo com ouros e valetes coisas impossíveis.

sexta-feira, março 11, 2011

Uma lição óbvia

Ele já havia passado por aquele mesmo caminho dezenas de vezes, sem se dar conta da existência do bar. Era um sujeito de hábitos regulares, de rotinas, e sempre tomava o mesmo trajeto para ir e vir do trabalho. Contudo, aquele era um dia diferente. Um caso antigo, uma mulher casada com quem já se envolvia há algum tempo lhe tinha dado carta de despejo dos seus lençóis. Tinha sido um lance bem tórrido, e ele, rapaz sem muito traquejo com as mulheres, tinha ficado apaixonado pela figura. Assim, de espinhela caída e coração desfeito em juras esquecidas de amor ele notou o barzinho no canto da rua e resolveu entrar. O cubículo era bastante quente e escuro. Em um balcão de madeira gasta e suja escoravam-se silenciosos alguns homens com seus copos. Ele entrou, escorou-se também no balcão e pediu:

-Uma cerveja por favor.

O homem do outro lado do balcão, um ancião calvo e de dentes amarelados olhou para ele e respondeu.

- Pela tua cara vais precisas de algo mais forte.

O rapaz ficou um pouco sem jeito. Então estava assim tão óbvio?

-É, acho que você tem razão. Me vê uma cachaça.

O rapaz recolheu-se novamente nos seus pensamentos, na sua dor. Um outro bebum do seu lado tocou-lhe no ombro e comentou.

-Esquenta não meu fio. É assim que as coisas são.

Ele assustou. Estaria aquele velho lendo os seus pensamentos? O que havia de errado com aquela gente, gostavam de bancar os advinhos? Resolveu ficar calado, para ver até onde ia essa encenação de bebuns.

- É assim mermo – Continuou um velho – logo se vê que vosmicê num tem as manha com as muié, por isso essa cara amargurada.

O rapaz não se conteve e resolveu dar corda à conversa.

- É. Parece que está estampado em minha cara mesmo. Levei o fora. Mas o problema não é o fora em si. É tudo que ela me dizia. Que morreria se eu a deixasse. E depois terminou comigo de uma hora para outra.

O velho balançava a cabeça condescende enquanto o rapaz contava a sua história. Os detalhes da relação eram acompanhados de goles regulares da cachaça que algum tempo já tinha chegado em suas mãos. Quando já havia listado todos os motivos para sua convicção acerca do amor da garota, quando o álcool em seu sangue o despiu dos pudores e da auto-estima que obriga os homens a calar suas mágoas, o rapazote prorrompeu em prantos.

-Aroldo, traz outra cachaça pro menino! Com os diabos, a gente tem que ficar pedindo! Gritou o velho. Aroldo sorriu, balançou a cabeça (sabia que isso fazia parte do Mise en cene do velho) e encheu novamente o copo dos dois.

-Vou te contar uma história meu fio. Quando terminar vosmicê vai entender que muié é coisa pra gente trazer no forcado, que nem aqueles laço de pega cobra que nós faz passando a corda pro dentro do bambu. Num deixa a bixa chegá perto, mas tenta segurar com força. É que nem macaco gordo, num larga um galho mermo ruim, a menos que veja outro para segurar. Quando eu tinha menos que sua idade me enrabixei com uma dona muito da boa. Era mulher dessas de parar o trânsito. Devia de saber que era problema. Me apaixonei pela dona de um jeito que ficava doente só de pensar em largar. Mas começaram a falar dela pra mim. Diziam que se deitava com todos os moleques da vizinhança e eu fiquei muito brabo, e mermo sofrendo resorvi teminá. Num é que a mulhé chorou que não queria terminar, que ia se matar se eu deixasse ela e todas essas coisa? Pois bem, acabei desisitindo e fiquei de paz com a danada. Uma semana depois eu peguei ela pendurada nos beiço de um dos meu maio camarada. Sabe o que ela disse?

Nessa altura o velho parou, deu uma risada entremeada com uma tosse seca, bebeu mais um gole de cachaça e olhou bem no fundo dos ollhos do rapaz que a essa altura até parecia sóbrio de tão atento que estava. Imitando voz feminina e desmunhecando o velho completou:

- “Eu bem que já ia terminar com você hoje Gilmar”

Uma gargalhada ecoou pelo bar. Todos riam freneticamente. Gimar cospia cachaça a quilômetros. Aroldo havia parado de lavar os pratos e se escorava na velha geladeira para não cair. Apenas o rapaz não ria. Ainda não tinha captado o sentido da coisa toda. Continuou ali bebendo e conversando, a noite caiu, ele resolveu que iria para casa. Naquele dia ele aprendeu uma coisa que tinha a impressão que todo mundo sabia, menos ele.

quinta-feira, março 10, 2011

Vivere masturbart est.

De repente você olha para os lados e se dá conta de que o jogo está todo armado e você não pode fazer muita coisa senão tentar se esquivar do que for possível. As leis, os gostos, os padrões, a expectativas das pessoas: tudo armado. Nas televisões eles tentam lhe dizer quais são seus heróis, como você deve viver. Na verdade eles falam em nome do que acham que é o que a maioria quer dizer, e se essa maioria não existia antes ela passa a existir quando eles terminam de falar. As televisões masturbam o ego das pessoas, e não há nada de que gostemos mais do que sermos masturbados. Desde pequenos, em nossos berços, nossos pais nos masturbam com seus olhares encantados, extasiados de “como é lindo meu bebê” (eles próprios masturbados pelos outros pais que já tiveram ou vão ter um bebê) e esse bebê cresce, monta uma empresa e arranca o couro de seus funcionários para obter o mesmo sumo de adocicada aprovação que recebeu de seus pais. Ou então esse bebê tão festejado, percebe subitamente que seu fornecimento de masturbação foi cortado. Ah, Man ele realmente não gosta disso. Aí fica amargo, o mundo lhe parece uma coisa muito, muito feia, e ele converte-se em um verdadeiro estorvo na vida dos outros bebês que não tiveram problemas com seu suprimento de masturbação.
E nisso resumem-se as coisas: Masturbar para ser masturbado. Mas se você precisa comer, ou se alguma outra função de sua vida reclama sua energia e não lhe sobra atenção suficiente para masturbar outra pessoa, além de si mesmo, então você vai ter problemas. Fomos inoculados desde a mais tenra infância com o hábito da masturbação recíproca e se você distrair-se dessas obrigações com certeza alguma coisa vai lhe faltar logo, logo. Nisso se especializaram os programas de televisão. Cantores, músicas e novelas são inventadas todos os dias para satisfazer essa necessidade. As redes de televisão masturbam os artistas, que masturbam os políticos, que masturbam o povo (enquanto lhe esvazia a carteira) que soberano trabalha de sol a sol para pagar a conta de todas essas masturbações. Você acha que alguém escreve, como eu, em blogs, para ouvir coisas do tipo “isso que você faz é uma merda”? Claro que não! Quem fizer isso certamente ficará impopular e isso é um crime de lesa majestade! Quem é que fica horas e horas relendo o que escreveu antes de publicar para ter a mínima certeza de que não fez merda? Que nada! Basta visitar alguns blogs de outras pessoas e elogiar bastante para receber apreciações positivas. O segredo é saber com os outros estão vivendo suas vidas, o que eles ouvem (as pessoas dirão eeeuuu não faço isso, gosto da Ivete por causa do t-a-l-e-n-to, e quem sou eu para provar o contrário) como amam, se vestem e etc. Assim as chances de receber sua dose de masturbação aumenta bastante. É um esquema banal, idota mesmo, e qualquer um pode fazer-se valer dentro dele. Mas não sei por que diabos está me parecendo tão estúpido agora, assim mesmo estou entrando na fila para tentar receber a minha dose.

sexta-feira, março 04, 2011

Apenas uma noite ruim.

