quinta-feira, março 15, 2012

Jihad

Vou fuzilar o céu
com meu olhar cinzento
enquanto o arado de minha palavra
tenta extrair poesia
do cimento.
Vou namorar uma certeza
e fazer versos para o papelão
carregado como ouro por àqueles
que como a minha alma
não tem pão.
Vou me conciliar com o momento
aceitar, dócil e suave, o seu conselho
enquanto preparo um atentado sanguinário
para explodir em cacos
o seu espelho.

terça-feira, março 13, 2012

Breve canção para depois de amanhã




Estamos esperando pelo fim dos trovões,
pela trégua dos golpes
pela radiosa manhã,
quando amaremos sem peso
e dividiremos os beijos
entre jardins de hortelã.

A paz germinará do horror
do pó destas guerras nascerá
o amor.

sábado, março 10, 2012

A vida não tem senso de humor.

As vezes você tem sono. Deita-se na cama porque pode senti-lo, entre o queixo e o tórax emanando um suave torpor que chega aos seus olhos no modo de um peso, uma areia, imagens. Mas então você fecha os olhos e o sono desaparece. Em seu lugar ficam as cenas, as vezes do dia vívido, as vezes da vida sonhada, as vezes do mundo malquisto; o fato é que você não dorme. No entanto é tarde e você sabe que precisa dormir porque amanhã precisa levantar logo cedo. Mas essa subjetividade pré-filosófica tem seus próprios mandados e não tem nenhum senso de humor. O humor é uma coisa que as pessoas inventam para se defender do próprio desespero. A ansiedade está lá e você sabe que existem pensamentos rondando que precisam ser evitados. Imagens do cadáver de sua mãe sob o mármore do necrotério, a último emprego que te demitiu, a aluguel que vence em 1 dias e que você não sabe como vai pagar. Não existem, que eu saiba, formulas para lidar com os pesadelos. Por isso as pessoas não falam umas com as outras sobre a maioria dos sonhos, sobre os pensamentos que as assaltam quando intentam dormir. Você e eu sabemos que não estamos dispostos a ser despidos dessa capa de heroísmo e liberdade que ostentamos na luz. Toda noite eu penso, por exemplo, na morte. Não exatamente com medo de morrer, mas porque existe algo nela que as explicações religiosas e metafísicas não me parecem dar conta. Eu falo da experiência, do cheiro, do gosto, da sensação do meu eu no instante da morte. Minha carne tão óbvia equivale ao bife de alcatra que agora sangra em cima da pia...ou não? Ah, essa faca amolada do fato cru e sem poesia que me persegue e me alcança quando intento dormir. A vida não tem senso de humor.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

As pegadas do pégaso escarlate - Um tratado sobre o Brio

Andando por uma praia deserta para tentar cauterizar mais uma chaga que me supurava no peito eu me deparei com uma garrafa que trazia dentro dela um papel. Pensei que talvez fosse uma mensagem de um naufrago, mas na verdade parecia um velho pergaminho, escrito em latim, que precisei da ajuda de um amigo da faculdade, especialista em filosofia romana, para traduzir o texto todo. Algumas partes ainda estão ilegíveis e talvez as publique depois. Seguem abaixo os trechos que consegui traduzir. O texto parece ser composto de aforismos soltos, com uma certa ordem temática. O autor se auto intitula Dom Germano, Leão de castela Velha. Um monge português, da época da expulsão dos mouros, ao que tudo indica. O texto é um pouco piegas e sacerdotal demais para o meu gosto. Bom, deixo aos leitores a responsabilidade em julgá-lo.

As pegadas do pégaso escarlate - Um tratado sobre o Brio

Não digas o que os outros querem ouvir, se você não quer se reduzir apenas o que eles se limitam a ser.

Não temas pelo que perdes em função da lealdade ao que a vida te tornou; a dor que se segue ao exílio fortalece as colunas do espírito.

Quem não te aprecia pela aridez que te cerca não sobreviveria sem crises nos desertos que tens que atravessar, portanto, existe sabedoria na lei da solidão que te cobre.

Ninguém estava contigo quando teu passo atravessou o abismo e portanto nunca encontrarás compreensão sobre a terra. Espera pelo milagre do entendimento, mas não condicione tua luta a ele.

Crê no amor, se ele vem iluminado pela saúde das coisas que se sabem relativas, mas não te aflijas por aqueles que procuram no amor um castelo contra tempestades. Eles foram criados em masmorras e agora não concebem a vida sem paredes.

Tua suavidade é o fruto raro que brota nas mais altas cordilheiras do seu pensamento. Quem não possui paciência, tato e força o bastante só poderá acreditar que és amargo. Não te inquietes.

Os que são como tu não te encontrarão, os que não são te cercam por todos os lados, e se eles te amam é porque tomam sua sombra por sua pessoa.

Como todos, tu também não sabes para onde estás indo, mas tens consciência do fato e eles não. A morte para ti é bem mais que uma palavra e a solidão é bem mais que o afastamento dos corpos. Sede firme como o velho arvoredo que se ergue confiante nas próprias raízes e bebe da seiva de sua curta estadia: o resto são apenas vislumbres.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Sobre as razões da mulher.

-Tantos mistérios, as mulheres...

- O que queres dizer com isso? Não leste Oscar Wilde?

-Todos os pensadores são machistas, pois a mulher só se revela na linguagem do símbolo, da arte e da poesia...

-Assim como o mistério e o segredo servem aos propósitos do totalitarismo...

- Mas uma verdade de Homens!

-Não, não; essa é feminina, Foi Hanah Arendt quem disse. E eu completo: O mistério é o recurso das pessoas que tem medo das consequências da verdade.

-E que verdade seria essa?

-Eu é que vou saber? Sei das minhas.

-E quais seriam?

