quarta-feira, setembro 23, 2009


Poema - Charles Bukowiski

Uma breve reflexão sobre a democratização da arte.
é muito fácil parecer moderno
enquanto se é o maior idiota jamais nascido;
eu sei; eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas;
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou-
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim-
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando a saída- portanto saia logo
e desista das
poucas preciosas
páginas.

terça-feira, setembro 22, 2009

O relacionamento de Krishnamurti II

O banal é nossa vida. O prosaico é onde residimos. As sensações são a substância de nosso entendimento. Ansiar por algo mais do que isso talvez seja algo bem próximo de uma violência contra si-mesmo, mas é claro que eu posso estar enganado. Meus dias finitos, meus temores noturnos, a memória das dores, a voracidade das paixões, os acasos dos encontros: este são os campos onde colho a mim mesmo. Talvez eu ainda me imponha padrões e apenas por isso o arrependimento me encontre nas esquinas do depois. Mas isso não quer dizer nada. Uma falsa cobrança não sanciona uma punição ao presumido devedor. No entanto isso não implica que não seja possível a dor pela ilusão da regra engendrada por nossa insegurança. Estar vivo, como um indivíduo de carne e ossso, movido pelas mesmas forças que movem os outros corpos...Ninguém escapa a isso e Krishnamurti não foi uma excessão.
Agora mesmo bilhões de seres humanos erguem outras tantas instâncias onde esperam evadir-se da incerteza que caracteriza o percurso. A carreira, a igreja, o casamento, a inteligência: fortalezas levantadas contra a condição de estar e todos nós apenas estamos, não existe o SER.
Por tudo isso permaneço contingente. Por tudo isso transito ignorado. Krishnamurti me deu uma ultima lição: Aprendi que sou e posso ser apenas um homem, e que nada do homem me é estranho.

"Eu sou o Incriado de Deus, o que não teve a sua alma e semelhança
Eu sou o que surgiu da terra e a quem não coube outra dor senão a terra
Eu sou a carne louca que freme ante a adolescência impúbere e explode sobre a imagem criada
Eu sou o demônio do bem e o destinado do mal mas eu nada sou."

Vinicius de Morais

segunda-feira, setembro 21, 2009

Judeu errante - Vinicius de Moraes



Como se sabe o Judeu errante é um mito Israelita sobre um homem que foi condenado a vagar sem morrer até o dia do Juizo final. Tornado símbolo do romantismo essa figura chamada AHASVERUS está presente em poemas de Castro Alves, Augusto dos Anjos, Álvares de Azevedo e na prosa de Machado de Assis. O judeu errante é o cético inadaptado, eleito para uma vida longa e sábia, mas condenado a incompreensão e isolamento.

Hei de seguir eternamente a estrada
Que há tanto tempo venho já seguindo
Sem me importar com a noite que vem vindo
Como uma pavorosa alma penada.

Sem fé na redenção, sem crença em nada
Fugitivo que a dor vem perseguindo
Busco eu também a paz onde, sorrindo
Será também minha alma uma alvorada.

Onde é ela? Talvez nem mesmo exista...
Ninguém sabe onde fica... Certo, dista
Muitas e muitas léguas de caminho…

Não importa. O que importa é ir em fora
Pela ilusão de procurar a aurora
Sofrendo a dor de caminhar sozinho.

O relacionamento de Krishnamurti

Não sei porque escrevo tópicos tão longos se sei que ninguém lê textos em blogs com mais de quatro linhas. Talvez seja uma forma de conversar comigo mesmo. Um narcisismo insuperável como alguém observou.Todavia, devemos insistir em nossas idiossincrásias ou não poderemos justifica-las mais adiante. Gastei alguns bons anos de minha vida estudando assuntos religiosos. De Tomás de Aquino ao Budismo eu transitei entre muitas das diversas opções de religiosidade disponíveis em nosso mercado global. Tinha acesso a esses livros através de bibliotecas publicas e centros espiritas. Não dispunha de dinheiro, roupas ou meios de transporte para viver as experiências sugeridas por essas religiões para além do que elas podiam oferecer em forma de textos, mas mesmo assim fui bem longe. Espiritismo, Teosofia, ocultismo e alguns autores como Huberto Rohden que tentam fazer uma miscelânea de filosofia oriental e teologia ocidental, Magia, Ufologia e muitas outras propostas de sucesso existencial de baixo custo.Durante essa época minha vida pessoal era bastante turbulenta, não vou falar disso aqui, meus contos dão uma breve noção do que estou dizendo. Fato é que as contradições filosóficas e práticas em relação ao pressuposto básico que norteava essas aventuras intelectuais foram se acumulando de tal maneira que numa certa altura elas se tornaram, em bloco, absurdas para mim. É de Nietzsche a afirmação de que Deus é uma hipótese que ninguém pode beber sem se afogar. Acho que estive bem perto do afogamento, e após conseguir arribar a uma praia procurei conservar uma atitude de indiferênça em relação a quaisquer credos religiosos. Em outro momento explicarei isso melhor (se tiver paciência).
Todavia, nessas andanças conheci um sujeito chamado Krishnamurti. Dentre os sábios cheios de resposta a maioria das perguntas Krishnamurti destacava-se por apenas perguntar, e deixar que cada um encontrasse a sua resposta. É claro que ele partia de alguns pressupostos que filosófos treinados jamais admitiriam, mais isso não importava. Sua liberdade, originalidade e autenticidade superavam qualquer limitação argumentativa que pudesse ser apontada pelos devotos do conceito e da razão ocidental. Krishnamurti foi a preciosa peróla que eu trouxe de meu quase afogamento experimental. Essa peróla me ajudou e eu a interpretava como um convite a crença em mim, na minha solidão e sinceridade silenciosa. Mas um dia eu descobri que Krishnamurti tivera um relacionamento sexual com uma mulher que era esposa de um amigo.
No primeiro momento isso me chocou. A ultima expectativa de auto-realização supra-sensivel de desfazia, ou pelo menos, era colocada sob uma atroz suspeita.
Mas eu reponderei. Talvez a humanidade de Krishnamurti, seu amor por uma mulher de carne e osso, e ainda mais, um amor que contrariava os vínculos arbitrários criados pelos homens nada mais fosse que a sinalização do que entendi de suas palestras: não existem faróis para nos guiar, nem normas que não sejam aquelas que encontramos sozinhos. Falando filosoficamente talvez a descoberta sobre o caso de Krishnamurti tenha, ao invés de apagar a esperança de atingir o transcendente, me dado a dimensão exata do valor e inocência do natural, sensível e prosaico.

domingo, setembro 20, 2009

Consideração sobre a tempestade.

Quando considero a casa onde nasci
E os abraços onde me guardei brevemente
Recobro um sentido perdido
E uma asa de instante sem tempo.
Eu espero e escrevo
Como esperei e escrevi tantas vezes
E meu percurso é mais um exemplo da chama
Que consome e alimenta a história.
Nos buscamos e nos evitamos
Oscilamos sedentos com foices para aniquilar o
Espectro
Atingindo a face de outros
Dizimando milhares auroras
Esmagando sob os pés horizontes.
E pasmo eu também dou meus golpes
E sedento eu sorvo essa lama
Para acalentar a rota perdida
E naufragar no deserto da vida.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Para refletir sobre força e fraqueza

Há quem diga que a pobreza produz virtude. Há quem diga que o sofrimento torna as pessoas melhores. Eu discordo. A dor não gera nada senão mais dor, e a pobreza por si só não diz nada, depende de quem passa por ela. É verdade que quem leva a vida com muitas facilidades geralmente acaba tornando-se relaxado. Nisso as pessoas não são diferentes dos animais. A facilidade de sobreviver atrofia as faculdades combativas mas as difuldades excessivas torna-nos neuróticos, auto-complacentes e descuidados. Força ponderada é o 1º requisito da capacidade da confiabilidade.Os menores animais são os mais perigosos. Os ricos geralmente não tem nada senão o dinheiro mas os miseráveis possuem mil e uma estratégias para conseguir aquilo que a sorte, ou a tolicie lhes negou. As vezes estas estratégias nem são conscientes. O sistema auto-regulador do prazer destas pessoas aciona comportamentos cegos dos quais eles(ou elas) nem se dão conta. Conheço um sujeito muito dependente da mulher que toda semana afirmava que iria se separar,e nessa semana ficava doente.

domingo, setembro 13, 2009

No fio da navalha

Terminei aquele dia analisando um conto de terror que não colocaria medo nem em uma criança. Saí da redação esgotado, desejando ardentemente chegar em casa, tirar os sapatos e beber uma geladissima cerveja. Sim ,pois apesar dos males conhecidos do álcool existem males ignorados que solicitam o seu recurso gelado e cego recurso . Os males antigos e sem nome e os males recentes e com nome, olhos lindos e um corpo de estalar o espírito. Estes últimos me afligem muito mais. Aflige-me a perspectiva da dor. Aflige-me a infidelidade possível de quem sei atrair outros homens. Sobretudo, no entanto, afligi-me a expectativa do encontro. Dei a volta no prédio e peguei o carro. NA rua todos tentavam ser bem sucedidos e ninguém admitia ser ultrapassado. A linha do oceano acompanhava o vidro lateral do meu carro. Ao chegar e minha caótica casa eu sabia que iria novamente afundar lentamente na desconfiança, na embriagues e no auto-erotismo com o qual satisfazia o meu corpo da ausência do dela. E ela? Onde estaria agora? Provavelmente em casa, vivendo sua vida oficial enquanto eu, o seu amor ilícito apodrecia em minha fome esperando que ela me viesse alimentar. Eu também sou como aqueles fracassados que sonhavam em ser escritores. Eu apenas tentava amar, apenas tentava, sabendo que não conseguiria.
Cheguei em minha casa. Abri a porta e o cheiro de comida estragada me recebeu. Algumas contas sob a assoalho. Tudo muito feio e normal .Fiquei de cuecas, e sentado no sofá, liguei para o celular dela. Caixa postal. O pensamento viajou e eu me senti mal duplamente. Mal pela dor moral da perspectiva do engano e mal por saber que nada me dava o direito de recriminar o gozo alheio. Remoi o meu rancor e abri uma cerveja. Também acendi um cigarro. Sentei no sofá e cochilei algum tempo. Ao acordar a primeira coisa que fiz foi olhar o relógio. Duas horas depois do horário marcado ela ainda não tinha chegado. O pensamento mais uma vez saiu do controle. Ia ligar novamente quando a campanhia tocou. AO abrir a porta com a mão ainda meio estremecida seu perfume me invadiu as narinas. A arrebatei entre meus braços enquanto sugava sua boca, tomava um dos seios em minha mão e com o pé esquedo fechava a porta. Fechava a porta atrás de toda agonia vivída, fechava a porta a qualquer tipo de bom senso.