Acordo no meio da noite com um grito de socorro entalado na garganta. Com o que eu estava sonhando realmente não lembro. O coração ainda bate acelerado e eu fico ali deitado olhando para o vazio esperando aquilo tudo passar para eu poder voltar a dormir. Do meu lado minha mulher dorme acolhida pelo repouso dos justos. A cidade está em silêncio exceto pelo ladrar de um ou outro cachorro nos confins do universo. Tudo parado. Sem contas a pagar. Um emprego garantido pelo menos até o final do ano. Minha filha está indo bem na escola e parece muito mais saudável do que eu quando tinha a sua idade. Uma mulher, um emprego, um projeto. Parece tudo perfeito, então por que essa coisa ainda se arrasta pelos corredores escuros de minha mente? O que ela quer de mim? O que é isso tudo?

Fecho os olhos para tentar retomar o fio do repouso perdido, debalde. A mente se movimenta entre varias imagens como um disco arranhado que passa de uma faixa para outra sem chegar a terminar música nenhuma. Mas não só isso. Algumas palavras ecoam dentro da caixa da minha cabeça como vozes que se elevam amplificadas por um milhão de alto falantes. O que elas dizem? Não sei, não compreendo. Não é que seja uma língua desconhecida ou coisa do gênero, eu apenas não entendo. Acho que não dizem coisa alguma. São simplesmente sons sem sentido gritados dentro do meu cérebro. Começo a entrar em pânico. Temo pela minha razão. Quando era adolescente tive experiências parecidas. As vozes ficavam ali ecoando sem dizer coisa alguma. Será que a doença de minha mãe me alcançou finalmente? Mas minha mãe tem apenas problemas de nervos, algo que nunca entendi muito bem, e isso não tem nada a ver como nervosismo. Tento me impor, respirar fundo, apelar para lucidez mas não consigo. Levanto da cama. Vou ao banheiro, sento no vaso e folheio um gibi para me distrair; a sensação de que estou pirando permanece comigo. Tomo um banho frio, vou à cozinha e bebo um copo quente de leite; sei que tudo vai se repetir quando eu me deitar. Contudo, como sou e sempre serei um durão, resolvo me deitar mesmo assim.

Fico ali, olhando para o teto e pensando, conjecturando, tentando explicar. Quando eu era um rapazote triste e sem mulher eu achava que tinha nascido para realizar algo grande. Algo que não poderia ser feito sem sacrifício e heroísmo. Acreditei nisso por muito tempo, até perceber que me manter respirando já era heróico o bastante, haja vista as condições em que nasci. Hoje meu heroísmo consiste apenas em levantar todo dia e sorrir para as pessoas. Talvez eu tenha ido muito longe nesse meu entricheiramento psicológico e alguma coisa esteja pedindo socorro dentro de mim. É possível, sim, quase tudo é. Mas e daí? Que conclusões extrair desse fato, se for realmente um fato? Também não sei responder. Penso nos meus heróis; Krishnamurti e seu vazio incompreensível e nobre, Huxley e suas aventuras místicas, Chico Xavier, um grande sujeito que nunca consegui compreender, Stirner um personagem autêntico e solitariamente forte como Bukowiski e sua adolescência e rebeldia. Penso também em muitos outros, mas nenhum me serve mais de modelo. As coisas ficaram muitíssimo mais complicadas. O sono aproxima-se, a cabeça aquieta-se, desapareço na escuridão finalmente.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

domingo, fevereiro 20, 2011

Matemática

Então não havia muita coisa a ser feita. Eu tinha mesmo que me juntar a aquele grupo de sujeitos toscos vestir a mesma farda, cuja cor azul se perdia sob as manchas de graxa, e encarar o batente. O pai de uma namorada havia conseguido o serviço pra mim, depois de eu ser demitido do trabalho com ofice boy na loja de fardamento onde fui torturado psicologicamente de incontáveis maneiras. Não era muito asseado. Não escovava os dentes também. Minha educação familiar consistiu de um conjunto fragmentado de máximas morais, baixa auto-estima e solidão. O encontro com a violência característica do mercado de trabalho foi uma coisa realmente desagradável. Todo mundo sabia de coisas óbvias que no horizonte da minha consciência sonhadora e entorpecida sequer tinham relevância. O resultado era previsível. Trabalhei dois anos de oficie Boy e fui demitido sob circunstâncias surreais que irei contar um outro dia. Mas aquele trabalho que eu ia começar era diferente. Nada de escritório, ar condicionado e as pessoas comentando o meu cheiro. Nada das fofocas e intrigas estúpidas dos funcionários a cata de alguma promoção. Nada de documentos que eu cansava de perder e me desesperar em noites de insônia. Não, ali a selva apresentava uma outra face. Eu estava sendo contratado por uma empresa terceirizada para desempenhar a importantíssima função de auxiliar de operações. Na prática o serviço consistia em limpar os filtros de óleo de mamona, retângulos sustentados sob quatro pernas, como mesas sem tampo, no meio dos quais dependuravam-se placas também de aço de 50 a 60 kg cada uma. As placas eram perfuradas no alto e cobertas de uma lona, sob a perfuração o oléo quente de mamona jorrava misturado ao pó de carvão e ao agente filtrante. Elas precisavam estar bem ajustadas umas as outras, ou o óleo quente jorraria sobre nós. Para isso havia uma manivela no final de cada retângulo que apenas três ajudantes juntos conseguiam fazer girar. Após apertadas as placas o óleo jorrava e quando terminava nós as afrouxávamos e nos colocávamos a raspar das placas quentes a borra de carvão e agente filtrante que o óleo havia deixado. A borra caia em um tacho situado abaixo do retângulo, que depois esvaziávamos com um carro de mão. O processo era repetido todo dia em turnos de 12 horas.
O repouso de uma hora não era suficiente para dormir, e as vezes nós conseguíamos arquitetar estratégias para burlar a vigilância canina do encarregado, um sujeito com o curioso nome de Prospício. Vi muitos sujeitos pedirem demissão após o 1 dia de trabalho. Caras durões, mas que tinham pelo menos uma mãe ou um pai para garantir um prato de comida. Eu fiquei um ano inteiro. O óleo era utilizado, entre outra coisas, para produzir detergentes. Então havia muita soda caustica esparramada por todo local. Usávamos essa coisa para lavar os banheiros da fabrica. Algo tão imundo que gelava a espinha só de olhar. As feridas advindas do uso da substância eram comuns. Uma vez fiquei o mês inteiro sem poder calçar sapatos.
O dinheiro que eu recebia era pouco, mais com as horas extras somadas dava uma grana maior que qualquer outro serviço que tivesse feito. Mas os pais de minha namorada achavam que tinha que contribuir com alguma grana para despesa dela, uma vez que estávamos transando e ela lavava minhas roupas. Um rapaz normal teria uma mãe para fazer isso, como não era o caso, não sobrava muita coisa. Um dia, ao sair da casa dessa garota, eu fui abordado por um assaltante. Eu estava naquele momento com os poucos trocados que sobravam após pagar a divididas e dar a despesa na casa dela. Ainda faltava pagar o aluguel do quarto e sala em que eu dormia e comprar alguns quilos de arroz e frango para comer o restante do mês.  O sujeito foi violento na abordagem, mas não mostrou a arma. Exibia apenas um volume pontiagudo sob a camisa que parecia o cano de um revolver.
-Me passa a carteira seu filho da puta, ou lhe estouro os miolos.
Já ia tirando a carteira para entregar, mas exitei. Afinal, o que haveria a perder? Tudo se passou diante de meus olhos em um flash e a decisão me pareceu óbvia, comecei a correr. Por sorte ele não estava armado pois não ouvi os estampidos dos disparos. Até hoje, quando lembro, não acho que foi uma loucura. Uma matemática simples e uma das coisas mais racionais que já fiz. Ainda hoje, dada as circunstâncias, me parece que eu agi com bom senso. Na época suicídio não passava pela minha cabeça, minha educação religiosa  havia selado essa rota de fuga, mas isso não quer dizer que eu achasse que a vida era um bem supremo. Simplesmente me pareceu que qualquer coisa seria melhor do trabalhar naquele inferno, sem qualquer perspectiva de futuro,  e ainda não poder pagar minha própria refeição. Foi um cálculo perfeito. Duvido que qualquer pessoa com bom senso pense o contrário.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Familia

Viver um dia por vez, eles dizem pra mim,

Enquanto as laranjas caindo não são percebidas

e apenas um ou dois gestos evitam o pior.