-Que a vida é combate e não um sarau de poesia. A própria poesia se quiser fazer sentido deve traduzir e favorecer as razões do combate, caso contrário é um estorvo. Queremos, sobretudo, sobreviver e nos afirmar. A cultura fornece as armas e nós nos formamos através do seu uso. Pactos e alianças, amizades e amores, são sempre possíveis. Contudo, o que eles visam é sempre a auto afirmação em detrimento de qualquer tipo de hipotético entendimento. Honestidade para mim é não criminalizar ninguém por procurar o próprio gozo de um modo diferente do meu. As mulheres, em sua maioria, querem casar, fidelidade e filhos. Os homens? Mérito, reconhecimento, façanhas. São intrinsecamente e biologicamente determinados dessa maneira? Não. Mas a cultura lhes deu essas armas e vejo como algo impossível julgá-las a partir de critérios impessoais. Mas, reconheço, essa é mais uma verdade de homens.

- Tua visão das coisas me parece crua, machista e cruel...

-Me responde uma coisa...como era tua mãe?

-Candida, protetora, uma santa mulher.

-Está explicado. É a voz dela que fala pela sua boca.


domingo, fevereiro 26, 2012

Canção para as guerrilhas contra o medo.

Nada vem no vento desse lado
tudo que amamos corta
com o fio
da palavra
"nunca mais"!
Nós não sentimos com a pele
ou com os sapatos
nós estamos todos
perturbados
com a invisível tempestade
que nos cobre a alma.
Pessoas desaparecem
sem deixar vestígios
existem lágrimas e abraços
por detrás da porta
foices e masmorras copulando
com jardins de afeto
e uma fada tenebrosa
segurando a chave.
Precisamos, tu e eu,
estrangular o sonho
estraçalhar o medo
e sugar a seiva
de nossas madrugadas.
Precisamos suportar o peso
destas placas
que trazem letras vergonhosas
e pedidos de perdão.
precisamos conciliar adagas
com uma borboleta
intacta
que convida para o precipício
ou para o estranho limbo
onde encontraremos
paz.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Aos incautos.


As palavra que escrevo nesse blog querem ser lidas. As musicas que eu coloco nesse blog querem ser ouvidas. Os lamentos que escoam desse blog, que correm pelas ruas, que supuram nas esquinas querem despertar a piedade. O tesão frustrado que move os péssimos versos desse blog querem seu harém. Esse blog é uma lamuria, uma fanfarronada, um gesto vergonhoso que traria risos a boca desdentada de um mendigo. Mas esse blog não implora, não pede comentário e vai continuar se abarrotando das inutilidades que são destiladas pelo meu pensamento. Muito úteispara mim, elas são a esquiva e o golpe certo, a dança de Muhamed Ali e o soco de uma polegada do B. Lee. Acima de tudo ó incautos...Esse blog não barganhacomentários.
Existe um certo tipo de liberdade em ter provado do mais aflito desespero: quando se escapa disso com vida já não existe muita coisa que possa lançar trevas no horizonte.

domingo, fevereiro 12, 2012

A poesia é para essas coisas ardentes.

A poesia é para essas coisas ardentes

Que o mundo ignora com risos

Cada palavra é um grito

transformado em ouro

a poesia é a pirâmide onde adoramos a dor.

Oceano de imagens remotas

Sonhos de afeto inconcluso

A poesia é o grito sem som

De alguma coisa

Que nunca estará totalmente

Na luz.

É claro que estamos sozinhos

É óbvio que a alegria é um vulto

Mas a poesia participa dos golpes

Que conseguimos acertar

Na aflição.

Desde que nos percebemos

Errados,

E que somos pinos quadrados

Empurrados para encaixes redondos.

A poesia é a asa partida,

A magia que nem sempre acerta

A poesia é minha margem deserta

Onde chego quando naufrago

Do mundo.

sábado, fevereiro 11, 2012

Encontro de estação.

Paguei a conta e saí dali correndo. Não existe nada pior para mim do que perceber que as pessoas tentam me chamar a atenção. Me sinto acuado, acusado, sentenciado a ter que dar uma fatia de meu eu servida em uma bandeja brilhante e suntuosa. Mas não foi somente por esse motivo que eu resolvi pagar a conta e ir embora. A patroa certamente já devia ter chegado em casa e provavelmente já estava especulando sobre minhas primaveras: essa minha inconstância ainda me condenará à forca. Fato é que já havia deixado de sonhar. Tinha que pagar as contas (certo, isso nunca foi um problema para você, mas para mim é uma constante). Além do mais, tem toda essa dor que você precisa saber impor para usufruir de alguma alegria nessa vida. Sim, a crueldade é um dom indispensável. Claro, douramos sempre a pílula. Dizemos que não se trata de crueldade. “veja bem as coisas são assim, eu me apaixonei.” Besteira! É impossível colher um grão de alegria sem plantar mil sementes de tragédia, e veja que hoje ainda estou bem otimista. Bom, se estou ou não errado também não me importo mais em descobrir. Aprendi a ficar seco, a ser nobre e simples, e me preocupar apenas com o essencial. Não para ter um troféu ou um bater de palmas: elogios me dão vertigens e cãibras no intestino. Tudo que eu quero é poupar a energia, é me concentrar num alvo e tentar não errar em algo bem prosaico. Comer, beber, fumar, ser um pai razoável, um marido não muito escroto e depois morrer sem ovações e nem alarde; simplesmente desaparecer como se nunca houvesse existido.
Mas então desci pela rua meio zonzo pelo álcool e vi uma senhora, muito bonita, encostada em uma canto da rua, sendo abordada por um trombadinha. Não sou um tipo heroico, nem covarde, apenas um desses sujeitos que se tornaram imprevisíveis por não achar a morte um mal negócio. Fui na direção dos dois e ao me ver o trombadinha saiu correndo. A dona, uma mulher madura e muito bonita, estava visivelmente transtornada. Não parecia rica, nem pobre. Apenas uma mulher muito bonita salva por um sujeito muito feio.
-Ai, meu deus moço, não sei como agradecer. Aquele ladrão ia me levar a bolsa com documentos celular...
E começou a falar incansavelmente, e como gostava de falar! Eu apenas concordei com fazendo observações soltas sobre os riscos que o lugar oferecia, sobre a pobreza generalizada de Salvador etc. etc e etc.
Ela gostou de minha conversa intelectualizada e pessimista. Descobrimos que frequentávamos, sem nunca termo-nos vistos, lugares em comum. Me ofereci para acompanha-la até o seu carro e ela me ofereceu uma carona. Lia budismo e já havia sido casada com um sujeito que, assim como eu, também era professor de filosofia. Trocamos telefone e nos encontramos outras vezes. A coisa fluiu e lá no fundo do despenhadeiro de minha alma seca algo começou a se inflamar. Ela não se sentia a vontade com o fato de eu estar casado e a princípio se esquivou. Depois a coisa toda aconteceu e nos vimos diversas vezes, sempre muito mágico, intenso e verdadeiro. Mas as vezes ela não via as coisas desse jeito e me ligava louca cheia de impropérios para dizer a meu respeito.
-Canalha! Porque você não confessa logo que só quer me usar?
-Mas como assim baby?
-Como assim? Como assim? Vá para o inferno! Vá tomar...
E desligava em seguida ficando semanas sem me procurar, sem me dizer uma só palavra. Um dia ela não ligou mais. Desapareceu como uma miragem no meio do deserto, sem deixar lições ou cicatrizes. Era muito lindo e de fato ela me fazia sentir vivo de um modo incomum, mas simplesmente isso não me pareceu suficiente para destroçar uma outra vida. Claro, não estou disposto a correr para a montanha, e sem alguma transgressão e gozo é impossível realizar as metas mínimas dessa vida. Mas minha alegria é contingente, como tudo, apenas o fato incontestável da sobrevivência e da lealdade se impõe: não quero ser senão aquilo que posso me tornar sem sustos. Enquanto isso estarei atento a reinvindicações do acaso.