sexta-feira, setembro 11, 2009

Viabilidade (Trecho I)

A montanha de textos ergue-se sob a minha mesa. O trabalho parece infindo. Afastei-me por dois dias alegando dores abdominais e agora preciso encarar todo serviço acumulado. Uma babel de pseudo-literaturas, poesia barata, artigos tolos e todo o tipo de porcaria. Todos querendo ser publicados. Todos querendo ser vistos. E Cabia a mim dizer não ou sim a cada uma destas pretensões, não por reconhecer que têm talento, mas apenas por considerar que se poderia vendê-las ou não.
-Bom dia seu Oliveira! Melhorou do fígado?
O ofice-boy passa por mim e pergunta com desdém, eles sabem que meu fígado não é o problema, o meu problema real é a bebida e fazem piadas sobre isso nos intervalos. Todavia, eles mal sabem o quanto estão enganados. A bebida é tão somente um sintoma, meu único problema verdadeiro é o medo. Aliás não só o meu, mas o de todos nós eu acho. O medo leva as pessoas a casarem, terem filhos, adorar a Deus, revoltarem-se ou no auge de todo temor se tornarem escritoras. Sim, o medo. Ficaria uma tese ontológica formidável: "O medo como substrato e thelos da consciência de si". Mais seria só mais uma forma de tentar escapar ao medo.
Bom, não adianta ficar divagando. O trabalho exige urgência. Só preguiçosos e ricos podem dar-se ao luxo da divagação. Coloquei a mão na massa. O primeiro material da pilha era um resumo sobre um romance. falava sobre um relacionamento amoroso interrompido por uma morte trágica. O namorado tinha morrido em um acidente de carro e a garota se isolava em uma ilha deserta onde vivia estranhas experiências extra sensoriais. Me pareceu uma porcaria. A forma de usar a linguagem era óbvia, o tema era apenas um apelo espiritualista superficial conjugado com uma concepção muito tradicional de afeto. todavia, era exatamente isso que as senhoras estavam comprando atualmente. Coloquei o selo de OK em cima do texto e o empilhei na bandeja: Para entrevista.
O próximo texto era sobre um jovem muito tímido e anti social que refugiara-se no mundo dos livros e que cultivava um certo desdém em relação as pessoas. Não havia um único dialogo na trama. O jovem se apaixonava, mas não dizia isso para a garota. Ele pensava nela "abstractamente". O jovem se achava um fracassado, mas com certeza achava as outras pessoas bem mais fracassadas que ele. O jovem não dizia mas achava que era um gênio. O jovem também associava o sexo a pulsões animais e vergonhosas. Devido a isso ele também não conseguia amar as mulheres que a ele se ofereciam carnalmente. Para ele estas eram apenas maquinas de sexo. Coisas para serem usadas. Sujeito doente, eu pensei. Me veio a cabeça alguns conhecidos que pensavam exatamente daquela maneira. Isso, eu creio, talvez até venda. Tem muito mais gente doente como esse sujeito. Por outro lado, eu pensei, quem pensa dessa maneira já tem Baudelaire, Albino Forjaz e Schopenhauer para os divertir. Não, é inviavel comercialmente, concluí. E ademais, também não gosto desse pessoal pretencioso que acha que pode lançar na lama tudo que as outras pessoas aspiram e amam, só porque eles leram um ou dois livros. Coloquei o selo vermelho escrito NÃO sobre o texto e o enviei para a bandeja: Inviável.

quinta-feira, setembro 10, 2009

A suspeita Parte I

Luciana debatia-se com a tarefas do seu lar. Tinha acordado cedo, levado os flhos para a escola, a preparado o almoço. Todavia, todo seu esforço para manter a casa em ordem até a chegada do seu marido tinha sido em vão; mais uma vez ele iria almoçar na rua. Seu coração premeditava alguma traição do Arnaldo, embora durante todos os anos de convivência ele sempre tenha se mostrado atencioso, afável e companheiro. "Afavel até demais". Ela pensou. Não seria isso também um sinal de traição? Essa dúvida lhe corroia as entranhas há meses. Como saber? Já revirara seus bolsos, carteira e até havia conseguido a senha do email de Arnaldo, mas nada de conclusivo. Apenas combustível para novas suspeitas. Perdia-se assim nessa diagações quando alguém lhe bateu a porta. Lavava os produtos do almoço e imaginou tratar-se de mais um vendedor que vinha lhe oferecer algum produto inutil para os seus propósitos. Qual foi sua supresa ao deparar-se com um sujeito muito elegante, vestido em um terno preto, de óculos escuros e com o cabelo penteado para trás.

-Boa tarde- Ele disse.
-Boa tarde- Ela respondeu desconfiada.
-Sou um prepresentante, e vim fazer-lhe uma irrecúsável proposta.
-Olha moço não estou interessada em comprar nada.
-Nem eu em vender senhora. Trata-se de algo muito mais sério e interessante- Falou isso como um tom jocoso, com um sorriso dissimulado que deixou a dona de casa apreensiva.
- Se o senhor é da policia....
-Nada disso - O homem de terno a imterrompeu continuou- Venho lhe fazer uma proposta. Trago comigo dois envelopes. Em um deles a senhora terá a resposta para todas as perguntas que for capaz de formular antes de abri-lo. No outro a senhora irá descobrir como ser feliz e ter uma vida tranquila. Todavia, devo lhe lembrar: ao abrir o envelope das respostas e outro automaticamente terá seu conteúdo convertido em uma página em branco.
-Olha se isso é algum tipo de brincadeira....
-Não é brincadeira alguma, nem lhe custará nada. Aqui estão os envelopes.

Estendeu os dois envelopes pardos na direção de Luciana que ainda atônita os segurou com incerteza. Em seguida o homem deu-lhe as costas e saiu. Luciana continuou parada olhando-o sumir-se na esquina. Ao se recobrar do susto o sistema corretivo de seu entendimento rapidamente a convenceu de que se tratava de uma brincadeira. Certamente uma piada de algum amigo ou parente. Isso não evitou que ela sentisse uma súbita compulsão para abrir os envelopes. Mas...E se ele estivesse falando a verdade? Seria Terrivel se ela perdesse a maior chance de sua vida. Mas, qual seria essa chance? Saber a verdade ou ser feliz?

(continua)

terça-feira, setembro 08, 2009

Fantasias

Nunca mais ouvi falar a respeito dela. Acho que cansou-se das minhas inconstâncias, ausências e queixas ou quem sabe era o meu desempenho físico que já não a satisfazia. Mas não cabe culpar, só posso acha-la muito razoável, não importa o motivo. Existem tantas carências a determinar nossas escolhas que não posso recriminar nenhum dos possíveis motivos femininos. Tampouco posso dizer que é como se nada tivesse acontecido. Coloco-me diante das coisas com a sensação da destruição iminente. Tudo para mim é urgente e intenso. Não sei lidar com leveza e despreocupação. Em cada jogada aposto todas as fichas e isso me atrapalha, tanto por me deixar sem cachê para outras apostas importantes quanto porque isso me deixa realmente esgotado. Saí de casa a noite para espairecer as ideias. O senhorio deu o ultimato de desocupação do imóvel. Meu ultimo salário desemprego acabaria dentro de uns dois ou três dias. A chance de eu conseguir ganhar alguns trocados com o que escrevia era também muito remota. Ao contrário do que Genet, Bukowiski ou Artaud diziam não existe nenhum charme em ser um vagabundo incompetente para o sucesso social. Se tal sucesso dependesse de algum tipo de doença eu a contrairia com a máximo prazer.
Vi uma placa flutuando na escuridão anunciando algum tipo de emprego. Me aproximei e vi que se tratava de um pequeno pub, destes que a rapaziada descolada usa para divertir-se em grupo. Com as roupas desgastadas que eu estava usando certamente seria enxotado a pontapés caso resolvesse frequentar um lugar assim. Tudo era pintado de preto. A decoração era em estilo gótico, ou coisa parecida, o pessoal lá dentro cultuava a morte. Quando eu era muito mais jovem eu tinha a impressão de que viveria bem pouco. A morte para mim sempre esteve por perto. Não que eu fosse portador de alguma patologia terminal, mas eu tinha aquela inclinação bem romântica de que uma vida longa não fazia muito sentido. É claro que isso foi superado, até certo ponto pelo menos. Entre as indas e vindas de meus interesses essas inclinações também foram dividindo lugar com outras formas de lidar comigo mesmo. Uma certa forma de insegurança me levava a não querer estabelecer raízes definitivas em nada. Eu poderia dizer que minha vida e infância levou-me a isso como já fiz em outros textos. Não quero fazer isso agora. Lido melhor com a morte e com a vida hoje. Logo, esses guris trepando com tudo e com todos e cultuando a morte me pareciam algo bastante cômico, mas eu precisava de trabalho.
Me aproximei da recepção onde um segurança imenso recepcionava os convidados. Antes que eu pudesse abrir a boca ele me lançou um destrutivo olhar de desprezo.
-EU gostaria de me candidatar a vaga.-Eu disse.
Sem se dar ao trabalho de me dirigir uma palavra ele acenou desdenhosamente em minha direção pedindo que eu aguardasse. Fiquei ao lado da entrada fumando um cigarro e vendo aquela meninada criada a leite-com-pêra transitar de um lado para o outro fantasiada de roupas pretas, adereços prateados e maquiagem escura ao redor dos olhos. Não sabiam o que lhes faltava , não queriam saber o que lhes faltava , não queriam ter o que lhes faltava simplesmente porque precisavam acreditar que absolutamente tudo lhes faltava.
-Preencha essa ficha. - Disse o brutamontes ao (após meia hora) estender o pedaço de papel em minha direção. A ficha de candidatura a vaga solicitava dados como nome, endereço, idade etc. Um dos campos também perguntava: "aceita trabalhar fantasiado". Marquei o sim. Afinal de contas que diferença fazia? Não é isso que fazemos em qualquer trabalho?
Comecei a trabalhar na segunda. Eu era garçom e servia os drinks para a rapaziada gótica. As bebidas tinham nomes esquisitos tipo, Maria sangrenta, cabeça arrancada e coisas assim. A musica era horrivel. Faltava coragem, brio ou um desespero honesto. A pior parte era minha roupa. Eu trabalhava vestido com uma capa preta, uma gravata vermelha e uma peruca espetada. Me sentia ridículo como quando era obrigado a frequentar as igrejas protestantes do subúrbio para conseguir um beijo das garotinhas religiosas. Ao sair do trabalho estava moído física e psicologicamente, vocês não podem imaginar como aquela garotada bebia. Para chegar no ponto de ônibus eu tinha que passar por outros barzinhos onde um pessoal mais adulto procurava diversão. Numa destas passagens eu a vi novamente. Ela estava lá, sentada com um sujeito que, com certeza, não tinha que se vestir de palhaço para ganhar a vida. Muito sorridente e tranquilo, com aquele tipo de masculinidade óbvia no rosto que não deixa ninguém duvidar de que existe um caminho pronto para ele. Ela fingiu não me ver, menina esperta. Eu não consegui repreender um sorriso. De fato, apenas eu é que precisava vestir a fantasia para sobreviver, eles não precisavam, traziam uma de berço.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Efeito Suspensivo.