No quintal solitário de um sitio sem sonhos

Na vida infantil de um menino sem pai

Nos ultimos dias de um velho sem

chance.

Nada a pedir, quando ninguém é culpado,

Nem a lamentar quando a morte decide

E no entanto essa cratera calada supura

Todos os dias sem redenção

nem remédio.

Pegue as roupas, se puder levantar-se,

Siga em frente sem tantos lamentos

Porque depois de você outros irão pela estrada.

Outras faces marcadas tentando aprender a sorrir.

São essas as coisas que giram , são essas as arvóres

De onde despencam o meu pessimismo,

Como despencaram meus irmãos pela ribanceira

Do acaso

E até hoje caem sem se dar conta disso.

Nenhum almoço tranquilo para nivelar os dilemas,

Nada parecido com a ligação das pessoas

Apenas memórias sem calendário, nomes sem importância,

Sem noite feliz, maternidade, namoro escondido, bolas de sabão

Beijo de boa noite e todas as coisas agora tão tolas

Que deixariam de ser para alguém que não é.

Ficou esse estar, aos 37, pagando as contas e tentando

seguir

E a morte sentada na cabeceira da mesa

a sorrir.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Sobre entregar a rapadura.

O Leandro sempre me pareceu um sujeito tranqüilo, mas nos últimos tempos andava bastante ensimesmado. Algo lhe perturbava, era possível perceber. Já não participava das rodas de bate papo, não comparecia as reuniões da velha guarda para tomar uma cerveja e conversar sobre filosofia. Permanecia apático e silencioso no canto dele como eu mesmo muitas vezes já houvera ficado também, mas no meu caso isso era bem mais normal. A mulher dele parecia não perceber essa mudança, continuava a mesma mulher de sempre; cuidava da casa, lavava as roupas de ambos e até parecia mais feliz que de costume e o motivo era óbvio. É que o Leandro já não saia para a farra e certamente já não vivia as costumeiras aventuras de sempre e qualquer que fosse o motivo dessa sua redução ao sacerdócio do lar, sua mulher (é claro), não podia deixar de vê-la com bons olhos.
A maioria dos rapazes também não percebeu a mudança. Nossa amizade sempre foi muito irregular e contingente. Não tínhamos data certa para nos reunir. Acontecia uma vez ou outra quando um de nós resolvia ligar para os outros e marcar, mas todos compareciam. Embora fossemos anti-sociais em relação a maioria das pessoas entre nós mesmos éramos muito leais. Sujeitos sem muita expectativa ou recursos mas com a convicção partilhada de que o brio e a admiração recíproca é tudo que temos em meio as trincheiras. Lembro-me que foi exatamente o Leandro quem alertou-me certa feita para o livro do Robert. M Piercing O zen e o Manual da Manutenção de Motocicletas. Dali extraímos o termo Briologia que passou a constituir a viga mestra de todo nosso edifício de valores construído em meio a garrafas de cerveja, narrativas de sucesso e de fracassos afetivos, falta de grana e etc. Nunca soubemos ao certo o que essa palavra significava. O estudo do Brio, que pode ser entendido como uma forma de honradez, lealdade, auto-afirmação admiração sincera pelos pares etc.Enfim o brio era o que impedia, nas palavras do Bukowiski, um homem de “entregar a rapadura”, e Leandro até então nunca tinha entregado.
Bom o fato é que um dia nos encontramos acidentalmente num evento da academia. Como eu, ele tambem era um egresso das classe menos alfabetizadas e que havia entrado pra vida acadêmica para fugir da deprimente condição de trabalhador braçal no Brasil. Leandro parecia mudado, sem aquele brilho feroz no olhar. Estava estudando Karl Marx e um certo constragimento foi inevitável quando o encontrei. Havia cedido a pressão, foi o que pensei, entregou a rapadura Falou alguma coisa sobre filiação partidária, algo estúpido para perguntar a alguém como eu; Leandro já soube disso algum dia. Nos despedimos e saí dali com uma idéia na cabeça. Uma sensação meio stirneriana de que o mundo é uma casa assombrada e por não resistir ao medo que causam os fantasmas as pessoas terminam enlouquecendo, convertendo-se elas mesmas em possessos. Isso quando as famílias não obtêm o sucesso em torná-las possessas desde a infância. Possuídas por ideais, palavras, metas e exigências que lhes dão a sensação ilusória de que existe algo como um grande capitão no leme do navio. Mas eu sei que não há, ou se há, com certeza saiu para almoçar E OS MARINHEIROS TOMARAM CONTA DO NÁVIO.

(um) Trago

Trago um tormento confuso,
uma fome inquieta e calada
Que me mantêm escavando ruínas,
Que me prende a condenação da estrada

Carrego mapas e contas,
Delírios que fariam sorrir minha filha,
Uma esperança que se agarra nas pontas
que sobraram do jantar da matilha.

Uma revolta cortesã, caprichosa
Diabos da ausência de vício
Uma cabeça atolada de estudos
Um coração de mil precipícios.

Um jeito de amar complicado,
Escrito em um dialeto assírio
Que precisa se manter bem guardado
Para perdurar sem martírio.

Trago no alforje essas relíquias e mais
Outras coisas que a batalha me cala
Tentativas de redenção sem ter paz
Amores para viver sem escalas.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Condicional

Se queres calor, te ofereço
o meu vinho em chama.
terremotos na superfície da pele
e o repouso posterior dos
amantes.
Se for pela fome de um clarão partilhado
te entrego sem gestos sombrios
a polpa plena de meu ser inquieto.
Na alameda dolorosa da vida
dois indivíduos sensíveis se dando
a cada instante em que os rios
convergem.
Se vieres sem o peso das obrigações,
sem a história antiga de culpa e
combate,
ainda tenho morangos que preservei das tormentas
e o carinho desarmado de quem precisa de alguém.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Reconciliação com a terra.

Se o amor é um impulso cego,

É melhor condenar-se ao inverno.

Se não nos orgulhamos do leito,

Estaremos envenenando a fonte

Onde buscamos água e descanso.

É preciso defender-se contra os covardes,

Contra a palavra dos velhos, a fofoca das mães

E o medo daqueles que ficam.

Para que o amor coexista

com a impermanência das coisas finitas

e colhamos os malmequeres do agora

com a canção do sim entre os lábios.

Pois se o amor é uma corrente que arrasta,

Estamos dormindo sobre um precipício,

Fazendo da dor um vício,

Por negarmo-nos a refazer nosso sonho.

O leito e o sonho não podem coesistir

E o combate entre os dois torna o

Horizonte bizarro.

Se o amor não admite razões então é melhor não amar,

E poupar para outros espaços a força de nossa energia

Alada.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Carta aos meus desafetos

Eu sou mesmo esse canalha delinqüente
Que perfurou seu coração todinho
Sacripanta, arrogante, impenitente
Que atirou de canhão num passarinho

Sou mesmo aquele que retalhou seu coração
Depois com garfo e faca comi na sobremesa
Banhei sua feridas com suco de limão
Bebi todo seu sangue como se fosse framboesa

Eu que roubo moedas de pedintes
Atropelo aleijados para não me atrasar
Me aproveito das donzelas que gostariam de casar.