Medo.

Sentado sob a foice
deixo-me estar
cansado.
Sob o sarcasmo do garçom
minha cerveja me apoia
com um afago.
Sou o que sobrou dos precipícios
afastado, fervilhando e sem segredo
meu desejo é o ponto cego
entre a sua aurora
e o medo.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Madrugada.

Existe uma fenda fétida que se abre
Nas madrugadas
Uma sensação de abismo que me acompanha
Sem redenção
Um pouco semelhante aos recessos de um
Outono
Folhas partidas e flores
De plástico sobre um caixão.
Tenho tantas canções que não posso
Nem sei compor
Pesos de muitos anos, labores de judeu errante
Afagos estrangulados e margaridas
Materialistas
e muitas palavras doces para
substituir o amor.
Nos meandros de minha escolha
Surpreendo alguns meninos,
Atalho velhas bondades que se fizeram
Malvadas,
Bebo na escuridão do meu veneno nocivo
E morro sem novidades
Sem pai,
sem mãe,
sem amor
Sem nada.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

Hoje eu perdi meu girassol sem sorrisos.

Hoje eu perdi meu
girassol sem sorrisos
que beijei na noite passada
como um anjo
sem saber que era um último
Adeus.
hoje eu vim
do plantio das lembranças
tentando mastigar taoismo e
tragédia
em um só coração solitário
que nunca mais terá abrigo
na terra.
Mas se as flores forem
sensatas,
se o vento possuir um corcel
meu girassol passo-a-passo
irá reflorir entre estrelas.
Com um sorriso refeito
de moça,
encantada novamente e
linda.
Se existir um deus nos espaços,
se os pássaros entenderem da dor
meu girassol ficará guardado
na luz.
Minha presença
que deixo seguir,
serena memória de amor.

domingo, janeiro 22, 2012

Porque as ruas estavam dançando quando eu saí do espelho?

Porque as ruas estavam dançando
quando eu saí do espelho?
Mãe, eu que havia estado estado contigo
enquanto perdida entre os caminhos da alma
você não me sorriu
ou notou.
Cinderela costurada entre sondas
também não compreendi
seu amor.
Eu possuía apenas minhas pernas,
meu fardo, algumas moedas,
cigarros,
e um passado sem canções
de ninar.
Eu apenas andava entre os carros,
apenas tinha vergonha do choro
apenas odiava tanto a Deus
que a face da terra incomodava
minha pele.
Eu não era um homem,
eu não estava entre os outros,
havia depositado minha senha
sobre sua testa
partida.
Sobre esse estranho cuidado opaco
sobre o recipiente vazio
de onde escapam gemidos.
Eu não era um homem,
eu nunca fui um menino,
eu sempre escorreguei entre os
cantos
tentando evitar novas dores.
Eu tenho pena dos postes,
eu lamento pelo sorriso
das putas
eu me devastaria sorrindo
para aniquilar da existência
essa coisa que se perpetua
entre espasmos.
Eu pensava, soluçava e sorria
em meio a frenética rua
que procurava me conter e domar
enquanto você comtemplava
o Lobato,
Periperi,
e remédios,
tudo seguindo sem rumo, sem flores,
como um rio entorpecido no inverno.
Alguma coisa em meu peito
espera
algo aqui dentro ainda pode
partir
enquanto lhe olho e reflito
e o mistério do mundo
é solidão minha mãe.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Banquete

Śentado em um trago
calado
me percebo entre escombros
de vida
e algumas máscaras
partidas
para esconder a carcaça.
Trago uma caixa oca
entre os braços
e um nome geralmente maldito
para um sonho
singelo
em pedaços.
Tudo que aprendi do amor
se resume em sangue
e navalhas
o aprendizado da queda
em etapas
esse banquete de exigência
e batalha.

terça-feira, janeiro 10, 2012

Eu sinto.