A cabeça anda partida. Sem muito ânimo para escrever, espero estar melhor amanhã. A palavra "problema" é muito vaga, nem sempre se basta. Todo mundo tem alguma teoria para se explicar, para trazer a luz o próprio sentido. Estou sem nenhuma agora. Até aceitaria se pudesses me emprestar alguma das suas. Prometo que devolvo amanhã.

domingo, setembro 06, 2009

No verão de 82

No verão de 82 meu avô não se sentiu muito bem,
e minha mãe dormia com comprimidos.
EU não fui a escola no verão de 82
pois faltavam livros e planos para nortear
meu conflito.
Eram fartas as lições de moral
e escassos os cuidados humanos
e eu crescia na umidade escura dos dias
como um feijão que brota da queda.
No verão de 82 eu não tinha amigos.
no verão de 82 eu escrevia poemas,
no verão de 82 os dedos me apontavam
e eu era a piada mais divertida da rua.
As passagens da noite eram muito frias
e eu tecia paraísos e fantasias
onde exercitava impotência.
No verão de 82 ninguém se importava
tudo estava mergulhado no caos de acidentes
sem fotografias para registrar a inércia.
No verão de 82 estão as longas raízes
estão as premissas de mim,
as razões de meus tolos amores
e dessa agonia sem fim.

sábado, setembro 05, 2009

Hipótese de mim

Soltaram-se de mim as plenas palavras
de mim se soltaram as luzes
claras,
restando somente poucas flores esparsas
apenas ervas danihas e farpas.


Precisarias de uma alma mais terna
para aproximar-se da colheita de mim.

Sobre a privação

Não seriam nuvens nem ruas,
sem a confirmação dos olhares,
sem o reconhecimento impresso
na retina de nossa emoção.
Sem essa sensação de derrota
não seria a despedida
a divisão entre dois momentos
que aniquilou minha fé.
Pelo teu olho de oceano
eu sustentaria o combate,
pela inquietação do teu ser
eu reverteria a dor
reverteria o instante afoito
condensaria nossa utopia
num gesto,
sem aquela tarde de adeus
eu seria um pouco mais EU.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Os diários existenciais (fragmento)

Deixei meus dedos correrem sem direção pelo corpo dela quente até que nua entorpecida se entregasse. Sorvi sua essência quente. Provei do seu gosto salgado. Esperei que estivesse estremecendo em convulsões alucinadas, para saber como um homem de verdade faz, acostumada que estava aos imberbes rapazotes da graduação. Contorceu-se enquanto caiam por terra todos os pudores e somente então a invadi com um gesto forte e firme. Até o fundo.
Ela gozou por todo corpo apresentando com uma evidência irrefutável da minha confirmação.
Eu quis levar adiante, apesar de não oferecer muitas opções de viabilidade social. Desempregado, com filhos e completamente envolvido em uma regularidade afetiva com outra pessoa que não pretendia abandonar. Mas saquei que algo tinha mudado quando o telefone dela ficou ocupado o dia inteiro e o meu não tocou de forma alguma. Mandei vários e-mail’s desesperados e rancorosos. Esgotei minha amargura com uma interlocutora que não respondia. Talvez eu tenha exagerado. Já fiz isso muitas outras vezes e por muito menos também. Eu tinha uma mulher, uma filha, a necessidade material para me preocupar, não deveria gastar tanta energia com o sexo aleatório. Mas gastava e para mim não era só isso. Nunca é. Tinha sido um lance incrível, com nossos corpos sedentos chegando lá, Baudelaire no pé do ouvido, Beatles, blues e Pink floyd com um vermelho por do sol... Mas ela tinha razão,e eu sabia. O tempo todo elas sempre tem razão...Só o derrotado romantiza a derrota lhe emprestando ares de grandeza. Mas quem faz isso sabe que engana a si mesmo...eu sabia. Ela tinha caído fora...e as pontas de cigarro espalhadas pelo quarto,as garrafas de vinho, baíra e conhaque dançavam uma valsa insana ao redor de minha cabeça...Velho fudido. Maquiavél de subúrbio, Sartre de favela, ultima palavra na boca moribunda do futuro, e no fundo, mas no fundo, bem no fundo eu permanecia o brilho cristalino de uma inocência singular.

domingo, agosto 30, 2009

Sobre a falta que faz.

Conflito contraditório no ser
de amar, de não poder
apertar o ser amado entre os braços.
A ansia de se dar é vencida
pelos fluxos antigos da vida
pelos muros que separam os espaços.

E o lábio, a pele a o peito
inquietos se agitam sozinhos
buscando o suave carinho
de quem conduz o desejo.

O desejo de se dar, é etermo
ultrpassa a finitude do tempo
nas asas da sua imagem, menina
é que voa o meu pensamento

quinta-feira, agosto 27, 2009

Bolero da suspeita.

Ontem eu dancei com uma linda aurora,
hoje eu me debruço sobre uma tormenta
escura
e por isso os céus se fecham como um punho ensandecido,
por isso as folhas se despedem com os lábios ressecados.
Ontem eu ouvi uma canção, hoje minhas camisas estão
amarrotadas
estão enlameadas por boatos, por resinas, por propósitos
suspeitos
e eu ainda não consegui me redimir perante o olho da plateia.
Pela estrada arrastei outros comigo,
foi uma tentativa vã e eu aboli as cercas
que separavam os girassois das contradições
insuperaveis.
Uma moeda para a caixa, um silêncio para o breve sucumbir
sem saudações para contornar rancores,
sem palavras para confirmar presságios.

quinta-feira, agosto 20, 2009

As possibilidades de Soraia.

Soraia refletia sozinha enquanto saia do trabalho cansada em direção a sua casa. O celular tocava insistente em sua bolsa e ela ignorava o som irritante porque mais irritante ainda seria atendê-lo. Ela sabia, que do outro lado da linha lhe aguardava a voz outrora tão agradável de Rafael, voz essa que agora lhe lembrava o sabor caracteristico de um purgante. Porque os homens eram tão previsíveis era algo que ela não conseguia entender. Primeiro apresentá-la aos amigos, depois pedi-la em casamento e finalmente planejar as crianças. Isso quando não tentavam através de algum estúpido artificio engravidá-la pedindo para não usar camisinha. A rua não estava muito movimentada e o trânsito relativamente tranquilo lhe permitia refletir enquanto dirigia, fumava um cigarro e ouvia Marvin Gave. Pior que essa sede de família do Rafael era a fissura dele e de todos os outros homens pela fidelidade. Talvez saudades do colo materno, ou sentimento de culpa por não terem sido cristãos como seus pais e avós, ela não sabia. Achava muito estúpida a exigência da exclusividade corporéa como condição sine qua non da virtude feminina. Soraia, todavia, não se importava muito com isso. Se eles a obrigavam a mentir exigindo-lhe uma renuncia que ela julgava particularmente estúpida, tudo bem. Havia um preço a pagar, ela sabia disso, via em suas amigas padronizadas e homogêneamente fieis um tipo de estabilidade que ela não tinha, e as vez invejava. Mas sua sua vida era breve, sua juventude também. Logo tornaria-se uma anciã a realizar-se com bazares beneficentes, causas sociais e roupas de tricor para os netos, se os tivesse, claro. Não, ela não iria desperdiçar os seus anos depositando-os aos pés de um homem erigido em divindade. Queria fruir os momentos , sorver a polpa das horas, talvez até por um tempo relativamente longo com um único homem, mas não gostaria de fechar-se para outras oportunidades. Ela parou no sinal. A rua ladeava a praia e o final da tarde parecia-lhe muito bonito. Resolveu estacionar e toamar uma cerveja. No bar voltado para o poente um rapaz muito bonito parecia muito concentrado lendo um livro. Ela sentou-se na mesa em sua frente. A tarde oferecia interessantes possibilidades.