Um monstro, um sicofanta, depravado
Um imundo que aos próprios olhos
Sente-se inteiro, sublime, iluminado.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Wings of silence

Do not let me leave,
do not let me set boundaries
to defend me from emptiness.
Do not open the glass windows,
not light up the room lights
something is moving in the time
a fragment of pain in the dream
shining.
We will be there with open arms
will be together and unarmed
the uneasy silence of our wings
in fully understanding our limits.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Não-ser(sei)

Seria tudo mais fácil se a dor não enlouquecesse as pessoas,
Se a memória dos dias ruins fossem apenas imagens e sons
Acumulados na caixa óssea de nossas cabeças.
Seria tudo mais leve,
se na essência não fossemos nós todos
passado.
Se os choques e hematomas, os hábitos e comparações
Não compusessem um redemoinho imenso
Contra o qual é inútil nadar.
O medo e a perspectiva do medo, da queda
Da morte, da fome
Vergonha ódio e amor.
Na ciranda louca que nos faz o que somos,
Para sempre
e é inútil tentar escapar.
A única saída é olhar nos olhos da besta
Que avança sobre nossos jardins
E caminhar na direção de seus braços, sem pânico.
Para além de resultados e danos
Mesmo que isso destrua a quem amas
Mesmo que isso te torne um Deus.

terça-feira, dezembro 28, 2010

Feliz ano novo para vocês também.

Subi no ônibus lá pelas 21:00 do dia 31 de dezembro de 2010. Os fogos de artifício estouravam no céu de Salvador e o Paripe-Barra estava lotado. Algumas garotas conversavam sobre a festa, sempre bem baixinho, e sobre as expectativas do ano novo. Um grupo de rapazes agitados cantarolavam candidamente refrões suaves,e conversavam de modo educado uns com os outros. Todos estavam sentados e o motorista dirigia com cautela e muito satisfeito. Mas infelizmente acordei: um sujeito de dois metros esfregava sua virilha no meu ombro e alguém ouvia um pagode no ultimo volume no seu celular, um grupo de piriguetes gritava palavrões enquanto relatava detalhes de suas experiências sexuais. O ônibus sacolejava como um epiléptico conduzido por um motorista que parecia uma besta-fera. Tudo muito novo mesmo.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Verbete "natal" do códice tibetano. Especie de Wikipédia do Nepal.

Natal: festa desenvolvida pela religião cristã para substituir o culto de Apolo, divindade pré cristã, que era feito na mesma data. Não tem nenhuma relação com os prinicpais aspectos da religião cristã, cujos ensinamentos de seu fundador, um anarquista de nome Jesus Cristo, pregam a renúncia a vida social, a busca de riqueza, à familia e as tradições culturais. A maioria das autoridades budistas são unanimes em afirmar que o Natal é uma festa crucial para a cultura ocidental por alimentar o espiríto de concorrência. É esse espiríto baseado na inveja e na comparação como outras pessoas que irá desdobrar-se na festa seguinte, o Ano novo quando os ociedentais fazem planos para conquistar tudo aquilo que seus vizinhos exibiram no natal. (Ver verbete Ano Novo)

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Tudo sempre pode melhorar.

Uma segunda doce e tranqüila. João Paulo estacionou o carro na garagem da clínica, lá fora o calor litorâneo de Salvador começava a elevar-se; dentro do automóvel o ar condicionado conjugado a uma suave melodia de soul fazia tudo parecer muito fácil. Desceu do carro, cumprimentou Jonas, o vigia, que já suava sob o uniforme azul anil e o boné. João Paulo subiu o elevador da clínica "Amor e Cuidado" com o mesmo sorriso satisfeito de sempre. Passou pela secretária que lhe entregou uma pasta com a ficha dos atendimentos daquela manhã.
-Quantos hoje? perguntou.
-Apenas quatro doutor Paulo.
-Hum, nada mal. Reserve mesa para mim no restaurante Van Gogh. Avise que vou chegar antes das 12:00.
-Perfeitamente doutor.
Deixou a valise sob a mesa, vestiu o jaleco, acomodou-se confortavelmente e se pôs a ler os prontuários. Fez algumas anotações em cada um deles e após tê-los lido respirou fundo, apertando o botão do interfone em seguida.
-Pode mandar a primeira paciente entrar.
A porta abriu-se após alguns segundos e uma mulher beirando os 30 anos e vestindo jeans e camiseta estampada entrou pela porta.
-Bom dia doutor Paulo, com licença.
-A vontade Cristina.
Não tinha grandes atrativos. Os peitos eram bem caídos, mais que a média nacional. Os olhos estavam emoldurados em duas grandes olheiras e as pernas também eram bem finas. Parecia acuada e com vergonha de existir. Era como tudo que fizesse fosse passível de penalização. Após todo preâmbulo de praxe ela deu continuidade a história que tinha começado na outra sessão. Cuidava do pai doente, seus irmãos homens estavam todos presos e a única irmã mulher era prostituta. Não conseguia arranjar um namorado e também era atormentada por pesadelos nada divertidos. Paulo acompanhava todo o relato em silêncio. Ele era atencioso, disso não resta dúvida. Imterrompia apenas para pedir mais detalhes disso ou daquilo. Era a 2º sessão da terapia. Muito cedo para um diagnóstico. Mas haveria um, claro. Tinha que haver um. As coisas podem ser melhoradas, sempre. Mas naquele dia Paulo não chegaria a descobrir exatamente como; ele iria pedir simplesmente que cristina continuasse prestando atenção em si mesma e etc.
Na garagem o vigia que cumprimentou o Paulo pela manhã se angustiava com a perspectiva do desemprego. Era como se tivessem implantado um roedor em suas entranhas e o bicho estivesse com muita fome. A empresa de segurança para a qual trabalhava tinha perdido o contrato com a clínica de Paulo. Jonas já passava dos 50 aos e sabia como era quase impossível conseguir um emprego nessa área com a sua idade. Além disso sua mulher tinha dado o fora com um sujeito mais novo e que ganhava bem mais. É difícil tirar a razão dela, Jonas era feio como um susto. As pessoas da clínica não conseguiam encará-lo quando ele estava sem boné. Uma acne selvagem havia devastado seu rosto durante a adolescência e o bruxismo tinha tornado os seus dentes parecidos com um serrote quebrado. Separado, com aquela idade e com aquela cara Jonas só conseguia sexo pagando. A noticia da demissão serviu como catalisador dessas e de muitas outras frustrações. Coisas dolorosas para as quais seu limitadissimo vocabulário não possuía imagens o bastante. Talvez Paulo pudesse tê-lo consertado, como certamente fará com Cristina (claro que fará!), se tivesse chance para isso. Mas ao final daquele dia o estopim aceso pela noticia da demissão chegou ao fim. Ás 17:30 de uma tarde quente em Salvador às pregações dos pastores não serviam, a esperança não servia, a cachaça vagabunda com os outros fracassados não servia e Jonas já estava muito cansado para tentar alguma coisa nova. Cansado...Cansado dos puteiros, das igrejas, das piadas com a sua aparência, do mal humor dos bacaninhas e sua maldita vida perfeita planejada na buceta de suas mães branquelas. Mas de que adiantaria atirar-se contra eles? No essencial ele continuaria Jonas...e por isso pela primeira vez ele utilizou a arma do plantão.