Não sinto saudade dos meus
dias de infância,
não sinto saudade.
Das horas tristes inventando brinquedos,
do abandono no quarto onde iriam
Me arrancar as amídalas
Da visita breve da mãe
Com um carro de bombeiros de plástico
Muito mais falso que a obrigatória
Visita
Não sinto.
Não sinto saudade,
Da mocidade,
Da puberdade sem namoradas
Ou sonhos,
Da vagabundagem sem destino
Ou honra
Dos amigos fracassados e parvos
Tão decaídos que conseguiam
Me ter por herói.
Não sinto saudade.
Não sinto saudade dos arcanos,
Dos mistérios inefáveis dos anjos,
Do sentido ideal de ser pleno
Da compreensão telúrica do nada
Daquela miséria travestida de luz.
Eu
não
sinto...
Meu passado é algo que tento
inventar de outro jeito
para saber que fiz o melhor.
exceto por um breve intervalo sem tempo
tocado pela mão do acaso
iluminado pelo poder do seu riso,
pela harmonia do olhar
Do conforto infinito do abraço
Da melancolia que confortou
Meu cansaço
Eu sinto
Que de algum modo inefável
Tudo aconteceu por você.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Sobre a palavra.

Amor é uma palavra bonita,
para sintetizar uma lista imensa
de vícios feios
e fracos.
Sua pele enrijecida
haverá de resistir
seu dedicação
a guerra
deverá sobreviver.
Forte
seguro
exato
pois o deserto não
perdoa
os que esquecem
do combate.

Não há espaço na vida
dos que lutam
para o que exige
devoção
e culpa.

Toda beleza que preciso
guardarei nestes porões
vigiados por demônios de granito
rebrilhando como o infinito.

Retorno.

Então eu retorno para mim:
terminada a curta estadia
entre tormento e paixão.
As palavras duras e fortes,
as acusações criminosas
todas as coisas feias
e más
que acontecem no fim.
Existem algumas lições que
um homem cansado não deveria esquecer;
a lei das sangrentas trincheiras
e as noites amargas de luto
para enobrecer algo amargo
é preciso muito mais que
palavras.
No final existe a cerveja,
existem os poemas
existe a jornada pelo
interior do deserto
e o pequeno girassol que carrego.

No final existo somente
nesse espaço silencioso e vazio
pasmo, carregado e ferido
que denomino curiosamente
de EU.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Serenata e luto.

O peso exato do vento tem um nome,
e a cor das coisas se dissolve
no painel confuso das memórias que cultivo
para não perder o que deixaste em mim
de eterno.
A deriva nesse mar de atalhos,
Combatendo nessa guerra de contrários
Com as mãos sedentas de algo sóbrio
Como a polpa do carinho que sorvi
Contigo.

A noite se estende até o oceano
Os meus livros de estudo silenciam
E eu compreendo que também não
Tenha sido
A ocasião propícia para sermos NÓS.
Mas agora que não há razões
Agora que estás distante
Agora que luz perene dos seus olhos
Me deixou
Eu sento, sem metáforas, e acendo um cigarro
De luto por mim mesmo
E vazio de tudo
Menos de ti.

terça-feira, janeiro 03, 2012

Sobre flores e guerrilhas.

Se o azul do céu tivesse som
E Se eu absorvesse a lição das rochas
Poderia haver compreensão
Para o sentido desses dias
e eu poderia esquecer tudo que houve
E seguir como seguia sem saber de ti.
Extático, informe e complacente
Mastigando a medula dos momentos
Para tentar sobreviver.

É certo que tens suas razões
É razoável que as estrelas queimem
que os vulcões consumam
que a substância do universo seja
furiosa.
Mas estou exausto...
E no que deveria ser e foi oásis
Não suportei encontrar mais aflição.
Pois eu cheguei inadequado, trôpego
E cansado
E você foi brisa, completude e brio
Sensação de aurora e fruta fresca
Madurês perfeita para saciar
No estio.

Mas os campos foram devastados
E minhas crianças calcinadas
Viram a madrugada aparecer em meio
A gritos.
Meu terror insone, teu peito destroçado,
Sua expectativa morta, meu pobre anelo
Enlameado por palavras de desdém.
Eu sei que me tens por homicida
Irmão de porcos, devorador,
Mas eu de ti só levo gestos soltos,
Desconexos;
Visões de mortos, luta armada,
Paz de afeto, lições de amor.

De tudo isso, não sei o que ficou
como pode a primavera suscitar vulcões?
como pode a lei das flores degolar bebês?
Pasmo eu sigo com essas questões
nessa hora fúnebre em que a luz se apaga.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Menção a uma interrogação oceânica.

Talvez as coisas partidas
Possam refletir a ausência de nexo
Que persiste na essência do mundo.
Talvez seja esse o segredo:
ela traz no
Sorriso um pedaço de luz,
Um valentia que me assombra
Uma beleza que desafia
O infinito.
Exata, perene e confusa
Ela fere em seus gestos de
Fome,
Torrente de anseios projetados
No céu,
Plêiade onírica de afetos suaves
Que me recebem, me curam,
me afirmam.
Espírito dos oceanos intensos,
Guardas um segredo fascinante
Para minha alma de barqueiro ansioso.
Talvez eu naufrague nas ondas,
Pobre trama de recuo hesitante
Jogado de encontro ao feminino
Mistério.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Sonata noturna durante o assassinato de um cão.

A raiz da maldade não está nas ruas,
Não está na arma do criminoso
Não está na bomba do suicida
Não está nas manchetes do telejornais
Não está nos presídios.
A raiz da maldade não pode ser vista
Repousa silenciosa sob a superfície
E algumas vezes seus ramos
São lançados na luz de um dia
qualquer.
Nas famílias, nas casas, nos casamentos,
No amor, nas tristezas que cultivamos dia a pós dia
Pois nosso sofrimento possui um sabor
Tão sutil.
A escuridão prevalece em silêncio,
Camuflada por razões que nós temos
e sua natureza definitiva
É maldade.
Uma dona de casa, um pai, um amigo,
Uma paixão, uma ânsia, um incômodo,
Um propósito
Maldade
Maldade
Maldade
Está aqui
Está aí
e precisamos conviver desse jeito.
Talvez ela nem mesmo exista
De tão perene e espantosa
Tão sólida, densa e exata
que explode para dentro de si
e desaparece quando tento
tocá-la.
Perfil de lutos e estragos
Corda em que equilibro
Meu ser.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Na montanha.