quarta-feira, agosto 19, 2009

êxtases

A labareda das horas consumia os granitos. Eu tive o corpo dela se contorcendo em meus braços e hoje é até dificil de acreditar. O momento é fugaz, o prazer nos escapa, mas subimos as escadas do hotel em uma tarde linda de transgressão e poesia onde tudo seguia com naturalidade. Existem pessoas que não acreditam, existem aquelas que só apostam em seus temores retraindo-se ao quarto cinzento para desfrutar da calmaria opaca, recoberta pela poeira dourada de uma velha virtude. Nós não éramos assim.
Dois animais de fogo voando no céu perigoso da entrega sem certezas. Almoçamos com naturalidade. Ela me falou um pouco da marca cega do passado que lançava uma sombra cinza em seu olho de oceano. Eu lhe retribui falando também um pouco do meu trajeto escuro pela sombra e pela luz. Rimos de outras coisas menos sérias. Nossas mãos deslizaram magnétizadas até convergir. A onda louca começou a erguer-se do meu peito como um grito ancestral que bramia na furia de um milhão de ondas. Eu a despi com gestos e lhe beijei os lábios com minha boca sedenta. A luminosidade das nossas sensações irrompeu através da fibra de nossos corpos que vibravam de eletricidade em uma violenta dança na busca da redenção. Tomei os seus seios nos lábios, suas coxas me envolveram os quadris, suas mãos apertaram as minhas e eu vi sua pupila em faiscas enquanto invadíamos as fronteiras da eternidade.
Ela tinha o corpo quente e um jeito sutil de entrega. Ela arfava tão frágil sob minhas penetrações invasoras e no entanto sua força enchia o quarto do extâse das tempestades. Meu suor ao dela se misturou, minha mente rememorava outros mundos onde juntos atravessamos desertos imensos, onde a asa da dor nos atingiu abraçados, onde partilhamos estradas que as palavras não ousam submeter. A musica dos movimentos cresceu elevando-se do fundo silencioso de nosso espírito até a corrente de luz romper-se em gozo...O gozo implosivo das constelações em um eterno momento onde tudo era paz.
Tomamos banho felizes e a tarde findou com o ruido do vento nas folhas das amendoeiras e o burburinho da tarde em direção ao crepúsculo. A distância esgueirou-se por entre as dobras do tempo carregando nos ombros a fuligem das convenções que terminaram por sepultar aquela nossa magia. O granito indiferente digeriu nossa chama e o óbvio consumou-se novamente.
,

J Krishnamurti - Uma outra visão sobre o amor.

Mas, se desejais continuar a descobrir, vereis que o medo, não é amor, a dependência não é amor, o ciúme não é amor, a posse e o domínio não são amor, responsabilidade e dever não são amor, autocompaixão não é amor, a agonia de não ser amado não é amor, que o amor não é o oposto do ódio, como também a humildade não é o oposto da vaidade. Dessarte, se fordes capaz de eliminar tudo isso, não à força, porém lavando-o assim como a chuva fina lava a poeira de muitos dias depositada numa folha, então, talvez, encontrareis aquela flor peregrina que o homem sempre buscou sequiosamente.
J. Krishnamurti

Apenas porque tu me faltas

Talvez a paixão seja um engano,
talvez não tenhamos um norte
e a mão da alegria carregue apenas poeira.
Talvez as flores se lamentem
e noites escuras me aguardem para
o arrependimento vergonhoso.
Mas apenas cogito isso tudo
porque me falta a alada presença
e seu corpo infinito para redimir minha chaga.
O perfil inexato e a trama confusa do anseio
que brota do meu coração e morre
nas mãos de femininos caprichos.
Talvez recuar para a segurança
e renunciar aos pomares suspeitos
onde soberana passeias sem mim
até que humilde eu receba teu riso.
Talvez destruir e seguir,
talvez gozar e sentir
arrancando asas de um beija-flor
para saciar essa nossa sede de vida.

terça-feira, agosto 11, 2009

Guilhotina das estrelas.

Mulher,
Agora certamente me detestas
Certamente a poeira de fogo que recebo no meu peito
vem do teu lábio ferido pelas minhas asas de falcão
estraçalhado.
Certamente te responderão as coisas imóveis,
certamente os padres te responderão
na época da chuva
e terás o caminho atapetado pela chaga pulsante
e escondida que sussurrará volúpia
aos ouvidos da vossa aflição
e Justificada estarás pela memória suave dos seus mortos.
Mulher,
Certamente há algum tempo desejarias um outro EU
amarias os meus animais e acalentarias um cacto florido
não fosse a gravidade obscura da estrada que nutriu essas mãos
gordurosas de assassino.
Tua dor encontra-se redimida
pois a florida lâmina da lua
também guilhotinou o meu coração
de mentiroso.
Vejo entretanto para além dessas mazelas
um dia em que não haverão trincheiras
um dia em que talvez inteiros não exigiremos
passaportes nem registros
e envolveremos nossas mãos e as mãos de outros
na compreensão imediata de um cristalino afeto.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Silêncio noturno.

Eu procurei em vão a proposição mais firme
e urrei na noite por uma realidade diferente
eu era a proa do naufrágio e o timoneiro da ultima nave
estelar,
que se destinava a teus olhos femininos e a sede da ressureição
e do contato.
Era o corpo e a fome do encontro,
era a vida nova que me reclamava das entranhas
eram os lugares verdejantes,
as pradarias do infinito,
e os poemas não escritos para uma nova raça que viria.
O vôo inconstante de uma borboleta
sob brilho matutino de um rapaz apaixonado.
Eram as raízes tenras do determinismo
contra uma multidão de espaços e silêncios frios
como tumbas de concreto que engoliam poesias.
E as poesias eram engolidas por tumbas de silêncio frio.
No entanto haviam ainda os nossos corpos,
que lutaram na batalha vespertina contra as certezas
e as conspirações.
Havia o teu segredo silencioso,
tuas fantasias e aventuras,
teu gozo afirmativo que se rebelava contra qualquer forma
de poder,
havia o bosque esvoaçante,
o jardim dos cantos,
e o fruto eventual que brota do momento
Para adoçar meus lábios de poeta com a ultima palavra
e enternecer a minha alma alada para a dolorosa espera.

Divagando.

Não sei onde as sensações me conduzem, também não sei responder a pergunta do Tiago sobre a diferença entre o conto e o verso livre. Creio que existem pessoas convictas para as quais falar algo com segurança, traçar a linha e saber para onde se vai é fundamental. Eu já falei com convicção. Já afirmei certezas sobre o Tao-Te-King, Os vedas, kardec e Nietszche. Minhas convicções hoje tem uma vida curta e instável como o nivel da marés. Acredito que naturalizei-me terrestre mas ainda visito a minha patria materna das frases convictas. Mesmo minha filha disse-me outro dia achar a vida parecida com um sonho. Esses brilhos da infância que as reinvidicações do corpo se ocuparão de substituir pela diversidade das pulsões sensiveis. Surgimos na vida como no meio de um oceano imenso no qual navegam diversas embarcações. As pessoas se ocupam de procurar aquelas que julgam melhor equipadas para sobreviver as ondas que vêem, as que suspeitam, e as que viveram. Algumas outras mais sensiveis à variedade das barcaças e ao ritmo inconstante do oceano recusam-se a vincular-se definitivamente a qualquer tripulação. Estes são os "nômades" do pensamento, os naturalizados do oceano. Apesar das turbulências das marés estes piratas aprenderam a encontrar beleza por trás da destruição geral das ondas. Recusam-se a promessa daquilo que não compreendem. "Reino dos céus" que nome vago "Evolução" que má compreensão do tempo, "Fidelidade" Que peversão do sentido livre da palavra amor.
Também não concordo com o Guerra em dividir as apreciações em ambitos duais, e estabelecer fronteiras rigidas em relação às possibilidades de nossas relações. Ele entenderá. Quero estar imcompleto em tudo, em quase tudo ou melhor: Quero sorver com doçura cada gota de experiência de minha finitude.

domingo, agosto 09, 2009

Sincronicidade

Da estrutura casual dos fazeres
brotou uma clareira de luz
Um espaço arbitrário de paz
entrelaçado a coincidências eternas.
Percebeste meu gesto de queda?
Amparaste meu desejo inflamado?
Ou as nuvens do esquecido conduziram
caminhos e nos levaram
um ao outro?
do De onde vieste?
De que substância és feita?
porque teu semblante me perturba os sonhos
e me torna incapaz de esquecer?
Me arrasta como uma torrente,
como uma onda de sensações
Que saem da boca cândida da poesia
para o coração incontrolável do amor.

quarta-feira, agosto 05, 2009

Momento azul.