domingo, dezembro 19, 2010

Contornando o domingo

Acordou mas demorou-se bastante na cama antes de se levantar. Era manhã de domingo e um samba entrava pela janela do quarto junto com os primeiros raios do sol. Na letra da música, assim como no resto do mundo, nada de novo. Uma pessoa falando de outra pessoa que a primeira gostaria que agisse menos como pessoa e mais como objeto. Estavam todos separados irremediavelmente mas essas doces palavras sopradas com entonações tristes davam a impressão que tratava-se apenas de uma decisão pontual, de uma “ingratidão”. Algo mexeu-se e se revolveu na cabeça dele impedindo-o de permanecer deitado a apartado de tudo como bem gostaria. Foi até a cozinha e esquentou um café. Passou manteiga em um pão francês e misturou o liquido negro e quente com uma gota de leite e algumas colheres de açúcar. Foi até o computador e colocou Schubert. Sim, você tem motivos para ficar espantado, os tempos são mesmos muito loucos. Hoje em dia um fracassado como esse não só ainda está vivo como ainda tem um computador. Que civilização doentia, que espécie degradada permite que um membro tão apartado e inadequado prossiga com esse grau de sarcasmo? Bom mas ele está aí, e tenho que falar dele também, afinal os demais já tem os seus Paulo Coelhos e Zibias Gasparetos para lhes narrar a existência.
Contudo, embora existindo, esse elemento não iria durar muito. A civilização não está tão degradada assim. Muitas mulheres alimentadas no leite sadio dos bons costumes e muitos patrões devidamente nutridos de bom senso iriam no tempo certo garantir que a inanição de afeto ou de dinheiro dessem cabo do aborto tardio. No entanto enquanto esse dia não chega ele prossegue colocando suas aspas em quase tudo que lhe aparece. Terminou de tomar seu café abrindo alguns email’s e dando-lhes a resposta que deveria dar, e não a que gostaria de dar. Colocou a roupa suja na máquina de lavar e acendeu um cigarro enquanto o aparato mecânico fazia o seu trabalho. Não tinha vontade de fazer quase nada que pudesse de fato fazer. Seus poderes ficavam aquém do desejo lhe sobrava. O sol estava muito quente e as praias certamente estavam lotadas. As praças estavam cheias de velhos querendo ser sociáveis e religiosos querendo ser salvadores metidos a besta. A televisão estava cheia de coisas inomináveis que produzem terríveis formas de enlouquecimento massivo. Os documentários intelectualóides eram panfletos para jovens a procura de alguma causa pela qual se empolgar. Restavam as mulheres. Sim. Isso era certo, ele pensou. Olhou os eletrônicos classificados a procura de alguma coisa pela qual pudesse pagar. Leu o 1º anuncio:
“Gostosinha manhosa. Faço tudo. Danço para você uma sensual dança exótica. Massagens também...”
Pulou para o próximo. Não gostava dessa coisa de dança. “Que diabos – ele pensava- tem a ver dança com trepada?” Não entendia todas essas músicas com alusões a caralhos e vaginas. Trepar é coisa que começa e termina. Como lavar roupa, ou cagar. Toda essa coisa de envolver sexo com arte lhe parecia coisa de quem tinha problemas com a transa. E esse, pelo menos, era um problema que ele não tinha; ou achava que não tinha.
“Universitária, alto nível, alta linda de peitos volumosos e bumbum empinado. 120 a hora.”
-Universitária? Arrgh – Pensou - As experiências com elas não tinham sido das melhores. Podia imaginar o olharzinho arrogante de quem diz: “Logo, logo vou ter um diploma e vou escarrar em perdedores como você.” Não precisava disso, não, realmente ele não precisava disso.
Depois de algumas dezenas de anúncios percebeu que não havia um jeito 100% seguro ou agradável de fazer aquilo. Foi para o banheiro tomar um banho e o pau subiu enquanto pensava em coisas que já tinha feito há algum tempo atrás, quando aconteceram milagres doces e acidentais trepadas . Deixou a mão trabalhar e o fluxo de consciência entrou no compasso da ânsia por submergir no nada; respirou fundo e chegou lá. É verdade que o domingo não tinha acabado, mas ele ainda tinha alguns truques na manga.

sábado, dezembro 18, 2010

Beto da mula.

Então eu passava as tardes subindo e descendo pelas ruas do bairro pobre procurando um propósito. O velho estava cada vez menos sensato e meu irmão pequeno que ele também criava lhe dava muita dor de cabeça. Eu tinha entre 15 e 17 e nada do que eu conto deve ser enquadrado em um período maior que um ou dois anos. Minha vida sempre deu giros muito rápidos; dentro de um espaço muito restrito é bem verdade, mas largo o bastante para tornar meu entendimento de mim um caos de figuras sem continuidade. Eu andava e andava. Passava algumas horas na porta de um amigo, ia para a porta de outro; até que as mães os chamassem para os afazeres que mães e pais costumam cobrar de seus filhos. Eu não tinha esse problema. Ninguém, desde os 10 anos, me cobrava nada. Exceto dinheiro. Minha mãe por exemplo já havia sugerido que seria melhor que eu tivesse me capacitado nas artes do furto. Não com tanta sutileza, claro. Eu me revezava entre a casa dela e a de meu avô. Não pertencia a nenhuma das duas. Não sentia que tinha direitos sobre espaço algum. Apenas ficava por lá até que um deles me enxotasse. Aí eu ia para a casa do outro. Eu não trabalhava, apesar de já ter 17, e minha mãe nunca deixou de frisar esse fato. Dinheiro era muito importante e mais tarde quando se casou novamente ficou muito claro que filho era um adjetivo de pouca relevância para ela. O velho nunca dava dinheiro a crianças, e sempre garantia comida e remédio. Enquanto esteve são, pelo menos disso ele cuidou perfeitamente. Eu o chamei durante um bom tempo, de pai. Mas acho que nossa relação não foi muito parecida com nada do que tenho visto ao meu redor. Talvez meus tios, os filhos dele, tenham pensado em coisas parecidas algumas vezes. O velho era meio frio para essas coisas de família, e a velhice progressiva colabora com toda indiferença . Eu vivi num limbo boa parte de minha juventude. Sem metas, sem estímulos e entregue a devaneios e pulsões irregulares que poderiam ter me lançado na perdição. Pensando bem e uma baita crueldade dizer essas coisas de alguém. Dá a entender que se trata de um julgamento sumário e condenatório. Nada disso. As coisas são o que são, e as possibilidades só existem como pensamento. Possível foi o que aconteceu. O que não acontece demonstra ser impossível. Logo, condenar um conjunto de comportamentos ou fatos é estúpido.
Bom, as coisas eram assim. Meus sapatos furados que eu evitava tirar do chão quando sentava e minhas pernas fechadas na cadeira para não exibir os remendos em meus fundilhos. Não usava cuecas e a maioria das minhas roupas eram doações de parentes um pouco mais ricos que também estavam sempre muito pequenas. Aos 16 eu não havia ainda sentido o calor de uma vagina enquanto todos os outros amigos com seus escalpos femininos eram festejados em verso e prosa. Eu tentava me convencer de que possuía algo mais elevado que simples apetites carnais. Um poeta. Suave e gentil demais para um mundo feito de violência e conquista. Mas me masturbava até ferir a pele do pênis, tudo em nome da inocência e da virtude. Ás vezes traficávamos revista pornográficas com um rapaz mais velho. Dávamos o dinheiro e ele as trazia para nós. Quando o velho as encontrava em meu quarto dava grandes surtos de moralismo indignado. Todavia, as mulheres das minhas revistas eram sempre muito sem graça em relação às mulheres peitudas de seus calendários. Aquilo sim era coisa boa.
Às vezes eu me apaixonava. E sempre era muito triste. Talvez me divertisse com toda aquela tristeza... Será? Não, acho que não. Teria adorado se as coisas fossem mais fáceis, mas elas não eram. Algumas vezes eu atravessa toda a avenida suburbana para tentar dar uns amassos. Qualquer remota possibilidade de contato feminino era suficiente para me fazer andar quilômetros. Mas com a condição dos meus sapatos e de mim como um todo frustrava todas as expectativas. Um dia consegui através de alguns piedosos amigos, e eu sempre tive bastante deles, um contato mais intimo com a ninfeta mais linda de toda a empobrecida avenida suburbana. Era linda em tudo. Doce, com os cabelos compridos e sedosos como uma noite bem dormida e sem sonhos. Eu a amava com um amor casto, mas me masturbava terrivelmente fantasiando enterrar-me em suas carnes. Os amigos advertiam-me de que eu deveria fazer apenas isso, a cair fora. Ah, mas como é difícil ouvir a voz da razão quando se tem 17 e nunca se teve um corpo gemendo entre os braços. Uma tarde fui encontrar a garota sem avisar. Ao dobrar uma das esquinas próximas a sua casa a vi sendo levada pela mão por um sujeito de aspecto mesquinho que levava uma mula pelo cabresto na outra mão. Era um tal de Beto da mula, como fiquei sabendo depois. O cara tinha uma mula, e eu não tinha nada. Me lembro que na época foi uma barra. Hoje até me parece bem engraçado. Mas você não tem o direito de rir.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

MInhas casas nada engraçadas.