Vou subir a montanha novamente
com as cinzas.
Lá encontro sempre um Deus sem lei
uma chama que incinera,
e uma dor brutal.
Nas montanhas lavo-me com fel,
recupero minhas armas
e retomo o trilho daqueles de alma
amarga.
Nas montanhas habitam meus troféus,
minhas medalhas conquistadas
em outras lutas contra o amor...
Nas montanhas deixo tumbas prontas,
cal, enxofre e navalhas.
Nas montanhas me refaço e me relembro
monto barricadas e sigo em frente.

‎1º valsa para um decapitado.



Um painel precisa ser pintado
De vermelho
Para que as suas flores possam
Repousar
Não é minha querida?

Por tudo isso sou culpado,
Por tudo aquilo que não sei,
Por tudo aquilo que não fiz
Por toda coisa estranha, por todo arranjo torto
Contraído,
por toda inadequação ao sonho
pela minha insistência em querer que tudo
seja leve.

Agora vais amar, reflorescer, vivificar...
Meu amor dilacerado irá se abrigar
Nas catacumbas e meu carinho órfão
Se embebedará de fel
Como uma mariposa que se incinera
Em luto
Como um decapitado que ainda canta
Sua canção.

Sobre vontades e precipícios.

Silêncio no oco do peito:
a vida não é exata.
As palavras não são doces,
os desejos não são sábios
as coisas são complexas
mas também podem ser
desculpas.
Quem sou eu para refutar os riscos,
para ocultar ardis, para travestir-me
em santo, para aquietar os mares,
para preencher uma vida e empurrar outras
razões do precipício?
A felicidade está ali: sem rodeios.
Forte como uma alvorada, linda como uma primavera intensa
como uma colina nua, como um beijo apaixonado
como uma despedida...
Como quero o que admiro, o que preciso
o que me atormenta,
mas torto e inexato não me cabe
intercessões
sentado eu leio os tratados
do acaso.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Presságio.

A música fúnebre
repercute em meus ouvidos...
O som do vento?
Há quem diga que a vida
não é senão uma grande
despedida.
Mas o que fazer se eu lancei
os meus navios no infinito
apesar dos muitos gritos
que eu trancava no porão?
Então o meu demônio estava certo,
estavam certos os veteranos
os marcados,
esses seres exilados
que recusam-se a amar.
Para aves canoras e libertas
o espaço do céu, a amplidão
para cínicos combatentes, o deserto
e o deserto meu amor...
ele sempre tem razão.

domingo, dezembro 11, 2011

Paixão existencial

Como definir meu Eu

Em sua estrutura não contextual

Em seu onírico desdobrar-se em fatos

Nos pensamentos que se sucedem

Sem ter fim.

Nas escolhas que se impuseram

Mas que fiz

Abertura imponderável para uma passagem

Cega

Cegueira opaca onde cintilam esferas

Escolhas cegas que me trouxeram

Até aqui.

Como definir meu EU

Essa trama de acasos submetidos aos consensos

Essas intuições silenciosas que apreendes por palavras

Essa paixão insana que me divide entre duas

Exigências

Essa pergunta louca que se responde a si mesma...

Como poderá essa escassez abrigar-te no amplexo?

Pois não admito um EU reduzido às circunstâncias

Exilado do sentido que espalhas com seus gestos

Perdido do amor que encontro nos seus lábios.

domingo, dezembro 04, 2011

Polegadas.

Aqui e atento
perdendo o tempo que é
pouco
por incapacidade de administrar
o bom senso.
Aqui e agora,
mais velho, mais tolo
mais cansado
alguma sobrevida encontrada
algumas alegrias fabricadas
nenhum brilho mágico
exceto o do jardim.
38, e tanta luta, tanta fome
jogado de um lado ao outro
sem muita alternativa
exceto essa chama louca
que insiste em ficar viva.
Muitos livros para ler, pensamentos
a considerar,
e amores a perder
(No amor nunca vi ninguém
ganhar.)
Aqui, ainda na trincheira,
mensurando dimensões em polegadas
esperando pela condenação do julgamento
ou pela assimilação do nada.

domingo, novembro 27, 2011

(...)

Aquele silêncio velho inveterado
será seu legado
aquela canção suave e emudecida
será sua vida.
serão os dias e noites de seu campo
de trigo.
será a mulher dos seus sonhos e o
abraço do amigo.

será a dor de existir e a felicidade
encantada
será o pé e o rumo que te leva na
estrada.


Aquela chama de dor que te queima
no peito
será o luar na tua noite e o sol do seu
rumo,
o desespero em seus gestos serão as suas
asas.
para voares invisível muito acima das
casas.
Sem escolha ou livre teus passos serão
uma luta inútil contra a solidão.

domingo, outubro 30, 2011

Perfeição

Algumas palavras, alguns versos tortos.
A tarde se arrasta sob o asfalto e os sons
das famílias batem nas suas janelas
como aves estraçalhadas pela luz dessas coisas
que não podes dar jeito.
O amor não é um convite
a paz não é uma opção
enquanto acumulam-se as garrafas vazias
os livros por ler,
as objeções ao destino
e os beijos não dados
os versos se reproduzem infestando
as páginas em branco
até então tão perfeitas

quarta-feira, outubro 26, 2011

Sem controle.