Minhas mãos soltas e
Alucinadas
Os Beijos transversais na mão da tempestade e afago acidental,
na guerra inevitável de nossas sensações.
Furioso eu lhe abraço
do nervo inquieto até
a substância desejante
até a aspiração dos ramos destroçados
na seiva de sua fome natural.
e expiro minha alma pelos poros
com a ponderação corpórea que.
expõe-te em pele para revoltar
a sua timidez.
E teu olhar infinito...
E tua pulsão inquieta de fêmea originária
Que traz no ventre a estrela.
Lamina de minha língua
Fogo da ansiedade sazonal
A verdade de tua vontade invadindo meu rumo
Com a força das chuvas de junho
E a selvageria louca de um milhão de vulcões.
sempre, sempre e sempre
ir ao fundo do fundo
de seu lugar mais profundo
Penetrando com minhas palavras
o lar de sonho e tristeza que
tens guardado no teu coração
flor acalentada e seu prisioneiro
Acidental que canta da janela,
Talvez eu pudesse ser a torre
E o príncipe das veredas
Embutido no passado e no banquete de infinito e de estrela
Que denominamos
E que nos domina no silêncio de nosso cansaço.

terça-feira, agosto 04, 2009

Horizontes

Quem procura por horizontes não poderá evitar tempestades. Não clamo por calmarias, conheço a fado da minha angustia e o signo precoce daquela vontade. Sei que estracalhei muitas roseiras e fui ferido por milhões de flagelos. Os passaros que navegam nos dedos do vento devem possuir, assim penso eu, as suas angustias também. Não vou reduzir-me ao cálculo oportuno nem atirar-em em ímpeto romântico nos braços da destruição. Desejo fruir com alegria e clareza. Se minto é para preservar uma verdade maior, uma verdade que destroçaria os muros de covardias que não me cabe apontar. Permaneço inteiro e de pé. Sedento da seiva do gesto e aberto ao fogo incinerador do acaso. Sou um residente na terra, olhando um horizonte que se desdobra em mistério.

sexta-feira, julho 31, 2009

Carta ao amor faminto.

Hoje eu acordei insano meu amor,
com uma palavra faminta nos meus lábios
e com o sangue tingindo meus olhos de pardal
atormentado.
Será que você não percebeu, meu amor?
Será que não mapeou as mudanças
nem recolheu aquelas impressões obscenas
que rangiam os dentes na tempestade?
Eu envei para ti meus arautos
eu lhe arrebanhei um milhão de palavras
e refiz quase minha própria dor
para apenas iniciar-me nos teus mandamentos.
E eu nem tinha segredos...
E eu nem possuia uma casa...
Meu coração era um filho da sombra
sem era, sem laço e sem lar.
E no entanto tu não vieste...
No entanto não me acenaste...
Me deixaste com a taça em pranto
e a semente do futuro defunta.
Meu amor o que fazer desse laço sem curvatura?
O que eu diria ao carcereiro de me faltar o teu colo?
Como racionalizar com a loucura
quando a erva do sonho falece sem agua, sem luz
e sem solo?

segunda-feira, julho 27, 2009

Queria tanto abrir o peito,
esvaziar o silêncio dos meus ouvidos,
e reter a seiva de um olhar ausente.
Queria tanto libertar meu sonho,
esmagar receios e pulverizar cansaços,
abrir caminhos sem visões de mortos
e ressucitar da vida para o teu abraço.

quarta-feira, julho 22, 2009

Compreensão

Atado ao frio geral do dia que corre
e ao desencontro geral dos corpos
cansados,
Procuro esmeraldas que cantem o que calam
as palavras
e proposições de afeto tecidas para além das promessas.
Palmilho as medidas que nos separam do encontro,
EU me coloco diante do mar com o peito faminto
esperando um rosto que desembarque
em mim.
Um rosto sem máculas, um sorriso sem futuro
colocado diante das coisas
com a disposição da entrega.
Com a polpa da vida rebrilhando ao sol
com os lábios sensiveis à brisa da voz
e a presença de si localizada no beijo.
Procuro esmeraldas que cantem o que calam palavras,
e um horizonte sensível sem promessas nem tempo,
Procuro a clareira para percepção de nós dois
Incendiados nos raios exatos
da compreensão do Amor.

sexta-feira, julho 17, 2009


Apoio

Experimentar sem muitas certezas
e observar os conselhos do temor
Não preciso de amarras muito firmes
me basta o equilibrio que ampara a flor.

quinta-feira, julho 16, 2009

Medida

Não possuir medida,
arrastar as correntes do passado
acalentando paixões ensandecidas
Alma de palhaço e combatente desertado
com a flor brotando da cabeça
para um por do sol sem pranto.

Minhas mãos são dois pêndulos inquietos
perdidos entre metas e projetos
cultivando as lições do leito
e a decepção desatenta da partida
um oceano de questões mal resolvidas
suficientes para entorpecer mil vidas.

segunda-feira, julho 13, 2009


Ela colhia auroras com as mãos
da solidão.
Seu vestido de estrelas e sua boca de outono
acobertava infinitas crises
e terremotos no seu peito.
Ela precisa de um grito...
Ela procurava o nome exato que
daria a sua dor o selo nobre da fatalidade.
Mas ela não encontrou o lirio
e apesar de conhecer o rio e sua direção
deitou-se na orla das coisas congeladas
para ver o seu pássaro morrer.

Convite em vermelho

Meu horizonte poderia não ser
Um imenso abismo,
Com estrelas insensatas e meteoros inquietos
Costurando o espaço frio entre nossos corpos
Sedentos de uma aurora que ainda não chegou.
Nossos caminhos poderiam deixar de ser palmeiras
Agitando-se nas caricias de um temporal que jamais se afasta,
Mergulhando as raízes em nossas vidas atuais,
Frias como a terra, cinzas como o pó,
Isensatas e prudentes como tudo que se passa
No passado.
E o futuro é um largo mar,
Que convida nosssos passos e os nossos medos
Para dançarmos na destruição alegre
Dos muros e das pedras que impedem
O amor.
E o amor é uma palavra ousada que tomba no final,
É a bandeira sustentada pela nossa fome,
Fome de um brilho que se veste do olhar,
De um pedaço de aceno que se consuma no destino
De uma sentença clara calada pelo mêdo.

sexta-feira, julho 10, 2009

O combate das flores

Eu disse para ela: preciso de você. Seu corpo tinha gestos que não consigo traduzir, e eu estava faminto por alguma coisa que ela trazia no olhar. Seu cabelo era brilhante, seus olhos eram misteriosos, seu signo de fogo, sua boca a perdição e a loucura. Seria um encontro contingente,
mais uma frase impressa no texto inacabado de nossas breves vidas. Subimos a escada, abri a porta...Ela estava um pouco tímida. Na rádio do quarto Sexual Healing espalhava ondas de orgone combativo pelo ar. Tomei um banho e deitei-me esperando ela vir preparada para mim, e ela veio. veio sedenta e sorrindo, Vita Brevis, e não era só um corpo. Era substância sensivel, experimentação do agora que tentava evadir-se de si mesma se fundindo com o meu desejo. Ela era o olhar, o gesto, a confirmação e um painel infinito de possibilidades e caminhos. A envolvi com o pulsar de minha musculatura tensa apertando-a, todavia com ternura. Ela me beijou desesperada um beijo amplo, quente e molhado, como a busca pelo ar que caracteriza os afogados. Depois foi a entrega louca, a cópula sensivel, a luta suave de penetração e resitência. Sem plateia, sem pretensão, apenas dois mortais desfrutando e consumindo o tempo que lhes foi dado. Seu seio, suas costas, o arfar irregular se ampliando e retraindo, a progressão lenta do deleite violento em que eu me perdi e ela se perdeu de todas as amarras, de todos os limites, até a explosão selvagem do grito de alegria calado em nossso corações. Um único extâse gozozo. Um único grito arremessado de nossas gargantas de encontro a eternidade. E o jorro quente. E os espasmos incontrolaveis de uma alma que descobriu sua verdade. Descanso e rendição. A porta se abrirá. E os rios nunca mais irão convergir para o mesmo oceano.

quinta-feira, julho 09, 2009

O gato de louça.

As proposições de Minha tristeza
Velam minha vigília
Para que meu ser tenha
Repouso.
Quarto de menino, coração de gaivota
destroçada,
Ponte partida e pão da espera
Para aguardar por nada.
Para aguardar por aquilo que me falta
E Pela dor inevitável
Que sinto por ser gente
Seria eu um tolo?
Um sapato sem canção esperando
O amanhecer?
Um tigre desolado e cercado
Pelo seu rugido
Pelo elo contingente que se cria
Nas circunvoluções
Do sexo.

quarta-feira, julho 08, 2009

Co - Incidências

Como o revoar dos pássaros

ela se foi sem ter marcado,

sem ter esperado para observar

encantos.

Se partiu com a aurora e a magia

levando a primavera

sem deixar as flores.

Ela não quis me conceder

amores,

nem partilhar dos meus temores

que fervilham na escuridão

Ela foi uma ponte no espaço

Uma proposta falida de abraço

Um calor que não chegou a ser vulcão.

Que não chegou a ser delírio

Nem embriaguês, nem gozo, nem vontade

Apenas observações, coincidências

encontros imprevistos nas ruas da cidade.

terça-feira, julho 07, 2009

Saliva da poeira.

Contra as coisas e os intevalos
Eu nada tenho a protestrar
Senão a poeira da memória.
E a gargalhada insana do
asfalto.
Estas mãos que se estendem e
Esse retorno infindavel do abraço.
Para iludir o fardo
E adocicar o passo.
“Minha sentença doce
Onde estará minha sentença?”
E eu levanto minhas mãos para agarrar
o ar.
Meu ramo de hortelã obeserva tantos campos
De delirios penitentes e de afetos tantos
E refresca o lábio rubro que suga-me
ao luar.
Trago um esboço de euforia e uma loucura
Relativa,
Para consumar o leito
Para consumir a vida
E cultivar os meus passos
Na dimensão do entardecer.