Após me separar uma das coisas mais complicadas que encontrei pela frente foi ter que procurar uma casa para alugar. Uma vez que ela, por razões óbvias, não iria dar o passo decisivo para fora da casa própria eu tive que fazer isso, ou permanecer na Geena. Com o salário de fome que eu ganhava logo compreendi que não seria uma tarefa fácil morar com dignidade de aluguel. A primeira casa que aluguei (se é que merecia esse nome) era um fundo de garagem com uma boca de esgoto aberta que supurava bem na minha porta. Apenas uma sala, que funcionava como quarto e cozinha também, e um minúsculo banheiro apertados em um espaço escuro e repleto de baratas. Exagerado? Rs. Estou sendo otimista. Até os pesadelos Lá eram mais horrendos. Fiquei apenas alguns meses, não suportei, comecei a procurar outra coisa. Achei uma casa no subsolo de outra casa. Um pouco melhor. Essa era escura e úmida como uma cripta. Tinha baratas também, mas em menor quantidade. As coisas estavam melhorando aparentemente. Até que era um pouco aconchegante. Dava para ouvir o trepidar dos ônibus que passavam na rua acima de nossas cabeças e o auto-falante da rádio comunitária que tocava música evangélica e Roberto Carlos o dia inteiro.. Ficamos um par de anos nessa cripta. Resolvemos nos mudar para o centro. Queríamos viver com qualidade (Rs). Depois de muita biela encontramos uma Kitnete em um bairro pobre do centro da cidade. Muito Pequena também. Bem menor que a cripta. Quente. Muito, muito quente. O sol castigava por uma janelinha de dois palmos e não havia outra entrada de ar. Era poente e ao meio dia a sensação era de que morávamos em um microondas. Para completar havia uma pequeno antro bem em nossa porta que prezava pela música de bom gosto. Apenas a fina estampa da música popular baiana. Os freqüentadores também eram do mais alto quilate. O apartamento dava para uma série de corredores que nos levavam através de um S até a rua. Parecia-se muito com um Bunker da 2º guerra. Um dos portões dava para uma boca de fumo. O outro para uma avenida conhecida por tiroteios e estupros.
Pressionados por essas características da moradia resolvemos nos mudar novamente. Mais alguns meses batendo perna até achar algo que pudéssemos pagar. Encontramos miraculosamente uma casinha barata, bonita e recém reformada em uma rua tranqüila. Uma reflexo no deserto, um oásis? Nos mudamos. Tudo muito bom. Uma das épocas mais fecundas em produção intelectual para mim. Uma noite, porém, por volta das 3:00 da madrugada ouvimos os vizinhos chorando, gritando e reclamando. Imaginei que era briga de casal e voltei a dormir. Acordei novamente com o barulho do ventilador que caiu. Levei o pé em direção ao chão para me levantar, e qual não foi a minha surpresa AO PERCEBER QUE A CASA ESTAVA INUNDADA DE AGUA. Pulei da cama apavorado. Acordei minha mulher que começou de imediato a gritar também.
Corri para a sala, os móveis boiavam. A televisão, o monitor do P.C tudo boiava placidamente na água barrenta que continuava pressionando a porta da frente. Quando a abri uma nova torrente adentrou o recinto. A rua estava cheia de água. Os vizinhos tentavam desentupir uma boca de lobo. A casa dos meus sonhos era abaixo no nível da rua e a rua era abaixo do nível da rua principal. RS. Nunca havia descido tão baixo. Após o esvaziamento da casa (e da rua) me queixei com a proprietária que alegou não poder pagar os prejuízos. Iria abater parte deles do aluguel. Excelente solução! Isso significava que iríamos ficar presos a uma possível morte por afogamento para reduzir os nossos prejuízos. E depois eu que sou sarcástico.
Começamos a procurar moradia de novo. Andamos muito, muito, muito até enfim acharmos um apartamento que poderíamos alugar. Parecia perfeito. Bem ventilado, bem localizado. Por outro lado eu deveria ter desconfiado de que algo estava errado, mas não notei é claro. Mudamos-nos. No dia do descarrego dos móveis notamos que o proprietário tinha uma irmã louca de pedra. Continuamos sem desconfiar de nada. Um dia ela bateu em nossa porta para pedir dinheiro. Disse que o apartamento era dela e que o irmão não lhe repassava o aluguel. Detesto loucos quase tanto quanto detesto religiosos fanáticos ou até mais. Tive um insight meio bizarro na hora. Pareceu-me que rolava um lance meio incestuoso entre a louca e o irmão. Talvez paranóia minha. Bom, o fato é que isso se repetiu. Bastava perceber que havia alguém em casa que lá vinha ela pedir dinheiro e quando nós não dávamos ela gritava, xingava e ameaçava. Também cortava nossa água. Não conseguimos mais falar com o proprietário. Ele desaparecia nessas horas, e depois também. Em síntese. Desapareceu por completo e não atende o telefone. Sim. Isso aconteceu hoje à noite. Enquanto escrevo agora estou procurando uma casa para me mudar. Algo que seja normal o suficiente par não agregar novas linhas e essas história. Você tem alguma sugestão?

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Almoxarife do absurdo.

Sentado sob a pedra do agora,
Eu fumo um cigarro de trégua
Enquanto revejo e escrevo.
Enquanto catalogo esquemas, enquanto mapeio
Conflitos,
Os carros passando na rua,
O sorriso de sobrancelhas erguidas,
As mãos unidas no gesto,
E a alma que quer ir para longe.
Quantas vezes já passei por aqui?
Caminho bifurcado numa alameda sem placas.
Ocorre-me que estamos caindo;
Do nada
Em nenhum lugar.
Agarrando-nos desesperados com lábios e dentes
Nas coisas, nos nomes, nos livros e em toda gente.
As unhas nos servem, nossa dor funciona, os golpes,
As frases, os deuses o ódio e a piedade
Artefatos usados nas praças e irmandades
ganchos e foices
Para agarrarmo-nos em outras coisas que caem.
Mas eu apenas me sento para catalogar reações,
Para prever artimanhas e decifrar essas coisas,
Enquanto você me fala de amor.

terça-feira, dezembro 07, 2010

Manual básico de ressentimento e mal-dizer.

Você é uma tempestade decidida
E eu sou um carvalho determinado e duro,
Encantam tuas luzes no céu a meia noite
Descem minhas raízes até um mundo escuro.

Prestam-te honras os ventos masculinos
Invejam-te os dotes frívolas amigas
Tens um carro, um Ipod, desejas casamento
Minha casca ressequida de uma guerra antiga

Nos temporais quando distribuis encantos
Na minha batalha o sangue empapa o chão
Você não nasceu para esse lado amargo
E eu não comprei entrada para sua aparição.

Você estala os dedos, bate o pé, exige concessão
Eu Quebro pedra com a testa, na espada um grito
Tuas prioridades são cobradas pela multidão
Minha dor se assemelha a um lindo infinito

sábado, dezembro 04, 2010

Pessoas

Pessoas despedaçam,
Pessoas não se esquecem,
Coroas de palavras adornam as avenidas
Por onde desfila a dor.
Pessoas caminhando,
Contemplado outras pessoas,
Gritando enlouquecidas por migalhas
De atenção.
Pessoas não partilham,
Com os punhos entrevados se combatem
Lançando em direção ao torvelinho a pura polpa
De um SI faminto.
Pessoas não desfazem, não retornam, não refazem
Continuam a cada dia uma velha ciranda de despojos:
“elas me deixariam calcinado
se eu ainda possuísse um pássaro”.
Pessoas não carregam girassóis no olhar,
Não rebrilham em distração
Não conhecem a magia de uma rocha nem a
Felicidade de um antigo tronco simples.
Coletânea de repetições leiloadas por leprosos cegos,
Armário das angustias
Caminho triste que trafego.

sábado, novembro 27, 2010

Concessão de ti

Eu queria apenas permitir-me um pouco de você,
Permitir-me a degustação plena de seu ser
A compreensão sensível do teu mistério imenso
No trêmulo contato de dois corpos simples.
Na infinita ternura de um toque violento
De uma caçada de felinos sorvendo força e medo,
Sem consciência ou ponderação de nada
Em alguns minutos de erro, divindade e sonho
e a dissolução seguida
de um gesto brusco e de invasão
E perda.
Eu queria, todavia, apenas me permitir você
Sorver de tua tristeza feminina, tua mácula sagrada
Em orgíaco impulso de ternura e morte
Entranhar-me em ti como um veio de ouro quente
Tatuado doravante em seu próprio espírito.

quinta-feira, novembro 25, 2010

Percorrer uma vida.