Não temos controle. A vida segue um fluxo cuja causalidade complexa nos escapa e nossos planos são apenas desculpas honrosas que servem apenas para salvaguardar nosso auto-respeito. Claro, algumas coisas pequenas podem ser controladas. Pode-se evitar, como razoável segurança, certos males como a gripe, a caspa e doenças venéreas. Contudo nas questões essenciais, nas questões que envolvem a certeza acerca do resultado de muitos de nossos mais nobres esforços estamos todos na sombra, tateando e repetindo para nós mesmos que temos certezas. Podemos admitir tudo isso sem muita dor quando o que está em questão são coisas ínfimas e secundárias, mas quando o destino nos obriga a reconhecer que aqueles motivos que constituem o cerne de nossos propósitos, a razão causal de nossos sacrifícios, o mundo se desagrega em um caos. É assim que me encontro agora, mais uma vez ameaçado da privação da pouca sublimidade que preservei ao cinismo. A pior das suspeitas é a de que o deserto não acaba onde nossa vista alcança.

terça-feira, outubro 18, 2011

Eu & você

Se seu coração fosse uma sede de vida
meu coração seria uma pedra de sal,
um buraco negro que mastiga a si mesmo
enquanto devora toda a luz sideral.

Se seu sonho fosse uma lei coerente
meu amor seria uma perversão terminal
uma violência de noite de núpcias
que se alimenta da perversão conjugal.

Se você fosse, do outro lado do medo,
uma certeza, uma palavra, um tratado,
eu seria a mudez sem segredo
de um violento animal descarnado

sábado, outubro 01, 2011

Falta de imaginação.

As coisas em geral deixaram tão pouco em mim para ser amado que me surpreendem os esforços de outras pessoas para esperar algo mais que cansaço destes meus dias no mundo. Todos eles vão achar que é exagero, mas as provas estão espalhadas por toda parte. É verdade também que tenho as costas bem revestidas e uma resistência quase espartana ao flagelo, isso me trouxe até onde estou; mas não serviu para reflorestar o deserto. Em geral não tenho muita imaginação, nem fantasias, sonhos ou utopias, assim como um velho beduíno atravessando um jardim de cactos e escorpiões meus pensamentos desconfiam uns dos outros e de modo nenhum conseguem cooperar para produzir, mundos, pessoas, aventuras e ilusão. A desconfiança, a dúvida, a perene e judia sensação de que um Golon mesquinho me espera por detrás dos arbustos me veda o acesso à inspiração, ao bom humor...ao agrado das multidões. Mas ainda assim algumas almas esperam algo de mim, e eu não consigo entender esse gesto, sem o qual no entanto não sobreviveria; e no entanto não posso corresponder a esse movimento por total cansaço e falta de imaginação. Um sobrevivente de si mesmo tem dificuldade em viver com aqueles que nunca morreram para suas próprias almas. As vezes me perguntam sobre o suicídio. Respondo que acho uma idéia imbecil: o mundo não é assim tão interessante a ponto de me levar ao suicídio como medida de retaliação. Se as pessoas se matam, eu penso, é porque esperam que suas mortes provoquem alguma comoção nos que ficam. Não tenho imaginação o bastante para imaginar que minha morte possa alterar algo na ordem das coisas. Seria como a queda de um copo, o cancelamento de um vôo, um verão sem sol; depois de passadas as poucas e obrigatórias manifestações de luto tudo seguiria normal e cegamente como sempre foi. Meu ego é apenas o ponto de tensão para o qual convergem meus conflitos e isso não diz respeito a nada nem a ninguém: é apenas uma fatalidade.

No entanto não invejo as pessoas presas e arrastadas nas teias da busca de relevo, admiração e aplauso. Me parece uma vida tormentosa. As famílias são armadilhas terríveis das quais dificilmente escapamos ilesos. A falta de alguma coisa desse tipo não deixa de ter o seu mérito, ou não; mas prefiro ficar a distância, isolado, sustentando apenas a relações inevitáveis que o acaso me legou por capricho. Algumas são brilhantes e infinitas que me acalentam em meio a bruma e a cinza, algumas são oscilações confusas que ora me fazem acreditar que se pode viver como eu vivo e ora exigem de mim uma mutação impossível; outras são apenas caos, confusão e loucura. Uma Geena de faces horrendas com palavras desconexas, espasmos críticos e violência involuntária. Mas eu já sobrevivi a estes e muitos outros horrores, eu ainda tenho algumas cartas na manga, e talvez ainda consiga reverter o ritmo que as coisas tomaram antes que todos desistam disso que o mundo deixou do que eu era.

sábado, setembro 10, 2011

Preço.

Era uma baita mulher! Maravilhosa em quase todos os sentidos. Curvas incríveis, olhos que faiscavam vida, curiosidade e senso de humor e seios...que seios! Invejei o sujeito. Sim, coisa vil, cobicei a mulher do próximo enquanto o próximo ainda estava próximo. Mas isso não durou. Nos sentamos na mesa e ela reclamou da lentidão dele, da distração dele e de muitas outras coisas que me pareciam perfeitamente naturais em um macho sadio. A inveja transformou-se em compaixão. De fato ela era algo raro e lindo, mas o preço a ser pago era muito alto para quem ama mais a própria pele.
Isso. O amor não é importante, mais importante é se conservar inteiro. O amor foi algo que a sociedade inventou para fazer com que as pessoas ficassem atadas umas as outras como xipófagas canibais. No início ainda tentamos racionalizá-lo, libertá-lo dos tiques e posses que o tornam tão louco; mas é impossível. As pessoas são criadas em meio a miséria de famílias que não sabem nada de ensinar a fé em si mesmo e responsáveis por tantas outras mutilações noticiadas pelos jornais a cada momento. Além disso é preciso pagar nossas contas, lidar com a possibilidade da morte e revolver dilemas dos quais as palavras não podem dar a mais breve noção. O amor, se vier, deve não interferir em nada disso. Mas muita gente não sabe. A única felicidade que eles experimentaram na vida foi derivada da participação homogênea em alguma família maluca. Eles querem ter novamente aquela sensação de diluição do si mesmo no outro e por isso perdem todas perspectiva e senso de auto-preservação. A solidão não é o inferno. A masturbação sábado a noite não é o inferno. O inferno é a guerra diária, a castração solidária que implica a cobrança recíproca e o ciúme coletor de impostos a serviço da alma honesta. O inferno é a velhice cercada das lembranças de ingratidão centenária, o inferno é uma luta da qual ninguém tem coragem de sair fora por medo da vida que nunca soube ver frente a frente. E a vida é isso: Salvar a própria pele. O inferno é aquilo: cultivar o tirano com beijos.

terça-feira, agosto 16, 2011

Perdas e danos.