Entrega em eco

Para enfeitar teu leito
De estrelas e de luto
Me coloco ante sua decisão.
E se eu não passo pela porta,
Com os olhos deslumbrantes
Se permaneço um estranho,
Observando a sucessão,
Se não me contenho entre os
Espasmos horizontais do seu desejo
É que trago em meu peito
Mariposas de asas
Devastadas.
Pois de asas devastadas são as minhas mariposas.
Inquietas e distantes, infinitas e sedentas
Ansiosas por uma implosão distante
E pela redenção da entrega absoluta.
Esses olhos calcinados, essa contabilidade dos abraços
Essa irregularidade que se consuma
Em eco.
Esse eco que reverbera em grito
Esse grito que quer clamar
Amor.

sábado, junho 27, 2009

Você poderia me levar para longe,
E poderia se nutrir com silêncio
Poderiamos acalentar um cacto confuso e
Uma multdão de formigas.
A lua devoraria nossos corações e o
Sereno cairia sobre o livro aberto
Em nossa cama.
Seriamos dois e não teriamos
A ninguém,
Seriamos multidão
E um grito surdo no vazio
Não rasgariamos nossas consciências
Nem invocariamos o asfalto
Para defender a nossa causa.
O sorriso do tempo passaria
com a colheita geral dos encontros
mas adormecemos com nossos fantasmas no leito
Lábios opacos de encanto
mãos dadas com uma velha profecia.

quarta-feira, junho 24, 2009

Quero que me queiras, que me queiras com manhãs
E caminhadas
Com o júbilo silvestre no sorriso do capim,
Com o crescer silencioso das pedras sobre milhões de
Estrelas.
Eu tenho asas e você nunca cantou para meu sono,
Nunca levantou um só protesto contra o anoitecer
Que se aproximava.
E toda vez que meu sono de menino desertado
Rasgava teias,
Desfolhava girassóis
Você consumava a negociação
Com o vendedor do nada.
Quero que me queiras, mas também que não esqueças
Do quintal
Que não percas a contabilidade e
As perpendiculares coisas simples
Que nos afligem a cada amanhecer.
Que a cada amanhecer sempre nos afligem.
A caminho do trabalho eu estou tranqüilo:
Tenho um alaúde e um chapéu de zinco
E sou o filho preferido
Do brilho que existe
Em cada lembrança de desejo
Deserdado.

domingo, junho 21, 2009

Projeto de a(r)mar

Amaria melhor e mais intensamente, sem as cores de meu verbo
Sem o galopar dos meus presságios.
Seria eu então um menininho privado de algarismos, garrafa de vinagre e lembrança
Das janelas.
Beijo perene ancorado na visão de novas primaveras congeladas,
Eu amaria melhor e mais intensamente sem minhas visões de mortos
Sem meus serões noturnos sem a voz dos campos desolados
Sem meu temor,
Sem minha dor,
Sem o coração de pássaro molhado acolhido pela relva em construção.

Eu amaria melhor e mais intensamente se brotassem margaridas
em minhas sombraçelhas,
se eu capturasse a essência do sereno
o dom da paciência e do florescimento.
EU amaria melhor se eu fosse alguma coisa,
se tivesse gravidade
Se me deslocasse para uma outra ansiedade.

quinta-feira, junho 18, 2009

Nosso amor é uma pequena ponta mesquinha
de horror.
Nossos afetos são os arames que cercam a planice
irregular do futuro.
Precisamos fazer algo a respeito das nuvens,
a urgência de uma ação corretiva grita nas alamedas
da aurora,
e os manifestos da rotina estão inscritos em nossos pulmões
abstratos.
Mas não existem coisas abstratas!
Não existem nuvens!
Não existem manifestos e a rotina não se inscreve em nada,
apenas no temor diário que nos mantém prisioneiros.
Pois não sabemos olhar nos olhos do incerto,
e devastamos nossas asas com fuligem, suspeita e controle.
Para no final de tudo seguirmos vazios,
nos agarrando a fumaça
com a marca das garras tatuada no peito
de outros tantos limites .

domingo, junho 07, 2009

sábado a noite.

Sentado em um bar qualquer
observando um velho ricaço
sugar o lábio neurótico de sua
esposa.
Bebendo para investir novamente
e para acelerara inevitável
derrota.
Eu conheço a rota de fuga,
sei consumar o processo,
mas apenas me sento em um bar.
Para observar moçinhos preservados da treva
com suas garotinhas sem cancros
e eu bebendo apenas por despeito e inveja,
para simplificar o julgamento do mundo.
Eu palmilhei a estrada,
sei onde está a saída,mas apenas me sento
em
um
bar.

domingo, maio 31, 2009

Sobre a ansiedade.

Como pode um homem pressionado pela pobreza material sentir que toda sua vida é uma mentira? Não é a sobrevivência a primeira exigência que a vida impõe? Ou algum distúrbio mental poderia ser responsável pelo delírio burguês ao qual damos o nome de “busca da felicidade” na alma de um condenado? Essas perguntas afligiam a esse mesmo condenado que extraia o seu sustento de uma vida falsa que se dividia entre o trabalho angustiante e uma vida afetiva insossa. Talvez essa fosse a razão da sua ansiedade. Ou talvez a causa de tal insatisfação fosse muito mais profunda e estivesse localizada nas esquinas do seu passado, nas marcas cegas e nos hematomas que a realidade lhe tinha tatuado na carne pouca. Havia muitas vozes a falar em seu nome, e algumas delas até alegavam que ele era feliz, outras afirmavam, todavia, que ele era feliz apenas na medida do possível e finalmente algumas que afirmavam que a felicidade não existia, ou que era inatingível. E entre esses pensamentos que se revezavam esse homem seguia falando aos seus amigos, amantes e parentes sobre coisas das quais não tinha certeza alguma. Impedia-lhe talvez o medo a verbalização de sua incerteza. A ansiedade das pessoas em verem suas próprias escolhas confirmadas por ele pressionava-o e exigiam dele a mentira como único recurso de convivência social. O hábito, o medo e as próprias dúvidas desse homem colaboravam para levá-lo a repetir os seus dias em uma constância admirável, embora nele mesmo tudo fosse um jogo permanente de forças prontas para ceder as circunstâncias. Esse homem duvidava que qualquer vida humana possuísse um ponto final em determinada escolha. As mudanças que ele constatava em si mesmo faziam-lhe cético em relação a estabilidade das emoções e crenças alheias. Todavia, ele não duvidava absolutamente que houvesse pessoas estáveis para as quais o que é bom, belo e desejável não muda nunca. Enfim, ele duvidava da própria duvida e assim acabavam acreditando que os outros estavam certos e que sua insatisfação era apenas algo passageiro, que sua vida ia melhorar, que iria ter um emprego melhor, uma casa própria, netos etc.
De todas as coisas o que mais deixava esse homem triste é que com a sua incerteza ele fazia sofrer a quem ele tinha em alta conta, pessoas em quem ele depositava um grau relativamente estável de afeto, e que sofriam com a simples menção da palavra “dúvida”. Essas pessoas precisam da “certeza” do seu afeto, da sua eterna fidelidade, da impossibilidade de mudanças e da clareza sobre sua verdadeira natureza. Então ele acrescentava ao seu fardo o cuidado polido de ocultar os seus pressentimentos, afinal além de não ter certeza destes, eles poderiam ferir a quem não merecia. A mentira, como já dito, era algo inevitavel para esse homem, fosse ela acerca de seus atos, fosse ela acerca dos seus pensamentos e sentimentos. Era ele um joguete de circunstâncias e uma vitima de seus próprios atos. Cada um destes atos e escolhas cristalizava-se ao seu redor como uma pele de diamante e cada um que o observava acreditava que essa pele era ele mesmo e exigia-lhe, implicita ou explicitamente a confirmação deste preconceito. Se um dia ele mostrou-se interessado em barcos e por esse interesse conheceu pessoas, estas o encontravam na rua e colocavam-se a falar interminavelmente em barcos, e ele já não se interessava de forma alguma neste assunto. Essa incomoda situação repetia-se em muitas áreas da sua existência.
Viu esse homem lugares lindos onde poderia ter vivido outras vidas mais belas, ou sofrido de dores maiores. Conheceu esse homem mulheres que poderiam ter-lhe dado uma vida mais plena, filhos fortes e autênticos ou simplesmente loucura e morte. Sabia de profissões promissoras que poderiam lhe ter garantido uma carreira brilhante, inscrevendo seu nome na história ou somente garantido-lhe uma vida monótona e a pobreza mendicante.
Assim a vida desse homem foi escorrendo, não sem mudanças, claro, mas sem a realização da maioria das possibilidades de sua alma que se revolviam em seu amâgo como filhos. Esse homem não viveu amores que em sua mente poderia ter vivido se ele mesmo vivesse em um mundo movido por forças outras, nem se aventurou aos horizontes que ora sorriam com suas promessas e ora ameaçavam com suas ameaças. Ele envelheceu sem ver diminuídas tantas inquietações. Silenciosamente progredia nele a consciência de que agora só lhe restava à pergunta: E se?

quinta-feira, maio 28, 2009

Ele sentou-se na cadeira que estava a sua espera de fente para multidão que aguardava ansiosa. Muitos boatos haviam corrido a seu respeito, ainda que tão fora de moda estivessem pessoas como ele. As suas viagens se haviam tornado rarissimas uma vez que a idade adiantada o afligia, bem como as inumeras doenças que ela trazia. Não ostentava uma atitude vaidosa nem complacente. Seu olhar antes

terça-feira, maio 26, 2009

Anamnése

Facas pontiagudas e a pressão adjacente de paredes cada vez mais próximas. Meu pensamento. Permanentemente atemorizado pela loucura dos meus chefes ou pela inanição de meu passado, e eu já não sei. Talvez a chama do desejo acossando a posse e a falta de uma couraça para insensibilizar contra a reverberação do mundo. Ação e reação. Todos estão na chuva, mas é possível que eu tenha saído sem a minha capa. O poder é a crueldade, o êxito é a crueldade, o planejamento, a meta, o anêlo recoberto da dourada poeira da auto-comtemplação estetico-moral é redundantemente…crueldade. Vejo a neurose em seus olhos, a fome em cada gesto, o poder que precisa ser exercitado e testado a cada novo evento decisório onde se consumam as definidas posições. A lingua exercita-se em direção ao dente estragado procurando pela sensação agradavel de saber-se sensitivo através do atrito e da fricção. E o poder é fricção. O poder é a densidade conferida pelo contato com aquele que se vira como pode. “Tens respeito pelo fardo!” Disse um dia Napoleão a uma bela cortesã que maltratara um estivador. mas o peso que o fardo traz, e sensação de vida que provêm do esforço, não se compara a sensação quente que emana do poder. É preciso desaperecer diante desse olho infame. É preciso escorrer para fora das contradições. O esmagamento precisa cessar de maneira radical desfazendi a mania visual, a submissão alheia, o êxito de nossas virtudes e a perda do momento inefável em que poderiamos estar LÁ.
O poder.
O poder.
O poder.

sábado, maio 16, 2009

Escuta Zé Ninguém!