Há algo de heróico, em um leão caindo
Como um sol em chamas
E um malmequer em cacos.
Como a tela branca da perspectiva
Enlameada pela trama de insetos nebulosos,
Como a lágrima esquecida
Dos que Deram de si a polpa de uma alma
Ereta.
Há algo lmenso em um olhar de pássaro,
Em sua indecisão e morte eminente
No vacilo breve de tudo que levanta
E cai.
Há algo muito antigo e forte, esparso nas lâminas
De uma escama esguia
Que silenciosamente mata, existe em si e vai.
Há algo poderoso em um velho reticente,
Em um idoso sem certezas
em um suspiro de partida.
Há algo incomensuravelmente humano em dizer
Não sei.
Há algo incomum em percorrer uma vida.

sábado, novembro 20, 2010

Permanência na terra

A rua barulhenta como sempre me faz lembrar da substância da qual as pessoas são compostas. Precisava me aliviar um pouco, muitas dúvidas, muitas incertezas. A dor pode até passar, algumas se vão sem deixar vestígios, outras nos acompanham para sempre; estas últimas se entrelaçam com aquilo que nós éramos antes delas nos alcançarem com os seus meandros. Ao olhar o rosto de uma pessoa você pode ter um pequeno mapa dos assaltos que a vida fez a uma alma, e as deformidades que tais golpes engendraram. Você vê uma criancinha sorrindo: Ainda não tem dores, ainda não recebeu os golpes, ainda não foi submetida as pressões e danos, exigências e entalhes, castrações e perdas. Em seguida você vê um adolescente: forja suas armas, testa novos esquemas para evitar o horror que ele já conhece. Procura estratégias para se fazer valer. Fortalece as suas posições através de conluios e associações, depreciações de coisas diferentes e as vezes uma certa crueldade. Então você vê um velho: a peça acabada, convicto das suas convicções, moralista até a raiz de sua medula antiga, as vezes invejoso daqueles que gozam o que já não pode, emprenhado em fazer a roda da dor seguir o mesmo curso, com todos os entalhes do destino gravados em sua face que reflete algumas vezes a ternura de um por do sol após uma batalha inútil.
É sempre assim quando me ponho a caminhar. Não importa muito o lugar para onde vou, meu caminho e sempre recortardo pela compreensão incômoda das pessoas que me atravessam o caminho. Com um emprego estável eu talvez não trouxesse a cabeça tão inquieta de reflaxões.As vezes sinto o dedo de velhas tragédias folheando novamente o livro desta breve vida. Em um pais tão fartamente repleto de perigos e de insanas coisas se passando a cada esquina a pobreza se parece muito mais com uma Geena assustadora. Contudo, não dá mais para prosseguir com esse desabafo tolo. Meu vizinho está despejando embaixo da minha janela alguns milhares de litros de música baiana. O mal cheiro da sexualidade reprimida, e portanto pútrida, em forma de estupidez verbal torna o ar irrespirável. Preciso levantar-me, fechar da janela e chamar Chopin para melhorar a atmosfera.

quarta-feira, novembro 10, 2010

Tenho sido.

Tenho divagado, temido e suspirado.
Amado um pouco menos, compreendido um pouco mais,
Olhado a cor das coisas densas e me retirado através
De alguns discursos.
Sido jogado de um lado para o outro,
Como um rápido corcel a mercê do risco.
Enfrentado algumas obrigações, livros de estudo, noturnos de Chopin
e alguma sensação de falta de propósito.
Sobretudo eu tenho sido apenas um,
ou dois talvez e raramente três.
Tenho tido mitologias desastradas e projetos frágeis
Folhas de crepom para um jardim de acácias
E alguma poesia vaga saltando do meu peito.
Narciso assombrado com mudança e fome,
Penumbra de questões e afeto inconcluso.
Sobretudo permaneço de pé para o poente
Um peito forte estremecendo em lutos,
Um olhar cinzento que rebrilha e apaga,
Uma aurora clara que irá me concluir sem sustos.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Viver é estar em perigo..fácil falar!

Que brincadeira mais sem graça. É a frase que ecoa em meus pensamentos sem cessar. Com a maldita carta que avisa sobre o cancelamento do meu contrato eu conjecturo enquanto atravesso o passeio do centro da cidade me esquivando dos pedestres, contando centavos, conjecturando alternativas...reproduzindo na tela do pensamento as aflições da miséria que conheço muito bem. Um senhor de bengala me olha bem nos olhos e acena com a cabeça, os perdedores se reconhecem, eu penso. Tem ainda os orgulhos da condição masculina que é preciso sufocar para pedir favores, a disposição para o trabalho que não basta, pois o fator sorte nem sempre está a nosso favor. Sim. Você não vai entender o que é isso até ter passado como eu pela reivindicação silenciosa da necessidade. O sinal fechou e agora posso atravessar. As pessoas correm de uma lado para o outro, parecem saber onde estão indo. Planejar, planejar e planejar apenas para descobrir depois que os seus planos valem menos que um cigarro molhado que caiu no esgoto, pois o fator decisivo, a oportunidade não lhe favoreceu. E você é jogado de um lado para o outro, indo e voltando, dando um passo a frente e dois atrás, tentando se convencer que as coisas estão indo em frente mas na verdade tudo lhe parece não passar de uma satânica piada de mau gosto. E no final eles tiraram até o último resquício de dignidade, aquele que lhe fazia acreditar que tudo é uma arapuca e é melhor nem dar o primeiro passo. Agora eu tenho que explicar para minha filha que não vai haver natal esse ano. Que o peixinho dela também não terá ração. “
-Não minha senhora, não quero um folheto evangélico.
-Vai com Deus então
Ela responde como se estivesse me rogando uma maldita praga. Como se isso fosse necessário. De repente sinto uma súbita vontade de dar uma baita gargalhada. Estarei enlouquecendo? Quem é que vai me responder isso? Os psicólogos almofadinhas que nunca passaram fome? Parado no ponto de ônibus eu espero. Ouço as conversas deles que não me dizem nada. Não faço parte do jogo e se eu pudesse pular fora desse ringue sem arrastar meu girassol comigo já o teria feito há muito tempo. Mas já que eu não posso, seus malditos duendezinhos dos infernos, vamos ver quem é mais durão, vamos ver o que vocês trazem em suas estúpidas camisas, estou de pé para assistir seus jogos de terror com um pai atormentado e sua criancinha.. vamos ver do que vocês são capazes seus canalhas!

segunda-feira, novembro 01, 2010

Only Walking

Ele vai caminhar pela praia de Itapuã como tantas vezes fez pela orla empobrecida e suja do bairro onde passou a maior parte da sua vida. Não sabe muito bem por que isso lhe provoca um inominado bem estar, nem por que não consegue tornar tal caminhada um hábito. Talvez sejam surtos de solidão feliz que o acometem de forma sazonal, mas ele não pensa nessas coisas. Apenas pega seu boné e sai. No caminho ele vai prestar atenção em coisas que ordinariamente lhe são veladas por temores. Vai observar o semblante das pessoas, vai notar os pequenos vincos em suas testas e compreender, sem no entanto explicar, a aflição de suas vidas. Isso lhe vai lembrar as suas próprias aflições. Ele vai, uma vez ou outra, deixar-se arrastar para o interior confuso de seus medos e desejos. Vai dialogar consigo, exortar-se a adotar uma certa atitude frente ao mundo, vai refutar algumas argumentações de conhecidos e desconhecidos e vai explicar a fantasmas que eles estão errados e porque. Ele também vai rolar na lama de seu passado triste. Vai sentir pena de si mesmo. Vai catalogar cada pequeno evento que o faz superior ao mundo, ou então, simplesmente vai afirmar a própria incompetência para viver. Contudo, nem sempre será dessa maneira. Em alguns momentos breves em que o tempo para, ele apenas estará lá. Observando sem catalogar, sentindo sem acumular, amando sem reter ou segurar. Ele talvez chegue a perceber-se apenas diluído na trama confusa de momentos sucessivos, sem essência, conteúdo ou missão. E as pessoas passarão por ele e ele passará por elas. Depois irá retornar a sua casa para falsificar a vida escrevendo uma vez mais.