Minha vida é uma coisa que não tem nada de muito especial. Nem eu, por conseguinte. Apenas alguns padrões estranhos, algumas carências surdas, algumas solidões inusitadas e muito cansaço. Esse cansaço de muitos combates por causas abandonadas, esse combate que deixou tantos mortos e histórias sangrentas no subsolo do meu edifício. Vi alguns personagens estranhos em minha vida. Algumas pessoas meio tortas, meio toscas, fantasmas encarnados que se quebraram nas onda
O Neideval foi um deles. Um menino que vi crescer, uns sete anos mais jovem e que por entre as contradições da família se tornou surfista. A mãe e os irmãos cristãos, o pai um semi-tirano disfarçado que sempre me recebia com um sorriso falso, odioso e mal. Morando na favela, sem os recursos materiais necessários para a auto afirmação mas achando-se muito esperto Neideval viu no surf um outro eu. Eu para ele era o tosco, divagador, o comedor de livros que não comia ninguém. Com o Surf vieram as drogas, a loucura, o Rock. Não gostava de muita reflexão. Era avesso as nossas divagações platônicas. Ele achava que isso não era divertido. Neideval um dia enlouqueçeu, começou falando com sombras e terminou com o olho partido. Converteu-se à igreja evangélica como a mãe e os irmãos. Agora tomava remédio controlado. Não sei se o problema era biológico ou existencial, aos meus olhos ele nunca teve nada parecido com bom senso. Não tive mais notícia dele, mas sei que já não surfa.
Teve também o Ednaldo, um sujeito que gostava de ficar bêbado para externalizar seu sentimento de fracasso ao som do heavy metal. Andava junto com as pessoas que andava comigo e por isso faz parte dessa história. Uma coisa curiosa, assim como Neideval ele também não falava do próprio fracasso. Todos eles queriam parecer o que não eram, e a contradição era visível a olhos nus. Meninos fracos e sozinhos espremidos pela loucura familiar ou pelo abandono da família. Ednaldo também tornou-se crente numa certa altura da vida. Substituiu uma embriaguez por outra e continuou sustentando a mesma mentira a seu respeito. Um dia foi hospitalizado. Comeu alguma coisa infectada e um verme alojou-se no seu cérebro. Morreu pouco depois.
O Paulo foi um caso a parte. Muito protegido pela mãe, que por sinal me detestava por me considerar um vagabundo sem família (o que em certa medida era verdade) Paulo não namorava e a sua juventude resumia-se a estudar, jogar voley uma vez ou outra e colecionar revistas em quadrinhos. Um dia ele deixou de frequentar as quadras dos jogos de voley e enclausurou-se em casa e nos estudos. Pouco depois passou nos exames dos fuzileiros navais e desapareceu definitivamente. Noivou com uma garota, sem que ninguém soubesse de qualquer experiência afetiva anterior, noivado que durou alguns anos e terminou sem muitos motivos. Um dia soubemos que ele se tinha enamorado de um outro amigo nosso de velha data, o Rafael, e por esse amor inusitado deixou de falar a mãe dominadora e com os amigos de quem sempre escondeu as preferências.
Houveram outras vidas assim em minha vida. Dezenas delas. A Jucimeire, estrangulada pelo ex-namorado traficante que não aceitava separar-se de uma das poucas garotas brancas do bairro. O próprio Rafael, menino triste e inquieto que já fora meu aluno de arte marcial, que encantou-se com o romantismo marginal das drogas e que, ao que parece, encontrou no amor do Paulo uma forma de sustentar o vício. O Jorge, louco que contornava o meu quarteirão centenas de vezes no mesmo dia e que, segundo diziam, havia enlouquecido depois de atropelar uma família quando era motorista da coca-cola. Um dia acharam o corpo dele preso a uma hélice de navio na maré. Aparentemente os remanescentes da família assassinada o haviam amarrado a uma pedra e lançado ele na água.
Os assassinados pela polícia, as espancadas pelos caras bacanas, os homossexuais religiosos, os de boa família que se tornaram policiais psicóticos, as esposas loucas e assassinas...agora você entende porque não tenho motivos para me orgulhar do meu passado.

sexta-feira, julho 29, 2011

Seminário.

Faz muito tempo que usamos a palavra pequenina,

e eternidades que nós não sabemos

onde e quando torná-la um fato ou nossa sina

e entre a selva dos alheios nos perdemos


Entre a necessidade de seguir aquela rota

que orientou os bisavós, em seu receio

e o levantar de uma canção com nova nota

para repetir a confissão de um velho anseio.



Esse anseio pobre, feio, e ordinário

de possuir uma pessoa como se ostenta

um candelabro de bronze em um seminário


De padres que não acreditam e não tem fé

e esgotam as energias na contenda

contra a mesma coisa coisa que todo mundo quer.

No baile dos eunucos.

Um mundo de destroços espaçados,

é o que vejo sob o verniz dos risos

um jogo de lances encenados.

bisturis para cortes imprecisos.


Sob a vontade de certeza que está no rosto

nas marcas que o tempo firma na expressão

continentes perdidos em oceanos de desgosto

amanhã que nunca chega, triste valsa sem canção.


Repetida, imitada, exigente e amassada

entre as pressões dos pais e a luta armada

coisa estranha que nunca vai surpreender


Onírica aflição de um eunuco arrastado

os prazeres mutilados para permanecer atado

a vida que consiste em se deixar morrer.

quarta-feira, julho 27, 2011

Cinismos.