Exiges que a vida te conceda a felicidade, mas a segurança é-te mais importante, ainda que custe a dignidade ou a vida. Como nunca aprendeste a criar felicidade, a gozá-la e a protegê-la, não conheces a coragem do indivíduo reto. Queres saber o que és, Zé Ninguém? Ouve os anúncios publicitários dos teus laxantes, das tuas pastas de dentes e desodorizantes. Mas não ouves a música da propaganda. Não distingues a abissal estupidez e o mau gosto de coisas que se destinam a ficar-te no ouvido. Já alguma vez prestaste atenção às piadas que o intelectualóide larga a teu respeito nas revistas? Piadas sobre ti e sobre ele, piadas de um mundo reles e desgraçado. Escuta a tua publicidade aos laxantes e saberás o que és.
Escuta, Zé Ninguém: a miséria da existência humana é visível à luz de cada um destes pequenos horrores. Cada ato mesquinho teu faz retroceder de mil passos qualquer esperança que possa restar quanto ao teu futuro. E sentes isto tão penosamente que, para não o saberes, inventas graças de mau gosto e chamas-lhes “humor popular”. Ouves a piada que te humilha e ris-te com os outros. Ris-te do Zé Ninguém, sem entender que é de ti que te ris, tal como milhões de outros Zés Ninguéns. Já alguma vez perguntaste a ti próprio por que razão dá espaço ao longo dos séculos à tal brincadeira maliciosa? Já alguma vez te chocou até que ponto “as pessoas” são ridículas nos filmes?
Sentes-te infeliz e medíocre, repulsivo, impotente, sem vida, vazio. Não tens mulher e, se a tens, vais com ela para a cama só para provar que és “homem”. Nem sabes o que é o amor. Tens prisão de ventre e tomas laxantes. Cheiras mal e a tua pele é pegajosa, desagradável. Não.sabes envolver o teu filho nos braços, de modo que o tratas como um cachorro em quem se pode bater à vontade. A tua vida vai andando sob o signo da impotência, no que pensas, no teu trabalho. A tua mulher abandona-te porque és incapaz de lhe dar amor. Sofres de fobias, nervosismo, palpitações. O teu pensamento dispersa-se em ruminações sexuais. Falam-te de economia sexual. Algo que te entende e poderia ajudar-te. Que te permitiria viveres à noite a tua sexualidade e que te deixaria livre durante o dia para pensar e trabalhar. Que te faria ter nos braços uma mulher sorridente em vez de desesperada, ver os teus filhos sãos em vez de pálidos, amorosos em vez de cruéis. Mas quando ouves falar de economia sexual dizes: “O sexo não é tudo. Há outras coisas importantes na vida”. És assim, Zé Ninguém.
( Trecho do livro Escuta Zé Ninguém - Wilhelm Reich )

sexta-feira, maio 15, 2009

Contra os comediantes.

Rir ou chorar diante de fatos demonstra a incapacidade de lidar com eles . A piada assim como o terror brotam da extrema impotência. Por isso o sexo é protagonista tanto dos mais terríveis crimes como das melhores piadas.
Juan Leon

Aos incautos.

As palavra que escrevo nesse blog querem ser lidas. As musicas que eu coloco nesse blog querem ser ouvidas. Os lamentos que escoam desse blog, que correm pelas ruas, que supuram nas esquinas querem despertar a piedade. O tesão frustrado que move os péssimos versos desse blog querem seu harém. Esse blog é uma lamuria, uma fanfarronada, um gesto vergonhoso que traria risos a boca desdentada de um mendigo. Mas esse blog não implora, não pede comentário e vai continuar se abarrotando das inutilidades que são destiladas pelo meu pensamento. Muito úteis para mim, elas são a esquiva e o golpe certo, a dança de Muhamed Ali e o soco de uma polegada do B. Lee. Acima de tudo ó incautos...Esse blog não barganha comentários.

segunda-feira, maio 11, 2009

Eu estou aqui


Nunca esperei nada de muito fantástico da vida. O que sou foi forjado na luta agoniada contra três temores: a fome, o abandono e a vergonha. A vontade intensifica-se quando se reúnem em uma mesma pessoa um orgulho imenso e um terror inominável. Sem o orgulho para reagir o horror geralmente esmaga e o que resta é um frangalho mal ajustado e bem conformado. Sem o horror para acossar a decisão, para obrigar os sentidos a lidar com a emergência a vida corre letargia e perde-se muito tempo e energia com mesquinharias. Preocupação com a publicação antes da produção da obra, com a popularidade antes da própria vida. O gozo pleno é uma função da urgência. Só os urgentes são criveis e reais. A urgência não permite planos, não pode perder tempo, não cede espaço para a intrusão do alheio. O pressentimento da extinção talvez seja aparentado com essa posição, mas não quero adentrar esse terreno. Para mim ele inspira vida. Vida rica e produtiva, vida de multiplicação e sorte, vida de atenção e pertinência. A urgência move o Leão, pois sua presa é rara e cada momento é decisivo. Nem só o talento, ao contrário do que pensam, determina sua existência, mais principalmente o acaso. O acaso é o Deus do forte.
Ela veio para mim desinibida. Seu lábio vermelho tremia na expectativa de prazer que ela também já não sentia há muito tempo. os dias não tinham sido generosos com ela e a tinham deixado marcada pela tristeza, tatuada de olheiras e com o corpo tenso por medo de sofrer. Mas eu sabia de sua historia mesmo sem jamais tê-la visto antes. Abracei seu corpo magro com força e a puxei de encontro a mim, ela sentiu meu desejo pulsar,eu senti sua alma vibrar, ela sabia que eu a queria. Arranquei a sua roupa com uma brandura cheia de fúria e lhe acariciei os cabelos- Seus olhos brilhavam- Ela disse-me sussurrando:
-Eu não sabia que podia ser assim...
-Geralmente não pode meu bem - Lhe respondi- Mas nós estamos perdidos , e pessoas como nós não tem nada a perder.

Deixei meus dedos correrem sem direcção pelo corpo dela quente até que nua ela entorpecida se entregasse. Sorvi sua essência quente. Provei do seu gosto salgado. Esperei que ela estivesse estremecendo em convulsões alucinadas, para saber como um homem de verdade faz, acostumada que estava aos imberbes rapazote da graduação. Contorceu-se enquanto caiam por terra todos os pudores e somente então a invadi com um gesto forte e firme. Até o fundo.
Ela gozou por todo corpo apresentando com uma evidência irrefutável a minha confirmação.
Eu quis levar adiante, apesar de não oferecer muitas opções de viabilidade social. Desempregado, com filhos e completamente envolvido em uma regularidade afetiva com outra pessoa que não pretendia abandonar. Saquei que algo tinha mudado quando o telefone dela ficou ocupado o dia inteiro e o meu não tocou de forma alguma. Tinha sido um lance incrivel, com nossos corpos sedentos chegando lá, baudelaire no pé do ouvido, beatles, blues e pink floyd com um vermelho por do sol... mas ela tinha razão,e eu sabia. O tempo todo elas sempre tem razão...Só o derrotado romantiza a derrota lhe emprestando ares de grandeza. Mas quem faz isso sabe que engana a si mesmo...eu sabia. Ela tinha caido fora...e as pontas de cigarro espalhadas pelo quarto,as garrafas de vinho, baíra e conhaque dançavam uma valsa insana ao redor de minha cabeça...Velho fudido. Maquiavel de suburbio, Sartre de favela, ultima palavra na bôca moribunda do futuro, e no fundo, mas no fundo, bem no fundo eu permanecia o brilho cristalino de uma inocência singular. Muitos meses depois desse incidente ainda me arrastava pelos bares imundos bebendo e trepando tudo que aparecesse pela frente...Havia perdido o pouco de brio e dignidade que possuia...Tudo cheirava a merda.... passei por ela outro dia e vi que estava bem. O cara ao lado dela era bem mais novo e mais sensato que eu e minha barba em contraste com a careca, minhas roupas amarrotadas cheirando a vômito, meu livro de neruda amassado em baixo do braço devem tê-la feito suspirar de alivio por ter caido fora a tempo...Sem saber do que eu poderia ter sido se ela tivesse ficado. Provavelmente nada, mas essa era um dúvida que ela deveria considerar e por não ter considerado ela ficou lá e eu estou aqui.

quinta-feira, maio 07, 2009

Deus e Jesus na terapia familiar. Já era hora!

Machado de Assis, O maior e talvez o único escritor brasileiro

"O Homem é uma errata pensante . Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes."

sábado, maio 02, 2009




Para variar.