sábado, outubro 30, 2010

Mesa de pôquer

Abri a porta, e meu olhar correu para os papeis que me lembravam de obrigações acumuladas. Eu estava protelando o inevitável, evitando o atrito e me refugiando em desculpas. A grana já foi mais curta, a responsabilidade e o medo de fracassar também, porque antes eu simplesmente não tentava e via certa nobreza nisso. Deixo a pasta no chão, sob o tapete e corro para o banheiro. Calor dos infernos. Todo mundo com uma lata de cerveja nas ruas, as praias lotadas. Os machões óbvios e assustadoramente ressentidos aproveitavam-se do coletivo lotado para roçar-se nas nádegas das senhoras que só queriam chegar aos seus destinos. Em algum momento eu vou compreender o que isso quer dizer, a estupidez, digo. Essas multidões agitando-se, berrando, sofrendo, em torno de um grupo de sujeitos vestidos com uma camisa de determinadas cores, cuja organização em um certo padrão e somadas a um nome qualquer tornava-se a manifestação de algum tipo de deus . Talvez muita ausência de sincronia com meus contemporâneos seja o meu diagnóstico. Veja, tem essa sexualidade exacerbada associada aos resquícios pútridos da moralidade finda. Sim, o gozo; todos querem. Mas que raios vêm a ser essas palavras que todos eles carregam em seus beiços medonhos? Deus, fidelidade, compaixão, fé? Se há um deus inda vivo, já não seria ele, como afirma Isaac Bashev Singer, o Deus do gozo? Sim, para pessoas honestas talvez. Mais os labirintos tortuosos de meus vizinhos, atormentados pela sombra de pais também insanos, não o pode admitir.
Uma chaga de vazio tem seus méritos: não supura e não mancha alheias camisas. Mas eles ficam aí no caminho. Tortuosos, nefastos. De outra maneira hilárias são as contradições. Uma conhecida que defendia o amor livre a maldizia o casamento, como se para alguns destinos inviáveis casar não fosse a única chance de uma aliviante trepada vez ou outra. Uma outra defendia a verdade e apenas a verdade sobre toda e qualquer coisa, mas era fraca e fugia da verdade de si, não falava desse assunto constrangedor. Ainda conheci muitos outros tropeços, alguns meus, inclusive. Sim, não me absolvo, e nem isso é absolvição. Um dia farei uma lista de todas as trapaças que presenciei nessa mesa de pôquer. Eles pensam que me estão me enganado. Por detrás dos olhares eu rolo de rir, mas isso não me compensa por nada. Estou preso. Sem chance de fuga. Atado a esses ardis e sem tribunal ao qual recorrer. No sonho da noite passada eu era um presidiário. Não lembro qual tinha sido o delito, mas francamente pouco importa. Não havia mais lugar para mim junto a mesa de pôquer. Eu agora era alvo e ferramenta para o exercício de pequenas vinganças, por pequenas pessoas. Jogado daqui para ali, ordenado e esmagado como um nada desnudo diante de quem possuía o controle. Tudo muito confuso. Tudo uma imensa piada. Preciso me concentrar. Saí do banho, peguei os pápeis e comecei a trabalhar em mais uma etapa. Uma conspiração se prepara, posso pressenti-la chegando. Vou olhar a onda de frente e sorrir.

quarta-feira, outubro 20, 2010

Trecho de entrevista com Hemingway

Pergunta: Na sua opinião, qual o melhor treino intelectual para o aspirante a escritor?Hemingway:Digamos que ele estivesse pensando em sair e se enforcar, porque chegou à conclusão de que escrever bem é tremendamente difícil. Neste caso, deveria cortar a corda sem piedade, de forma a se ver obrigado, pelo seu próprio eu, a escrever o melhor possível pelo resto da vida. Pelo menos teria a história do enforcamento para começar.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Carta para Indra

"Quando casamos nem pensamos nos filhos, mas quando eles nascem percebemos que tudo só aconteceu por causa deles"
Herman Hesse

Lembro-me de quando chegaste. Tinhas alguns centímetros e uma expressão sonolenta e assustada. Algo doloroso começou a funcionar em mim ao perceber que algo tão frágil tinha vindo parar nesse lugar cruel e confuso, e que justamente esse algo precisaria de mim até o dia em que fizesse parte desse lugar também. Mas até esse dia és linda, como eras quando chegaste. Sorrindo sempre. Era mágico perceber como não tinhas coisas de fazer pirraça, ou de revoltar-te contra um “não” vindo de nós. Gostavas de todos os brinquedos, de todas as caretas estúpidas que eu fazia e de pular sobre minha magra barriga enquanto eu tentava dormir depois de uma noite lavando o piso do supermercado. Seu pai muito atormentado com tudo talvez não tenha deslumbrado-se bastante e por isso agora tenta recuperar esses momentos nessa suposta carta. Ias crescendo muito rápido, sempre inteligente e bem humorada. Todos se acercavam de ti como
se fosses uma espécie de fonte mágica da alegria. Gostavas, sobretudo, de rasgar os meus velhos livros, ou de simplesmente exercitar seus dons de artista sobre as páginas de velhos tratados de budismo, teosofia e outros delírios com os quais tentava encontrar uma resposta, quando ela estava ali diante de mim. Até compus uma canção secreta que apenas nós dois conhecemos, lembras? Antes gostavas quando eu a cantava, agora não gostas. Achas ,com razão, que seu velho chorão palhaço está fazendo-te de bebezinho outra vez. Não têm importância. Eu a canto em silêncio para mim toda vez que penso em você minha filha. Uma dia talvez os barulhos da cidade engulam essa canção em meus lábios definitivamente, ou na procura de teu próprio caminho te distancies em demasia para ouvir-me cantar. Tal é o curso das coisas. É sábio aceitá-las, eu acho. A mim, basta-me saber que um dia eu a cantei, e que soube reconhecer ou pelo menos tentei, o presente mágico do acaso que foi você existir para mim no período em que o acaso o permitiu.
Amo-te
Seu pai.

sexta-feira, outubro 08, 2010

Redenção para Juan Leon

Juan Leon meu filho,
Os dias te condenam ao atrito.
As horas lançam sobre ti a dúvida acerca
De Como conseguir o alimento.
E sabes de tantas coisas que para nada disso servem de resposta.
Os sete corpos astrais, as três correntes de Amithaba, as causas
E efeitos que seu avô berrava,
Nada disso te responde.
Seu coração é um oco imenso, o amor desistiu de ti faz tempo
As pessoas passam por seus olhos como pálidos reflexos
Como algo sem substância ou verdade.
Já nem consegues dar esmolas, desaprendeste compaixões,
Acumulaste palavras e perguntas
E teu girassol se afasta em um rodopio ensandecido.
Estás muito velho Juan Leon,
Viveste em demasia para uma vida tão pequena
Com pessoas menores ainda.
Até o vinho vagabundo que desce agora pela tua goela
Não é o que precisas para cauterizar
Suas feridas.
Tua ilha afundou, não há retorno
Juan Leon

Estás velho em demasia Juan Leon,
“Billie Holiday talvez entendesse”
“Bob Dylan talvez entendesse”
“Buk, Hemigway, Fante talvez compreendessem”
Não queres admitir que o jogo acabou,
Que tudo esteve errado desde o lance inicial
Que não vai haver prorrogação,
Nem o beijo do esquecimento para sua redenção.