Se minha vida errada não se encaixa em sua sua canção
por ser tão afinada, cheia de planos, farta de amor
dá os teus ouvidos para meus versos, louca paixão
deixa por um segundo o seu castelo, vem ver a dor.


Essa dor amargurada, que cultivo dia a pós dia
intérprete da noite, alma antiga e meio cansada
como um naúfrago da estrada, que se afogou na calmaria
eu espero pelo açoite, que me reserva a alvorada


Essa alvorada em que irei compreender
A contradição que sempre abriguei no peito
Luta ilusória de quem não sabe perceber


Essa novidade, apocalipse de abismos
na compreensão finita que muita coisa não tem jeito
tornará amantes nossos dois cinismos.

sábado, julho 23, 2011

Alea Jacta Est.

O que ainda não foi dito sobre

A tristeza?

Que ela tem a face de anjo?

Que bebe da seiva do que poderia ser

Uma chance?

Esparramada pelas paredes se estende como

Um manto verde de limo

Onde leio a palavra:

Acabou.

Meus dedos cansados não correm

Velozes a traçar sobre o papel

Minha vida

Minha mente aturdida não acompanha

O raciocínio do sábio,

Meu coração orgulhoso não se acovarda

Diante do precipício.

O vinho me recebe, última dádiva

Para um condenado,

Última cartada para quem já nasceu

Sem futuro.

O que ainda não foi dito sobre a dor?

Que ela é uma foice sem brilho?

Que podemos abraçá-la e morrer?

Escoando pelos cantos de mim

A seiva do amor me abandona

Minha crença no mundo apodrece

Sinto vergonha de dar esmolas

E não espero mais nada de meus irmãos.

Um cachorro sem uma das patas é a lição

Que eu quero.

Um bebezinho mutilado é a resposta precisa

Para que possamos despir-nos da esperança,

Da meta e do propósito,

E simplesmete beber nosso vinho em silêncio

Enquanto tudo permanece cruel

E sem som

Assim seja.

sexta-feira, julho 22, 2011

Pintura.

Não corro atrás do amor,
mas deixo a porta aberta
pinto poesia e flor
sobre a tela da rua deserta.

Cadeira

Estou sentado numa sala cinza,
pressionado pela aflição
a vida passa do outro lado,
uma linda beleza triste
carregando Neruda à mão.

Sem amor, meta ou futuro,
estar no agora é sentar nessa cadeira
olhando a vida passar lá fora,
(com suas agonias e gozos)
tenho feito isso minha vida inteira.



segunda-feira, julho 18, 2011

Maturidade

Conhecer as delícias da paixão, escrever sobre elas. Sangrar pelo silêncio da pessoa que se deseja, ouvir músicas desesperadas e chorar. Beber amargurado pela ausência da luz que lhe é negada pela pessoa que se quer. Viver tudo isso de modo hipotético, e no final das contas, não estar apaixonado e esquecer de todas essas coisas. Eis o segredo que a maturidade nos ensina.

Uma resposta para a pergunta, "porque não gosto de futebol"

Não passo procuração de minha alegria. Que seja pouca, mas que seja baseada nos meus atos e não em vitórias de indivíduos que desconheço, cobertos por cores que não dizem nada e representando um símbolo por um salário bem maior que o meu.

minha versão sobre o amor

Ah.... as mulheres.

a doçura de suas mágoas,

a força temerosa de seu silêncio,

o medo terrível que eu sinto

perto de todas elas...

O brilho nos olhos quando amam,

o gesto de desprezo

quando não querem.

chuva fina sobre o oceano sozinho...

E ainda mais, sobretudo,

as mãos e os gestos.

A soberania de seus desejos

sobre minhas opniões.

Depois das batalhas,

a suavidade e a força

que se oculta para favorecer

a minha vaidade

infantil.

Sempre serei um menino por elas,

encenando

indiferênça e poder

aos seus olhos.

Lindas, todas são lindas

quando choram, aconselham

e esperam,

quando gozam, quando amam, quando são crueis.

Durante tanto tempo não as

compreendi,

durante tanto tempo não as

encontrei,

e hoje ainda me escapam.

Minha compreensão sobre elas

é trêmula e medrosa

como as mãos de um garotinho

que pela primeira vez deu um beijo.

domingo, julho 10, 2011

Mais uma de amor.

Um dia eu amei perdidamente,

Foi lindo, foi profundo

foi pior que a morte.

Tão breve e estúpido

Que ninguém se lembra

Vergonhoso e absurdo

como apanhar na escola.

Um dia eu amei profundamente,

Não me lembro quando,

Mas aconteceu.

As vezes reviro essa lembrança breve

Como quem olha uma lápide

Para se assegurar

De que o trabalho foi bem feito.

culpa

Viver uma vida sem deixar mágoas,
talvez não seja possível
nem semear girassóis sem rasgar a pele do chão.
É claro que deixaremos rancores,
é óbvio que serei odiado,
e amado em proporções bem medidas.
A perfeição não combina com a vida.
Nem a culpa com o meu coração.

quarta-feira, julho 06, 2011

Manhã



Mais uma manhã de café, telejornal e chuveiro
com a repetida impressão de ser breve,
o intervalo complexo entre os vãos.
Ainda assim eu não lavo minhas mãos
não fecho nenhum caminho para mim
concilio o saber do meu fim
com a sabedoria de fundar um estar leve.

sábado, julho 02, 2011

Ondas

O talento em viver não produz gestos
grandes,
pequena agitação entre as ondas
como a simular um presságio.
Meu vizinho idoso lendo o jornal,
a animação dos pedreiros na obra,
o jovem encantado com as mãos da namorada
entre as suas.
O talento em viver está, eu pressinto,talvez nessas coisas,
se sabemos deixá-las passar
ondas lindas, porém sem propósito,
arabescos humanos na superfície do mar.