Eu estava esperando a minha mulher chegar em frente a um tumultuado shoping center e resolvi entrar em um sebo para passar o tempo procurando alguma coisa de interessante ou de inesperado para alimentar-me de metafóras ou pontos de vista. Pilhas e pilhas de livros atestavam milhares de tentativas mal sucedidas de deixar um registro do percurso finito de outros. Um livrinho pequeno com uma gravura sinistra na capa me chamou a atenção, chamava-se "banquete dos vermes". Não conhecia aquele autor. O sujeito estava realmente de mal com a vida. Sempre conseguimos encontrar alguém mais radical que nós, e isso não deixa de ser engraçado, embora não sirva de conforto. "Os vermes tem mais sorte que nós, pois desconhecem o passado horrendo de sua sinistra refeição." Putz. Isso sim é tentar acabar com o brinquedo dos outros. Todavia não comprei o livro, já tenho espécimes exóticos em demasia em meu terrário de sombras. Minha mulher chegou e fomos as compras, procurei ser simpático e não reclamar muito das pessoas. É mais importante estar atento.

sexta-feira, maio 01, 2009

Dois lados.

OS vencedores tem músculos de bronze
Reluzindo ao sol poente
Com um Deus elevando-se sobre seus passos
Radiante brancura e zombante sorriso
Até a meta final.

Vencedores tem um nome a zelar,
Precisam de lindas mulheres para ostentar
Em vitrinas
ou de carros brilhantes para consumar
seu orgasmo.
Vencedores possuem, agarram, rasgam, batem o pé
Telefonam para o tio da policia,
Ou para o paizão empresário,
Estão nos sonhos de suas mães
Na contracapa da vida contada em salões
Míticos de devastadores boatos.
Vencedores vivem em um palco do filme que foi
Feito para eles.
Vencedores comparam-se, medem-se, maldizem a expressão menor
E só aceitam o sucesso.
Vencedores se não envelhecem cercados por mulheres gananciosas
Enfiam uma bala na cabeça como recurso final
De impotência.

Fracassados se olham com olhos de opera
Contam canções de lirismo quando desce a cortina
Amam como quem recebe uma esmola
e aceitam a migalha que lhes
Cai sobre os pés em confirmação ao pressagio.
Fracassados geralmente encontram na virtude um argumento
E na história uma desculpa.
Fracassados são incapazes de elaborar uma dança,
O NÃO está em seus lábios e seus olhares são a pretensão
Que se esquiva
Para os banheiros out-sideres onde difamam o anfitrião
Que lhes impôs um convite.
Fracassados são preguiçosos e impopulares,
Cultivam suas dores ou se escondem delas
Em bueiros de palavras confusas.
Fracassados chegam sempre ao final
Com as mãos cheias de fábulas
Fracassados geralmente acabam cedendo a alguma forma de
Igreja,
tombando como cepos dementes em poças de sangue ou
esvaindo-se em loucura e veneno enquanto consideram a nobreza.

segunda-feira, abril 27, 2009

É impossível achar palavras para descrever o que é necessário para aqueles que não conhecem o horror. O horror tem um rosto...e você deve ficar amigo do horror. Horror e terror moral devem ser seus amigos, do contrário são inimigos a temer.


Marlon Brando (Coronel Kurtz) Apocalipse Now

domingo, abril 26, 2009

Habeas Corpus para Juan Leon

Juan Leon tem um girassol que padece
e registra suas petições e reclames
sem obter resultados ou corpos.
Juan Leon está só
em um sentido que ultrapassa a física,
Juan Leon está vendado, atado, amputado,condenado,
com o único sonho restante dissolvendo-se
em um redemoinho insano de desmaios, desafeto e paradoxos.
Juan Leon estende a mão para a aurora
mas ela está com a mão ocupada
segurando um x-burguer
com o seio imenso escapando pela camiseta
indiana.
Juan Leon não está surpreso pois
Os arcanos previam,
Os Aurivedas previam,
Nostradamus previa,
O psicanalista obeso que estacionou o carro importado sobre seus pés previu,
Todas as merdas de passarinho que tombaram sobre seu rosto impotente
desde a primeira masturbação solitária previram
TERIA QUE SER DESSA FORMA.
Mas ele tentou reverter a jogada apostando mais alto
em uma rodada de cartas contra um Royal Straight Flush
enquanto toda a mesa entregava as pontas.
Juan Leon é um caso confuso,
um insucesso aplaudido,
que permanecerá contestando
o ruído das dobradiças
e a progressão geométrica da dor.

sábado, abril 25, 2009

Estudando o protestantismo!

Quando as imagens falam por si!

sábado, abril 18, 2009

Pais e FIlhos

Quando eu era um adolescente vagando pelas paisagens devastadas do subúrbio, gastava o meu tempo entre os esportes de rua, investidas mal-sucedidas a garotas e bravatas com alguns amigos na esquina. Eu era o rei do escárnio, da maledicência e da picardia; No mais era uma garoto muito mais inofensivo e tonto que os demais. Todavia, sempre exerci um papel bem marcante nas rodas de bate papo, dominó e baralho. As mães dos outros garotos tinham algeriza da minha pessoa. Consideravam-me, via de regra, má influência. Demasiado livre, demasiado solto e sem amarras, e o pior: sem uma mãezinha para me puxar as orelhas. Na época, creio que isso era bem doloroso. Não podia ir a casa desses meus colegas, precisa aguardar que saíssem para tratar dos planos para o próximo jogo de cartas, a próxima partida de volei e outros arranjos com os quais me ocupava para ocultar minha falta de meta ou propósito.
Hoje olhando retrospectivamente eu vejo o quanto a minha inveja era injustificada. A maioria dos meus amigos se dividiu entre três rotas de vida que são para mim igualmente feias e sem gosto como bocados velhos e frios de pão sem manteiga. Alguns deles ainda moram com suas famílias ou mães. Tornaram-se perpétuos apêndices da mentalidade gregária que a familia geralmente representa. Outros seguiram exatamente o caminho traçado pelos pais e perderam com isso a confiânça neles mesmos. Suas vidas são uma copia fajuta do que seus pais foram e, eu acho, ninguém convive bem com isso. Mas o pior caso para mim é o daqueles que passaram tanto tempo mentindo para os pais, fazendo-os acreditar que eram aquilo que eles queriam, que perderam completamente a capacidade de lidar com a vida de peito aberto, sem enlamear tudo que tocam, e sem a capacidade de encantar-se definitivamente com as coisas. É o que R.D Laing chama de vínculo duplo. Venera-se alguém e essa veneração implica negar alguns anseios e pulsões. Mas para negar nossos anseios sem nos negarmos a nós precisamos acreditar que o objeto de nossos anseios não é digno deles, pois são sujos, feios, maus, falsos, mentirosos e etc.
Assim venera-se o que não satisfaz e o que poderia dar satisfação se odeia.
É claro que tenho minhas patologias e desesperos (basta ler rapidamente esse blog para perceber) mas existe algo que para mim está para além da alegria ou da dor, é a criatividade e o heroismo pessoal. Naõ creio que essas vidas que listei tenham qualquer traço desses valores.

quinta-feira, abril 16, 2009

"Mulher mata marido, irmã e sobrinha."

"A delegada Rosane de Oliveira revelou os detalhes do crime que chocou a comunidade de Novo Hamburgo nesta quarta-feira. A empresária Roselani Radaeli D´Avila, 45 anos, matou o marido Flávio Machado D´Avila, por volta das 5h38 de terça-feira, para evitar ser internada em um clínica devido a um quadro de depressão."
Extraído do Jornal o Diário de Canoas 15/04/2009
Mais uma vez nosso conhecimento acerca do que convencionamos chamar de limites morais para a ação humana revelam-se insuficientes. Mais insuficientes ainda revelam-se também nossas pretensões de justificar esse sentido ético por recorrência ao que denominamos de "essência humana". Para tentar reconstruir e cimentar o abismo que abre-se sob os nossos pés ao refletir sobre essa tragica situação, os psicológos, sociológos, psiquiatras e criminalistas irão, certamente, falar bastante e talvez convençam as massas que tem sede dessa desculpas como o beduíno tem de Água. Todavia as conversas nas ruas ainda revelam que o emplastro dos especialistas por enquanto ainda não cicatrizou a ferida na consciência ética da multidão. Como explicar, sustentando nosso senso do que é um ser humano, a situação na qual sem um motivo minimamente consistente uma mulher mata fria e calculisticamente uma mãe que também era sua irmã, uma criança que também era sua sobrinha, e um homem que era seu marido. Com três cortes secos feitos a faca ela ceifou a vida daqueles que ela mais deveria amar e nós, que nos consideramos "normais", precisamos encontrar uma explicação, um motivo, algo que pudessemos imaginar que nos levaria a fazer a mesma coisa se estivéssemos em seu lugar.
Temo ter que dizer que não temos essa explicação. A grande quantidade de fatores que interferem sobre a ação e a deliberação, desde a necessidade material às necessidades psicológicas e simbólicas inviabilizam, penso eu, uma explicação no sentido lógico-metafisico como estamos acostumados. O amor é uma palavra que usamos para legitimar nossa dedicação a algumas pessoas pessoas mesmo a custa de prejuízos para nós; Bem poderia, por outro lado, ser considerado também uma loucura e um disparate causar uma dor ou abrir mão de um gozo por outro indivíduo. Mas somos assim, na maioria das vezes, e outras pessoas também o são e por isso nos sentimos legitimados nesse nosso comportamento, mas isso é apenas uma questão estatística.
O fato é que não sabemos se há ou não limites, regras e fatores determinantes para o comportamento dos indivíduos, nem como o trabalho, a história e o quotidiano destes interage com as suas escolhas e preferências. Mas vivemos em uma sociedade que precisa de seus mitos para conseguir coexistir. Um deles é o da "normalidade psíquica" o outro é o que que qualquer ser humano sadio só age com propósitos racionais". Ouvi dizer que depois de certo tempo na corporação ou no exercito alguns policiais e soldados passam a ter uma espécie de compulsão gratuita pela violência e até mesmo pelo desejo de matar. Mas se a sociedade precisa de soldados e policiais o que fazer? Bom, o melhor é acreditar que os indivíduos que praticam tais atos são doentes e casos a parte.
(...) Não importam as explicações, precisamos seguir vivendo.